quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Solidão do Cavaleiro no Horizonte

Meu pai era um homem que amava livros. Amava sem respeitar: os livros que ele lia ficavam marcados, dobrados, amassados. Porque ele lia em todo canto: na rede quando dava, na cadeira de couro que minha mãe deu a ele, com o boi pra complementar e apoiar os pés, no sofá da sala, mas também no banheiro, na praia cheia de areia, em qualquer mesa de bar, muito em aviões (até hoje encontro marcadores com M.Lins e o n° do assento, em determinados livros). 

Lia e se apaixonava. Quando se apaixonava, a gente sabia: ele se entusiasmava, lia passagens, comprava um monte e saía dando de presente. "A Solidão do Cavaleiro no Horizonte" tem um lugar de destaque nesse panteão. Porque nesse caso, acho que era o livro que ele gostaria de ter escrito. Um livro de autor nordestino, de nome Marcos como ele. Um livro lançado em 79, também conhecido como "o ano 1 da volta": ano prenhe de possibilidades, mas também de receios, de decepções. Ano de balanço. 

"A solidão"... é um livro de balanço. Pelo que me lembro. Porque não lembro muito: li, claro, como não havia de. E gostei. Mas, curiosamente, em vez de personagens e situações, lembro é do clima. Do  tom. Um tom meio amargo. Um tom de "o que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou". Um tom que, certamente, combinava com o que meu pai sentia naquele momento: combinava muito. Com o que ele sentia e, na sua reserva natural, dizia pouco. Dizia aos poucos. Dizia com livros, como este.

E, porque os deuses tecem suas tramas e com elas se divertem, muito tempo depois, ficamos amigas, muito amigas mesmo, de uma moça cuja mãe era casada com Marcos Santarrita: o autor do livro que meu pai queria ter escrito. Minha irmã soube primeiro, e imediatamente reconheceu o nome tão popular na nossa casa. Lembro da gente conversando sobre isso na Lagoa, meu pai comovido com esse "encontro", falando do livro. Nunca conheci Marcos Santarrita: ocasionalmente encontrava seu nome em ótimas traduções, eu que sempre vou ver quem traduziu quando a tradução é boa. Tão raro e tão precioso. As dele sempre eram.

Ontem, o mundo dos livros ficou mais pobre. Foi-se Marcos Santarrita, um amante dos livros, um artesão das letras, um contador de histórias. Todo meu carinho a quem o amava. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 8

O de hoje é "o livro mais assustador que você já leu". E pra esse não preciso nem pensar - é óbvio.
A cena foi meu aniversário de onze anos, um presente atrasado da minha amiga Françoise: dois livros. Um era "Marie Lumière", lindinho, sobre uma menina (Maria Luz) que ia conhecer o pai e conviver com ele pela primeira vez na vida.
O outro é a pauta aqui: "O caso dos dez negrinhos" (Dix petits nègres), da Agatha Christie. Meu primeiro Agatha Christie. Tão assustador que escondi o livro depois de tê-lo, fascinada e apavoradamente, devorado. E demorei um tempão até pegar meu segundo Agatha Christie - que foi, felizmente, Assassinato no Expresso do Oriente, a partir do qual minha carreira de agathachristeira começou e foi se solidificando ao longo da vida; mas isso é outro assunto.
"O caso dos dez negrinhos" é um livro assustador pela atmosfera. Uma ilha. Dez convidados. Que vão morrendo um a um. Sem que se saiba porque. Uma ilha sem anfitrião. Ilha já é assustador, né. Pelo isolamento. Uma ilha em áreas britânicas ainda tem, possivelmente, falésias de pedras negras e brumas. Nem lembro se essa tinha. Acho que nunca mais li o livro. Eu que leio e releio Agatha Christies como comfort books. Pra me confortar, pra me consolar e me fazer achar que tudo tem jeito. Como outros lêem livros de auto-ajuda, eu leio "Aventura em Bagdad", "O homem do terno marrom", os Miss Marple todos, os de Tommy e Tuppence Beresford. Poirot também, claro: mas sou mais Miss Marple e seu universo de Saint Mary Mead, as fofocas do vilarejo, a "natureza humana" que se reconhece nas pequenas coisas... dos livros de Poirot gosto é do alter-ego da autora, Ariadne Oliver, e seu detetive finlandês por conta do qual vivia recebendo cartas de reclamação dos leitores (e sempre imagino as cartas dos belgas à própria Agatha). 
Nos "dez negrinhos" - que, por reclamações de editoras, já teve vários nomes e não sei mais qual o que está em voga atualmente -, não há personagem principal, não há esperança, não há saída. A atmosfera de angústia só piora ao longo do livro. Não é, definitivamente, um Agatha Christie característico. Só que foi meu primeiro: eu não sabia.

