sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Para Simone, pelo dia de hoje

Simone muito querida,


fiquei de participar da blogagem coletiva do dia de hoje, pelo fim da violência contra a mulher. E não tô conseguindo escrever.
Porque, claro: como escrever sobre esse tema, logo agora, sem falar de Patrícia. Porque não dá pra falar de violência contra a mulher sem lembrar de Patrícia. De Patrícia que se foi tão cedo e tão violentamente. 


Fico meio intimidada de tocar em algo tão grande, assim em público: mas como não? De que mais dá pra falar num dia como hoje? 


"A juíza Patrícia Acioli", na televisão e em tantas matérias, é mostrada como "durona". "Durona" é adjetivo curioso, que fala de uma qualidade sem mostrar que é qualidade. Que transforma a qualidade quase em um defeito. A Patrícia que eu conheci não se parecia com essa imagem: era aberta, era alegre, amava a vida e o que a vida lhe dava. E queria mais. Era generosa, gostava de juntar gente, de fazer festa, de rir. 


Era, sim, séria, franca, direta. Comprometida. Corajosa, tanto. Sabia do perigo que estava correndo e nem por isso deixou de seguir o caminho que achava certo. De fazer o que estava ali para fazer. Não se deixou intimidar. Alguém que a gente só pode admirar e aplaudir.


E, à dor tão grande do assassinato de Patrícia, se juntou outra dor: a do assassinato de caráter que a mídia tentou fazer, nos primeiros dias. Insinuando. Falando de sua vida privada. Quase que dizendo que a culpa era dela. Como que matando Patrícia de novo.  Nossa terra tão machista não perdoa mulher que enfrenta. Que encara. Que não se submete, que não baixa a cabeça. Tem que ser culpa dela. Só faltaram dizer que esse trabalho não era coisa de mulher. E, no fundo, é um pouco isso que se está dizendo quando se usa ao falar dela o feio adjetivo "durona". Em vez de séria. Em vez de corajosa. Em vez de comprometida. Em vez de íntegra. Porque isso tudo ela era.


E era tão grande a história que não conseguiram abafar, que não conseguiram esconder. Que afinal ficou provado que a morte de Patrícia foi por causa do seu trabalho. Porque ela fazia o que tinha que ser feito. E basta isso pra morrer quando se trabalha nessa área, no Rio de Janeiro.  Ainda mais quando se é mulher.


Um beijo, Si, pra você, pra vocês todos que têm a tarefa de sobreviver à dor e continuar.




Viva Patrícia. Viva Patrícia, hoje e sempre. 





segunda-feira, 7 de novembro de 2011

30 livros em um mês - dia 18

E, depois de um tempão, volto ao desafio. Com "um livro de que ninguém esperaria que você gostasse". E não tinha abandonado não: é que faz parte da minha maluquez levar tudo tão tão a sério que consigo ficar dias pensando sobre a propriedade ou não de um livro pro tópico... e, neste caso particular, o problema é que eu digo aos quatro ventos que não tenho critério claro, que gosto de tanta coisa... que é difícil pensar algum que ninguém esperaria. 
Então repito um sobre o qual já foi feito um post bem melhor que este (nem escrevi ainda, mas já sei): a Bíblia. O post é da minha xará Renata de Oliveira, e está aqui. Recomendo mesmo. E copio a idéia, por achar que muita gente que me conhece bem pode se surpreender com essa escolha. Acho que é a mais honesta.

Mas voltando: meu primeiro contato com a Bíblia se deu pela inusitada via de um vendedor de enciclopédia que, não sei como, conseguiu convencer minha mãe a deixá-lo entrar. Acho que isso nunca mais aconteceu na vida. Enfim. Deixou e o cara, enquanto conversava com ela, me deu a "Bíblia para crianças" para ler: vinha junto com a enciclopédia. E me conquistou. A história foi a de Caim e Abel, e fiquei extremamente impressionada. Com a injustiça. Sempre estive do lado de Caim, né. Claro. Tudo bem, ele meio que perdeu a razão quando matou Abel, que afinal não tinha nada a ver com isso. Que culpa tinha ele de ser fofo e de ser o queridinho do Senhor? Mas poxa, que injustiça. Por que foi mesmo que o Senhor "se agradou das oferendas de Abel" e não das de Caim? Cada um deu o que tinha de melhor, não foi? Não conseguia entender. 


