terça-feira, 27 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 6

Até agora tava fazendo direitinho, cumprindo o pedido. Mas hoje é "um livro de seu autor favorito": aí, né, fica difícil. Fica difícil mesmo. Não dá pra escolher um autor favorito, e não vou. Porque ia ser uma mentira grande demais pra alguém que mergulhou no caldeirão dos livros tão pequenininha, e de lá saiu transformada pra sempre. E que nunca perdeu o encantamento - como vejo acontecer com alguns "adultos" - pelas histórias inventadas, contadas, desfiadas, apresentadas. Foi história, é comigo mesmo. Pode ir sentando, pode ir dizendo: encontrará um ouvido pronto, um olhar atento, e se, a história cair no agrado, pode me perguntar daqui a cinco, dez, quinze anos: vou lá no arquivo onde ficou guardada, dou uma espanada nela e... entrego de volta. Talvez meio parafraseada, vai; mas você vai reconhecer.

E, enquanto escrevo, vou tomando a decisão. De um favorito, que não é "o", mas é "um". Três, dois, um... partiu.
"Olhai os Lírios do Campo". Érico Veríssimo. Eu com onze anos. E o local era Skyros, uma ilha grega no arquipélago das Sporades
(escrevo isso e fico pensando que quem me lê vai ficar com imagens de luxo e riqueza. E não, galera, não. A gente morava na Europa, e a Grécia, nesse esquema de ir de carro, ferry, ilha menos famosa e ficar em casa de gente, era sinônimo de férias de verão baratas. Daqui não dá pra ver, mas era.).
Então. Skyros, eu com onze e já no início da adolescência. Com todas as dores. Com toda a angústia. Aí vem minha mãe, que às vezes não tem senso de proporções, e acha que já é apropriado me dar esse. 

Caraca. Viajo e sinto de novo. Susto, translumbramento, espanto, encanto. Tudo. Tudo isso na história de Eugênio e Olívia contada em dois tempos: o tempo-presente em que Eugênio no carro vai ao encontro da amante que está a morrer de parto; e o tempo-passado da memória de Eugênio, da criança Genoca no colégio interno, do pai do qual ele tinha vergonha, do furo nas calças... do irmão com quem brigava. A faculdade de medicina, a vontade de vencer na vida. E Olívia, o amor da vida. Deixado de lado pela grana do pai de Eunice. 

Me lembro bem de perguntar a minha mãe - lendo - "quem é Freud?", e da gargalhada que ela deu: "É Fróide", e da vergonha confusa que eu senti, como tantas vezes, por não saber.

Amante, Freud, ganância, escolhas, fidelidade,  morte no parto. Bíblia. Com onze anos. Era meio muito. E tudo isso deitada numa toalha nos seixos das praias de Skyros, entre jogos de truco com Zuza, Clarissa e Marcelo, comendo batatas com queijo ralado no "boteco da nossa praia", além do farnel diário que a gente levava: cream-crackers, queijo, melão, melancia... 

Durante muito tempo eu pensei (e não contei a ninguém) que, se tivesse uma filha, seu nome seria Anamaria. Assim junto, como era o nome da filha de Eugênio e Olívia. A filha que ele criou sozinho, na parte do livro em que se redime de todas as escolhas anteriores. Outro dia mesmo comentava, com a Suzana que é gaúcha, da importância do Veríssimo e desse livro na minha vida.

Porque começou aí. Mas não parou: e o próximo, quando voltei das férias, foi o único outro Veríssimo que tinha na estante da minha casa da Rue Saint-Laurent - as memórias de Érico Veríssimo, "Solo de Clarineta". 

E de novo. Nova viagem pela infância. Conheci a farmácia do pai do autor, sua família, os tios que inspiraram tantos personagens. Conheci os personagens através da voz de Veríssimo contando como é que os construiu. Descobri que "Olhai os Lírios do Campo" tinha começado com uma visita ao hospital, com um homem desesperado saindo de um quarto e a informação de que ele acabara de perder a mulher no parto. Depois conheci Mafalda, o percurso do diplomata, os filhos Clarissa (solar, alegre, animada) e Luis Fernando (introvertido,magro, músico). Quando, na volta ao Rio, fui apresentada ao LFV, tive dificuldade de reconciliar o cartunista das Cobras com o  menino magrinho que tocava sax. (E, dando uma gugleada pra ter certeza que era sax mesmo, vejo - ontem foi aniversário dele. Deve ser por isso.).

