sexta-feira, 30 de maio de 2014

Festa Junina da Telinha

Esse post é da Stella Cavalcanti, que deu de presente pro povo, e eu que não sou besta nem nada já deixo ele pregado aqui pra não se perder.
Afinal, já é quase junho.

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amo festas juninas. mais que meu aniversário, natal, ano bom. amo cada comida, cada cheiro, cada bandeirinha. amo as crianças colando bandeiras de papel de seda com cola de farinha de trigo no cordão. amo as mulheres na mesa da cozinha preparando comida, tirando a palha do milho, amarrando as pamonhas. amo os homens saindo para comprar a madeira da fogueira. amo o cheiro de pólvora dos fogos, a fumaça da fogueira, as simpatias feitas à meia noite. amo o medo de ir ao quintal enfiar a faca na bananeira. amo pintar as meninas com sardas e os meninos com bigode. amo soltar balão, amo dançar quadrilha, amo dançar forró. amo assar o milho na fogueira, amo pular as brasas de mãos dadas com quem será meu compadre ou comadre. amo luiz gonzaga. amo esperar os santos, amo o frio, amo ficar junto da fogueira para espantar o frio. amo andar na rua e ver os amigos e sentar ao lado dos vizinhos e falar das festas e parar de falar, alumbrada, ao ver um balão no céu.

amo santantònio, sanjão e são pedro. amo minha infância e adolescência que me deu junho para lembrar a vida inteira
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terça-feira, 13 de maio de 2014

O Canto do Bosque: aprendendo o fazer coletivo




Há um tempo que ando querendo escrever sobre isso: minha primeira estadia numa colônia de férias. 
O contexto: a gente tinha acabado de chegar na Europa, em Genebra. Chegamos em abril, perto do final do ano escolar. Meus pais, sensatamente, deixaram pra botar a gente na escola no começo do outro ano. Ou, sei lá, não conseguiram botar logo: o fato é que a gente só entrou na escola em setembro, no começo do novo ano escolar (que lá vai de setembro a junho, sendo julho e agosto as férias de verão.). 

Naquele verão, pois, a gente tinha começado a aprender a falar francês com uma professora particular. Já meus primos, Gui e Clarissa, que moravam em Paris, falavam perfeitamente (Clarissa nasceu lá e Gui foi pequenininho). No verão, nossos pais acharam que seria bom a gente ir pra uma colônia de férias. Enquanto os adultos faziam coisas de adultos. Inclusive pra estar mais perto dos primos e pra melhorar a língua antes do ano escolar.

Fomos pro "Coin du Bois", uma colônia de férias na montanha. Le Chambon-sur-Lignon, o lugar. 

(pausa para maravilhar-me com são gugol. Mesmo com algoritmo novo e pior... tá tudo na ponta dos dedos!)

Le Coin du Bois
Era uma colônia de férias absolutamente familiar (descobri que era, antes, uma "pensão externa" para alunos de uma escola próxima, o Collège Cévenol, o que talvez explique um pouco sua forma de funcionar). Os donos, o sr. e a sra. Monnier, junto com suas filhas, mantinham o lugar, que era um chalé grande, e as atividades eram caminhadas na montanha, banho de rio, pique-nique... lembro que tinha uma tirolesa onde a gente se pendurava, descendo de uma árvore. E que à noite a gente via programas do Cousteau e jogava cartas. E "mille bornes", um jogo de cartas em que se tinha que fazer um percurso... foi uma delícia a estadia. O contato com a natureza, as brincadeiras, o "aprender a viver ali" sem precisar da pressão da escola. A instituição do "goûter", o lanche da tarde, composto de uma fatia grossa de pão de campanha com manteiga e geléia. O jeito de ser também, as regras, os castigos. Limites diferentes daqueles que a brasileirinha de oito anos que eu era conhecia. Mais severidade. Mais rigidez. Aprendizados. Antes de dormir, às vezes, tinha leitura de histórias: me lembro de um livro de contos africanos, cujas histórias me assustavam um pouco. E falavam de baobás.



Mas o que eu queria contar mesmo tem a ver com o funcionamento do lugar. Como eu disse antes, a colônia de férias era mantida por um grupo de pessoas bem pequeno: a família Monnier, mais um ou dois ajudantes, talvez. Umas seis pessoas ao todo. E como funcionava? Bem, havia (surpresa para os pequenos brasileiros) divisão de tarefas. Todo mundo arrumava cama. Todo mundo lavava louça. Todo mundo. Pequenos e grandes. Eu tinha oito anos, e tinha gente menor que eu. Era dividido em grupos, em turnos: a cada vez um grupo para a tarefa. 

Eu era pequena demais pra saber que aquilo não era um padrão necessário. Mas lembro da sensação de encantamento. De me sentir capaz. Participando, fazendo acontecer. Fazendo a minha parte. Me lembro da pilha de louça na pia, dos métodos que criei ali pra passar detergente, pra lavar. De como aquelas atividades eram alegres e animadas, com conversas e risadas. De como aquilo me transformou. 

Lembrei disso tudo hoje por conta de um texto bem interessante que a Adriana Facina postou no facebook, que fala sobre a educação de crianças e a forma de lidar com elas. Também por conta de uma conversa sobre filhos, e sobre deixá-los experimentar, que tive com Carol nesse domingo de Dia das Mães. Por conta do meu lado sempre meio forasteiro, que vem dessas vivências aí, e me fazem olhar certas superproteções com menos tolerância, talvez, do que se eu tivesse sido criada aqui. 

Ao fazer no lugar da criança, ao não deixá-la experimentar e errar, a gente muitas vezes esquece que está também deixando de permitir que ela aprenda. Que aprender é sempre risco, inerentemente. Que quem nunca testou não vai saber fazer. Não vai saber mexer. Não vai saber. É claro que não é tudo, não é de qualquer jeito: mas existe um necessário desapego aí que, me parece, às vezes falta. Na ânsia de proteger, de cuidar, de deixar confortável, há um excesso de foco sobre as crianças, um excesso de controle sobre suas atividades, que as impede de "fazer do seu jeito". E aqui, é claro, estou falando exclusivamente das crianças de classe média: porque as crianças das classes populares vivem uma realidade muito diversa. Onde, é certo, há muitas adversidades. Mas não deixo de ver ali também oportunidades.

Poderia falar mais disso, e tanto; mas talvez seja melhor acabar o texto assim, meio aberto. Como a cabeça. Espaços necessários. Frestas.