segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Idéias de economia política, molengamente

("molengamente" eu descobri aqui; ia botar adagio, mas gostei mais desse...)


O título dá idéia. Pra dizer que não tá nada exatamente organizado. Por isso eu demoro pra escrever sobre economia: porque fico achando que vou parar, consultar, linkar, estruturar e... não escrevo. Aí esse vai assim mesmo. Molengamente, sem pressa, mas com alguma elegância. Comme il faut.


[pausa prá maquiagem. 
Ok.]


Então. A inspiração foi do último dia do seminário da AKB , que começou lindamente com minicurso de Cardim e Kregel, e fechou - pra mim - com uma mesa de bem-jovens (quando o Summa é a segunda pessoa mais velha da sala, eu me sinto avó dos participantes, né... se bem que... em termos de maturidade, aí já não...) sobre política fiscal, amigos e simpatizantes. A mesa foi inspiradora mesmo, e animadora: se o povo da novíssima geração tá pensando essas coisas, já vale a pena pensar em conversar. Porque a gente se sente menos dinossauro. Adorei, mesmo. Que bom que eu fui.


Só fiz um comentário pequeno ao final, sobre uma fala da Viviane. Mas não era crítica a ela: era só algo que me ocorreu comentar, até porque eu já tava pensando em escrever sobre isso, até porque a minha não-tese versa sobre isso - ou melhor, tem esse pressuposto como pano de fundo e justificativa. Quem sabe, agora com o MBA em Gestão Pública e Inovação, ela sai. O MBA também tá sendo inspirador. Mas voltando...
O comentário usava dois textos como referência: o primeiro era o do Colander, "Was Keynes a Lernerian?" O gist desse texto é que, se o Keynes for levado às últimas conseqüências  (grafia antiga enquanto pode), se chega no Lerner e no déficit de pleno emprego das finanças funcionais; mas, diz Colander, Keynes não era Lerneriano. Digo eu: era burguês e assim se comportava, claramente e escancaradamente. Por isso não gostava dessa idéia e advogava o gasto público como forma de contrabalançar estragos excessivos do capitalismo. Mas não como ação de Estado permanente.


O segundo texto é aquele do Kalecki, "Aspectos políticos do pleno emprego" (link prá versão em inglês, mas tem em português), que, na minha opinião, todo economista que se diz de esquerda deveria ler. Como vários outros do Kalecki. Kalecki era polonês e isso se via na sua forma de analisar a economia. E esse texto, acho, é o nde se vê melhor isso. Claramente. Kalecki se pergunta se é do interesse da sociedade capitalista que se chegue ao pleno emprego, e responde pela negativa. Claro que não. Com pleno emprego, a balança de forças fica mais equilibrada: ou, do ponto de vista de quem manda hoje, mais desequilibrada, já que passa a pender mais para o lado dos frascos e comprimidos. Dos que não tem. Dos que, enfim. A gente sabe quem são. E eles também. 



O comentário que eu fiz lá na AKB era esse: juntando esses dois textos, eu (e outros, mas enfim) defendo veementemente que o Estado tem que se fazer sempre presente na economia - com um volume de gastos importante. Em termos macro, G/Y (G= gasto, Y= PIB ou renda agregada) tem que ser significativo. E, vejam vocês, não estou falando de déficit ou superávit público. Porque isso se dá a partir do G-T, sendo T= tributos líquidos de transferências. E como T=t(Y), ou seja, os tributos dependem da própria renda gerada - e isso é fácil de ver quando pensamos no imposto de renda - o resultado déficit -> G-T<0 ou superávit -> G-T>0 só vai ser sabido no final. No final de quê? Do período analisado. Que é arbitrário: o chamado "ano fiscal". Vai depender também da estrutura tributária. Dos tempos dos fluxos. De tanta coisa. Mas a participação do governo no PIB, em volume, se dá a partir dos gastos, que geram PIB - e emprego, e rendas derivadas a partir do multiplicador. 


