domingo, 22 de maio de 2016

Mudar, ficar e a galera da Ueriri

Um efeito colateral da militância dos meus pais na ditadura era que a gente se mudava. A gente se mudava muito, quando eu era pequena, antes de sair de vez do Brasil. Minha mãe conta que uma vez nas férias eu perguntei a ela: "Mãe, pra que escola eu vou ano que vem?". Eu devia ter uns cinco anos, mas ela se deu conta que, entre jardins de infância e pré-escolar, eu tinha mudado de escola todo ano até ali. Lembro os nomes: Jardim Estrelinha, em São Paulo; depois, Casinha Feliz, na Marquesa de Santos, e por fim Escolinha Girassol, que se não me engano ficava em Ipanema. Da Escolinha Girassol lembro até o nome da minha professora, Claudia, a primeira pessoa que eu vi usar lente de contato, e o de três colegas: Adriana, que era surda e a gente inventava meios de comunicação, Portia, a "Pôxa", que chegou a ser muito minha amiga nessa época, e Drico, meu primeiro amor de bochechas vermelhas. Já mostrando as artes da minha Vênus em Áries, consegui armar pra minha mãe chamar a mãe dele pra ir à praia. Empreendedorismo afetivo, trabalhamos.

Mas quando a gente estabilizou pela primeira vez, em Genebra, eu me dei conta que não era assim pra todo mundo, e que era bom ficar, também. Os desafios de a cada ano começar de novo, se apresentar de novo, conhecer todo mundo.... tinha algo de legal, essa possibilidade de reinvenção permanente. Essa falta de memória alheia. Mas era difícil também. Gerava saudades e faltas. 

E, depois que a gente voltou - e como foi dura a volta, quando não tinha mais pra onde voltar -, fiquei no São Viça. Construí história. Entrei na faculdade, e quando meus pais, os nômades, se mudaram pra Brasília, decretei que não ia. Não ia mesmo. Tava bem, tava feliz, tinha finalmente me adaptado ao Rio de Janeiro (é, demorou uns anos pra gente se entender, o Rio e eu), tinha trabalho.... eu ia ficar. Marcelo acabou ficando também, e a gente ficou mesmo no apê da Moura Brasil, nossa "república". Ju veio uns anos depois, e os amigos todos iam e vinham: ali cabia galera. Saudades, apê da Moura Brasil.

Fiquei. No Rio. Fiz graduação, mestrado e doutorado no teatro de arena da Praia Vermelha. Casei, tive filho, separei, casei de novo, tive outro filho. Saí de Laranjeiras, voltei pra Laranjeiras. Criei raiz. Continuo adorando viajar, mas foi tão bom criar raiz. Eu precisava, me faltava.

E uma das alegrias que isso me trouxe é ter podido proporcionar aos meninos essa estabilidade que me faltou: um convívio duradouro com os avós, os amigos da escola, a vida do bairro.
Ontem, por exemplo, vi foto no feicebuque: a "galera da Ueriri". Os amigos do Felipe, da creche Ueriri, que continuam amigos. Me faz sorrir, me abre o peito: o Felipe, com 21 anos, tem uma galera de amigos que vêm desde a creche. Olha que preciosidade. Mudar tem seus encantos, sem dúvida. Mas ficar permite que exista a galera da Ueriri. 

Lá...

... e agora. Desses nove, seis são de lá.


21 comentários:

  1. A minha história é tão diferente que nem sei comparar. Praticamente a vida toda no mesmo lugar. Almoço e janta em família. Estudei no Juvenal onze anos e desde que saí nunca deixou de ter alguém lá de casa estudando lá. Até hoje tem. Visitei tanto a família da minha família que às vezes me esqueço que não cresci no sertão.

    E, no entanto, água. Horizonte. Fora. Dentro. Eu fico, mas não estou. Sou por enquanto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. sim. minha âncora e meu porto seguro sempre foram Recife. As férias no Recife. Os tios e primos, os avós. Os primos dos primos. Os avós dos primos. Meu chão, meu esteio.

      Excluir
  2. uma vez eu disse que sou de âncora, não de raiz. ou, talvez, seja daquela raiz que sobe, no lugar de descer #abilotada

    de qualquer forma, achei linda a foto da turma do seu filho <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. acho isso uma boa definição. Trepadeira, é?

      Excluir
  3. o meu foi o inverso. Até mudei de casa com os meus pais uma vez. Mas depois que saí da casa dos meus pais já me mudei umas 20 vezes de casa. De ser, ainda tenho que contar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caramba, Claudio! O inverso mesmo.... e o movimento das mudanças foi porque você quis ou porque foi-se deixando levar pelas ondas?

      Excluir
  4. Minhas andanças começaram por conta própria depois que cresci. Nunca mais fui inteira, mas, ah, quantos mundos!

    Nossas histórias, todas deliciosas. :-)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. :) sim, delícia conhecer mundos. Mas separo as pessoas em "enraizadas na infância" e "desenraizadas na infância".... consigo ver bem a diferença....
      Tantão de história boa mesmo... a gente é ótima!

