domingo, 10 de julho de 2011

Cultura, normalidade, democratização da comunicação




Texto-tarefa sempre é um pouco mais difícil de escrever. Mas vamos lá. Tentando.


O título acima é uma síntese que se formou na minha cabeça nos idos de noventa e tal, no auditório da Faculdade Candido Mendes. Estava acontecendo um seminário do PT, de vários dias, e eu fui a praticamente todas as mesas. Aquela que interessa aqui tinha um título que me empolgava pouco, no qual aparecia em destaque a palavra "cultura". Mal sabia eu.

Quem falava na mesa - e eu ouvia pela primeira vez - era o Luis Dulci. E, mineiramente, pelas beiradas, foi introduzindo seu assunto. Que eu engoli, do qual me apropriei, e que desde então se tornou meu (ia dizer "meu também", mas não sei bem o que ele fez com a parte dele. Enfim.). O assunto era assim, mais ou menos: cultura é algo que se constrói junto com a noção de normalidade. Cultura é o que passa de uma geração pra outra, um jeito de fazer, um jeito de olhar que de tão entranhado parece que é "o" jeito. Por isso, quando a gente viaja, quando a gente lê, quando aprende uma língua nova, a gente começa a ampliar o olhar e a se dar conta de que o nosso jeito de ver não é "o" jeito, e sim "um" jeito. Nem melhor nem pior, apenas diferente, como certa escola de samba carioca. E isso muda a gente pra sempre. Porque estica e transforma a própria noção de "normal", que parecia a princípio tão óbvia. Essa ampliação é fundamental para dirimir preconceitos, pra ajudar a apreender o diferente, que nada mais é do que um habitante de outro portal de normalidade. Uma normalidade diversa da nossa.

E o que tem isso tudo a ver com a luta pela democratização da comunicação e dos meios de comunicação? Ora, nossa capacidade de entender e de apreender está, evidentemente, limitada pelas informações que chegam até nós. Nas ditaduras, parece evidente que as informações são restritas, limitadas, censuradas.

Vivemos hoje numa democracia capitalista. Democracia em que os meios de comunicação estão dominados por poucos. No Brasil, particularmente por poucos. Uma só empresa tem tv aberta, radio, jornal, tv a cabo. Tem vários programas difusores de notícias e de informações, em cada um desses espaços. De que informações? De que notícias? Quem decide? Eles lá. Eles definem. Eles levantam a bola ou cortam. E nós recebemos. No Rio de Janeiro, já houve um tempo em que pelo menos dois grandes jornais disputavam o tempo de leitura dos formadores de opinião. Parece pouco, mas agora só tem um. Que diferença. Para pior. Tantas vezes a gente lê uma notícia e pensa "cadê o contraponto?" Cadê o outro lado? O avesso? O lado B da notícia? Não há. Não aparece. Oculto, disfarçado, invisível. Sem espaço.

E o grave problema é que isso restringe o espaço de pensamento. O espaço de entendimento. A gente acaba se acostumando e pensando que ali, naquele veículo único em suas várias formas, é que está a verdade. Ou a verdade possível, panglossianamente. E quando isso acontece, a gente fica com mais dificuldade de olhar para o diferente: de entender que o diferente é a gente também, olhado de outro lado. A gente fica com menos boa vontade para deixar o outro, aquele que discorda, expressar sua opinião também. Porque democracia, à vera, inclui conflito. Permanente. A paz é o silêncio do medo. Na democracia, as calmarias são conquistadas e impermantentes. Viva. Faz parte. Por mais que seja incômodo e que seja mais fácil quando está todo mundo sentadinho em silêncio. Democracia é meio bagunçado.

Como esse texto começou com uma evocação ao PT, fecho com outra: a imagem de Lula dando entrevista ao Casal 20 da Rede Globo, no dia da sua primeira vitória, enquanto o povo o esperava para a comemoração na praça. E eu chorei vendo aquilo. Não de alegria, de dor de pensar em toda a esperança que esse povo tava depositando naquele, um dos seus, que o deixava esperando para prestar homenagem à Rede Globo.

Queria ter visto um pouco mais errado. Fazer o que. A gente é o que é. Mas sempre é tempo: se não deu ali, vamos brigar por isso agora. A briga é boa. Bora?



