E hoje é "o livro favorito da sua infância". Que, evidentemente, vou transformar em "um livro"... porque "o" não tem. Minha infância poderia se chamar "afogando em livros" (inspiração do Peter Greenaway, "afogando em números" - um filme que eu adoro, contraditoria e inesperadamente). Desde os cinco, afogada em livros. Quando eu chegava no Recife, nas férias, meu tio Paulo me botava pra ler. Tenho essa lembrança: eu lendo na frente de convidados dele. E não entendendo: porque eu, se todos os filhos dele já liam? Depois é que fui entender - era a idade. Mas na hora, não. Lia sem problemas. Até porque era tímida demais pra recusar.
E, vocês notaram, tô adiando o momento de dizer qual o livro.. porque até aqui ainda não decidi.
Poderia ser Pollyana - o primeiro que li sem imagens, e que deixou marcas fundas. Poderia ser outro Lobato, claro: O Minotauro, O Sítio do Picapau Amarelo, Reinações de Narizinho. Porque eles eram minha família adotada, qualquer um serviria. Eram meus amigos de infância, tão reais quanto os outros.
Mas não vou cair nessa facilidade. Vou falar de um cuja história é que eu tinha onze anos e a abertura - Abertura - já se anunciava: aí o Claudius, a Jo e meus pais começaram a se preocupar com o fato de que a gente ia prá escola no Brasil, daqui a pouco. E precisava ler mais em português. Então um dos que li nesse período foi "As Pupilas do Senhor Reitor". Português de Portugal....tantas palavras: raparigas, Desfolhada... escalda-pés... reitor, mesmo.
Guida e Clara, as irmãs. Uma sombria, uma luminosa. Anos e anos depois, quando fui escrever sobre "Mulheres em Touro e Escorpião" , a imagem taurina que me veio à mente foi a de Clara lavando roupa no riacho, os braços luzidios e roliços sendo olhados pelo seu enamorado (de quem não lembro o nome e não vou googlear). Acho que é nessa hora que ele se dá conta que está apaixonado. E eu sou taurina: imagens de trabalho e sensualidade juntas me calam fundo na alma.
Me encantei com As Pupilas, que li e reli como de hábito. E que deixaram marcas engraçadas na minha incerta grafia em português (como também A Moreninha, que li pelo mesmo motivo). A história de sofrimento e redenção de Margarida, por certo: mas sobretudo a atmosfera, a vila portuguesa onde se andava a pé, o caldo de galinha para os doentes, a festa da Desfolhada em que o milho era desfolhado pelos jovens, com cantos e danças.... muito depois, no Forum Social Mundial de Belém, ouvi de um "irreverendo" (como afetuosamente eram chamados os pastores "de trabalho", rosto queimado de sol e sotaque do interior, hospedados em casa de conhecido) uma história que me lembrou essa, de colheita coletiva em terras do Sul (Paraná? Rio Grande? Não lembro). De solidariedade, trabalho e alegria. Uma história que me toca, como tantas pequenas histórias, de gente simples, de gente. Porque eu gosto é de gente, gente.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
30 livros em um mês - dia 2
E o dia 2 é sobre um "livro de que não gosto". Ah, isso tem muitos. Preciso pensar mais uma vez, e olhar a série inteira pra ver se não estou gastando cartucho na hora errada...não. Acho que vai ele mesmo.
Ele mesmo: um livro que tanta gente que eu amo ama. E que já tava na minha lista na época do finado "Perfil do Consumidor" do JB (onde o Bussunda respondeu a "qual o lugar mais estranho em que você já fez amor?" com um certeiro "São Paulo"), para a pergunta "que livro você deixaria numa ilha deserta?" . Já era ele.
Tô falando, claro, de "Cem anos de solidão". Que me causou tanto horror que eu nem acabei, e por causa do qual demorei séééculos a ler outro Garcia Marquez, apesar dos incentivos de K. Os outros todos eu gosto, devo dizer. E esse, nunca mais. De vez em quando penso "vou lá de novo, quem sabe"... e aí me embrulha o estômago e antes de começar desisto. Não quero sentir aquilo de novo.