A história se fecha num posfácio explicativo. Pelo menos isso.




domingo, 2 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 7

"Um livro que você odiou mas teve que ler pra escola?" Acho que não tem. Se eu tive que ler, mesmo forçada, acabei achando algo interessante, algo curioso, algo pelo qual valeu a pena ter lido o livro. Aí substituo por "um livro que eu teria que ler pra escola, mas não li". E esse existe: fiz prova sobre um livro que não li. Tipo um teste: será que dá? Eu era uma aluna que testava limites. O que, acho, é positivo. Não era acomodada nem conformada. E achava as provas sobre livros - nessa época aí - extremamente chatas. 


Deve ter sido na 8a série. No meu primeiro ano de volta ao Brasil (7a série), tive três professores fundamentais: os de geometria e desenho, Marcelo Sá Correa e Claudio Veloso; e o de português, Armando. Armando teve que me aturar, porque eu fazia prova e paraprova: nas beiradas ia um monte de recadinhos, de comentários, de "será que é isso". Ele mandou bem e com ele li dois livros de que gostei, "Cândido Urbano Urubu" do Carlos Eduardo Novaes - esse li bem antes de ter ouvido falar em Fernão Capelo Gaivota, só depois é que fui achar graça - e "A ilha das borboletas azuis", de Carlos de Marigny. Ah, esse... me fez sonhar. Era uma história de triângulo amoroso adola, Janjão que era apaixonado por uma menina cujo nome não lembro, mas que tocava piano, era loirinha e etérea, e Mônica, apaixonada por Janjão, que nem olhava pra ela. Pelo menos no começo.

Eu era Mônica, claro. Toda errada, tudo menos etérea, apaixonada à primeira vista por um menino da minha turma, de olhos de gato e sotaque quase nordestino, que queria ser jornalista (e eu achei tão estranho isso). Esse eu li e adorei: reli um monte, e lembro do pátio da escola, de Mônica que jogava vôlei, de Janjão que se chamava Jânio João e tinha vergonha do nome... nessa época inventei um alfabeto inteiro, pra escrever coisas que minha mãe não poderia ler mesmo se pegasse. Usei durante um tempo: um alfabeto meu, do qual ninguém tinha a senha. Só meu. Eu escrevia e eu mesma lia. 


Só que o assunto aqui é outro: é o  que não li. E fiz prova. Foi "A hora dos ruminantes". José J. Veiga. Não gostei da idéia (já aí aparecia a aversão ao realismo fantástico que me fez ficar com indigestão de "Cem Anos de Solidão"....será?). Não gostei da proposta. E só muito tempo depois li o Ionesco dos rinocerontes. Aí fui deixando pra lá, procrastinando... e no dia da prova, logo antes de entrar, pedi pra alguém me contar a história: assim, resumida. Rapidinho. Como começa? O que acontece? Como acaba? E fui pra sala. Fui bem, acho. Provavelmente algo entre sete e oito. O que certamente deve ter me causado certa decepção: se a prova fosse boa, o professor teria visto. Teria notado. Mas cedo identifiquei que saber escrever, saber escrever direito, era meio caminho andado. Provavelmente mais que meio.