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hoje, no Corecon RJ, sobre Lei Maria da Penha

Esse é um post impressionista, pra ficar registrado. Hoje à noite teve debate sobre Lei Maria da Penha no Corecon. Como estava envolvida à tarde com outros afazeres, cheguei - que pena - depois da apresentação do pessoal do Teatro do Oprimido. Na hora das falas. Falas boas, fortes. De mulheres. Fiquei particularmente (bem) impressionada com a delegada Márcia Noeli. Porque, vocês sabem. Delegada. Já perdi um monte de preconceitos. Já namorei filho de coronel e uma prima querida é casada com um militar (querido, meu primo também, fique registrado). Então. Mas bom, polícia ainda não tanto. Apesar do Hélio Luz, do Rodrigo Pimentel. Do Zé Rubem Fonseca. Enfim. De eu saber que existem.
A delegada contou de quando entrou na polícia, como detetive. Foi exatamente na época da inauguração da primeira Delegacia de Atendimento à Mulher - DEAM - do Rio de Janeiro. Vai fazer aniversário, agora em 18 de julho. Contou de como ela e suas companheiras (eram 300 no total, acho) eram cotidianamente discriminadas pelos colegas. De como é importante ter um espaço exclusivo de atendimento às mulheres: não por conta da necessidade de algum apartheid de gênero, mas porque a nossa sociedade é tão machista que as mulheres não conseguiam ser atendidas. E explicou que a Lei Maria da Penha foi fundamental para dar respaldo legal a esse atendimento - porque antes, mesmo com DEAMs, não havia legislação específica e tudo era regulado pelo Código de 1940. Com a lei Maria da Penha, passou a haver um instrumento legal adaptado para esse trabalho, o que facilitou em muito a vida de quem se dedica a cuidar das mulheres vítimas de violência.
Foi ótimo. As outras falas também foram, mas reproduzo o básico desta pelo singular.
Eu fui lá e me inscrevi pra contar uma coisa, compartilhar outra. A coisa que contei foi o seguinte: andou me caindo a ficha de um certo incômodo que sinto e ao qual eu não conseguia dar nome (nomear seus demônios é dar-lhes forma definida, dizia Claudia Castelo Branco em encontro do SINARJ.) Sou de família 100% nordestina. Três avós pernambucanos, uma paraibana. Essa, de Areia (PB), tinha a história que eu sempre conto de sua mãe Janinha (minha bisavó), a primeira mulher a montar a cavalo "como homem" na cidade. E minha avó botou os filhos no Colégio Americano Batista de Recife porque era o único misto naquela época. E na minha família, pois - dos dois lados - , na minha família pernambucana, mulher taí e tá na briga. É pra dizer o que pensa. É pra brigar, pra defender, pra discutir. E isso, na minha percepção forasteira, é pouco aceito no liberal e libertário (sua bênção, Alex Castro ) Rio de Janeiro. Outro dia tive discussão acalorada em mesa de bar, com gente libertária, liberal: pois bem, mais uma vez se reproduziu fenômeno que percebo freqüente (nova ortografia só quando for obrigatório): homens olhando de lado, meio nervosos, tensos. Mulher discutindo assim não dá. Elas podem discutir, e eu naquele espaço do PSOL sou aceita e acolhida, não me entendam mal. Sou (até) respeitada, ouso dizer. Mas discutir falando alto, ah, isso não dá.
Vocês tinham que ver o tom das discussões que rolam: nego levanta, bate na mesa, xinga. Tudo na mais santa paz. Todo mundo sabe que aquilo acaba ali mesmo, que é paixão na defesa das idéias. Quando são homens. Quando são mulheres, ah, aí... constrange, né. Porque não é que elas não possam falar: todo mundo tem direito de expressar suas idéias. Mas com elegância, por favor. Falando baixo. E eu tenho um jeito meio estúpido de ser, como já dizia o Rei. Mas é assim que eu sei amar vocês, rapazes. É o meu jeitinho. Os brutos também amam. As brutas também. E as... bom, vocês entenderam. Me lembrou horrível ditado francês, que diz bem o que ele diz: "Sois belle et tais-toi". Seja bonita e cale-se. Simples assim. Porque na verdade, à vera mesmo, a gente aqui por essas plagas ainda é meio que café com leite. Em período de experiência. Handle with care.
E isso eu contei, com vários olhares e acenos aprovadores ("nodding", uma palavra que me faz falta). Que em Genebra, no Recife, em Sampa ou nas redes nacionais em que já trabalhei nunca teve problema: eu falava como eu falo, apaixonadamente, e sempre fui bem recebida. Acolhida. Pelo mérito.
Aqui na Cidade Maravilhosa, purgatório da beleza e do caos, já não. Aqui pode falar. Desde que seja baixo. Desde que não constranja ninguém. Desde que. E agora lembrei - porque é assim que funciona minha desbussolada cabeça - da madrasta da Cinderela (não precisa de link não, né, galera) dizendo pra ela que ela poderia ir ao baile, se.... (arrumasse a casa inteira, lavasse as vidraças, o chão, passasse a roupa, produzisse as irmãs Griselda e Anastácia). E quando as irmãs indignadas dizem "mamãe, você a deixou ir ao baile?" - ela só levanta a sobrancelha, dá um meio sorriso e diz "eu disse SE".
E isso, é claro, é a versão Walt Disney da história. Uma linda recontagem. E sábia.