...a explicação é - evidentemente - totalmente subjetiva. Eu sou uma pessoa com um pé no mundo dos sonhos. O que quer dizer também um pé no mundo dos pesadelos. Nunca tive coragem de ousar drogas que afinassem o fio já tênue - e precioso - da minha conexão com o real: tinha medo de ir e não voltar. A mesma sensação tenho com certos filmes ditos "oníricos" (argh): vou embora do cinema, desligo a tv, não quero. Pesadelos: basta os meus.
E assim é com o Cel. Aurelio Buendia, que virou árvore, com Remedios de quem eu não gosto nem do nome, com a cidade inteira de Macondo cuja única qualidade na minha vida foi ter dado nome um dia ao simpático restaurante de Miguel Paiva e sócios, na Conde de Irajá: não quero saber deles. "Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe".
Tenho a vantagem sobre um monte de gente de ter sido acometida de indigestão de livros quase ao mesmo tempo em que aprendi a falar: não preciso prestar contas a ninguém de ter lido tal ou qual coisa. A outra vantagem é a de ter tido um avô de origem ferrada e totalmente autodidata, um avô que me lia Neruda em voz alta mas que me deixava comprar as fotonovelas que em casa eram proibidas. Que me ensinou Charlie Chan, que gostava dos de capa-e-espada franceses (Fanfan La Tulipe, O Corcunda). Então nem ligo se alguém diz que é "imprescindível", "essencial", ou que eu não entendi nada de América Latina se não tiver lido e digerido isso. Não li, não digeri, e provavelmente não vou. Passar bem.
Já contei em outro canto que um dos livros que mais amo no mundo é o do mesmo Garcia Marquez sobre a viagem clandestina do cineasta Miguel Littin ao Chile. Pra vocês verem. E nem é um problema estrito com o chamado "realismo fantástico": adoro o Dino Buzatti, por exemplo. Ele não me dá medo, só me diverte. H.G.Wells também. Ou seja. Não sei explicar. É físico. É na alma. Não consigo. "Quem quiser gostar de mim"... já fica sabendo.
Ele mesmo: um livro que tanta gente que eu amo ama. E que já tava na minha lista na época do finado "Perfil do Consumidor" do JB (onde o Bussunda respondeu a "qual o lugar mais estranho em que você já fez amor?" com um certeiro "São Paulo"), para a pergunta "que livro você deixaria numa ilha deserta?" . Já era ele.
Tô falando, claro, de "Cem anos de solidão". Que me causou tanto horror que eu nem acabei, e por causa do qual demorei séééculos a ler outro Garcia Marquez, apesar dos incentivos de K. Os outros todos eu gosto, devo dizer. E esse, nunca mais. De vez em quando penso "vou lá de novo, quem sabe"... e aí me embrulha o estômago e antes de começar desisto. Não quero sentir aquilo de novo.
...a explicação é - evidentemente - totalmente subjetiva. Eu sou uma pessoa com um pé no mundo dos sonhos. O que quer dizer também um pé no mundo dos pesadelos. Nunca tive coragem de ousar drogas que afinassem o fio já tênue - e precioso - da minha conexão com o real: tinha medo de ir e não voltar. A mesma sensação tenho com certos filmes ditos "oníricos" (argh): vou embora do cinema, desligo a tv, não quero. Pesadelos: basta os meus.
E assim é com o Cel. Aurelio Buendia, que virou árvore, com Remedios de quem eu não gosto nem do nome, com a cidade inteira de Macondo cuja única qualidade na minha vida foi ter dado nome um dia ao simpático restaurante de Miguel Paiva e sócios, na Conde de Irajá: não quero saber deles. "Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe".