Quando do 11/09, o governo americano não só gastou como mandou gastar: providência primeira.
A Europa agora está enredada num angu de caroço criado porque, com Banco Central independente e conservador paca, os países entram em crise e não conseguem sair dela. Sem contar que o "receituário da crise" só piora a própria, já que manda em primeiro lugar reduzir os gastos. (E notem que nem tô falando da taxa de juros. Nem vou. Isso é outra discussão, que agrava ainda mais).


Espero que tenha dado pra entender o ponto. Se não deu, esperneiem. Comentem. Critiquem. Porque eu acho isso. Acho muito. E cada vez mais.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Declaração de amor ao Rio e a Laranjeiras

Outras pessoas já fizeram, lindas. Eu mesma, quando saí do armário como carioca, já fiz também, num texto que se chama "Cidade Conquistada". Mas de repente, porque a tarde tá suave, porque da minha janela dá pra ver a pedra e o verde, porque o domingo foi regenerador e eu passei boa parte dele (aquela em que eu não tava cozinhando) na Praça São Salvador, onde chegavam ondas de amigos, vinham, ficavam, passavam, enquanto eu tomava Magnífica envelhecida da barraca do Luizinho (e pela primeira vez ouvi ele contando como começou a vender discos, quando na verdade vendia era bebida) e achava que a vida tem seus rasgos de maravilhoso, esse texto veio como uma confirmação. 

Tá vindo, né. Porque eu começo a escrever como alguém que é tragado por uma onda e nunca sabe bem onde vai parar: descubro no final, quando acaba. Normalmente, com um certo alívio e uma sensação de ter chegado a uma praia. Qual, nunca sei bem, e vou descobrindo à medida que revisito os textos como se não fosse eu mesma que os tivesse escrito. 
(Parece papo pra boi dormir de gente neoblogueira deslumbrada: não é não. Deslumbrada eu tô mesmo mas é com esse jeito semiautomático de escrever que eu nem sabia que me habitava. Ou tão pouco.)

Então. Eu, forasteira. Pra sempre forasteira, quase nascida na Argélia (se minha mãe não tivesse voltado), que vi a luz pela primeira vez no cinza de Sampa, que fui saída de lá antes que o sotaque se arraigasse (graças a Deus, e me perdoem os paulistas que me lêem: sou mais o meu, apesar de achar o deles engraçadinho), que fui saída (dessa vez pela polícia que bateu na minha casa à procura do meu pai quando eu não tinha oito ainda) pra Genebra - de onde sou bastante: afinal sei cantar cé qué l'ainò em patois, as músicas da Escalade e conheço a história da Confederação Helvética direitinho, com direito a participação de Rodolfo de Habsburgo e dos cantôes originais: Uri, Schwitz e Unterwald -, e que aportei numa dolorosa pré-adolescência nas Laranjas de onde tinha saído em 74, na General Glicério, por obra e graça dos Ceccon cuja função na (minha) vida é encontrar apês pros Lins. Normalmente na frente do deles. Como na XXXI décembre. E na General.

Mas divago, pra variar. Onda leva, onda traz pensamentos e sentimentos. E o grande aqui, que vira onda de gratidão, é pelas Laranjas que me acolheram, com suas praças, com seu verde, com seu ar de quase-bairro do interior. De quase-não Zona Sul. De onde saí por dez anos, já adulta, e pra onde voltei com mensagem aos amigos: "voltei pra casa". E acharam  que eu tava me separando, mas minha casa é mesmo o bairro das Laranjas, onde morei na Ben Gurion quando Ju nasceu, na Gago Coutinho antes, na Moura Brasil de saudosa memória (ah, o apê da Moura Brasil... once in a lifetime. Mas valeu), e agora na Mario Portela (que eu só parei de confundir com a Cardoso Jr quando vim morar nela). 