sábado, 2 de julho de 2011

Gracias por la Vida


Pai, tá chegando perto dos sete anos, né. Sete anos já. Um quarto de ciclo de saturno. A "primeira maturidade" da sua ida pra outras aventuras.
Cacete.
Sete anos e o Brassens continua certo: "oui mais jamais au grand jamais/ son trou dans l'eau ne se refermait/ cent ans après/ putain de sort/ il manquait encore".

[pausa para enxugar rosto, senão não dá pra escrever]

Quando você foi, eu tinha ido ao hospital de manhã, com Marcelo. A gente tinha visto que não tava nada bom. E eu disse a você "se for pra ir, vai. A gente garante aqui. A gente cuida". Não sei se você ouviu, mas você foi.
Na hora, eu tinha acabado de chegar em casa quando mamãe ligou. E eu abracei minha força, chamada Felipe e João. Esse último, tão pequeno. Abracei forte, chorei com eles. Puta que pariu. Não era pra ser ainda. Você era tão novo. O último aniversário que você comemorou, lembra, você disse que dali em diante só iria comemorar os redondos. E os com 5 no fim. De cinco em cinco. Não rolou, você foi com meia quatro.
Pensar que tão pouco tempo antes, em abril daquele ano, você e mamãe tavam em Minas, na Páscoa, preocupados com o estado de saúde de Márcio Moreira Alves. Irônico. Ele ainda ficou por aqui um bom tempo depois que você se foi. Enfim.

Tô aqui escrevendo hoje - quase que perdia o fio da meada no fluxo de memórias - pra te agradecer, cara. Agradecer pelos anos de conversa. Foram 38. Trinta e oito anos, acho que desde que eu nasci que você conversava comigo. E me ouvia. Sobre qualquer coisa.
A gente tinha discussões permanentes e pendentes, como aquela que gerou esse texto aqui, sobre cotas e impressões forasteiras.

Esse texto começou em Garbatella, Piazza Giovanni da Lucca. Numa conversa que rendeu, como tantas. Você a favor das cotas. Você, amigo de Carlos e Glória Moura. Que tinha pressa de resultados. E eu te dizia "mas é melhor um lugar onde as pessoas têm pudor de se assumirem racistas. No Brasil a gente tem problema de castas: as castas não querem se misturar." E na de baixo tem os "paraíbas", tem os negros pobres, tem tanta gente. Você lembrou de um amigo africano (de classe média ou alta, não sei bem) que disse que o Rio era a única cidade no mundo em que ele não se sentia negro. Pois. A conversa continua, tá em aberto. Eu acho a mesma coisa ainda. Mas sempre posso mudar de idéia. Defendo a minha até que me convençam, com unhas e dentes. Mas mudo.

Tinha aquela outra sempre em curso também, sobre reforma agrária. Nessa, você me convenceu e eu passei a defender sua posição. Comecei com aquela idéia tradicional de que para haver reforma agrária direito era preciso, primeiro, montar infraestrutura, estradas, água encanada, eletricidade. E você dizia que nada, tudo isso é desculpa pra não fazer. Distribui terra em massa nesse país pra você ver: a infraestrutura acontece, as sinergias vêm, tudo se cria a partir do fato consumado. Você tinha toda razão e eu defendo. Recente pesquisa organizada pelo companheiro Moacir Palmeira (e outros, acho) mostra exatamente isso: nos lugares onde houve concentração de assentamentos - tão poucos, mas enfim - , as sinergias aconteceram, a infraestrutura "se criou". A partir da demanda. Claro. É assim que funciona.