Só bem depois é que fui conhecer "ao vivo" - sem ser pelo relato de Solo de Clarineta - os personagens d' O Tempo e O Vento. O capitão Rodrigo Cambará, Bibiana e tantos outros. Desses sou menos amiga. Conheci mais tarde. Certa cerimônia. Não é que não gostei, vejam bem: mas não estão entranhados, não fazem parte de mim como fazem Olhai os Lírios do Campo e Solo de Clarineta. Inclusive pela parte filosófica que é o fio puxado pela citação bíblica. Nessa época eu fazia catecismo, conhecia as falas. E essa me toca até hoje, pela fé e pela entrega que pede. A fé que Eugênio não teve quando abandonou Olívia e a trocou pela ilusória segurança do casamento com Eunice.

Gosto do salto no escuro. A rede tá lá, a gente apenas não a vê. Há que acreditar. E se jogar.



P.S. Suzana me alerta que Olívia não morreu de parto. Vou checar, e ela tem razão: ela morreu depois, e talvez de parto tenha sido a moça que o Érico Veríssimo viu no hospital. Ou nenhuma das duas, e eu tenha inventado essa parte. Mas o relato fica como botei, porque, como diz o Ondjaki citando Chicó: "não sei, só sei que foi assim".

domingo, 25 de setembro de 2011

O peso que o tempo tem e o que a gente é de verdade

E eu nem ia escrever mais nada hoje, mas acabei entrando numa conversa, li esse post aqui da Luciana, que ecoava tanto o que penso sobre este assunto, lembrei que meu único texto na Constelar fala disso, e voltei aqui pra comentar. Sobre o tempo. O tempo e as mulheres. A valorização ou desvalorização das mulheres. E esse é assim mesmo: específico sobre mulheres. Porque o "valor social" das mulheres tá intrinsecamente ligado à forma física e à aparência. 

Mesmo que, ao fim e ao cabo, os homens gostem de ter alguém com quem rir e com quem conversar. Eles gostam, mas não sabem disso. Porque a cultura, esse monstro de mil patas e nenhuma cara que flui e engole as individualidades à sua volta, a nossa cultura machista, ensina aos homens que seu valor é dado (nesta ordem): a) pelo carro que têm, que como todos sabem é uma proxy do... bom. Vocês me entendem. Basta ver uma tarde de anúncios pra ver que o que os caras tão anunciando não é carro: é outro tipo de potência; b) pela mulher que conseguem. 

E "que conseguem" não tá ligado, como o marciano desavisado poderia supor, à sua capacidade de conquistar e manter a seu lado alguém divertido, interessante, vivo, curioso. Não, nananinanão. Tá ligado, não é, à capacidade de conquistar alguém de pele lisa, cabelos brilhantes, sorriso esfuziante, cintura de pilão, porte de felina. Gata. Gostosa. Princesa da ervilha. Elegante. Um márquetchin pro cara que a usa como adorno no braço direito, que a exibe como um troféu de caça. 

O cara? Baixinho, careca, barrigudo, chato. Não importa. Ninguém diz nada. Mas ah, vai uma mulher com rugas, com tamanho, com peso, com história escrita no corpo namorar um sujeito mais novo... e bonito: aí a reprovação é sideral. Não pode: tá contra a ordem das coisas. Tá errado. É feio. É deselegante. "O que é que ele viu nela?" , a pergunta-clichê que todos se fazem. Todos no seu sentido original, ou seja, englobando os gêneros reconhecidos e a reconhecer.


Tudo isso pra contextualizar. Porque eu não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte - que eu choro à beça, pra caralho ou mais - e... como diria o Neruda, de saudosa memória, "confesso que vivi". E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho. Tortuoso, difícil, uma "aprendizagem pela pedra" (salve, João Cabral). Alegre também, divertido, risonho, cheio de amigos, de amores. Um caminho percorrido. E nem vou citar o Antonio Machado de novo, porque já tá lá no texto da Constelar.