Tenho a vantagem sobre um monte de gente de ter sido acometida de indigestão de livros quase ao mesmo tempo em que aprendi a falar: não preciso prestar contas a ninguém de ter lido tal ou qual coisa. A outra vantagem é a de ter tido um avô de origem ferrada e totalmente autodidata, um avô que me lia Neruda em voz alta mas que me deixava comprar as fotonovelas que em casa eram proibidas. Que me ensinou Charlie Chan, que gostava dos de capa-e-espada franceses (Fanfan La Tulipe, O Corcunda). Então nem ligo se alguém diz que é "imprescindível", "essencial", ou que eu não entendi nada de América Latina se não tiver lido e digerido isso. Não li, não digeri, e provavelmente não vou. Passar bem.
Já contei em outro canto que um dos livros que mais amo no mundo é o do mesmo Garcia Marquez sobre a viagem clandestina do cineasta Miguel Littin ao Chile. Pra vocês verem. E nem é um problema estrito com o chamado "realismo fantástico": adoro o Dino Buzatti, por exemplo. Ele não me dá medo, só me diverte. H.G.Wells também. Ou seja. Não sei explicar. É físico. É na alma. Não consigo. "Quem quiser gostar de mim"... já fica sabendo.
sábado, 17 de setembro de 2011
30 livros em um mês - dia 1
E, pra não facilitar nada, o dia 1 é "o livro mais querido de todos os tempos". Vê lá se dá pra escrever sobre isso assim, sem pensar... "o mais querido"? Logo pra mim, que amo tantos.. que tenho medo de deixar algum triste...?
[pausa pra pensar, com as duas mãos sob o queixo pra pensar melhor]
Não vou saber, né. Não vou saber porque não tem um: depende. Depende da época da vida, depende da hora, depende da precisão. Então vou escrever sobre um que é fundamental, que foi fundamental e que determinou muita coisa: "Os doze trabalhos de Hércules", na versão do Monteiro Lobato.
Lobato, é claro, merece pelo menos um post inteiro, se eu for explicar: mas não vamos nos dispersar - o foco agora é o livro. E lembro bem de quando comprei: foi numa feira de livros na escola, o Instituto Souza Leão, que era onde é hoje a Globo na rua Jardim Botânico - do lado do Parque Lage. Eram três volumes: meu primeiro livro em três tomos, cada um com quatro histórias. E, como era no Souza Leão, eu tinha no máximo sete anos. Sete anos e mergulhei, pela voz de Dona Benta primeiro, e, depois, acompanhada de Pedrinho, Emília e do Visconde - sem Narizinho, o que me deixava furiosa -, no encantamento da mitologia grega, de onde jamais saí. Onde estou mergulhada até hoje, pela via da astrologia e das literaturas. De pó de pirlimpimpim eles foram parar na Arcádia, na Grécia do tempo de Hércules. Emília foi logo ficando amiga do herói, a quem chamava de Lelé e que a carregava no ombro, como "dadeira de idéias".
Ali conheci os deuses todos, Pégaso, a Medusa, a hidra de Lerna e tantos outros. Ali aprendi sobre Apolo e sua pitonisa em Delfos, sobre o labirinto construído para abrigar o Minotauro (que aparece em outro livro, só dele)... e li, reli, treli... comecei aos sete, e a última vez que li foi para Felipe. Que tinha (juro) dois anos quando apresentei a ele o povo do sítio e os deuses gregos. Eu tinha acabado de me separar do pai dele, a gente tinha se abrigado na casa de prima querida até se assentar de novo, e a galera do Sítio nos fez companhia por noites e noites. Até o final, quando se despediam de Hércules, Felipe caía no choro e eu dizia (nem um pouco chateada): "não tem problema, amor, a gente lê de novo".
Li assim, de enfiada, para meu filho e companheiro de paixão, Os Doze Trabalhos umas três vezes. O que gerou um efeito engraçadíssimo: aquele pitoco de menos de três anos sabia de cor vários trechos do livro, e quando contava as histórias, usava o vocabulário de Lobato - com muitas gargalhadas de motoristas de táxi, de familiares, de garçons de restaurantes. Ele, nem aí. Eu, feliz por ter companhia nessa viagem. Que só de lembrar me faz sorrir. E cuja origem foi, claro, meu pai amante de livros, que me deu o primeiro Lobato da vida. Com conseqüências duradouras e imprevistas. Viva ele, em seu dia.
