terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Então é Natal

(pausa no meme dos livros pra comentar sobre o Natal. Depois volto!).


Natal. Em flashes.

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O Natal do primeiro ano na Europa: Chamrousse, muita neve. Sensação de estar "acima das nuvens". Tio Sylvio e tia Bel, Clarissa e Gui. Eu com a camisola nova e rosa que ganhei de mamãe. Uma árvore de Natal feita de fios dourados, na parede. Tudo novo. Tudo frio, nariz e bochechas gelados. Primeiras aulas de esqui. Gui e Clarissa: nossos guias. Um Natal quentinho de família, malgrado o frio lá fora. (obs: o "malgrado é homenagem a tio Sylvio, que usava a palavra. Poster no banheiro da casa dele: um vaso sanitário, com rosas dentro. E, na letra dele: "Mas como fede, malgrado as rosas!").

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Natal em Les Haudères: Natal de exilados e desgarrados. E os filhos: Claudia e Flávio; Zuza, Armando e Andréa. Daniel filho do Betinho (foi em Les Haudères que o conheci, levado por Marcos Arruda). Flávia e Joca que só participaram do Ano Novo, porque fizeram Natal-família em separado. Lysâneas fazendo fala ecumênica, num silêncio solidário e respeitoso. Jogos de mímica de filmes e livros: pela primeira vez. Adultos e crianças jogando juntos. Tem uns nomes que ali aprendi, sem conhecer o original: lembro de "Pai Patrão", de "O Salário do Medo". Esse o universo. E a gente fazia a mímica, pelas palavras. Dava certo e os times misturados (crianças e adultos) competiam de verdade. Cada vitória era comemorada como se não houvesse amanhã. Que talvez não houvesse.
Mais esqui. Esqui, sempre.



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O primeiro Natal da volta: na casa de Gilberto Freyre. Foi linda a intenção de tia Sônia, mas foi um Natal sofrido. Só eu e os irmãos, já que meus pais ainda tavam arrumando as caixas lá em Genebra. Me lembro de uma senhora perguntando "quem são esses?" e do frio que isso me deu no coração. Lembro da dor da saudade e do estranhamento completo, nesse Natal diferente de tudo. Natal de estrangeiro no Recife. Ainda era cedo demais.



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O Natal mais surreal de todos: o do ano em que John Lennon morreu. E sei que era esse o ano porque o "Então é Natal" com recitativo em português ocupava todas as trilhas sonoras. Invadia os ambientes mais reservados. E, no dia 24, meus pais ficaram no hospital. Meu avô tava lá e a gente já sabia que ele não ia sair. Vovô Lins, minha paixão. Eu brincava dizendo que tinha "complexo de pai de Édipo". Vovô Lins, taurino e briguento como eu: quando ele morreu, eu pensei "ninguém mais me entende nessa família". (desculpa, gente: mas eu pensei isso e até escrevi). Lembro do abraço apertado que papai me deu no hospital. Lembro de dizer a ele "só acaba quando acabou". Mas ele não tinha nenhuma esperança mais. A gente - eu e Marcelo, acho - passou a noite de Natal com amigos dos meus primos Paulinho e Elizabeth (primos Pimentel: não era o avô deles). Conversas surreais. Será que isso foi mesmo no dia 24? ou foi no 25, quando a gente já sabia que vovô tinha morrido?
Em todo caso, não consigo ouvir o John Lennon sem que a atmosfera daquele ano volte inteirinha. Intacta.

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Natal de 2004. O primeiro sem papai. Como é duro passar o Natal sem papai. Ainda mais o primeiro.
Mas continua. A ausência dele preenche saudades e abre vazios. Mesmo quando a gente nem fala disso.
Pai, um beijo.
E até amanhã.





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Natal-hoje/ontem. D. Helena - muita saudade. Seu Antônio: todo o carinho. Tia Sônia: no presente.
Os meninos tão crescendo lindos. Os cinco meninos e a única menina: netos dos meus pais. Felipe, João, Maria, Antônio, Chico, Joca. Na ordem. De dezoito a quatro anos. Lindos e amorosos. E é bom de ver a alegria que eles têm de estar juntos. De festejar juntos.
Viva. Viva. Viva.
Então é Natal, e alguma coisa certa a gente tá fazendo.

Amor a todos os envolvidos.


















sábado, 22 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano




Esse, claro, é daqueles que não vou responder. Odeio ranking. Odeio "o melhor". Muito chapado; muito unidimensional. Tem tantas maneiras de ser melhor. Tantos livros que podem ser "o melhor" em alguma categoria. Faz pelo menos que nem escola de samba, pô! Bota quesito.

E porque falei de escola de samba, o livro de que vou falar - e que ainda tô lendo - é "Tantas Páginas Belas", do historiador Luiz Antônio Simas. Esse, pelo formato e pelo tema, tá na minha vida hoje como "livro de condução". Pequeno, formato de bolso. Tema e texto que descem redondos, gelados como uma boa cerveja em dia de calor (ainda não dá, tá cedo demais... mas já já...). Então é isso: o livro "mora" provisoriamente dentro da minha bolsa, e leio no ônibus, no metrô. Capítulos curtos, ajuda.

