Ele mesmo: um livro que tanta gente que eu amo ama. E que já tava na minha lista na época do finado "Perfil do Consumidor" do JB (onde o Bussunda respondeu a "qual o lugar mais estranho em que você já fez amor?" com um certeiro "São Paulo"), para a pergunta "que livro você deixaria numa ilha deserta?" . Já era ele.
Tô falando, claro, de "Cem anos de solidão". Que me causou tanto horror que eu nem acabei, e por causa do qual demorei séééculos a ler outro Garcia Marquez, apesar dos incentivos de K. Os outros todos eu gosto, devo dizer. E esse, nunca mais. De vez em quando penso "vou lá de novo, quem sabe"... e aí me embrulha o estômago e antes de começar desisto. Não quero sentir aquilo de novo.
...a explicação é - evidentemente - totalmente subjetiva. Eu sou uma pessoa com um pé no mundo dos sonhos. O que quer dizer também um pé no mundo dos pesadelos. Nunca tive coragem de ousar drogas que afinassem o fio já tênue - e precioso - da minha conexão com o real: tinha medo de ir e não voltar. A mesma sensação tenho com certos filmes ditos "oníricos" (argh): vou embora do cinema, desligo a tv, não quero. Pesadelos: basta os meus.
E assim é com o Cel. Aurelio Buendia, que virou árvore, com Remedios de quem eu não gosto nem do nome, com a cidade inteira de Macondo cuja única qualidade na minha vida foi ter dado nome um dia ao simpático restaurante de Miguel Paiva e sócios, na Conde de Irajá: não quero saber deles. "Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe".
Tenho a vantagem sobre um monte de gente de ter sido acometida de indigestão de livros quase ao mesmo tempo em que aprendi a falar: não preciso prestar contas a ninguém de ter lido tal ou qual coisa. A outra vantagem é a de ter tido um avô de origem ferrada e totalmente autodidata, um avô que me lia Neruda em voz alta mas que me deixava comprar as fotonovelas que em casa eram proibidas. Que me ensinou Charlie Chan, que gostava dos de capa-e-espada franceses (Fanfan La Tulipe, O Corcunda). Então nem ligo se alguém diz que é "imprescindível", "essencial", ou que eu não entendi nada de América Latina se não tiver lido e digerido isso. Não li, não digeri, e provavelmente não vou. Passar bem.
Já contei em outro canto que um dos livros que mais amo no mundo é o do mesmo Garcia Marquez sobre a viagem clandestina do cineasta Miguel Littin ao Chile. Pra vocês verem. E nem é um problema estrito com o chamado "realismo fantástico": adoro o Dino Buzatti, por exemplo. Ele não me dá medo, só me diverte. H.G.Wells também. Ou seja. Não sei explicar. É físico. É na alma. Não consigo. "Quem quiser gostar de mim"... já fica sabendo.