Foi bonita a festa, pá. Nossa festa. Nossa família. A casinha de nós. E hoje, no Leme, recriamos. Seu lugar tá lá, claro, e a gente fala pros meninos - João, Maria, Antonio, Chico, Joaquim - de você, sempre. Felipe teve mais sorte, por ser mais velho. Conviveu de verdade. Você contou histórias pra ele, levou-o pra tomar sorvete. Ele esteve, sozinho, na casa de vocês em Brasília. Pelo menos um. Tom, Chico e Joca você não conheceu: mas não há de ser nada, eles vão te conhecer. A gente cuida.

...era isso, pai. Por hoje. Um agradecimento pelo respeito, pela liberdade. Pelo respeito à liberdade das idéias que você ensinava pra gente a cada dia. Acho que a gente (Marcelo, Ju, eu) aprendeu. A brigar pelas nossas. A mudar quando convencidos. E isso não tem preço, não é. Não tem. Gracias.
Todo o amor do mundo.
Tata.



terça-feira, 28 de junho de 2011

"Senador Randolfe, tenha juízo!"

.... cara... dá uma preguiça... mas não dá pra não comentar. O Pedro sabia, quando me mandou o link. Então lá vai. Esse título bombástico não é meu não: é daqui, de um textinho de Ricardo Setti.
Que acha que pode dizer, sem mais nem menos, que o Senador Randolfe - que é jovem e de um partido pequeno - "tem minhoca na cabeça" e que seu "projeto"(sic) - é uma emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias, Ricardo Setti - é "estapafúrdio, próximo do ridículo".

Seria bom que as pessoas soubessem do que estão falando antes de falar. Ou, como dizia Mlle Préfumo, minha professora da 4a série na École des Eaux-Vives, "Il faut tourner sept fois la langue dans sa bouche avant de parler". (É preciso girar a língua sete vezes na boca antes de falar, na tradução literal.).

Eu nem conheço o Senador Randolfe. Mas superávit primário eu conheço. Escrevi para o Fórum Brasil do Orçamento, junto com Rodrigo Ávila, um caderno intitulado Superávit Primário (a Flavia Filipini trabalhou numa primeira versão e está devidamente listada como autora, mas não a conheço), cujo subtítulo (vejam lá) dá uma idéia do que pensamos sobre o tema. E não é bom.

Rodrigo e eu somos economistas. Heterodoxos, mas economistas. Não sei da formação completa do Rodrigo, mas sei que ele tem mestrado. Eu também, assim como créditos do doutorado completos (os gringos chamam isso de Doctor ABD = All But Dissertation. Risos.) Ao que me consta, nenhum dos meus professores jamais me considerou "estapafúrdia" ou "ridícula". Irritante, às vezes, possivelmente. Inconveniente, outras. Mas sempre me trataram com consideração e respeito, e até hoje considero o Instituto de Economia da UFRJ um pouco minha casa. Lá sei que posso chegar e serei bem recebida.

A praga do pensamento único acrítico faz com que Ricardo Setti ache que pode ridicularizar o jovem Senador Randolfe em público - sendo que, na verdade, ele é que se ridiculariza aos olhos de quase qualquer economista (ou não-economista) que já tenha, de longe, ouvido falar em Keynes, Kalecki, e, no Brasil, em Conceição Tavares, Mário Possas, Fernando Cardim. Economistas reconhecidos, respeitados, consagrados.

Ricardo Setti não sabe do que está falando: mas, intoxicado pelos eflúvios diários do pensamento único midiático e por sua propaganda do superávit primário como panacéia, acha que pode desqualificar o interlocutor de uma penada. De uma teclada. De um ou dois xingamentos irresponsáveis.

Não, Sr. Setti, não é estapafúrdio querer acabar com a política de metas de superávit primário. E uma pequena pesquisa básica iria mostrar que essa política não existe em nenhum dos países que o senhor provavelmente respeita (esses aí, do primeiro mundo, de gente que sabe das coisas e fala línguas). Se quiser, dê uma olhada lá na nossa cartilhinha, que está precisando ser atualizada (esta semana mesmo falei com Rodrigo a respeito - ficamos de ver com o pessoal do FBO possibilidades de financiamento para uma nova edição). Explica pra leigos, esse é o objetivo dela. E por isso não vou refazer o fio lógico aqui. Esta notinha tem como propósito somente chamar a atenção para o quão deletério é o papel da mídia desinformante nos dias de hoje, que grita palavras de ordem criadas sabe-se lá por quem ou aonde (ou será que se sabe?) e se acha com direito de desqualificar um Senador da República que, talvez por ser mais sério do que a média, notou que essa política, que privilegia o pagamento de dívidas incertas em detrimento de gastos essenciais, nos engessa e impede a realização dos gastos necessários em educação, saúde, segurança.