O livro trata da história da Portela - e eu tive o privilégio de fazer um minicurso com o Simas sobre a história do carnaval. Como disse André Diniz, que sabe do que tá falando: "ele entende tudo disso". E lendo o livro, cujo texto é tem uma simplicidade enganadora, dá até pra ouvir a voz do Simas falando de Oswaldo Cruz na década de 20 - "uma região extremamente pobre, sem água encanada, luz elétrica, calçamento" - , de Paulo da Portela (cujo apelido  é anterior à escola de que foi fundador), do delegado da Delegacia de Costumes que deu nome à agremiação por não aprovar o que existia ("Vai Como Pode"). 

Simas é um contador de histórias, um griot carioca da melhor qualidade - e da melhor cepa: descendente de nordestinos. ( :) ) Quando dá aula, usa o cavaquinho e a voz para pontuar com exemplos melódicos as histórias que conta: é um sarau, uma "aula-espetáculo" à moda de Ariano Suassuna. No livro, faltam o cavaquinho e a cerveja de depois: mas a gente sai mais feliz, mais sabida, mais encantada com o Rio e com seus rios de histórias.
Tantas páginas belas.





Fecho o livro a cada descida de metrô na Central, a cada ponto de ônibus em que tenho que saltar. Mas na minha cabeça, segue a trilha, na voz ensolarada de Paulinho da Viola: "se for falar da Portela, hoje eu não vou terminar".








segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - dia 20 - O último livro que você leu




Segundo dia da retomada do meme dos livros. E agora é "o último livro que você leu".
Bom, eu agora estou lendo cinco livros (cinco de lazer, né, porque tem os "de trabalho(s)", que evidentemente não contam).  Então a pergunta se torna "o último livro que acabei".

Acabar um livro: uma dor. Que eu postergo ao máximo, quando gosto do livro. Foi assim com este. Confesso com certa vergonha: deixei três pagininhas por ler. Por meses. Olhava pra ele e pensava: "quase... mas ainda não". É uma maluquez, claro. Me deixa. Eu me apego.

O livro? Ah,  é. Nem disse ainda. O livro é "O nome da cousa", da Fal Azevedo. A Fal do Drops. Esse é especial: um livro customizado, um livro produzido único. Algo que começou a ser feito pela Marina W, com seu Caderno de Cinema (que eu tenho também, que amei e... precisa dizer? Inda faltam umas pagininhas...).
A Fal se inspirou e mandou ver, com preciosa ajuda da sua mãe, Maliu, nas ilustrações. Inda veio com marcador fofo, decorado e com frase do Mario Quintana - "Uma vida não basta ser apenas vivida: também precisa ser sonhada."

Tempo demais descrevendo as circunstâncias do livro? Não acho. Necessário dizer quão único ele é. Esse é meu. Foi feito pra mim e só pra mim, dialoga comigo, comenta... gente. Vocês nem sabem. Só de escrever isso meu coração esquenta. Tenho DOIS livros feitos só pra mim: o da Marina, o da Fal. Gente.



O livro da Fal é um caderno de anotações: lembranças, associações de idéias, pensamentos. Um diário ao qual a gente tem acesso. Um pouco como o blog, o Drops lincado lá em cima (quando falei no nome dela pela primeira vez, dá uma olhada). Tipo de livro que eu venero. Inda mais sendo da Fal, né. Porque aí é como se eu realizasse o sonho da minha irmã e "ouvisse" os pensamentos dela por um tempo. Em dois tempos: o do livro, o dos comentários. O livro é de 2006. Os comentários são de agora. Seis anos de diferença. Uma delícia de leitura. Como diz Rui Rezende - "publicitário, produtor e gato"-, que faz a orelha: "O Nome da Cousa causará espanto, caso seja esta sua primeira parada no Planeta Fal".
Causa espanto, causa encanto. Dá vontade de comprar um monte e distribuir pros amigos, à maneira de Marcos Lins - ele fez isso, por exemplo, com A Solidão do Cavaleiro no Horizonte . Dá vontade de que todo mundo que eu amo leia a Fal. Leia e se delicie. Leia e se enrede nos encantos dessa prosa tão enganadoramente fácil. Delícia de livro que é pra ler em voz alta. Que é pra contar pros filhos, quando eles já têm a idade certa pra entender. Ou talvez até na idade errada, sei lá.

Deixo um trechinho do Nome da Cousa, que é pra dar uma idéia:

"Vou pegar esse nada que sobrou de mim, esse corpinho de passeio alquebrado, e levá-lo pra comprar uma roupa nova, prum cinema e pro Masp. Que é pra Vida ver quem é que manda".

