terça-feira, 10 de abril de 2012

Lavando e passando antes de ser comida com cerveja






Foi a partir de uma conversa no tuíter, a respeito da nova propaganda de Vanish; comentava-se que pela primeira vez uma propaganda brasileira tem o homem como consumidor de produto de limpeza.
Pela primeira vez, que eu me lembre: numa incrível sacada de nossos jovens e mudernos publicitários. Posso até imaginar a reunião na agência, a idéia revolucionária: "porque não botar um homem usando produtos de limpeza?". Olhares de dúvida, certo desconforto, pigarros. E enfim, a aceitação da ousada proposta: um homem como foco da propaganda de um produto de limpeza. Ainda não é, como se poderia supor, aquele cara que lava roupa em casa, seja porque divide com a mulher, seja porque é solteiro, gay, o que for: é um homem que, como proprietário de uma pousada, atesta que as toalhas e lençóis ficaram mais limpos depois do uso do produto.
 É pouco para o século XXI. Mas já é alguma coisa, em se tratando do universo da propaganda brasileira.
 A conversa é de hoje, mas a verdade é estou com vontade de escrever sobre isso desde a época do barraco com a propaganda com a Gisele Bündchen. Na época, achei barulho demais por aquela propaganda.


Não porque a achasse boa, vejam bem: a propaganda era ruim. Ruim porque boba. Porque trabalhava com a mesmice dos preconceitos e lugares-comuns. Onde, mais uma vez,  mulher tem que falar com homem fazendo biquinho e usando lingerie. E a mensagem é bem assim: mulher que tem cérebro usa o corpo. Enfim. Nada de novo no front publicitário.


É que aquela, dentro do panorama geral, nem era das piores. Tem tantas outras. Praticamente todas.

Tinha uma que me irritava particularmente - não conseguia ver sem comentar: era de uma locadora de vídeos, em que a mulher tinha que ser segura pelo marido, senão saía correndo pra dentro da loja e levava tudo. Fazia um estrago. Claro, né. Esse ser descerebrado. Que não sabe se conter. Que precisa do homem para segurá-la e não deixar que ela consuma a loja inteira.
E tem várias dessas de consumo: podem reparar, a mulher sempre é uma louca que quer estourar todos os cartões, ou que fica chorando e pedindo "benhê, me dá aquilo, e mais aquilo".... enfim, mulher não sabe gastar. Sem homem, coitadas. Ficam perdidas. À mercê dos seus instintos mais primitivos. 

(Como é que tem tanta mulher chefe de família no Brasil é que os jovens e mudernos publicitários não explicam. Mais de um terço, diz o IPEA - e este número está certamente subestimado: em muitas famílias, mesmo que haja homem na casa, a verdadeira chefe de família é a mulher. Que trabalha e paga as contas - dela e do marido. Longe das vistas dos jovens e mudernos publicitários.)

Tem os anúncios de cerveja, onde as mulheres viram objeto de consumo vendido junto com a bebida: compre uma cerveja e leve uma linda moça de brinde. Ou duas. Ou várias. Beba a cerveja, coma a mulher. Refeição completa. Mulheres, é claro, não bebem cerveja. No máximo em grupos mistos, onde se esforçam para serem aceitas até serem subitamente ofuscadas pela a aparição da "garota da cerveja": aquela que todo mundo - isto é, todo homem - quer para acompanhar a bebida.

E as de produtos domésticos. Um capítulo à parte. Porque as mulheres brasileiras, segundo nossos incríveis publicitários,  têm como sonho ganhar uma lavadora de roupas nova de aniversário. Um fogão, que maravilha. Uma geladeira, duas portas, elegante, congelador separado. As mulheres das propagandas, que são elegantes, bonitas, cheirosas. E ficam em lágrimas ao receber de presente aquele fantástico objeto que lhes permitirá lavar de forma mais profunda e completa as roupas do seu homem, dos seus filhos. O fogão reluzente no qual ela preparará os pratos deliciosos que alegrarão  toda a família. Ai, que sonho: um eletrodoméstico de presente de aniversário. Isso é que é prova de amor.

Raramente, muito raramente, aparecerá nessas propagandas a figura da empregada doméstica, que em casas de classe média e alta é quem faz realmente uso desses objetos. Isso para que não me venham falar de realismo: se for para ser realista, que sejam as empregadas domésticas as protagonistas. As que entendem de máquina de lavar e de fogão. Não é o caso: nas imaculadas e enormes casas com jardins das propagandas nacionais, quem cuida da casa, sorriso nos lábios impecavelmente pintados, é a rainha do lar. É ela que se alegra ao experimentar a nova marca de sabão em pó, ao utilizar o desinfetante multiuso, ao devolver ao assoalho aquele brilho perdido. Que felicidade. Que maravilha. Limpar e arrumar a casa, é para isso que a mulher usa toda a sua criatividade, toda sua energia. Ali, ela se realiza. É a mãe de todos: dos filhos e do marido. 
Porque, claro: mais uma vez, não há solteiros, não há gays. E tampouco há maridos ou namorados aí: longe deles participar das atividades de arrumação, limpeza, cozinha. Não: sua hora na propaganda é outra. Eles virão na hora de conter suas mulheres para que elas não detonem o cartão de crédito. Na hora de sorrir para o biquinho da moça vestindo lingerie. Na hora de comer a garota da cerveja.