O curioso é que, abrindo o blog do Senador Randolfe, deparo-me com a notícia: "CCJ do Senado aprova o fim do superávit primário." Tragam os sais para o Ricardo Setti. Ele vai precisar.

domingo, 26 de junho de 2011

O Mistério Insondável da Homossexualidade Masculina

Li no jornal de hoje: cientistas estão descobrindo que os genes femininos e os masculinos não atuam da mesma forma. O que isso há de querer dizer, não sei. Mas gosto.
Queria era falar do meu fascínio pelo homossexualismo masculino. Fascínio em que entra uma pitada de estranhamento; e, sem dúvida alguma, braçadas de admiração.
Mulheres homossexuais não me encantam assim. Afinal, qualquer mulher está a algumas taças apenas do homossexualismo. Mulheres se beijam, se pegam, se acariciam e se admiram sem nenhum pudor. Em que momento é que o afeto entre duas mulheres cruza a fronteira e se assume como uma relação lésbica? Talvez  nunca. Talvez de repente.
Zona cinzenta. Fronteira ampla e acolhedora de tantos subterfúgios, sorrisos, murmúrios, toques e cafunés.
Os homens  não.
Considero o ofício de aprender a ser homem, e sê-lo a cada dia, absurdamente árduo e penoso. “Arbeit macht frei”, ou “o preço da liberdade é a eterna vigilância”.
Homens entre homens - sem beijos (!!!), sem contatos.
No máximo (ao sul do Equador) alguns abraços apertados, repletos das palavras de carinho não pronunciadas, úmidos dos beijos não trocados e dos afagos nem mesmo imaginados.
Território perigoso.
 Nada que uma boa dose de Magnífica não resolva, é verdade. Nos fluidos domínios de Dionísio, barreiras cotidianas podem encontrar porteiras entreabertas. E tudo se esvai na ressaca da manhã seguinte.
Por isso, sair do armário para um homem me parece “verás que um filho teu não foge à luta”. Ou seja, coisa de homem. Opção sem volta. Mudança de país, de costumes, de dialeto. Com armas e bagagens. Ou com a roupa do corpo.
Viva eles. Os que ousaram. Meus heróis.



