Outras pessoas já fizeram, lindas. Eu mesma, quando saí do armário como carioca, já fiz também, num texto que se chama "Cidade Conquistada". Mas de repente, porque a tarde tá suave, porque da minha janela dá pra ver a pedra e o verde, porque o domingo foi regenerador e eu passei boa parte dele (aquela em que eu não tava cozinhando) na Praça São Salvador, onde chegavam ondas de amigos, vinham, ficavam, passavam, enquanto eu tomava Magnífica envelhecida da barraca do Luizinho (e pela primeira vez ouvi ele contando como começou a vender discos, quando na verdade vendia era bebida) e achava que a vida tem seus rasgos de maravilhoso, esse texto veio como uma confirmação.
Tá vindo, né. Porque eu começo a escrever como alguém que é tragado por uma onda e nunca sabe bem onde vai parar: descubro no final, quando acaba. Normalmente, com um certo alívio e uma sensação de ter chegado a uma praia. Qual, nunca sei bem, e vou descobrindo à medida que revisito os textos como se não fosse eu mesma que os tivesse escrito.
(Parece papo pra boi dormir de gente neoblogueira deslumbrada: não é não. Deslumbrada eu tô mesmo mas é com esse jeito semiautomático de escrever que eu nem sabia que me habitava. Ou tão pouco.)
Então. Eu, forasteira. Pra sempre forasteira, quase nascida na Argélia (se minha mãe não tivesse voltado), que vi a luz pela primeira vez no cinza de Sampa, que fui saída de lá antes que o sotaque se arraigasse (graças a Deus, e me perdoem os paulistas que me lêem: sou mais o meu, apesar de achar o deles engraçadinho), que fui saída (dessa vez pela polícia que bateu na minha casa à procura do meu pai quando eu não tinha oito ainda) pra Genebra - de onde sou bastante: afinal sei cantar cé qué l'ainò em patois, as músicas da Escalade e conheço a história da Confederação Helvética direitinho, com direito a participação de Rodolfo de Habsburgo e dos cantôes originais: Uri, Schwitz e Unterwald -, e que aportei numa dolorosa pré-adolescência nas Laranjas de onde tinha saído em 74, na General Glicério, por obra e graça dos Ceccon cuja função na (minha) vida é encontrar apês pros Lins. Normalmente na frente do deles. Como na XXXI décembre. E na General.
Mas divago, pra variar. Onda leva, onda traz pensamentos e sentimentos. E o grande aqui, que vira onda de gratidão, é pelas Laranjas que me acolheram, com suas praças, com seu verde, com seu ar de quase-bairro do interior. De quase-não Zona Sul. De onde saí por dez anos, já adulta, e pra onde voltei com mensagem aos amigos: "voltei pra casa". E acharam que eu tava me separando, mas minha casa é mesmo o bairro das Laranjas, onde morei na Ben Gurion quando Ju nasceu, na Gago Coutinho antes, na Moura Brasil de saudosa memória (ah, o apê da Moura Brasil... once in a lifetime. Mas valeu), e agora na Mario Portela (que eu só parei de confundir com a Cardoso Jr quando vim morar nela).
As Laranjas da pracinha do chorinho, da feirinha onde conheci a linda Tati dos bijoux que me enfeitam pra sempre. Onde o Luizinho também ancora sua barraca aos sábados, e o Afonso prepara caipirinha de tangerina com gengibre, sem açúcar. Onde compro fantásticos CDs. Roupas, sapatos. Tudo com cara de feito pra mim. Porque, galera, entro e saio de chopins (nas raras vezes em que) sem nem olhar pras vitrines. Mas bota uma barraquinha na minha frente: tia Zèlia, tia Goia iriam ficar orgulhosas de mim. Viro Pimentel, olho tudo, negocio, consigo preços, descontos, pagamento facilitado e... levo. Porque foi feito pra mim, né.
Do Maya, do café da manhã de sábado e domingo e dos encontros com o povo das Laranjas. Porque aí é que tá tudo, e assim explicava eu prá Mirela que tão bem se integrou (que ela já era daqui e não sabia): o lindo das Laranjas é a galera, que a gente vai encontrando, na feira, no chorinho, no Cardosão depois, e no domingo na São Salva, no outro chorinho. A gente se vê, se encontra, conversa um pouco, cidade de interior.
E eu, a forasteira, a desgarrada das gentes, de repente descubro, com encanto e alegria, que me enraizei: me enraizei nas Laranjas, o lugar onde já morei mais tempo na vida, e onde me reencontro comigo no meio da minha galera.
E ele, que é meio desgarrado também, traduz lindamente o que quero dizer nessa música que é meio mantra. Meio mantra disso tudo e de tudo um pouco. Viva.