;)

Fal. The one and only.



domingo, 16 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - dia 19 - O livro de não-ficção favorito




Eita. O Pádua não vai nem acreditar que eu retomei isso. Mas decidi: dos fios não-amarrados, escolhi amarrar um que dá. Esse aqui. Começo de limpeza na mente... final de ano, gente.

Confesso: parei meio por dúvida, meio por preguiça. Dúvida: tenho muita dificuldade de escolher "favoritos". Não gosto. Tantas possibilidades. Tantos quereres diversos e saborosos.
Mas mesmo assim: um de que goste muito. Tinha escolhido "Esta Noite, A Liberdade". De Dominique Lapierre e Larry Collins. Um relato romanceado do processo de independência da Índia - e, por tabela, do Paquistão. Que depois se desmembrou em dois: Paquistão e Bangladesh. Desde esse livro, sou "amiga" de Lord Mountbatten, o último vice-rei. De Gandhi, por suposto. De Jawaharlal Nehru, que viria a ser o pai da ministra Indira Gandhi. (e escrevi o primeiro nome dele sem olhar: fui checar depois, mas é isso mesmo. Memória visual continua em cima.).  Um livro que puxou muitos outros: livro cabeça-de-fila, como os do Monteiro Lobato sobre mitologia foram também. Credito meu caminho na astrologia ao combo "O Minotauro" + "Doze Trabalhos" versão Lobato. Ali começou. E dura.

Acabei escolhendo outro (não escrevi sobre isso esse tempo todo, mas quem disse que parei de pensar no assunto? muitas e intensas reflexões sobre qual seria o próximo. Se houvesse): "O corpo tem suas razões", de Thérèse Bertherat.



 Esse, como tantos, li porque minha mãe ganhou de aniversário. Li e me encantou de tantas maneiras.
Sou taurina, né. Touro = corpo. Touro está associado ao período na infância em que a criança toma consciência do seu corpo. Meu. Possessivo taurino. Minha mão, meu pé. Minha coluna.
Eu sou meu corpo. Que ocupa espaço. Que sua, que treme, que se arrepia. Que dança, que anda, que canta. Eu. Meu corpo.
É disso que o livro fala. História na primeira pessoa: T.Bertherat tinha acabado de perder o marido, "le docteur Bertherat". Estava perdida, deprimida, sem conseguir se cuidar nem cuidar dos filhos. E nisso encontrou, meio por acaso, uma sala onde se fazia algo que não era ginástica. É um relato de superação e de reencontro consigo mesma. Ela e seu corpo. Que tem suas razões, como o meu.
E dali, como Bertherat, encontrei novos caminhos. Meu corpo de adolescente era sofrido: tenso de golpes não-esperados, travado de medos nunca confessados. Meu corpo-trambolho. Meu corpo-armadura. Ninguém via isso: mas eu sabia, só eu sabia.
De repente,uma fresta. Uma passagem possível. Com muito esforço, muita ralação, é certo; mas disso nunca tive medo. Não vim a passeio, por mais que possa parecer diferente. É muito, é pesado, é intenso: eu. Meu corpo. Que, a partir do livro e da busca "na vida real", foi encontrando caminhos. Flexibilizando. Adquirindo precisão. Aulas e aulas. Nomes importantes no meu caminho de entender as razões do corpo: Angel Vianna, claro; Esther Weitzman, da Casa de Pedra; Neide Neves; e, por fim mas nunca por último, minha irmãzinha Adrianne Ogeda, parceira nesse início de busca, professora em outros momentos.

Hoje, faço pilates no Pulsar, com a querida Érika Reis. Novas procuras, explorações. Mas é outra coisa: já sei que meu corpo sou eu, já conheço caminhos, já destravei tantos nós. Dobro pra frente e encosto a palma da mão no chão: parece natural, mas lembro que aos doze anos mal chegava aos joelhos. Lembro da médica que disse que eu tinha uma escoliose irreversível e que teria que usar colete ortopédico por muito tempo. Inda bem que minha mãe foi ouvir outras opiniões.

O corpo tem suas razões. Meu corpo tem suas razões. Meu corpo sou eu, e pela seta que levava ao caminho menos percorrido agradeço a Thérèse Bertherat.











domingo, 2 de dezembro de 2012

A história começa há tempos




A história começa há tempos:
A menina  se doeu
E foi criando camadas
Botou tirou armaduras
Cercas, farpas
( um miolo
tão tenro tão frágil)

Mas, qual boa elefanta
- total recall
Tem tudo tudo guardado
Num Agora cada vez mais comprimido
 (pelo tempo acumulado)

Que aumenta o peso
De cada hora
De cada conversa
De cada olho no olho

- e isso não é por nada – só é.
Não é bom, nem ruim: é assim.

A leveza é uma máscara
(a armadura mais eficiente para o verão carioca)
Mas a menina
Por  trás da máscara
Espia
Com densos olhos
De criança.

Rio, 9 de maio de 2010.