terça-feira, 2 de agosto de 2011

Declaração de amor ao Rio e a Laranjeiras

Outras pessoas já fizeram, lindas. Eu mesma, quando saí do armário como carioca, já fiz também, num texto que se chama "Cidade Conquistada". Mas de repente, porque a tarde tá suave, porque da minha janela dá pra ver a pedra e o verde, porque o domingo foi regenerador e eu passei boa parte dele (aquela em que eu não tava cozinhando) na Praça São Salvador, onde chegavam ondas de amigos, vinham, ficavam, passavam, enquanto eu tomava Magnífica envelhecida da barraca do Luizinho (e pela primeira vez ouvi ele contando como começou a vender discos, quando na verdade vendia era bebida) e achava que a vida tem seus rasgos de maravilhoso, esse texto veio como uma confirmação. 


Tá vindo, né. Porque eu começo a escrever como alguém que é tragado por uma onda e nunca sabe bem onde vai parar: descubro no final, quando acaba. Normalmente, com um certo alívio e uma sensação de ter chegado a uma praia. Qual, nunca sei bem, e vou descobrindo à medida que revisito os textos como se não fosse eu mesma que os tivesse escrito. 
(Parece papo pra boi dormir de gente neoblogueira deslumbrada: não é não. Deslumbrada eu tô mesmo mas é com esse jeito semiautomático de escrever que eu nem sabia que me habitava. Ou tão pouco.)


Então. Eu, forasteira. Pra sempre forasteira, quase nascida na Argélia (se minha mãe não tivesse voltado), que vi a luz pela primeira vez no cinza de Sampa, que fui saída de lá antes que o sotaque se arraigasse (graças a Deus, e me perdoem os paulistas que me lêem: sou mais o meu, apesar de achar o deles engraçadinho), que fui saída (dessa vez pela polícia que bateu na minha casa à procura do meu pai quando eu não tinha oito ainda) pra Genebra - de onde sou bastante: afinal sei cantar cé qué l'ainò em patois, as músicas da Escalade e conheço a história da Confederação Helvética direitinho, com direito a participação de Rodolfo de Habsburgo e dos cantôes originais: Uri, Schwitz e Unterwald -, e que aportei numa dolorosa pré-adolescência nas Laranjas de onde tinha saído em 74, na General Glicério, por obra e graça dos Ceccon cuja função na (minha) vida é encontrar apês pros Lins. Normalmente na frente do deles. Como na XXXI décembre. E na General.


Mas divago, pra variar. Onda leva, onda traz pensamentos e sentimentos. E o grande aqui, que vira onda de gratidão, é pelas Laranjas que me acolheram, com suas praças, com seu verde, com seu ar de quase-bairro do interior. De quase-não Zona Sul. De onde saí por dez anos, já adulta, e pra onde voltei com mensagem aos amigos: "voltei pra casa". E acharam  que eu tava me separando, mas minha casa é mesmo o bairro das Laranjas, onde morei na Ben Gurion quando Ju nasceu, na Gago Coutinho antes, na Moura Brasil de saudosa memória (ah, o apê da Moura Brasil... once in a lifetime. Mas valeu), e agora na Mario Portela (que eu só parei de confundir com a Cardoso Jr quando vim morar nela). 


As Laranjas da pracinha do chorinho, da feirinha onde conheci a linda Tati dos bijoux que me enfeitam pra sempre. Onde o Luizinho também ancora sua barraca aos sábados, e o Afonso prepara caipirinha de tangerina com gengibre, sem açucar. Onde compro fantásticos CDs. Roupas, sapatos. Tudo com cara de feito pra mim. Porque, galera, entro e saio de chopins (nas raras vezes em que) sem nem olhar pras vitrines. Mas bota uma barraquinha na minha frente: tia Zèlia, tia Goia iriam ficar orgulhosas de mim. Viro Pimentel, olho tudo, negocio, consigo preços, descontos, pagamento facilitado e... levo. Porque foi feito pra mim, né. 


Do Maya, do café da manhã de sábado e domingo e dos encontros com o povo das Laranjas. Porque aí é que tá tudo, e assim explicava eu prá Mirela que tão bem se integrou (que ela já era daqui e não sabia): o lindo das Laranjas é a galera, que a gente vai encontrando, na feira, no chorinho, no Cardosão depois, e no domingo na São Salva, no outro chorinho. A gente se vê, se encontra, conversa um pouco, cidade de interior. 