As Laranjas da pracinha do chorinho, da feirinha onde conheci a linda Tati dos bijoux que me enfeitam pra sempre. Onde o Luizinho também ancora sua barraca aos sábados, e o Afonso prepara caipirinha de tangerina com gengibre, sem açúcar. Onde compro fantásticos CDs. Roupas, sapatos. Tudo com cara de feito pra mim. Porque, galera, entro e saio de chopins (nas raras vezes em que) sem nem olhar pras vitrines. Mas bota uma barraquinha na minha frente: tia Zèlia, tia Goia iriam ficar orgulhosas de mim. Viro Pimentel, olho tudo, negocio, consigo preços, descontos, pagamento facilitado e... levo. Porque foi feito pra mim, né. 

Do Maya, do café da manhã de sábado e domingo e dos encontros com o povo das Laranjas. Porque aí é que tá tudo, e assim explicava eu prá Mirela que tão bem se integrou (que ela já era daqui e não sabia): o lindo das Laranjas é a galera, que a gente vai encontrando, na feira, no chorinho, no Cardosão depois, e no domingo na São Salva, no outro chorinho. A gente se vê, se encontra, conversa um pouco, cidade de interior. 

E eu, a forasteira, a desgarrada das gentes, de repente descubro, com encanto e alegria, que me enraizei: me enraizei nas Laranjas, o lugar onde já morei mais tempo na vida, e onde me reencontro comigo no meio da minha galera. 

E ele, que é meio desgarrado também, traduz lindamente o que quero dizer nessa música que é meio mantra. Meio mantra disso tudo e de tudo um pouco. Viva. 



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Estados Unidos, dignidade e inveja


… e então ela me disse que não apenas quer, mas tem o plano concreto de morar nos Estados Unidos, porque lá todo mundo tem o direito a uma vida digna. Você sabe, digna – lá, qualquer um pode ter um carro que aqui a gente não consegue pagar nem em vinte e quatro prestações, para não falar em iPad e TV de tela plana.
E eu, que amo os Estados Unidos, invejei a pessoa, que aparentemente desconhece os conceitos de Medicare, dívida pública e Partido Republicano. A mesma pessoa que tem um plano de saúde privado perfeitamente compatível com sua renda; cuja mãe há pouco tempo operou pelo SUS; e que, para deixar tudo ainda mais divertido, tem seu próprio iPad e sua própria TV de tela plana, aqui na terra-sem-lei mesmo.
Invejei a pessoa para quem os Estados Unidos, de 1950 para cá, não mudaram nada e continuam sendo a terra das oportunidades para pobres estrangeiros desvalidos. Vai ver, aliás, ela está certa. Há quem concorde que nada mudou de 1950 para cá: aparentemente, seguimos todos lutando o bom combate contra o socialismo. Comunismo. Essasporra. É estarrecedor constatar que esta é a conversa dos adultos nos Estados Unidos: como impedir Obama de implantar seus programas socialistas nos Estados Unidos? (Todos põe a mão no queixo.) Repare que não é o tio Rei que está falando. O tio que está falando foi consultor de Bill Clinton por vinte anos. Não é um tio qualquer.
E esta é a conversa das adultas que tive no Brasil: seria possível levar uma vida digna aqui, onde não somos respeitados em nossos direitos de consumidores?
Então eu, que amo a pessoa, recusei-me a discutir não os já mencionados conceitos de política e economia, que desses eu nem entendo, mas os simples conceitos de green card e imigração ilegal. Pois pelo visto minha amiga também os desconhece, e uma vez na vida não seria eu a mala-sem-alma a arruinar o sonho de vida alheio. Ou antes, tentar arruinar, pois quem garante que eu conseguiria? Claramente, uma vida nos Estados Unidos onde leite, mel e produtos Apple jorram das torneiras desempenha uma função muito importante em sua vida psíquica – e, se nem a Veja foi capaz de miná-la, por que eu o faria?
Morei dois anos maravilhosos nos Estados Unidos. Da minha torneira jorravam um delicioso iogurte búlgaro e chardonnay californiano barato, mas o único produto Apple que eu tive, e continuo tendo até hoje, é o iPod mais vagabundo de todos.
Então, quando leio sobre os Estados Unidos, eu me preocupo. Eu me importo, eu torço por aquele lugar.
Minha amiga não tem preocupação alguma. Para ela, está tudo certo – tudo muito bem resolvido em sua cabeça. Estados Unidos, land of the free. O país onde terei uma vida digna.
Invejo minha amiga de um tanto que chega a doer.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Valeu, Piramba. Até já.


