segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O Ano da Aliança

Mont Saint-Michel

Tem lugares onde se passa pouco tempo e tanto se aprende. Nem posso dizer que passei pouco tempo na Aliança Francesa: passei foi muito tempo lá. Como aluna. Quatro anos importantes. Era pra serem três, mas acabei o Nancy com dezessete anos, e a Aliança não dava diploma de Nancy (com equivalência a nível superior, bastando um ano de complementação pedagógica pra se obter a licenciatura em Letras) a menores de dezoito.. Fiz mais um ano, sem pagar (gracias, Bernard Plaud)  e feliz.

Mais um ano: novos colegas, novos livros estudados. Eu amava aquilo, por que iria reclamar? A gente tentou, não rolou autorização da França. Então. Mais um ano de Karydakis. De Raquel Ramalhete. E eu iria dizer não? Tava eu lá, com Ionesco, Prévert, Voltaire. Olho brilhando pro novo de novo.

Aí no final do ano teve treinamento para novos professores. Uma semana de intensivo, dada pelos diretores das Alianças do Rio todos. Saí dali com emprego em duas unidades da Aliança: Botafogo (a minha) e Ipanema.

Entrei lá e dava aula de manhã e de noite: à tarde, faculdade.
Tranquei a faculdade, fiquei só dando aula, no segundo semestre. Queria conseguir juntar grana pra fazer a peregrinação necessária a Genebra, à Europa. Revisitar casas, escolas, pessoas, paisagens. Me convencer que era brasileira 100%, que agora eu ficava no Brasil por escolha e não porque tinha sido levada.

A Aliança: um dos melhores lugares do mundo pra entrar no universo do trabalho. Pra começar, não era escritório e isso faz toda a diferença: eu trabalhava mais do que 40 hs/semana, mas não me dava conta. Era tão divertido aquilo tudo. Tanta gente nova, esses alunos todos. Eu, mais nova do que quase todos eles. Mas tinha segurança: não só da língua, como dos anos de aprendizado de pedagogia por osmose, com minha mãe que com isso trabalhava. Métodos, técnicas, jeitos. Trabalho em conjunto, dinâmica de grupo, Piaget e Paulo Freire. A Aliança: meu laboratório pessoal.

E tinha o afeto, aquela galera toda que ficava amiga e que me chamava pra tomar chope, a turma que fez uma "fotonovela" com imagens da Fernanda Torres (então minha sósia, ou assim diziam) pra me dar de presente de aniversário. Uma fotonovela em francês. Chorei.

O jeito de aprender: criando afeto. Fazendo sentido com a vida. Paulo Freire na veia. Se não for isso, é decoreba. É "pra prova". E tá esquecido no outro dia. Língua materna é materna por conta disso, acredito. Por conta do afeto. Das memórias. Dos vínculos criados que constituem nexo e estruturam o mundo e a linguagem de cada um. E podem ser várias as "línguas maternas"; a ligação com estas vai ser sempre diferente da ligação com as outras, estudadas, aprendidas, mas sem a história da infância, sem as descobertas da adolescência a lhes dar cor, cheiro, textura, sabores. Estofos.

Passei um ano e meio dando aula na Aliança. E só. Mas parece que foi uma década, de tanto que aquilo me trouxe. De tanto que me fez pensar. A Raquel ainda me botou pra dar aulas de português para estrangeiros, com o método que ela tinha desenvolvido na pós-graduação: "Tudo Bem". Espelhos. Trocas. Gente com novos olhares alargando meu mundo.

Foi um ano só, e faz tanto tempo. Mas tá aqui, vivinho e quente, como se tivesse sido outro dia ainda. Quase agorinha. Pulsando nas lembranças. Organizando meu olhar sobre o mundo.

Vue d'en haut de Notre Dame de Paris

12 comentários:

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    1. respondi embaixo! Sei lá por quê...! Beijos!

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  2. Tenho certeza que você foi/é uma professora sensacional pelo seu olhar generoso sobre as coisas e a capacidade de tornar encantador o que se olha. E, claro, paulo freire, amor eterno, amor verdadeiro.

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    1. É algo que sempre me trouxe muita alegria, Lu. E gosto bem mais de dar aulas de idiomas do que de economia: tem prática envolvida, não é palestra. Mais parecido com as aulas que dei (por breve tempo) no curso de Mulheres e Economia, que era para mulheres de baixa renda (basicamente). Eu dava aula sobre organismos multilaterais: FMI, Banco Mundial, BID. Essa eu adorava. Paulo Freire direto. E ficava com lágrimas nos olhos ao ver as apresentações das alunas, no final. Tão legal ver gente se apropriando de conteúdo supostamente "difícil".

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  3. Morro de saudade de sala de aula. Como aluna ainda vou ali, na de piano pelo menos. Como professora, quando eu aprendia tanto todo dia - aí, sim, morro de saudades.

    Bj

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    1. Eu também tenho saudades. Dessa aí, em que eu conseguia ver o progresso das pessoas a cada dia. Onde a troca era direta. Sem aquela coisa meio "palestra" que é aula de faculdade. E com menos gente....

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  4. Que lindo Renata.
    Preciso de uma professora assim como você ;-)
    Já comecei duas vezes, uma delas na Aliança aqui de Zurique, e vou de vez em quando na França, entendo um bocado, palavras soltas, claro, aquelas que são parecidas com alguma em português, espanhol ou até italiano. Mas, eu não consigo falar, oh desespero total, tanto que virou um pequeno bloqueio. Um dia o nó se desfaz, eu sei, mas até lá fico sonhando em falar.

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    1. agora apareceu o comentário aqui! Que delícia de comentário. E então... o negócio é relaxar e ir... ou, como me disse um aluno uma vez, "eu falo tão melhor quando eu bebo!" :)

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    2. eu ri!
      pois então me fala como eu digo: "oh moço, desce uma bem geladinha" em francês - já vou colocar em ação em julho e mal posso esperar pra ver a cara do maridão, que se chama Jérôme (veja você, um nome francês).
      Só rindo mesmo ;-)

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    3. ohmy! agora ele coloco com minha outra conta, mas sou eu viu, aquela do nome complicado lá de cima...
      Delistri é: DeLImaSTRIjbis - eu simplifiquei hihihihih

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