Muito tempo depois, voltei a essa história por conta de outro livro-obsessão: "A Leste do Eden", de Steinbeck. Onde ele recria a história, nos tempos modernos, com os irmãos Caleb e Aaron. E Steinbeck, evidentemente, também está do lado de Caim. Injustiçado e marcado, com toda sua descendência. Marcado pelo Senhor, que àquele tempo decidia sem acolher. Marcado só porque, no fim das contas, Deus preferiu os produtos do agricultor do que os do pastor. E a razão pra isso ninguém sabe. Gosto não se discute, só que às vezes tem conseqüências...


Antes desse segundo encontro com Caim e Abel, porém, fiz um monte de anos de catecismo (era comum em Genebra: catecismo para os católicos, "religião" para os protestantes, durante toda a escolaridade) e fiquei amiga do Novo Testamento, que combinava bem mais com a religião que eu conhecia de casa - a da minha mãe que tinha sido de movimento católico na juventude (JEC, JUC) e pra quem a opção à esquerda estava intrinsecamente ligada à ética cristã. 


O que não quer dizer que eu entendesse ou acatasse a "posição de Jesus" em todos os casos. E do Novo Testamento, destaco duas histórias que me marcaram por motivos diferentes. 


A primeira é a de Marta e Maria: fiquei anos encanada com essa ... A história é a seguinte: Jesus vai visitar Marta e Maria, irmãs de Lázaro. Maria senta-se aos pés dele, e fica conversando, ouvindo histórias, enquanto Marta trabalha para servi-lo. Até que Marta reclama do que lhe parece ser uma injustiça, e Jesus a admoesta (tudo isso só pra poder usar "admoesta"): "Marta, Marta, Maria hoje escolheu a melhor parte". Isso também me parecia injusto, e eu pendi muito tempo para o lado de Marta. Até que - e é bom deixar claro que o processo inteiro durou anos: minha cabeça encanada não abandona nada tão fácil - comecei a achar que Jesus tava certo, e que tem dias, sim, em que a gente é Marta, tem dias que é Maria. O negócio é não estar sempre na mesma posição... mas na média... 


A segunda história é uma conversa de Jesus com seus discípulos e vou dizer, essa já me fez muito mal ao longo da vida. Só recentemente tenho aprendido a me desprender dela. Porque com essa eu concordei: mas não mais. A história em questão é a do fariseu que entra no templo jogando dinheiro, mostrando a todos sua generosidade, enquanto entra um homem pobre que deixa ali sua moeda sem fazer alarde. Jesus mostra aos seus discípulos como o segundo, que deixa uma só moeda - que para ele vale muito mais do que todo o dinheiro deixado pelo fariseu -  é mais digno de respeito e consideração. Como o que ele fez em silêncio vale muito mais do que o estardalhaço do outro.


Parece fazer todo o sentido do mundo.

E ninguém tem idéia é de como essa história - e o preceito ético que ela representa - moldou minha forma de ser e de agir por tanto tempo. Tanto, tanto tempo. Só que aí tem um pequeno problema, que eu demorei a identificar: muitas vezes, o sacrifício que você está fazendo (a moeda que é a única, que você deixa no templo em vez de comprar comida) não é visto nem sentido como tal por quem está em volta. E isso, nas relações, é fonte de inesgotáveis mágoas. Porque você acha que está dando o melhor e que o outro vai saber: o outro, na verdade, nem imagina o tamanho do esforço que você está fazendo, e se porventura em algum momento posterior você externa algum sinal de mágoa por conta disso, ele cai das nuvens. Nunca tinha imaginado. Nunca tinha se dado conta.  Insensibilidade? Talvez. Mas também - e esse o meu aprendizado tardio - faltou sinalização.
E é isso: estou aprendendo a ir contra minha própria ética e a sinalizar. Não sinalizar, vejo hoje, é também uma forma de arrogância.  O outro não tem obrigação de saber. E, se você não quer se magoar, é fundamental que ele saiba. Então é melhor dizer logo. Apesar de ser mais nobre deixar a moeda e sair em silêncio. Mas para isso, teria que ser alguém muito mais nobre do que eu. 
Talvez tenha gente que consiga: fazer e desapegar-se. Não esperar nada de volta, nem mesmo reconhecimento. Eu sou menor que isso. Melhor deixar logo claro.