E, porque falei em Constelar, lembro que tenho lua no ascendente, que sou "guardiã da memória". Talvez por isso me importe tanto. Talvez por isso sinta tanto. Talvez por isso deteste tanto esse mundo em que as mulheres têm que pedir desculpas por serem, depois dos trinta. Por serem. Por estarem ali e quererem viver "à part entière". Sem descontos. Sem ser na xepa. Querem tudo: um amor bacana, companheiros de copo e de cruz, um espaço próprio, o lugar de dizer o que acham. Sem que passem a mão na cabeça, sem que olhem piedosamente e, também, sem que se espantem: "nossa, como você parece mais jovem!" . Pareço não. Sou assim porque cheguei até aqui. Em todos esses anos. E vocês que vão dormir com isso.



30 livros em um mês - dia 5

E o de hoje, que eu demorei à beça pra definir, é "um livro que lhe faz sorrir".
Sorrio. :)
E o livro, que já foi, voltou, foi de novo e agora é, vai ser "84, Charing Cross Road". Que em português foi editado depois do filme - só isso justifica o ridículo título "Nunca te vi, sempre te amei". 
(Fabinho, essa pauta, depois da dos esmaltes, também é boa - quem redige os títulos de filmes em português, e sobretudo: quais são os critérios? Pauta de Piaui...).
Mas o livro: eu li depois do filme. No filme, Anne Bancroft e - pela primeira vez - Anthony Hopkins. Me apaixonei perdidamente pelas rugas em torno dos olhos azuis, e pelos subtons. E, apesar do cinema americano tê-lo maltratado tanto, não consigo não seguir apaixonada. Marcas na alma que se vêem nos olhos. 
Adoro livros epistolares: meu lado voyeur (mas quem não...?). Adoro cartas, escrever cartas, receber cartas. Uma prática em desuso, infelizmente. Se o computador tem a vantagem da instantaneidade, não dá pra não sentir saudade daqueles momentos de envelope fechado - de reconhecer a letra, de sentir o volume. Saber que a outra pessoa pegou naquele papel, ver as hesitações, o aproveitamento do espaço restrito, os desenhinhos às vezes. 
Cartas e livros. Por suposto. Como não me encantar com essa história real de gente que escreve cartas e compartilha a paixão pelos livros? Essa história delicada e duradoura, de amizade e solidariedade, que atravessa a guerra que um viveu e a outra não, que afeta a livraria Marks and Co. inteira, onde Helen Hanff - uma ariana, me diz São Google - se tornou pouco a pouco uma amiga de todos? E tudo a partir de um contato que tinha tudo para ser meramente funcional, meramente comercial...
O livro é composto das cartas. Cartas reais. O que dá um gostinho a mais, claro. Saber que aquelas pessoas não saíram da imaginação de nenhum poeta: a poesia tá no mundo pra quem tem olhos de ver. Uma delícia ver os pedidos tão pessoais de Helen, suas reclamações com eventuais edições insatisfatórias, as explicações e respostas do livreiro Frank Doel - primeiro sucintas e formais, depois mais e mais pessoais, sem nunca, no entanto, ultrapassar a invisível barreira do que pode ser dito em público. Acompanhar o envio dos pacotes durante a escassez da guerra, os agradecimentos do pessoal da livraria e da esposa de Frank - que confessou ter ciúmes dessa história, mas o que fazer diante de uma história tão bonita e verdadeira, e que, além do mais, não cruzava nenhuma das fronteiras que lhe teriam permitido esbravejar e se dizer traída? 
O livro contém, além das cartas que se encerram com a brusca comunicação do falecimento de Frank, o relato de Helen Hanff da sua visita a Londres, de seu encontro com a esposa e as filhas do livreiro. Como um p.s. à história. 
Uma delícia de livro. Que, só de lembrar, me faz sorrir.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 4

E hoje é "o primeiro livro que lhe fez chorar". Hoje o Rio tá um esplendor, um dia azul e luminoso, da janela vejo o Cristo e revejo um dia provavelmente cinza da minha infância, eu jogada na cama dos meus pais no 4 da Rue Saint-Laurent, soluçando até não mais poder.

