E, pra não facilitar nada, o dia 1 é "o livro mais querido de todos os tempos". Vê lá se dá pra escrever sobre isso assim, sem pensar... "o mais querido"? Logo pra mim, que amo tantos.. que tenho medo de deixar algum triste...?
[pausa pra pensar, com as duas mãos sob o queixo pra pensar melhor]
Não vou saber, né. Não vou saber porque não tem um: depende. Depende da época da vida, depende da hora, depende da precisão. Então vou escrever sobre um que é fundamental, que foi fundamental e que determinou muita coisa: "Os doze trabalhos de Hércules", na versão do Monteiro Lobato.
Lobato, é claro, merece pelo menos um post inteiro, se eu for explicar: mas não vamos nos dispersar - o foco agora é o livro. E lembro bem de quando comprei: foi numa feira de livros na escola, o Instituto Souza Leão, que era onde é hoje a Globo na rua Jardim Botânico - do lado do Parque Lage. Eram três volumes: meu primeiro livro em três tomos, cada um com quatro histórias. E, como era no Souza Leão, eu tinha no máximo sete anos. Sete anos e mergulhei, pela voz de Dona Benta primeiro, e, depois, acompanhada de Pedrinho, Emília e do Visconde - sem Narizinho, o que me deixava furiosa -, no encantamento da mitologia grega, de onde jamais saí. Onde estou mergulhada até hoje, pela via da astrologia e das literaturas. De pó de pirlimpimpim eles foram parar na Arcádia, na Grécia do tempo de Hércules. Emília foi logo ficando amiga do herói, a quem chamava de Lelé e que a carregava no ombro, como "dadeira de idéias".
Ali conheci os deuses todos, Pégaso, a Medusa, a hidra de Lerna e tantos outros. Ali aprendi sobre Apolo e sua pitonisa em Delfos, sobre o labirinto construído para abrigar o Minotauro (que aparece em outro livro, só dele)... e li, reli, treli... comecei aos sete, e a última vez que li foi para Felipe. Que tinha (juro) dois anos quando apresentei a ele o povo do sítio e os deuses gregos. Eu tinha acabado de me separar do pai dele, a gente tinha se abrigado na casa de prima querida até se assentar de novo, e a galera do Sítio nos fez companhia por noites e noites. Até o final, quando se despediam de Hércules, Felipe caía no choro e eu dizia (nem um pouco chateada): "não tem problema, amor, a gente lê de novo".
Li assim, de enfiada, para meu filho e companheiro de paixão, Os Doze Trabalhos umas três vezes. O que gerou um efeito engraçadíssimo: aquele pitoco de menos de três anos sabia de cor vários trechos do livro, e quando contava as histórias, usava o vocabulário de Lobato - com muitas gargalhadas de motoristas de táxi, de familiares, de garçons de restaurantes. Ele, nem aí. Eu, feliz por ter companhia nessa viagem. Que só de lembrar me faz sorrir. E cuja origem foi, claro, meu pai amante de livros, que me deu o primeiro Lobato da vida. Com conseqüências duradouras e imprevistas. Viva ele, em seu dia.