Caro,
tô procrastinando, coisa que faço bem paca.
Aí nada como uma madruga... passei mal ontem, aí tô aqui a esta untimely hora. Pra me despedir com alguma decência.
Escrevo e lágrimas vêm direto: lágrimas de lembranças da nossa convivência recente, virtualmente intensa, presencialmente pontual. Lembro do nosso encontro na escadaria da Alerj, no episódio dos bombeiros. Você olhou pra mim e murmurou: "se esses caras começarem a rezar, eu vou embora". Começaram. Você não foi, apenas virou de costas e olhou pra cima, suspirando. Eu rindo.

A última vez que te vi foi no Lume, mas a gente apenas se cumprimentou. Reconhecimento. Sinal de pertencer a um coletivo. Tão importante pra mim, desgarrada... você nem sabe.
(lágrimas correm soltas, agora. Mas faz parte. É homenagem. Vai em paz. Não é pra te reter, é só falta mesmo.).

Mas no virtual a gente se encontrava era muito.

Outro dia mesmo o Gilson e eu távamos tirando sarro (docemente) das suas declarações de amor online à Luciene Lacerda. E você botava. Vi outro dia a foto: "no bar do Costa, muito bem acompanhado". A foto era dela, claro. Lindos vocês. Lindas as declarações. Nós mulheres invejamos geral gente que tem essa coragem. De falar em público. Ainda mais com sua elegância.

Outro dia mesmo eu dizia, no tuíter : "pessoa mais inspirada da minha TL é Paulo Piramba". E era. Você tava fazendo graça com Dilma e jogos infantis:

"Dilma abre os Jogos Militares e diz que seu objetivo é a Africa, a Oceania e mais 24 territorios"
"Dilma qual foi o jogo dos militares? Abre aí RT : ahahahahahah... eu hj defendi aqui ela abrir. Vc acha q não?"

Li um monte pro AdeA nesse dia, rindo alto. Você disse que tinha voltado do Bar do Costa animadinho.
E tinha o #SigaSocialista, onde vc me incluía e eu tinha tanto orgulho.
E tinha o #eblog, onde você tinha chegado há pouco, e já dava opinião com respeito e sabedoria. Eu brinquei dizendo que minha concordância com você era geracional, fora você eu era a mais velha do grupo (tinha esquecido do Mário, mas não faz tanta diferença assim).
Quando ouvi, em Mauá, à 1:30 da manhã, o recado da Luka, tava indo dormir e chorei um monte. Pensava que minha TL ia ficar tão mais sem graça. Que pensamento egoísta, né. Mas é assim que a gente sente, fazer o quê.

Cheguei de Mauá no domingo e fui pro Catumbi. Não tava todo mundo lá, mas quase. Na hora da saída do caixão uma Internacional baixinho. A gente subiu aquele monte de escada e lá em cima ecoou o grito: "Paulo Piramba, presente!".

Pensei em você indo em direção à luz como me ensinaram, como eu já comentei por aqui que faço sempre. Porque nem deu tempo de te contar que eu acredito em coisas... que não sou de religião nenhuma, mas gosto de um monte delas. Entro e sento em igrejas, em templos vários. Participo de rituais com gosto e alegria. Tudo o que religa é comigo mesmo. Eu ia te contar, um dia desses. Porque a gente ainda ia conversar um tanto.

A gente ainda vai, né. Agora assim: eu daqui, e você daí. Pedi a K, ao Jayme, pra te receberem bem por aí, como tinha feito com Roque no começo da semana.
PQP. que semana.
Cara, é isso.
Doeu mas afinal consegui. Kind of.
Outro dia a gente fala mais.
Deixo o link da sua TL, pra quem quiser dar uma olhada e conhecer a figura que você era.

E o vídeo no youtube da sua participação no seminário do Enlace de outubro de 2010.