30 Livros em um mês - como prometido!
Bom, hoje seria aniversário do meu pai, e ele amava livros. É também comemoração do de Carol, que também os ama. Então vai pra eles esse começo tipo mergulho sem volta do meme dos 30 livros, que eu adiei mas sabia que ia me pegar uma hora ou outra. Vai abaixo a lista, copiada da Niara. Sei que também tão nessa a Luciana e o Pádua Fernandes. Todos, é claro, já bem mais adiantados. Boto a lista, e sigo imediatamente - senão não começo.
Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos
Dia 02 — Um livro de que você não gosta
Dia 03 — O livro favorito da sua infância
Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar
Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir
Dia 06 — Um livro do seu autor favorito
Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola
Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu
Dia 09 — O livro mais triste que você já leu
Dia 10 — O clássico favorito
Dia 11 — O livro favorito com animais
Dia 12 — O livro favorito de ficção científica
Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia
Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém
Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas
Dia 16 — O livro favorito que virou filme
Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado
Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse
Dia 19 — O livro de não ficção favorito
Dia 20 — O último livro que você leu
Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano
Dia 22 — Livro favorito você teve que ler para a escola
Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida
Dia 24 — Sua série de livros favorita
Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama
Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer
Dia 27 — A história de amor favorita
Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor
Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você
Dia 30 — Um livro você ainda não leu mas quer
Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos
Dia 02 — Um livro de que você não gosta
Dia 03 — O livro favorito da sua infância
Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar
Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir
Dia 06 — Um livro do seu autor favorito
Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola
Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu
Dia 09 — O livro mais triste que você já leu
Dia 10 — O clássico favorito
Dia 11 — O livro favorito com animais
Dia 12 — O livro favorito de ficção científica
Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia
Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém
Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas
Dia 16 — O livro favorito que virou filme
Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado
Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse
Dia 19 — O livro de não ficção favorito
Dia 20 — O último livro que você leu
Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano
Dia 22 — Livro favorito você teve que ler para a escola
Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida
Dia 24 — Sua série de livros favorita
Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama
Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer
Dia 27 — A história de amor favorita
Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor
Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você
Dia 30 — Um livro você ainda não leu mas quer
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Cuidando de meninos - uma arte delicada
Fiquei tanto tempo sem escrever. Vida muito dura aqui fora, texto tava difícil de sair. Mas hoje vai um pequeno.
Eu queria era falar dos meninos. Da educação de meninos. E isso se conecta diretamente com as violências sutis já mencionadas.
Ah, como é difícil. Lembro da Flavia Castro adolescente, no lindo "Diário de uma Busca" (sobre o qual ainda vou escrever, mas tô respirando para), dizendo que não queria voltar para o Brasil e que os homens aqui eram muito machistas.
Não só os homens, Flavinha. O mundo aqui é muito machista.
Eu, mãe de meninos, me deparo tão frequentemente com a reprovação de mulheres: "você vai deixar ele levar o prato? É tão pequenininho"... "ah, deixa que eu faço pra ele".... "menos, Renata, menos".
Sou muito feliz com os meninos: tão se tornando pessoas legais, acho. Olham pro outro. Escutam. Tentam entender.
As pessoas notam e acham que eles brotaram assim. Engraçado. Não brotaram. Eles têm suas qualidades. Mas eu educo, todo dia, toda hora. E reivindico minha parte nisso. Com força. Porque enquanto as pessoas acharem que meus filhos são legais porque brotaram assim, não se discutirá o fundamental: a parte que a educação - e aqui falo de educação "sutil", ou seja, de cultura familiar, conversas e exemplos - tem nisso.
Quando o João tinha uns 4 ou 5 anos comprei pra ele lindo livrinho (sugerido, aliás, pela Flavia) dos pinguins Gus e Waldo, que vivem história de amor. Lindo mesmo o livro. Desenhos incríveis, e uma historinha delicada.Fui reprovada por quase 100% do mundo.