      Excluir
  5. Mudei tanto. Nem sei como dei conta. Sou apegada. Daqui dessa casa, desse lugar, nao sai mais. Aconteca o que acontecer. Canceriana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rs mudança pra canceriano é dolorido mesmo.... mas às vezes ajuda a crescer, acho (frases de incentivo de tia Renata). Não sai mais, Mari? Não pensa mesmo em voltar a morar no Brasil?

      Excluir
  6. Não me mudei tanto quanto você, mas é a primeira vez que fico mais de 7 anos no mesmo lugar (5 no Rio, 7 em SP, 6 no Rio, 7 em Campinas, 6 nos EUA e agora 8 no Rio). E também demorei pra me acertar com o Ridjanêro - nada trivial. http://maffalda.net/2008/02/esta-nossa-casa.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. pois é, voltar pro Rio na adolescência, da gringa, foi meio punk. mas já nos damos muito bem.... :) vou lá ver o texto. beijo!

      Excluir
  7. Você bem sabe o tanto de pontos em comum que a gente tem em relação a despedidas e a mudanças, né? E tem também essa história das raízes que um dia pediram para ser. Ainda por cima com o Rio, lugar onde eu também decidi fincá-las. Só não sabia, embora devesse, sobre você ter precisado de alguns anos pra se entender com a cidade. E o devesse é por conta de eu também ter demorado, não só por conta das diferenças que enxergava entre mim e o Rio, mas por ter ficado um longo tempo acreditando que estava aqui de passagem, "enquanto não ia embora". Só que não ia, então ficava meio cá e meio lá, ou seja, em canto nenhum. E percebi que por fim havíamos nos entendido quando passei a "ficar pra sempre", mesmo que pudesse resolver ir embora. Eram as raízes me segurando, aquelas que eu tinha escolhido fincar.
    Enfim, só vim para dizer que o teu texto acrescentou mais uma parecença entre a gente, não podia deixar de te contar.
    Beijão
    P.S. Ontem tentei muito publicar um comentário a partir do perfil do wordpress, mas não consegui de jeito nenhum. Melhor assim, o comentário era diferente, gostei mais deste

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que estranho... a Tina tb não conseguiu publicar... não sei como resolver. Se você tiver alguma ideia, tá aceita.
      Sobre o Rio, caramba. Foram anos. Mas assim, anos mesmo. Eu conto cinco. Que foram os anos de colégio. Sendo que os dois primeiros foram mais pauleira. Os outros três tinha a Aliança: minha casa, o lugar onde eu me sentia bem. Só me adaptei de verdade quando entrei na faculdade.
      Beijo! Ótimo comentário :)

      Excluir
  8. Sempre lembro do Drummond quando vou falar de raízes: "alguns anos vivi em Itabira/principalmente nasci em Itabira". Até me mudar para o Rio, em 2010, foram 26 anos em BH, onde só me mudei de casa uma vez. Estudei no mesmo colégio dos 4 aos 17 anos.

    E tomei um susto quando me peguei longe das referências da vida toda. O Rio vem sendo um grande estranhamento, e não me parece que a situação vá se resolver - acho que não vai dar pra jogar âncora aqui.

    Mas, por outro lado, ter feito a grande mudança inicial me libertou: em 6 anos, já foram três endereços. E nada impede que venha o quarto. Como alguém disse (acho que foi a Rita), agora carrego minhas raízes num vasinho.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que lindo isso do vasinho! Eu sempre fiz a imagem da tartaruga, de carregar a casa nas costas. Na mochila, no coração. Eu na verdade fui inventar raízes, e descobrir que as tinha. Desenraizada era o que eu me dizia. Fui me replantar.... :)

      Excluir
  9. Muito legal esse seu texto. Me identifico mais com o Felipe. Não tenho amigos de creche, mas tenho os do ginásio. Alvinho, David, Platão, Jorge, Gaguinho, ano que vem, dia 6/3 serão 50 anos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. a resposta anterior foi minha, que vc conhece como Lucinha

      Excluir
    2. Verdade, vocês são uma galera sólida... mas eu construí as minhas tb. Basicamente, a galera da faculdade. Mas tenho dois ou três grandes amigos de colégio: a Pata faz parte desses, veio desde o colégio. Embora a gente tenha ficado amigas mesmo na faculdade...

      Excluir
  10. Sempre gosto muito de te ler, as histórias e tu dentro delas. Não consigo me imaginar sem raiz. Até gostaria de ser menos enraizada e menos identificada com Pelotas e com o pampa, mas aí não seria eu, essa que sei. Os tempos no Rio foram muito duros, me sentia fora da casinha _não que os tempos dentro da casinha sejam tranquilos, já não os sei e nem os tenho mais, se é que tive algum dia_, mas do Rio uma saudade certa é de ti. <3
    beijo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que, fora a questão da raiz, teus tempos de Rio foram particularmente duros por conta das condições.
      E tb sinto saudade dos nossos chopes! Beijo, aparece dia desses.

      Excluir

Comente à vontade. Mas, caso você opte por comentar como "Anônimo", assine de alguma forma, por favor. Fica mais fácil responder.