domingo, 1 de abril de 2012

Umas histórias

São umas histórias de gente. Tem as histórias da gente que foi pra luta armada. E tem também as histórias de gente que queria que todo mundo pudesse ler e entender, pra brigar por seus direitos. Lendo, entendendo, discutindo, conversando. De gente que sonhava com um Brasil sem coronéis, onde a tanta terra que há fosse partilhada e compartilhada. Um Brasil em que todo mundo pudesse se sentir cidadão. Em que todo mundo pudesse fazer parte. Em que as diferenças se tornassem menores. Tão menores. 


E por causa disso essa gente foi presa. Foi perseguida. Foi torturada. Foi machucada. Teve gente que morreu. Gente que teve que ir embora. Gente que se escondeu. Dores do corpo. Dores da alma. Dores que ficam e não se apagam.
Ainda mais quando tanto não se sabe. Quando a história não é contada até o final. Quando de tantas histórias não se tem o desfecho. Histórias que não se concluem. 




Tem a história daquele que foi preso porque estava indo visitar o amigo na hora errada. 


Tem a história daqueles que conseguiram fugir porque foram avisados pela empregada corajosa de que a polícia tinha batido na casa. E ameaçado a empregada. Que mesmo assim avisou. 


Tem a história daquela que se comunicava assobiando com o companheiro da cela ao lado. 


Tem a história daquele que foi pro exílio e deixou os filhos com a avó, que depois não o reconheciam mais.



Tem a história do padre que foi preso com uma foto do afilhado, e na tortura queriam que confessasse que era seu filho.


Tem tantas histórias de crianças que perderam os pais. De pais que perderam os filhos. De gente que perdeu sua história e foi obrigada a viver essa outra. Essa de dor, de violência, de tortura, de medo. 
Tantas, tantas histórias.


E tem o silêncio. 


O que não se sabe. 
O que não se conhece, porque não se disse. 
Quem foi. Quando foi. Onde foi. Como foi. 
Onde está. Como morreu. 
Quem escondeu. Quem ocultou.
Quem participou.
Vamos abrir essa  história. Contar essas histórias.
 Abrir os arquivos, julgar responsáveis. 
Vamos ouvir essa história.
 Vamos nos apropriar da nossa história.
Para então - aí sim - começar a construir outra história.














Este post faz parte da 5a blogagem coletiva #DesarquivandoBR.


http://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/18/convocacao-da-5a-blogagem-coletiva-desarquivandobr-3/









Um comentário:

  1. Para só assim começar a contar outra história. É isso mesmo.

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