Fiquei chocada, juro.
Agora circula pelas redes uma conversa de "se você for a favor dos direitos homossexuais seu filho não se tornará gay", uma palavra de ordem. Isso é fácil de colar no mural, galera. Quero ver vocês darem o livrinho pros seus filhos pequenos. Quero ver vocês me deixarem dar panelinhas de presente para um menino que gosta delas. Quero ver vocês, como uma amiga minha de coragem, deixarem os meninos brincarem de Barbie.
Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos...tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.
Quando Felipe tava crescendo, eu vi o assédio que ele sofria: os homens só se aproximavam dele com "brincadeiras de homem" - socos ou futebol. Pro meu filho lindo e artista. Que gostava (e gosta) de ler e de desenhar. Que contava histórias tão lindamente. Eu vi o desconforto de tantos homens com o menino que não era "padrão". E fiquei chocada, de novo.
Felipe cresceu, e continua gostando de artes, gostando de ler. Gosta, também, de outras coisas, "de menino". João tá crescendo, e agora é que está começando a gostar dos livros. Gosta de desenhar, apesar de se sentir meio oprimido pelos desenhos incríveis do irmão. Mas isso passa. Gosta de futebol. E gosta também, tanto, de bebês.
(todos dois gostam de novelas, devo dizer. Eu, noveleira desde sempre, criei companhia pra assistir comigo. Novelas são também ótimo espaço para discussão de temas espinhosos. E já usei várias vezes. A gente aproveita a cena e comenta. Melhor do que tirar o assunto do nada).
Tomara que eles sejam felizes; claro, a gente sempre deseja. Mas ser feliz é movimento: não é estado. Ser feliz, pra mim, é se sentir vivo: vivo, na vida. Indo, andando. Descobrindo. Não se encolhendo. Não com medo. Não tentando corresponder a uma estreita e congelada imagem do que é "ser homem". Tomara que eles sejam eles. Muito eles. Com confiança de que dá pra ser.
Dá pra ser, gente. É mais difícil - é, como diz o outro, "o caminho menos percorrido". Mas dá pra ser. A gente escolhe, a gente encara. A gente descobre outros. Que tão juntos e que ajudam na caminhada. Que é mais difícil, mas também mais saborosa. Mais encantadora. Mais amorosa.
Dá brilho no olho e vontade de ir mais. "Ao infinito e além." Bora?
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Idéias de economia política, molengamente
("molengamente" eu descobri aqui; ia botar adagio, mas gostei mais desse...)
O título dá idéia. Pra dizer que não tá nada exatamente organizado. Por isso eu demoro pra escrever sobre economia: porque fico achando que vou parar, consultar, linkar, estruturar e... não escrevo. Aí esse vai assim mesmo. Molengamente, sem pressa, mas com alguma elegância. Comme il faut.
[pausa prá maquiagem.
Ok.]
Então. A inspiração foi do último dia do seminário da AKB , que começou lindamente com minicurso de Cardim e Kregel, e fechou - pra mim - com uma mesa de bem-jovens (quando o Summa é a segunda pessoa mais velha da sala, eu me sinto avó dos participantes, né... se bem que... em termos de maturidade, aí já não...) sobre política fiscal, amigos e simpatizantes. A mesa foi inspiradora mesmo, e animadora: se o povo da novíssima geração tá pensando essas coisas, já vale a pena pensar em conversar. Porque a gente se sente menos dinossauro. Adorei, mesmo. Que bom que eu fui.
Só fiz um comentário pequeno ao final, sobre uma fala da Viviane. Mas não era crítica a ela: era só algo que me ocorreu comentar, até porque eu já tava pensando em escrever sobre isso, até porque a minha não-tese versa sobre isso - ou melhor, tem esse pressuposto como pano de fundo e justificativa. Quem sabe, agora com o MBA em Gestão Pública e Inovação, ela sai. O MBA também tá sendo inspirador. Mas voltando...
