segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Quental, que vestia a camisa

O nome do rapaz não era mesmo esse: mas vamos chamá-lo assim. Quental era um jovem, de vinte e tantos anos, já casado. Trabalhava numa empresa carioca e por conta disso a gente trabalhou juntos em certa época: eu pela prefeitura, ele pela empresa. 

Quental era bem gente fina e trabalhador, desses que não recusam nenhuma tarefa. Era conversador e olhava todo mundo nos olhos: a gente se dava bem, ou essa foi minha impressão (a dele, só ele sabe). Nesse período de trabalho intenso, porém, o que me impressionou foi a forma como Quental "vestia a camisa". Nunca antes tinha sido apresentada a esse tipo tão comum (como vim a descobrir ao longo da vida) que é o trabalhador que se mistura com a própria firma a ponto de falar a língua do empregador, mesmo nas horas de folga. 

Jovem, já havia "galgado parâmetros" dentro da empresa e tinha um cargo de relativa importância. Orgulhava-se. Do cargo, do crachá, do ambiente da empresa, da sala de reuniões, das baias abertas ("a última novidade", que me horrorizava). Uma vez ou outra tivemos reunião lá na hora do almoço: cardápio cuidado, garçons servindo e... uma sala sem janelas. Nenhuminha. Nem basculantes, nem frestas. Paredes sólidas e opacas. Eu fazia o maior esforço, mas odiava ter que passar duas horas naquele ambiente em que não se via se era dia ou noite, se estava chovendo ou fazendo sol. Uma mostra das alegrias da "vivência-imersão na empresa".

Nunca mais ouvi falar de Quental, e às vezes penso nele: será que continua lá? Será que ascendeu como prometia? Será que ainda está casado? Será que se deu conta que era mais do que aquilo? E caso positivo, o que terá feito? Pode ter dado um chute pra cima em tudo e ido cultivar bromélias em Macaé de Cima (inspirado pelo Eduardo Cão, que não está nessa história). Ou pode apenas ter começado a fazer terapia pra conseguir lidar com as pressões e decepções inerentes ao ambiente corporativo.

Quem saberá. Daqui, do meu cantinho de onde se vê a pedra e o céu azul, vai um abraço pra Quental, generoso, gentil e trabalhador. Desejo-lhe o melhor. Tomara que esteja bem. Qualquer que tenha sido sua escolha. Tomara que não tenha se deixado engolir ou triturar pelas maravilhas dinâmicas da corporação.

(Vai outro abraço, entre parêntesis, pro Eduardo Cão, que não está nessa história, mas insiste em se fazer lembrar).


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