Esse post é de ontem. Porque ontem é que ele fez dezessete anos. Mas eu sabia que ia chorar, eu sabia que precisava tar sozinha e que tinha que ser de manhã.
Então agora vai.
A descrição do título é de um trabalho de escola: a professora de artes (Cacau) pediu para os meninos (na 7a ou 8a, terminologia antiga) fazerem um auto-retrato (grafia antiga - a nova ainda não é obrigatória). Um auto-retrato do que não se via. Acho que era isso. O quadro do Felipe era um soco: sobre um fundo amarelão, um baú escuro entreaberto. Dentro do baú, uns olhos.
Era ele. Era eu na idade dele. Uns olhos de tudo ver, de dentro de um baú. E o mundo em volta, amarelão.
Nunca mais vi o quadro: só na exposição do São Vicente. Ele foi pra casa do pai - coisas de quem tem duas casas. Mas ficou gravado na memória, pelo tanto que continha de verdade. Felipe é assim também: brutalmente franco, sem concessões. É por isso, talvez, que às vezes ele prefere não falar.
Foi com Felipe que eu nasci como mãe, há dezessete anos. A gente aprendeu juntos: ele a ser filho, eu a ser mãe. O começo foi difícil, por conta de um não-esperado linfoma de Hodgkin que eu comecei a tratar quando ele tinha três meses. E no entanto, minha lembrança daquele período é de sol e de alegria. Felipe, bebê de cura, trazia isso tudo e me alimentava todo dia de forças pra ir prá quimio, pros exames novos. (Pronto. Já tô chorando. Sabia.)
Felipe e seus olhos pretos de tudo ver. Olhos que absorvem a luz. A luz do fundo amarelo, de dentro do baú escuro. Por baixo das sobrancelhas escuras, do cabelo escuro.
Pequeno, ele falava pelos cotovelos. Aprendeu a ler muito cedo, e, sobretudo, a escrever. Escrevia histórias ("O menino do cabelo em pé", "A lagartixa de chinelos"), com desenhos, e depois lia pra platéia encantada. Inventava jogos também, jogos de tabuleiro: pula duas casas, volta pro começo... e a gente jogava com ele, no chão da sala.
Em algum momento na passagem, ele foi ficando calado. Entrando, aos poucos, no baú. Olhando, meio de viés, com os olhos de tudo ver.
Desenha, escreve. Artístico por natureza. E aí a gente vislumbra um pouquinho de como vêem os olhos. Mas é só um pouquinho de cada vez. E nem dá pra pedir muito, que corre o risco do baú fechar e pronto. É preciso ter calma e paciência.
Felipe foi a primeira pessoa que eu chamei - e chamo - de "meu amor". Desde sempre. A segunda foi João, irmão dele. E só. Homens são chamados pelo nome, aqui na nossa administração. "Meu amor" é pra Felipe e pra João. Meus amores.
Talvez esse texto surpreenda gente que me conhece há tempos: não costumo falar disso. Não mesmo. Tenho certa irritação de responder a perguntas perfunctórias sobre crianças. Digo "tá tudo bem" e mudo de assunto.
Aqui, talvez, dê pra ver porque: é muito grande. É muito fundo. É muito intenso. E eu (como disse lá no comecinho) sou parecida com Felipe. Tem coisas que a gente deixa dentro do baú. E só de vez em quando... como quando Felipe faz dezessete anos.
Dezessete, já. Ainda.
Viva você, meu amor.