O comentário usava dois textos como referência: o primeiro era o do Colander, "Was Keynes a Lernerian?" O gist desse texto é que, se o Keynes for levado às últimas conseqüências (grafia antiga enquanto pode), se chega no Lerner e no déficit de pleno emprego das finanças funcionais; mas, diz Colander, Keynes não era Lerneriano. Digo eu: era burguês e assim se comportava, claramente e escancaradamente. Por isso não gostava dessa idéia e advogava o gasto público como forma de contrabalançar estragos excessivos do capitalismo. Mas não como ação de Estado permanente.
O segundo texto é aquele do Kalecki, "Aspectos políticos do pleno emprego" (link prá versão em inglês, mas tem em português), que, na minha opinião, todo economista que se diz de esquerda deveria ler. Como vários outros do Kalecki. Kalecki era polonês e isso se via na sua forma de analisar a economia. E esse texto, acho, é o nde se vê melhor isso. Claramente. Kalecki se pergunta se é do interesse da sociedade capitalista que se chegue ao pleno emprego, e responde pela negativa. Claro que não. Com pleno emprego, a balança de forças fica mais equilibrada: ou, do ponto de vista de quem manda hoje, mais desequilibrada, já que passa a pender mais para o lado dos frascos e comprimidos. Dos que não tem. Dos que, enfim. A gente sabe quem são. E eles também.
O comentário que eu fiz lá na AKB era esse: juntando esses dois textos, eu (e outros, mas enfim) defendo veementemente que o Estado tem que se fazer sempre presente na economia - com um volume de gastos importante. Em termos macro, G/Y (G= gasto, Y= PIB ou renda agregada) tem que ser significativo. E, vejam vocês, não estou falando de déficit ou superávit público. Porque isso se dá a partir do G-T, sendo T= tributos líquidos de transferências. E como T=t(Y), ou seja, os tributos dependem da própria renda gerada - e isso é fácil de ver quando pensamos no imposto de renda - o resultado déficit -> G-T<0 ou superávit -> G-T>0 só vai ser sabido no final. No final de quê? Do período analisado. Que é arbitrário: o chamado "ano fiscal". Vai depender também da estrutura tributária. Dos tempos dos fluxos. De tanta coisa. Mas a participação do governo no PIB, em volume, se dá a partir dos gastos, que geram PIB - e emprego, e rendas derivadas a partir do multiplicador.
Quando do 11/09, o governo americano não só gastou como mandou gastar: providência primeira.
A Europa agora está enredada num angu de caroço criado porque, com Banco Central independente e conservador paca, os países entram em crise e não conseguem sair dela. Sem contar que o "receituário da crise" só piora a própria, já que manda em primeiro lugar reduzir os gastos. (E notem que nem tô falando da taxa de juros. Nem vou. Isso é outra discussão, que agrava ainda mais).
Espero que tenha dado pra entender o ponto. Se não deu, esperneiem. Comentem. Critiquem. Porque eu acho isso. Acho muito. E cada vez mais.
O título dá idéia. Pra dizer que não tá nada exatamente organizado. Por isso eu demoro pra escrever sobre economia: porque fico achando que vou parar, consultar, linkar, estruturar e... não escrevo. Aí esse vai assim mesmo. Molengamente, sem pressa, mas com alguma elegância. Comme il faut.
[pausa prá maquiagem.
Ok.]
Então. A inspiração foi do último dia do seminário da AKB , que começou lindamente com minicurso de Cardim e Kregel, e fechou - pra mim - com uma mesa de bem-jovens (quando o Summa é a segunda pessoa mais velha da sala, eu me sinto avó dos participantes, né... se bem que... em termos de maturidade, aí já não...) sobre política fiscal, amigos e simpatizantes. A mesa foi inspiradora mesmo, e animadora: se o povo da novíssima geração tá pensando essas coisas, já vale a pena pensar em conversar. Porque a gente se sente menos dinossauro. Adorei, mesmo. Que bom que eu fui.