O livro? A versão que li se chamava "Mon bel oranger". Peguei na biblioteca da escola.
Mas o título original era "Meu pé de laranja lima" - José Mauro de Vasconcelos. Eu tinha acabado o livro, e acaba triste. Acho que foi o primeiro livro que li que acaba triste.


(pausa para dizer que aconteceu a mesma coisa com "Le Petit Prince" - que talvez seja o primeiro primeiro -, e boto o nome em francês porque não reconheço a tradução de D. Marcos Barbosa como válida. Sinto. Apesar dos prêmios. Não mantêm o registro semântico coloquial - tradução ruim.)

Voltando... não lembro do livro: lembro da atmosfera. Lembro do pé de laranja lima, que o menino se chamava Zezé (acho), que a irmã se chamava Gogóia (tenho certeza), que ele gostava de Tom Mix - que eu conhecia do Monteiro Lobato... que ele tinha uma vida não muito boa,  e que o pé de laranja lima era onde ele sonhava e Tom Mix lhe fazia companhia nos sonhos. Nisso eu me reconhecia: minha vida era "boa" (o que quer que isso queira dizer), mas eu sofria com dores de crescimento e de estranhamento, e me refugiava no mundo dos sonhos como se não houvesse amanhã. Ou como se houvesse.

E por que tanto choro? Não tenho idéia. Não lembro como o livro acaba - e isso é pouco característico da minha elefântica memória. Lembro, só, da crise de choro fenomenal, que se repetiu quando li a continuação ("Rosinha, minha canoa", que também li em francês mas não lembro o nome). Eu sempre gostei de chorar. Gosto até hoje: descansa, acalma, ajuda a equilibrar. Tenho pena de quem não chora (ao contrário do Gil em Chororô). Quem não chora fica seco, fica árido, tem uma dor que dói mais, parece. A gente é fraca e cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Mas depois que acaba a gente volta, surfando no mar de lágrimas (Alice disse). Volta pra cima. Levanta, sacode a poeira. Não adianta negar. Todos viram. Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. 
E acaba assim: choraí, galera. Depois melhora. 






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 3

E hoje é "o livro favorito da sua infância". Que, evidentemente, vou transformar em "um livro"... porque "o" não tem. Minha infância poderia se chamar "afogando em livros" (inspiração do Peter Greenaway, "afogando em números" - um filme que eu adoro, contraditoria e inesperadamente). Desde os cinco, afogada em livros. Quando eu chegava no Recife, nas férias, meu tio Paulo me botava pra ler. Tenho essa lembrança: eu lendo na frente de convidados dele. E não entendendo: porque eu, se todos os filhos dele já liam? Depois é que fui entender - era a idade. Mas na hora, não. Lia sem problemas. Até porque era tímida demais pra recusar.


E, vocês notaram, tô adiando o momento de dizer qual o livro.. porque até aqui ainda não decidi.


Poderia ser Pollyana - o primeiro que li sem imagens, e que deixou marcas fundas. Poderia ser outro Lobato, claro: O Minotauro, O Sítio do Picapau Amarelo, Reinações de Narizinho. Porque eles eram minha família adotada, qualquer um serviria. Eram meus amigos de infância, tão reais quanto os outros.


Mas não vou cair nessa facilidade. Vou falar de um cuja história é que eu tinha onze anos e a abertura - Abertura - já se anunciava: aí o Claudius, a Jo e meus pais começaram a se preocupar com o fato de que a gente ia prá escola no Brasil, daqui a pouco. E precisava ler mais em português. Então um dos que li nesse período foi "As Pupilas do Senhor Reitor". Português de Portugal....tantas palavras: raparigas, Desfolhada... escalda-pés... reitor, mesmo. 


Guida e Clara, as irmãs. Uma sombria, uma luminosa. Anos e anos depois, quando fui escrever sobre "Mulheres em Touro e Escorpião" , a imagem taurina que me veio à mente foi a de Clara lavando roupa no riacho, os braços luzidios e roliços sendo olhados pelo seu enamorado (de quem não lembro o nome e não vou googlear). Acho que é nessa hora que ele se dá conta que está apaixonado. E eu sou taurina: imagens de trabalho e sensualidade juntas me calam fundo na alma. 