Até mais ver, companheiro. A gente continua. E você continua com a gente.









quinta-feira, 14 de julho de 2011

A desgarrada das gentes

Tem um conto de Machado de Assis que se chama "A Desejada das Gentes". E eu sempre lembro como se fosse "A Desgarrada das Gentes". Porque, né - precisa dizer? - essa aí sou eu. Eu na origem. Eu que hoje tenho galeras, tantos amigos, tantos queridos. Mas lá dentro, vive ainda a menina que tinha frio de gente. Que sonhava fogueiras de propaganda de Marlboro. Que olhava para o mundo com os olhos sombrios, os mesmos que reencontra hoje no rosto da cria . Olhava de viés. Com tanto desejo e medo. Com tanta vontade e incompreensão. Com tanto. Vastas emoções e pensamentos (muito) imperfeitos.

Eu não deixo nada ir: mapa sem ar, sabem como é. Sou que nem árvore, acumulo camadas. O que quer dizer que a menina dos olhos sombrios vive em mim. Dói em mim. Mesmo no meio das galeras, no meio das festas. A menina é que me ajuda, por exemplo, quando faço mapas. Ela é que sabe encontrar o ponto de dor de quem tá na minha frente. Ela, em carne viva sempre. E pra sempre. As camadas protegem, disfarçam. Mas qual. Tá tudo igual. Só tem mais estrada. Que dá tarimba e jogo de cintura, mas não muda a estrutura.

A metáfora, na época, para o descompasso entre o jeito-brucutu e o interno-carne viva era a de um jardim que tinha sido pisado por coturnos, e por isso tinha se protegido com arame farpado. Não machucava muita gente: só afastava, e gerava o frio. Frio permanente.

(lembro do vento de Genebra, que tem até estátua na beira do lago e cortava narizes e orelhas nas manhãs de inverno escuro em que Marcelo preparava meu Nesquick e me apressava para a escola: la Bise).

...mas aos poucos foi dando. Fui entendendo como. Fui aprendendo a me comunicar e a não assustar tanto. Hoje quem chega sabe que é bem chegado. Que pode sentar, que pode até tirar os sapatos, quem sabe.
É estratégia de risco: porque às vezes a carne viva, tão tenra, tão frágil, ainda é ferida.
Mas faz parte.
Melhor isso do que o frio.

Nunca mais o frio.

Nunca mais.

Podem chegar, são bem-chegados. Ali tem café, ali tem uma sopa quentinha. A rede tá à disposição. Sejam bem-vindos. A menina se alegra.




domingo, 10 de julho de 2011

Cultura, normalidade, democratização da comunicação




Texto-tarefa sempre é um pouco mais difícil de escrever. Mas vamos lá. Tentando.


O título acima é uma síntese que se formou na minha cabeça nos idos de noventa e tal, no auditório da Faculdade Candido Mendes. Estava acontecendo um seminário do PT, de vários dias, e eu fui a praticamente todas as mesas. Aquela que interessa aqui tinha um título que me empolgava pouco, no qual aparecia em destaque a palavra "cultura". Mal sabia eu.

Quem falava na mesa - e eu ouvia pela primeira vez - era o Luis Dulci. E, mineiramente, pelas beiradas, foi introduzindo seu assunto. Que eu engoli, do qual me apropriei, e que desde então se tornou meu (ia dizer "meu também", mas não sei bem o que ele fez com a parte dele. Enfim.). O assunto era assim, mais ou menos: cultura é algo que se constrói junto com a noção de normalidade. Cultura é o que passa de uma geração pra outra, um jeito de fazer, um jeito de olhar que de tão entranhado parece que é "o" jeito. Por isso, quando a gente viaja, quando a gente lê, quando aprende uma língua nova, a gente começa a ampliar o olhar e a se dar conta de que o nosso jeito de ver não é "o" jeito, e sim "um" jeito. Nem melhor nem pior, apenas diferente, como certa escola de samba carioca. E isso muda a gente pra sempre. Porque estica e transforma a própria noção de "normal", que parecia a princípio tão óbvia. Essa ampliação é fundamental para dirimir preconceitos, pra ajudar a apreender o diferente, que nada mais é do que um habitante de outro portal de normalidade. Uma normalidade diversa da nossa.