Só fiz um comentário pequeno ao final, sobre uma fala da Viviane. Mas não era crítica a ela: era só algo que me ocorreu comentar, até porque eu já tava pensando em escrever sobre isso, até porque a minha não-tese versa sobre isso - ou melhor, tem esse pressuposto como pano de fundo e justificativa. Quem sabe, agora com o MBA em Gestão Pública e Inovação, ela sai. O MBA também tá sendo inspirador. Mas voltando...
O comentário usava dois textos como referência: o primeiro era o do Colander, "Was Keynes a Lernerian?" O gist desse texto é que, se o Keynes for levado às últimas conseqüências (grafia antiga enquanto pode), se chega no Lerner e no déficit de pleno emprego das finanças funcionais; mas, diz Colander, Keynes não era Lerneriano. Digo eu: era burguês e assim se comportava, claramente e escancaradamente. Por isso não gostava dessa idéia e advogava o gasto público como forma de contrabalançar estragos excessivos do capitalismo. Mas não como ação de Estado permanente.
O segundo texto é aquele do Kalecki, "Aspectos políticos do pleno emprego" (link prá versão em inglês, mas tem em português), que, na minha opinião, todo economista que se diz de esquerda deveria ler. Como vários outros do Kalecki. Kalecki era polonês e isso se via na sua forma de analisar a economia. E esse texto, acho, é o nde se vê melhor isso. Claramente. Kalecki se pergunta se é do interesse da sociedade capitalista que se chegue ao pleno emprego, e responde pela negativa. Claro que não. Com pleno emprego, a balança de forças fica mais equilibrada: ou, do ponto de vista de quem manda hoje, mais desequilibrada, já que passa a pender mais para o lado dos frascos e comprimidos. Dos que não tem. Dos que, enfim. A gente sabe quem são. E eles também.
O comentário que eu fiz lá na AKB era esse: juntando esses dois textos, eu (e outros, mas enfim) defendo veementemente que o Estado tem que se fazer sempre presente na economia - com um volume de gastos importante. Em termos macro, G/Y (G= gasto, Y= PIB ou renda agregada) tem que ser significativo. E, vejam vocês, não estou falando de déficit ou superávit público. Porque isso se dá a partir do G-T, sendo T= tributos líquidos de transferências. E como T=t(Y), ou seja, os tributos dependem da própria renda gerada - e isso é fácil de ver quando pensamos no imposto de renda - o resultado déficit -> G-T<0 ou superávit -> G-T>0 só vai ser sabido no final. No final de quê? Do período analisado. Que é arbitrário: o chamado "ano fiscal". Vai depender também da estrutura tributária. Dos tempos dos fluxos. De tanta coisa. Mas a participação do governo no PIB, em volume, se dá a partir dos gastos, que geram PIB - e emprego, e rendas derivadas a partir do multiplicador.
Quando do 11/09, o governo americano não só gastou como mandou gastar: providência primeira.
A Europa agora está enredada num angu de caroço criado porque, com Banco Central independente e conservador paca, os países entram em crise e não conseguem sair dela. Sem contar que o "receituário da crise" só piora a própria, já que manda em primeiro lugar reduzir os gastos. (E notem que nem tô falando da taxa de juros. Nem vou. Isso é outra discussão, que agrava ainda mais).
Espero que tenha dado pra entender o ponto. Se não deu, esperneiem. Comentem. Critiquem. Porque eu acho isso. Acho muito. E cada vez mais.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Declaração de amor ao Rio e a Laranjeiras
Outras pessoas já fizeram, lindas. Eu mesma, quando saí do armário como carioca, já fiz também, num texto que se chama "Cidade Conquistada". Mas de repente, porque a tarde tá suave, porque da minha janela dá pra ver a pedra e o verde, porque o domingo foi regenerador e eu passei boa parte dele (aquela em que eu não tava cozinhando) na Praça São Salvador, onde chegavam ondas de amigos, vinham, ficavam, passavam, enquanto eu tomava Magnífica envelhecida da barraca do Luizinho (e pela primeira vez ouvi ele contando como começou a vender discos, quando na verdade vendia era bebida) e achava que a vida tem seus rasgos de maravilhoso, esse texto veio como uma confirmação.