Me encantei com As Pupilas, que li e reli como de hábito. E que deixaram marcas engraçadas na minha incerta grafia em português (como também A Moreninha, que li pelo mesmo motivo). A história de sofrimento e redenção de Margarida, por certo: mas sobretudo a atmosfera, a vila portuguesa onde se andava a pé, o caldo de galinha para os doentes, a festa da Desfolhada em que o milho era desfolhado pelos jovens, com cantos e danças.... muito depois, no Forum Social Mundial de Belém, ouvi de um "irreverendo" (como afetuosamente eram chamados os pastores "de trabalho", rosto queimado de sol e sotaque do interior,  hospedados em casa de conhecido) uma história que me lembrou essa, de colheita coletiva em terras do Sul (Paraná? Rio Grande? Não lembro). De solidariedade, trabalho e alegria. Uma história que me toca, como tantas pequenas histórias, de gente simples, de gente. Porque eu gosto é de gente, gente.

domingo, 18 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 2

E o dia 2 é sobre um "livro de que não gosto". Ah, isso tem muitos. Preciso pensar mais uma vez, e olhar a série inteira pra ver se não estou gastando cartucho na hora errada...não. Acho que vai ele mesmo.
Ele mesmo: um livro que tanta gente que eu amo ama. E que já tava na minha lista na época do finado "Perfil do Consumidor" do JB (onde o Bussunda respondeu a "qual o lugar mais estranho em que você já fez amor?" com um certeiro "São Paulo"), para a pergunta "que livro você deixaria numa ilha deserta?" . Já era ele.

Tô falando, claro, de "Cem anos de solidão". Que me causou tanto horror que eu nem acabei, e por causa do qual demorei séééculos a ler outro Garcia Marquez, apesar dos incentivos de K. Os outros todos eu gosto, devo dizer. E esse, nunca mais. De vez em  quando penso "vou lá de novo, quem sabe"... e aí me embrulha o estômago e antes de começar desisto. Não quero sentir aquilo de novo.

...a explicação é - evidentemente - totalmente subjetiva. Eu sou uma pessoa com um pé no mundo dos sonhos. O que quer dizer também um pé no mundo dos pesadelos. Nunca tive coragem de ousar drogas que afinassem o fio já tênue - e precioso - da minha conexão com o real: tinha medo de ir e não voltar. A mesma sensação tenho com certos filmes ditos "oníricos" (argh): vou embora do cinema, desligo a tv, não quero. Pesadelos: basta os meus.

E assim é com o Cel. Aurelio Buendia, que virou árvore, com Remedios de quem eu não gosto nem do nome, com a cidade inteira de Macondo cuja única qualidade na minha vida foi ter dado nome um dia ao simpático restaurante de Miguel Paiva e sócios, na Conde de Irajá: não quero saber deles. "Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe".

Tenho a vantagem sobre um monte de gente de ter sido acometida de indigestão de livros quase ao mesmo tempo em que aprendi a falar: não preciso prestar contas a ninguém de ter lido tal ou qual coisa. A outra vantagem é a de ter tido um avô de origem ferrada e totalmente autodidata, um avô que me lia Neruda em voz alta mas que me deixava comprar as fotonovelas que em casa eram proibidas. Que me ensinou Charlie Chan, que gostava dos de capa-e-espada franceses (Fanfan La Tulipe, O Corcunda). Então nem ligo se alguém diz que é "imprescindível", "essencial", ou que eu não entendi nada de América Latina se não tiver lido e digerido isso. Não li, não digeri, e provavelmente não vou. Passar bem.

Já contei em outro canto que um dos livros que mais amo no mundo é o do mesmo Garcia Marquez sobre a viagem clandestina do cineasta Miguel Littin ao Chile. Pra vocês verem. E nem é um problema estrito com o chamado "realismo fantástico": adoro o Dino Buzatti, por exemplo. Ele não me dá medo, só me diverte. H.G.Wells também. Ou seja. Não sei explicar. É físico. É na alma. Não consigo. "Quem quiser gostar de mim"... já fica sabendo.




sábado, 17 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 1

E, pra não facilitar nada, o dia 1 é "o livro mais querido de todos os tempos". Vê lá se dá pra escrever sobre isso assim, sem pensar... "o mais querido"? Logo pra mim, que amo tantos.. que tenho medo de deixar algum triste...?