E o que tem isso tudo a ver com a luta pela democratização da comunicação e dos meios de comunicação? Ora, nossa capacidade de entender e de apreender está, evidentemente, limitada pelas informações que chegam até nós. Nas ditaduras, parece evidente que as informações são restritas, limitadas, censuradas.

Vivemos hoje numa democracia capitalista. Democracia em que os meios de comunicação estão dominados por poucos. No Brasil, particularmente por poucos. Uma só empresa tem tv aberta, radio, jornal, tv a cabo. Tem vários programas difusores de notícias e de informações, em cada um desses espaços. De que informações? De que notícias? Quem decide? Eles lá. Eles definem. Eles levantam a bola ou cortam. E nós recebemos. No Rio de Janeiro, já houve um tempo em que pelo menos dois grandes jornais disputavam o tempo de leitura dos formadores de opinião. Parece pouco, mas agora só tem um. Que diferença. Para pior. Tantas vezes a gente lê uma notícia e pensa "cadê o contraponto?" Cadê o outro lado? O avesso? O lado B da notícia? Não há. Não aparece. Oculto, disfarçado, invisível. Sem espaço.

E o grave problema é que isso restringe o espaço de pensamento. O espaço de entendimento. A gente acaba se acostumando e pensando que ali, naquele veículo único em suas várias formas, é que está a verdade. Ou a verdade possível, panglossianamente. E quando isso acontece, a gente fica com mais dificuldade de olhar para o diferente: de entender que o diferente é a gente também, olhado de outro lado. A gente fica com menos boa vontade para deixar o outro, aquele que discorda, expressar sua opinião também. Porque democracia, à vera, inclui conflito. Permanente. A paz é o silêncio do medo. Na democracia, as calmarias são conquistadas e impermantentes. Viva. Faz parte. Por mais que seja incômodo e que seja mais fácil quando está todo mundo sentadinho em silêncio. Democracia é meio bagunçado.

Como esse texto começou com uma evocação ao PT, fecho com outra: a imagem de Lula dando entrevista ao Casal 20 da Rede Globo, no dia da sua primeira vitória, enquanto o povo o esperava para a comemoração na praça. E eu chorei vendo aquilo. Não de alegria, de dor de pensar em toda a esperança que esse povo tava depositando naquele, um dos seus, que o deixava esperando para prestar homenagem à Rede Globo.

Queria ter visto um pouco mais errado. Fazer o que. A gente é o que é. Mas sempre é tempo: se não deu ali, vamos brigar por isso agora. A briga é boa. Bora?



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hoje, no Corecon RJ, sobre Lei Maria da Penha

