E eu nem ia escrever mais nada hoje, mas acabei entrando numa conversa, li esse post aqui da Luciana, que ecoava tanto o que penso sobre este assunto, lembrei que meu único texto na Constelar fala disso, e voltei aqui pra comentar. Sobre o tempo. O tempo e as mulheres. A valorização ou desvalorização das mulheres. E esse é assim mesmo: específico sobre mulheres. Porque o "valor social" das mulheres tá intrinsecamente ligado à forma física e à aparência.
Mesmo que, ao fim e ao cabo, os homens gostem de ter alguém com quem rir e com quem conversar. Eles gostam, mas não sabem disso. Porque a cultura, esse monstro de mil patas e nenhuma cara que flui e engole as individualidades à sua volta, a nossa cultura machista, ensina aos homens que seu valor é dado (nesta ordem): a) pelo carro que têm, que como todos sabem é uma proxy do... bom. Vocês me entendem. Basta ver uma tarde de anúncios pra ver que o que os caras tão anunciando não é carro: é outro tipo de potência; b) pela mulher que conseguem.
E "que conseguem" não tá ligado, como o marciano desavisado poderia supor, à sua capacidade de conquistar e manter a seu lado alguém divertido, interessante, vivo, curioso. Não, nananinanão. Tá ligado, não é, à capacidade de conquistar alguém de pele lisa, cabelos brilhantes, sorriso esfuziante, cintura de pilão, porte de felina. Gata. Gostosa. Princesa da ervilha. Elegante. Um márquetchin pro cara que a usa como adorno no braço direito, que a exibe como um troféu de caça.
O cara? Baixinho, careca, barrigudo, chato. Não importa. Ninguém diz nada. Mas ah, vai uma mulher com rugas, com tamanho, com peso, com história escrita no corpo namorar um sujeito mais novo... e bonito: aí a reprovação é sideral. Não pode: tá contra a ordem das coisas. Tá errado. É feio. É deselegante. "O que é que ele viu nela?" , a pergunta-clichê que todos se fazem. Todos no seu sentido original, ou seja, englobando os gêneros reconhecidos e a reconhecer.
Tudo isso pra contextualizar. Porque eu não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte - que eu choro à beça, pra caralho ou mais - e... como diria o Neruda, de saudosa memória, "confesso que vivi". E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho. Tortuoso, difícil, uma "aprendizagem pela pedra" (salve, João Cabral). Alegre também, divertido, risonho, cheio de amigos, de amores. Um caminho percorrido. E nem vou citar o Antonio Machado de novo, porque já tá lá no texto da Constelar.
E, porque falei em Constelar, lembro que tenho lua no ascendente, que sou "guardiã da memória". Talvez por isso me importe tanto. Talvez por isso sinta tanto. Talvez por isso deteste tanto esse mundo em que as mulheres têm que pedir desculpas por serem, depois dos trinta. Por serem. Por estarem ali e quererem viver "à part entière". Sem descontos. Sem ser na xepa. Querem tudo: um amor bacana, companheiros de copo e de cruz, um espaço próprio, o lugar de dizer o que acham. Sem que passem a mão na cabeça, sem que olhem piedosamente e, também, sem que se espantem: "nossa, como você parece mais jovem!" . Pareço não. Sou assim porque cheguei até aqui. Em todos esses anos. E vocês que vão dormir com isso.