8.06.06    

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O outro nome do Chopinho

O outro nome do Chopinho Feminino é Lilith. Lilith, a primeira mulher de Adão. Aquela que foi expulsa do paraíso por não aceitar deitar-se por baixo de Adão. E que foi "enquadrada" como bruxa, foi execrada, foi relegada. 
Ela e tudo o que esse feminino aí representa. Como tá em "Mulheres que Correm com Lobos", de Clarissa Pinkola Estés. Feminino livre, feminino que assusta por ser livre. Que não compete, não quer ser igual: ao contrário, afirma-se na sua diferença e na sua originalidade. Lilith, ao contrário de Eva, não foi criada a partir da costela de Adão. 
A pobre Eva era um mero arremedo: um estepe. Já que a verdadeira, a igual, criada junto com Adão, tinha ido embora. Fala sério. Da costela? "Eva coava / o café que Adão tomava..." . Tadinha de Eva. Não é nada disso. Lilith não queria se medir com Adão: só afirmava sua igualdade essencial. 
E esse feminino aí, o da Marcha das Vadias, por exemplo, é o que assusta. É o que precisa ser contido. É contra ele que fala o mané do Danilo Gentili Rafinha Bastos, quando fala de dar de mamar em público com nojo e rejeição. Como se fosse piada. Como se ele pudesse dizer algo sobre isso. Se liga, mané. A gente é que engravida, a gente é que tem filho. Só lamento. A gente é que amamenta. 
Lembro de momentos bonitos de plenárias com agricultoras familiares, gente simples, pé no chão, que não tem com quem deixar os filhos: leva-os, e os amamenta. Ali, ora. Lembro da minha mãe contando das mulheres em Angola, que levam o filho atado às costas com um pano colorido e, na hora de amamentar, giram-no pra frente de um só movimento, simples e básico. Filho mama na mãe. Mãe que tem vida, da qual o filho participa porque mama. Sorry Danilo Gentili Rafinha Bastos.
Isso, pra mim - como tantas outras coisas ligadas ao feminino e aos meus filhos - nunca foi assunto: amamentei Felipe só até três meses, por conta de quimioterapia não-prevista, mas o João, ah, aí eu compensei. Até onze. E, claro, em todo canto em que se fazia necessário. Lembro, por exemplo, da despedida do Gustavo, na casa dele da Urca. Amigos vários. Eu ali. Mostrando o peito pra todo mundo. Sem perguntar, sem discutir. Meu filho. Com fome. Eu não preciso de "lugar isolado". De "canto separado". Eu quero ouvir as conversas, quero tar com todo mundo nessa hora de solidariedade e saudade. Ergo...
todo mundo viu meu peito. E daí? Daí nada. Tá tudo certo. É assim que tem que ser. Tá na ordem das coisas.
E, porque ganhei esse blog da Cacá de aniversário, e o nome dele é este (escolhido por mim), ou porque estou com 45 (quinze e meio + um ciclo de Saturno), é dessas feminices que tenho sentido necessidade de falar.
 Essas mesmas, que foram tão minhas a vida toda. E tão internas, tão silenciosas. Vividas, não discutidas.
Pois agora não.
Agora tenho vontade de contar. Agora me dou conta de que tenho um ponto de vista: o ponto de vista Lilith. E pra isso, imprescindível o nosso Chopinho, esse grupo de mulheres que vivem e trabalham e amam e são mães mas são, antes de tudo, mulheres - com tudo o que isso tem de subversivo, nessa sociedade em que o naturalizado é que homens e mulheres sejam machistas sem nem pensar a respeito.
E aqui faço, pra fechar, uma homenagem às mulheres da minha família, que formaram minha visão do feminino: minha mãe, claro, Lilith até a ponta das unhas. Minha tia Sônia, ascendente aquário, libertária, e também tia Pilar, o contraponto terra de que ela tanto precisa e que a complementa. Livres, apesar de terem sido presas e torturadas, com marcas que doem até hoje. Mas livres no que é essencial. 
Minha irmã Juliana, Lilith elegantérrima, que come sozinha lindamente, mesa posta, de talheres, e que escreveu um dos livros mais Lilith que conheço: Sinceramente Grávida , um livro sobre gravidez de capa azul-escura e que fala de motel, entre várias outras coisas. Onde se fala, inclusive, de uma instituição do Chopinho: a sacola de grávidas, fundamental pra que não se fique presa às roupas pastel de bebê grandão que parecem ser o lote das nossas lojas caretas. 
Por último, quero mandar um grande beijo prá madrinha do blog e do meu filho mais novo, Clarisse Lopes, que faz o lindo trabalho contado no blog Adolescentro Augusto Boal com paixão, persistência taurina e muita, muita competência. Viva você, Cacá!
... E aqui, pra variar, fico com os olhos cheios de lágrimas de novo. Lilith chora. Faz parte, homens. Não precisam ficar com medo. Faz parte.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Viva Ricardo Boechat

Estou escrevendo enquanto ouço a ótima reportagem de Ricardo Boechat sobre a situação dos bombeiros, na Bandnews FM no dia 6 de junho. Boechat é um dos nossos bons jornalistas - e nesse caso específico, honrou a profissão. Acho que todo jornalista que se preze há de ficar orgulhoso ao ouvir esse audio (no final do post). Um exemplo de um jornalismo que rarissimamente se faz no Brasil: informado, engajado, comprometido. Jornalismo sério.
Claro que não podia dar certo. Dizem que ele tá sumido desde que o programa foi ao ar. Me falaram que ele estaria doente, mas isso foi desmentido. Que pena. Que pena que a Band News não peitou o governador, não ficou ao lado do seu repórter quando este nada mais fazia do que o melhor que um repórter pode fazer - taí o Robert Fisk que não me deixa mentir (como costuma dizer meu irmão -jornalista - "inglês é Fisk".). Taí o pessoal do Monde Diplomatique - Ignacio Ramonet, Serge Halimi e companhia. Engajados, comprometidos, informados. Como Boechat na matéria sobre os bombeiros - contracheque de um bombeiro na mão e muita coisa pra dizer sobre a desastrosa invasão do quartel pelo BOPE, depois que a tropa de choque se recusou a fazer esse triste papel.
É isso.
Um post pequeno, de alegria pela coragem. De apoio a Ricardo Boechat. Viva ele. Que ousou enfrentar nosso tresloucado desgovernador. (E eu nem preciso de coragem pra dizer isso: não sou empregada de nenhum meio de comunicação).
Não deixe de clicar no link. E divulgue. Boechat merece.
Boechat - Band News, 6 de junho de 2011
P.S. Chegou-me a notícia de que Boechat tá fora por stress. Beleza. Mas que tem macumba do governador, ah, isso tem.