[pausa pra pensar, com as duas mãos sob o queixo pra pensar melhor]


Não vou saber, né. Não vou saber porque não tem um: depende. Depende da época da vida, depende da hora, depende da precisão. Então vou escrever sobre um que é fundamental, que foi fundamental e que determinou muita coisa: "Os doze trabalhos de Hércules", na versão do Monteiro Lobato. 


Lobato, é claro, merece pelo menos um post inteiro, se eu for explicar: mas não vamos nos dispersar - o foco agora é o livro. E lembro bem de quando comprei: foi numa feira de livros na escola, o Instituto Souza Leão, que era onde é hoje a Globo na rua Jardim Botânico - do lado do Parque Lage. Eram três volumes: meu primeiro livro em três tomos, cada um com quatro histórias. E, como era no Souza Leão, eu tinha no máximo sete anos. Sete anos e mergulhei, pela voz de Dona Benta primeiro, e, depois, acompanhada de Pedrinho, Emília e do Visconde - sem Narizinho, o que me deixava furiosa -, no encantamento da mitologia grega, de onde jamais saí. Onde estou mergulhada até hoje, pela via da astrologia e das literaturas. De pó de pirlimpimpim eles foram parar na Arcádia, na Grécia do tempo de Hércules. Emília foi logo ficando amiga do herói, a quem chamava de Lelé e que a carregava no ombro, como "dadeira de idéias". 


Ali conheci os deuses todos,  Pégaso, a Medusa, a hidra de Lerna e tantos outros. Ali aprendi sobre Apolo e sua pitonisa em Delfos, sobre o labirinto construído para abrigar o Minotauro (que aparece em outro livro,  só dele)... e li, reli, treli... comecei aos sete, e a última vez que li foi para  Felipe. Que tinha (juro) dois anos quando apresentei a ele o povo do sítio e os deuses gregos. Eu tinha acabado de me separar do pai dele, a gente tinha se abrigado na casa de prima querida até se assentar de novo, e  a galera do Sítio nos fez companhia por noites e noites. Até o final, quando se despediam de Hércules, Felipe caía no choro e eu dizia (nem um pouco chateada): "não tem problema, amor, a gente lê de novo". 


Li assim, de enfiada, para meu filho e companheiro de paixão, Os Doze Trabalhos umas três vezes. O que gerou um efeito engraçadíssimo: aquele pitoco de menos de três anos sabia de cor vários trechos do livro, e quando contava as histórias, usava o vocabulário de Lobato - com muitas gargalhadas de motoristas de táxi, de familiares, de garçons de restaurantes. Ele, nem aí. Eu, feliz por ter companhia nessa viagem. Que só de lembrar me faz sorrir. E cuja origem foi, claro, meu pai amante de livros, que me deu o primeiro Lobato da vida. Com conseqüências duradouras e imprevistas. Viva ele, em seu dia.

30 Livros em um mês - como prometido!

Bom, hoje seria aniversário do meu pai, e ele amava livros. É também comemoração do de Carol, que também os ama. Então vai pra eles esse começo tipo mergulho sem volta do meme dos 30 livros, que eu adiei mas sabia que ia me pegar uma hora ou outra. Vai abaixo a lista, copiada da Niara. Sei que também tão nessa a Luciana e o Pádua Fernandes. Todos, é claro, já bem mais adiantados. Boto a lista, e sigo imediatamente - senão não começo.


Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos
Dia 02 — Um livro de que você não gosta
Dia 03 — O livro favorito da sua infância
Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar
Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir
Dia 06 — Um livro do seu autor favorito
Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola
Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu
Dia 09 — O livro mais triste que você já leu
Dia 10 — O clássico favorito
Dia 11 — O livro favorito com animais
Dia 12 — O livro favorito de ficção científica
Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia
Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém
Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas
Dia 16 — O livro favorito que virou filme
Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado
Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse
Dia 19 — O livro de não ficção favorito
Dia 20 — O último livro que você leu
Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano
Dia 22 — Livro favorito você teve que ler para a escola
Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida
Dia 24 — Sua série de livros favorita
Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama
Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer
Dia 27 — A história de amor favorita
Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor
Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você
Dia 30 — Um livro você ainda não leu mas quer