Esse é um post impressionista, pra ficar registrado. Hoje à noite teve debate sobre Lei Maria da Penha no Corecon. Como estava envolvida à tarde com outros afazeres, cheguei - que pena - depois da apresentação do pessoal do Teatro do Oprimido. Na hora das falas. Falas boas, fortes. De mulheres. Fiquei particularmente (bem) impressionada com a delegada Márcia Noeli. Porque, vocês sabem. Delegada. Já perdi um monte de preconceitos. Já namorei filho de coronel e uma prima querida é casada com um militar (querido, meu primo também, fique registrado). Então. Mas bom, polícia ainda não tanto. Apesar do Hélio Luz, do Rodrigo Pimentel. Do Zé Rubem Fonseca. Enfim. De eu saber que existem.
A delegada contou de quando entrou na polícia, como detetive. Foi exatamente na época da inauguração da primeira Delegacia de Atendimento à Mulher - DEAM - do Rio de Janeiro. Vai fazer aniversário, agora em 18 de julho. Contou de como ela e suas companheiras (eram 300 no total, acho) eram cotidianamente discriminadas pelos colegas. De como é importante ter um espaço exclusivo de atendimento às mulheres: não por conta da necessidade de algum apartheid de gênero, mas porque a nossa sociedade é tão machista que as mulheres não conseguiam ser atendidas. E explicou que a Lei Maria da Penha foi fundamental para dar respaldo legal a esse atendimento - porque antes, mesmo com DEAMs, não havia legislação específica e tudo era regulado pelo Código de 1940. Com a lei Maria da Penha, passou a haver um instrumento legal adaptado para esse trabalho, o que facilitou em muito a vida de quem se dedica a cuidar das mulheres vítimas de violência.
Foi ótimo. As outras falas também foram, mas reproduzo o básico desta pelo singular.
Eu fui lá e me inscrevi pra contar uma coisa, compartilhar outra. A coisa que contei foi o seguinte: andou me caindo a ficha de um certo incômodo que sinto e ao qual eu não conseguia dar nome (nomear seus demônios é dar-lhes forma definida, dizia Claudia Castelo Branco em encontro do SINARJ.) Sou de família 100% nordestina. Três avós pernambucanos, uma paraibana. Essa, de Areia (PB), tinha a história que eu sempre conto de sua mãe Janinha (minha bisavó), a primeira mulher a montar a cavalo "como homem" na cidade. E minha avó botou os filhos no Colégio Americano Batista de Recife porque era o único misto naquela época. E na minha família, pois - dos dois lados - , na minha família pernambucana, mulher taí e tá na briga. É pra dizer o que pensa. É pra brigar, pra defender, pra discutir. E isso, na minha percepção forasteira, é pouco aceito no liberal e libertário (sua bênção, Alex Castro ) Rio de Janeiro. Outro dia tive discussão acalorada em mesa de bar, com gente libertária, liberal: pois bem, mais uma vez se reproduziu fenômeno que percebo freqüente (nova ortografia só quando for obrigatório): homens olhando de lado, meio nervosos, tensos. Mulher discutindo assim não dá. Elas podem discutir, e eu naquele espaço do PSOL sou aceita e acolhida, não me entendam mal. Sou (até) respeitada, ouso dizer. Mas discutir falando alto, ah, isso não dá.
Vocês tinham que ver o tom das discussões que rolam: nego levanta, bate na mesa, xinga. Tudo na mais santa paz. Todo mundo sabe que aquilo acaba ali mesmo, que é paixão na defesa das idéias. Quando são homens. Quando são mulheres, ah, aí... constrange, né. Porque não é que elas não possam falar: todo mundo tem direito de expressar suas idéias. Mas com elegância, por favor. Falando baixo. E eu tenho um jeito meio estúpido de ser, como já dizia o Rei. Mas é assim que eu sei amar vocês, rapazes. É o meu jeitinho. Os brutos também amam. As brutas também. E as... bom, vocês entenderam. Me lembrou horrível ditado francês, que diz bem o que ele diz: "Sois belle et tais-toi". Seja bonita e cale-se. Simples assim. Porque na verdade, à vera mesmo, a gente aqui por essas plagas ainda é meio que café com leite. Em período de experiência. Handle with care.
E isso eu contei, com vários olhares e acenos aprovadores ("nodding", uma palavra que me faz falta). Que em Genebra, no Recife, em Sampa ou nas redes nacionais em que já trabalhei nunca teve problema: eu falava como eu falo, apaixonadamente, e sempre fui bem recebida. Acolhida. Pelo mérito.
Aqui na Cidade Maravilhosa, purgatório da beleza e do caos, já não. Aqui pode falar. Desde que seja baixo. Desde que não constranja ninguém. Desde que. E agora lembrei - porque é assim que funciona minha desbussolada cabeça - da madrasta da Cinderela (não precisa de link não, né, galera) dizendo pra ela que ela poderia ir ao baile, se.... (arrumasse a casa inteira, lavasse as vidraças, o chão, passasse a roupa, produzisse as irmãs Griselda e Anastácia). E quando as irmãs indignadas dizem "mamãe, você a deixou ir ao baile?" - ela só levanta a sobrancelha, dá um meio sorriso e diz "eu disse SE".
E isso, é claro, é a versão Walt Disney da história. Uma linda recontagem. E sábia.