Acho isso ainda: se a gente abolisse esse montão de matérias específicas e focasse os meninos, durante os anos de ensino fundamental, nas instrumentais - português e matemática -, nosso mundo seria outro. Claro: se  a pessoa sabe português, não esse mané que ensinam por aí, de decoreba de coisas que não tem nada a ver com nada, mas português de escrever, de contar história, de contar a mesma história com outro narrador, de resumir pra um terço das palavras, ampliar para o dobro, parafrasear, comentar.... ah, se sabe português assim, mata qualquer charada, resolve qualquer parada. Ou quase. 


E matemática? Linguagem também, né? Com reforço, mais uma vez, não na matemática de decoreba de fórmulas: mas na lindeza da matemática, nos sentidos do infinito (lembro até hoje da minha professora da 2a série explicando que num segmento de reta tinha infinitos pontos, e da viagem que a turma fez sobre isso),  do zero e de como ele mudou a cara das coisas, dos conjuntos e do pertencimento ou não, das interseções, do que está fora... tanta coisa que ajuda a entender, a decodificar, a explicar todo o resto. Tanta coisa que ajuda a investigar por conta própria, que dá autonomia, que possibilita as viagens de exploração de cada um.


Enfim. Voltando. Esse foi o livro que eu não li. E achei chato.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 6

Até agora tava fazendo direitinho, cumprindo o pedido. Mas hoje é "um livro de seu autor favorito": aí, né, fica difícil. Fica difícil mesmo. Não dá pra escolher um autor favorito, e não vou. Porque ia ser uma mentira grande demais pra alguém que mergulhou no caldeirão dos livros tão pequenininha, e de lá saiu transformada pra sempre. E que nunca perdeu o encantamento - como vejo acontecer com alguns "adultos" - pelas histórias inventadas, contadas, desfiadas, apresentadas. Foi história, é comigo mesmo. Pode ir sentando, pode ir dizendo: encontrará um ouvido pronto, um olhar atento, e se, a história cair no agrado, pode me perguntar daqui a cinco, dez, quinze anos: vou lá no arquivo onde ficou guardada, dou uma espanada nela e... entrego de volta. Talvez meio parafraseada, vai; mas você vai reconhecer.

E, enquanto escrevo, vou tomando a decisão. De um favorito, que não é "o", mas é "um". Três, dois, um... partiu.
"Olhai os Lírios do Campo". Érico Veríssimo. Eu com onze anos. E o local era Skyros, uma ilha grega no arquipélago das Sporades
(escrevo isso e fico pensando que quem me lê vai ficar com imagens de luxo e riqueza. E não, galera, não. A gente morava na Europa, e a Grécia, nesse esquema de ir de carro, ferry, ilha menos famosa e ficar em casa de gente, era sinônimo de férias de verão baratas. Daqui não dá pra ver, mas era.).
Então. Skyros, eu com onze e já no início da adolescência. Com todas as dores. Com toda a angústia. Aí vem minha mãe, que às vezes não tem senso de proporções, e acha que já é apropriado me dar esse. 

Caraca. Viajo e sinto de novo. Susto, translumbramento, espanto, encanto. Tudo. Tudo isso na história de Eugênio e Olívia contada em dois tempos: o tempo-presente em que Eugênio no carro vai ao encontro da amante que está a morrer de parto; e o tempo-passado da memória de Eugênio, da criança Genoca no colégio interno, do pai do qual ele tinha vergonha, do furo nas calças... do irmão com quem brigava. A faculdade de medicina, a vontade de vencer na vida. E Olívia, o amor da vida. Deixado de lado pela grana do pai de Eunice. 

Me lembro bem de perguntar a minha mãe - lendo - "quem é Freud?", e da gargalhada que ela deu: "É Fróide", e da vergonha confusa que eu senti, como tantas vezes, por não saber.

Amante, Freud, ganância, escolhas, fidelidade,  morte no parto. Bíblia. Com onze anos. Era meio muito. E tudo isso deitada numa toalha nos seixos das praias de Skyros, entre jogos de truco com Zuza, Clarissa e Marcelo, comendo batatas com queijo ralado no "boteco da nossa praia", além do farnel diário que a gente levava: cream-crackers, queijo, melão, melancia... 