Tá vindo, né. Porque eu começo a escrever como alguém que é tragado por uma onda e nunca sabe bem onde vai parar: descubro no final, quando acaba. Normalmente, com um certo alívio e uma sensação de ter chegado a uma praia. Qual, nunca sei bem, e vou descobrindo à medida que revisito os textos como se não fosse eu mesma que os tivesse escrito.
(Parece papo pra boi dormir de gente neoblogueira deslumbrada: não é não. Deslumbrada eu tô mesmo mas é com esse jeito semiautomático de escrever que eu nem sabia que me habitava. Ou tão pouco.)
Então. Eu, forasteira. Pra sempre forasteira, quase nascida na Argélia (se minha mãe não tivesse voltado), que vi a luz pela primeira vez no cinza de Sampa, que fui saída de lá antes que o sotaque se arraigasse (graças a Deus, e me perdoem os paulistas que me lêem: sou mais o meu, apesar de achar o deles engraçadinho), que fui saída (dessa vez pela polícia que bateu na minha casa à procura do meu pai quando eu não tinha oito ainda) pra Genebra - de onde sou bastante: afinal sei cantar cé qué l'ainò em patois, as músicas da Escalade e conheço a história da Confederação Helvética direitinho, com direito a participação de Rodolfo de Habsburgo e dos cantôes originais: Uri, Schwitz e Unterwald -, e que aportei numa dolorosa pré-adolescência nas Laranjas de onde tinha saído em 74, na General Glicério, por obra e graça dos Ceccon cuja função na (minha) vida é encontrar apês pros Lins. Normalmente na frente do deles. Como na XXXI décembre. E na General.
Mas divago, pra variar. Onda leva, onda traz pensamentos e sentimentos. E o grande aqui, que vira onda de gratidão, é pelas Laranjas que me acolheram, com suas praças, com seu verde, com seu ar de quase-bairro do interior. De quase-não Zona Sul. De onde saí por dez anos, já adulta, e pra onde voltei com mensagem aos amigos: "voltei pra casa". E acharam que eu tava me separando, mas minha casa é mesmo o bairro das Laranjas, onde morei na Ben Gurion quando Ju nasceu, na Gago Coutinho antes, na Moura Brasil de saudosa memória (ah, o apê da Moura Brasil... once in a lifetime. Mas valeu), e agora na Mario Portela (que eu só parei de confundir com a Cardoso Jr quando vim morar nela).
As Laranjas da pracinha do chorinho, da feirinha onde conheci a linda Tati dos bijoux que me enfeitam pra sempre. Onde o Luizinho também ancora sua barraca aos sábados, e o Afonso prepara caipirinha de tangerina com gengibre, sem açúcar. Onde compro fantásticos CDs. Roupas, sapatos. Tudo com cara de feito pra mim. Porque, galera, entro e saio de chopins (nas raras vezes em que) sem nem olhar pras vitrines. Mas bota uma barraquinha na minha frente: tia Zèlia, tia Goia iriam ficar orgulhosas de mim. Viro Pimentel, olho tudo, negocio, consigo preços, descontos, pagamento facilitado e... levo. Porque foi feito pra mim, né.
Do Maya, do café da manhã de sábado e domingo e dos encontros com o povo das Laranjas. Porque aí é que tá tudo, e assim explicava eu prá Mirela que tão bem se integrou (que ela já era daqui e não sabia): o lindo das Laranjas é a galera, que a gente vai encontrando, na feira, no chorinho, no Cardosão depois, e no domingo na São Salva, no outro chorinho. A gente se vê, se encontra, conversa um pouco, cidade de interior.
E eu, a forasteira, a desgarrada das gentes, de repente descubro, com encanto e alegria, que me enraizei: me enraizei nas Laranjas, o lugar onde já morei mais tempo na vida, e onde me reencontro comigo no meio da minha galera.
E ele, que é meio desgarrado também, traduz lindamente o que quero dizer nessa música que é meio mantra. Meio mantra disso tudo e de tudo um pouco. Viva.
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