14 comentários:

  1. Modelito apertado esse que nos colocam, hein?! Pérola seu texto Rê. Coisa boa de ler e, leitura que é boa, cutuca o pensamento que é uma beleza. beijoka

    ResponderExcluir
  2. Poxa vida... assim não dá... daqui a pouco vão querer propaganda de carro com mulheres no volante... propagandas de homem trocando fralda de criança... assim não dá... assim não dá...

    sua iconoclasta!

    (ao fundo, propaganda de margarina)

    ResponderExcluir
  3. Fernando, já pensou? Temos megaprograma pela frente! Propaganda de crianças sendo cuidadas por homens?... seria lindão. Tamos longe.

    ResponderExcluir
  4. Olá Renata!!
    Se os marketeiros "mudernos" fossem mais inteligentes e entendessem um pouco do sistema, já teriam feito o tipo de propaganda sugerido no seu post...afinal, quando o mercado de mulher dona de casa já está saturado e tem diminuído, porque não expandir o mercado consumidor? atraí-los com novos produtos? com embalagens másculas, fálicas?! eeetaaa povo burrinho.
    ótimo post!!!
    ps: posso dar uma sugestão? colocar um link rss pra eu acompanhar seu blog pelo google reader...bjos!

    ResponderExcluir
  5. Ai, Juliana, sonho com esse dia. Tanta coisa divertida pra se pensar, e e tudo tão mais do mesmo...
    Agora, quanto ao google reader, acho ótima idéia, só não sei fazer... assim que descobrir, ponho o link!

    ResponderExcluir
  6. pois é Renata, que idéia revolucionària, né? Século XXI, conseguimos colocar uma mulher na presidência, mas não conseguimos fazer um homem lavar a louça! Triste isso!

    ResponderExcluir
  7. Adorei o post. Sou estrangeira e há tempo vinha comentando o machismo da publicidade brasileira com meus amigos. É bom ver que têm muitas pessoas que já estão questionando este fato =)

    ResponderExcluir
  8. Sara, imagino que pra muita gente que vem de fora a sensação deve ser essa. Que bom que você gostou do texto! :)

    ResponderExcluir
  9. Calma que o Dove está aí para nos mostrar mulheres reais. Mais brancas do que as da Dove nos EUA, veja bem...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, as da Dove eu até gosto. Não é perfeito: mas é melhor do que muitas.

      Excluir
  10. Perfecto!

    Só queria colocar um complemento sobre a propaganda da lingerie da gisele. O problema maior ali, a meu ver, era a suposição do que o marido poderia fazer com a mulher se ela não contasse a "merda" q tinha feito vestida com uma lingerie sensual. Num país em que as mulheres são vítimas de violência moral, psicológica e física todos os dias, o tempo todo, a propaganda reforçava a ideia de que é isso mesmo: mulher fez "merda" merece castigo. A menos que seja sensual, sexy e se faça de bobinha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. sim, o problema era esse, você tem razão. Mas a minha questão permanece: a da Gisele era uma em meio ao mar retrógrado que é nossa propaganda quando trata de mulher, de família. Né?

      Excluir
  11. Perfeito e, pelo temática, mais que oportuno. Aliás. certas verdades precisam ser ditas sempre e sempre, e você foi muito feliz na abordagem.

    Mais que claro, a propaganda comercial não está aí para elevar o nível de consciência de nada. E não apenas 'vende'; é uma das ferramentas difusoras dos valores dominantes. O esteriótipo da mulher média, gostemos ou não, é construído diariamente na publicidade, nas novelas, nas revistas, na pregação religiosa cada vez mais bitolada. Difícil enfrentar... mas é preciso!

    E você toca num ponto que poucos abordam: o da mulher chefe de família, cada vez em maior número, mas que parece não existir - inexplicavelmente - para os que dependem de pesquisas de opinião. Taí um veio que poderia ser mais bem explorado. Pense nisso.

    cid cancer - mogi das cruzes/sp

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não tinha visto esse comentário, Cid. Isso, ninguém fala disso. Parece que é muito incômodo, né? Um abraço!

      Excluir

Comente à vontade. Mas, caso você opte por comentar como "Anônimo", assine de alguma forma, por favor. Fica mais fácil responder.