E eu, a forasteira, a desgarrada das gentes, de repente descubro, com encanto e alegria, que me enraizei: me enraizei nas Laranjas, o lugar onde já morei mais tempo na vida, e onde me reencontro comigo no meio da minha galera. 


E ele, que é meio desgarrado também, traduz lindamente o que quero dizer nessa música que é meio mantra. Meio mantra disso tudo e de tudo um pouco. Viva. 




11 comentários:

  1. Re, postei Opinião ainda agora no FB. Sabe, me sinto assim com relação a Laranjas: Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião. Daqui do morro eu não saio não!!!!!!!!!!
    Bora, jantar amanhã lá em casa?

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    1. não sei por que não respondi na época, mas devo ter ido... :)

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  2. Que lindo texto. É mesmo impressionante o poder que o lugar tem sobre nós. Não somos só produtos do nosso tempo, durante muito tempo pensei que sim, mas acho que é o espaço e a paisagem cultural que ele traz o que melhor contextualiza nossa história pessoal.


    Minha filha nasceu em Laranjeiras, na Perinatal, há quase 12 anos. Sempre que estamos no Rio eu repito que ela é uma menina Laranjeiras e ela fica toda orgulhosa, de algum jeito guardo aquele pedacinho do Rio dentro dela...

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    1. eu morava, quando pequena, no prédio grandão perto da Perinatal (que ainda não existia). Meu tio dizia que meu endereço era "Bairro das Laranjeiras, Rua das Laranjeiras, Solar das Laranjeiras, trepada numa laranjeira chupando laranja"!

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  3. Faço minhas suas palavras... É bem como me sinto neste Laranjal, uma aldeia de gente bacana, informal, interessante enfim! Me deu uma vontade de provar a caipirinha de Tangerina com Gengibre! Vou lá no Luizinho depois do "expediente"!!!
    E o Maya, claro, agradece! Bjs

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    1. Provou? É fantástica essa. :) (não tinha visto os comentários desse texto, não sei por que.... respondendo três anos depois!)

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    2. E, claro, a gente agradece ao Maya. Deu outra cara praquele cantinho. :)

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  4. Oi, Renata, como você sabe sou Laranjeiras desde que conheci o Cadoca há 14 anos. Por quatro anos, me dividi entre Copacabana, bem pertinho da praia e do Bip Bip, e esta vida bucólica de Laranjeiras. Minha casa de campo prevaleceu e estou eu aqui curtindo há 10 anos esse bairro. Juro que amo Laranjeiras e não quero sair daqui, a minha Santa Teresa de baixo. No mais, a gente continua se encontrando nas pracinhas. bjs

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    1. isso, Lu, "Santa Teresa De Baixo" é perfeito. E tem um quê de do-lado-do-túnel, de Zona Norte da Zona Sul que me agrada tanto também. Eu, por mim, fico.

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  5. Eu me encontrei na estrada. Mas adoro textos assim porque me dão uma saudade de cada lugar que, se não criei raízes, deixei sementes e um pedaço de mim; além de histórias que poderiam ter sido. Da minha eterna São José que amo (quase) odiar de tanto que reclamo. Do Vale que reclamo como o meu Shire sempre saudoso e do litoral norte de SP que para mim não tem igual. De Hamburgo onde fui e muito mais poderia ter sido. De Sampa, onde nasceu outra relação de amor e ódio (mas penso que estas geram as melhores histórias). E já com saudades daqui desta ilha do Norte mas também já imaginando a vida na francofonia.
    Gosto de textos assim porque sei que uma hora será inevitável assentar-me em algum lugar - talvez de volta ao Vale; talvez no Rio; talvez fique por Toulouse mesmo: prefiro apenas devanear; coisa que adoro - e espero ter a felicidade de sentir esse acolhimento todo que você relata.

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    1. Eu também sou de estrada, Daniel. Já escrevi "minha casa é indo". Demorei pra sentir e entender isso aí. A vida foi me trazendo de volta pra Laranjeiras, por ondas. E hoje tenho vontade de ficar. Nunca imaginei. (e, claro: ainda posso mudar! :) )

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