terça-feira, 13 de maio de 2014

O Canto do Bosque: aprendendo o fazer coletivo




Há um tempo que ando querendo escrever sobre isso: minha primeira estadia numa colônia de férias. 
O contexto: a gente tinha acabado de chegar na Europa, em Genebra. Chegamos em abril, perto do final do ano escolar. Meus pais, sensatamente, deixaram pra botar a gente na escola no começo do outro ano. Ou, sei lá, não conseguiram botar logo: o fato é que a gente só entrou na escola em setembro, no começo do novo ano escolar (que lá vai de setembro a junho, sendo julho e agosto as férias de verão.). 

Naquele verão, pois, a gente tinha começado a aprender a falar francês com uma professora particular. Já meus primos, Gui e Clarissa, que moravam em Paris, falavam perfeitamente (Clarissa nasceu lá e Gui foi pequenininho). No verão, nossos pais acharam que seria bom a gente ir pra uma colônia de férias. Enquanto os adultos faziam coisas de adultos. Inclusive pra estar mais perto dos primos e pra melhorar a língua antes do ano escolar.

Fomos pro "Coin du Bois", uma colônia de férias na montanha. Le Chambon-sur-Lignon, o lugar. 

(pausa para maravilhar-me com são gugol. Mesmo com algoritmo novo e pior... tá tudo na ponta dos dedos!)

Le Coin du Bois
Era uma colônia de férias absolutamente familiar (descobri que era, antes, uma "pensão externa" para alunos de uma escola próxima, o Collège Cévenol, o que talvez explique um pouco sua forma de funcionar). Os donos, o sr. e a sra. Monnier, junto com suas filhas, mantinham o lugar, que era um chalé grande, e as atividades eram caminhadas na montanha, banho de rio, pique-nique... lembro que tinha uma tirolesa onde a gente se pendurava, descendo de uma árvore. E que à noite a gente via programas do Cousteau e jogava cartas. E "mille bornes", um jogo de cartas em que se tinha que fazer um percurso... foi uma delícia a estadia. O contato com a natureza, as brincadeiras, o "aprender a viver ali" sem precisar da pressão da escola. A instituição do "goûter", o lanche da tarde, composto de uma fatia grossa de pão de campanha com manteiga e geléia. O jeito de ser também, as regras, os castigos. Limites diferentes daqueles que a brasileirinha de oito anos que eu era conhecia. Mais severidade. Mais rigidez. Aprendizados. Antes de dormir, às vezes, tinha leitura de histórias: me lembro de um livro de contos africanos, cujas histórias me assustavam um pouco. E falavam de baobás.



Mas o que eu queria contar mesmo tem a ver com o funcionamento do lugar. Como eu disse antes, a colônia de férias era mantida por um grupo de pessoas bem pequeno: a família Monnier, mais um ou dois ajudantes, talvez. Umas seis pessoas ao todo. E como funcionava? Bem, havia (surpresa para os pequenos brasileiros) divisão de tarefas. Todo mundo arrumava cama. Todo mundo lavava louça. Todo mundo. Pequenos e grandes. Eu tinha oito anos, e tinha gente menor que eu. Era dividido em grupos, em turnos: a cada vez um grupo para a tarefa. 

Eu era pequena demais pra saber que aquilo não era um padrão necessário. Mas lembro da sensação de encantamento. De me sentir capaz. Participando, fazendo acontecer. Fazendo a minha parte. Me lembro da pilha de louça na pia, dos métodos que criei ali pra passar detergente, pra lavar. De como aquelas atividades eram alegres e animadas, com conversas e risadas. De como aquilo me transformou. 

Lembrei disso tudo hoje por conta de um texto bem interessante que a Adriana Facina postou no facebook, que fala sobre a educação de crianças e a forma de lidar com elas. Também por conta de uma conversa sobre filhos, e sobre deixá-los experimentar, que tive com Carol nesse domingo de Dia das Mães. Por conta do meu lado sempre meio forasteiro, que vem dessas vivências aí, e me fazem olhar certas superproteções com menos tolerância, talvez, do que se eu tivesse sido criada aqui. 

Ao fazer no lugar da criança, ao não deixá-la experimentar e errar, a gente muitas vezes esquece que está também deixando de permitir que ela aprenda. Que aprender é sempre risco, inerentemente. Que quem nunca testou não vai saber fazer. Não vai saber mexer. Não vai saber. É claro que não é tudo, não é de qualquer jeito: mas existe um necessário desapego aí que, me parece, às vezes falta. Na ânsia de proteger, de cuidar, de deixar confortável, há um excesso de foco sobre as crianças, um excesso de controle sobre suas atividades, que as impede de "fazer do seu jeito". E aqui, é claro, estou falando exclusivamente das crianças de classe média: porque as crianças das classes populares vivem uma realidade muito diversa. Onde, é certo, há muitas adversidades. Mas não deixo de ver ali também oportunidades.

Poderia falar mais disso, e tanto; mas talvez seja melhor acabar o texto assim, meio aberto. Como a cabeça. Espaços necessários. Frestas. 

5 comentários:

  1. Muito legal o texto (só não gostei muito do trecho perto do "[...] crianças das classes populares vivem uma realidade muito diversa. Onde, é certo, há muitas adversidades. Mas não deixo de ver ali também oportunidades.[...]" - talvez por algum topo de preconceito ideológico meu :P)

    Resumindo: texto bom bacarai :-)

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    1. :-) mas o recorte é necessário, não? Eu tô falando daqui, de onde eu me situo, da classe média e tal. Sei que esse negócio de responsabilização é bem diferente, e aí tô falando especificamente do Brasil mesmo. Porque lá em Genebra, como não tem empregada,como a escola pública pega toda a classe média também, acho que é bem mais parecido. Aqui não.

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  2. Também tem o recorte rural/urbano que eu acho que faz diferença. Meus avós eram do meio rural então a gente passava as férias lá e tinha completa divisão de tarefas, de lavar louça, pegar água, arar, etc. O que não era tão legal era a divisão por gênero. No primeiro momento não tinha, meninos e meninas até uns oito anos tanto faziam coisas internas (tipo lavar louça, desarmar rede, etc) como externas (arrancar grama e tal e coisa). Mas depois dessa idade rola (va) uma separação de tarefas de homens e de mulheres. Mas gente de todas as idades entravam na conta.

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    1. Mas mesmo no rural x urbano tem classe, né. Eu conheço uns "rurais" que levam uma equipe inteira pra fazer as tarefas enquanto andam a cavalo....
      Aí, nesse seu, tem um "rural + classe social", tendo a achar. Por isso é que marquei esse recorte (da classe).
      E o de gênero é significativo: porque esses menininhos, os que lá estavam comigo na colônia, tavam ali aprendendo junto com todo mundo o fazer juntos. Não tinha nada disso, todo mundo fazia tudo. Se começar cedo, continua. Espero. Beijo!

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    2. Sim, depende muito do rural. Do tempo e do lugar do rural, acho. É que no meu sertão, os "ricos" ainda assim lavravam, limpavam, etc. Com mais ajudantes, mais trabalhadores, etc. Mas faziam (que isso de ser "rico" depende da referência, né). No caso dos meus avós eram não ricos mesmo, talvez isso ficasse mais claro.

      E sim, o recorte de gênero faz uma diferença enorme.

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