Durante muito tempo eu pensei (e não contei a ninguém) que, se tivesse uma filha, seu nome seria Anamaria. Assim junto, como era o nome da filha de Eugênio e Olívia. A filha que ele criou sozinho, na parte do livro em que se redime de todas as escolhas anteriores. Outro dia mesmo comentava, com a Suzana que é gaúcha, da importância do Veríssimo e desse livro na minha vida.

Porque começou aí. Mas não parou: e o próximo, quando voltei das férias, foi o único outro Veríssimo que tinha na estante da minha casa da Rue Saint-Laurent - as memórias de Érico Veríssimo, "Solo de Clarineta". 

E de novo. Nova viagem pela infância. Conheci a farmácia do pai do autor, sua família, os tios que inspiraram tantos personagens. Conheci os personagens através da voz de Veríssimo contando como é que os construiu. Descobri que "Olhai os Lírios do Campo" tinha começado com uma visita ao hospital, com um homem desesperado saindo de um quarto e a informação de que ele acabara de perder a mulher no parto. Depois conheci Mafalda, o percurso do diplomata, os filhos Clarissa (solar, alegre, animada) e Luis Fernando (introvertido,magro, músico). Quando, na volta ao Rio, fui apresentada ao LFV, tive dificuldade de reconciliar o cartunista das Cobras com o  menino magrinho que tocava sax. (E, dando uma gugleada pra ter certeza que era sax mesmo, vejo - ontem foi aniversário dele. Deve ser por isso.).

Só bem depois é que fui conhecer "ao vivo" - sem ser pelo relato de Solo de Clarineta - os personagens d' O Tempo e O Vento. O capitão Rodrigo Cambará, Bibiana e tantos outros. Desses sou menos amiga. Conheci mais tarde. Certa cerimônia. Não é que não gostei, vejam bem: mas não estão entranhados, não fazem parte de mim como fazem Olhai os Lírios do Campo e Solo de Clarineta. Inclusive pela parte filosófica que é o fio puxado pela citação bíblica. Nessa época eu fazia catecismo, conhecia as falas. E essa me toca até hoje, pela fé e pela entrega que pede. A fé que Eugênio não teve quando abandonou Olívia e a trocou pela ilusória segurança do casamento com Eunice.

Gosto do salto no escuro. A rede tá lá, a gente apenas não a vê. Há que acreditar. E se jogar.



P.S. Suzana me alerta que Olívia não morreu de parto. Vou checar, e ela tem razão: ela morreu depois, e talvez de parto tenha sido a moça que o Érico Veríssimo viu no hospital. Ou nenhuma das duas, e eu tenha inventado essa parte. Mas o relato fica como botei, porque, como diz o Ondjaki citando Chicó: "não sei, só sei que foi assim".

domingo, 25 de setembro de 2011

O peso que o tempo tem e o que a gente é de verdade

E eu nem ia escrever mais nada hoje, mas acabei entrando numa conversa, li esse post aqui da Luciana, que ecoava tanto o que penso sobre este assunto, lembrei que meu único texto na Constelar fala disso, e voltei aqui pra comentar. Sobre o tempo. O tempo e as mulheres. A valorização ou desvalorização das mulheres. E esse é assim mesmo: específico sobre mulheres. Porque o "valor social" das mulheres tá intrinsecamente ligado à forma física e à aparência. 

Mesmo que, ao fim e ao cabo, os homens gostem de ter alguém com quem rir e com quem conversar. Eles gostam, mas não sabem disso. Porque a cultura, esse monstro de mil patas e nenhuma cara que flui e engole as individualidades à sua volta, a nossa cultura machista, ensina aos homens que seu valor é dado (nesta ordem): a) pelo carro que têm, que como todos sabem é uma proxy do... bom. Vocês me entendem. Basta ver uma tarde de anúncios pra ver que o que os caras tão anunciando não é carro: é outro tipo de potência; b) pela mulher que conseguem. 

E "que conseguem" não tá ligado, como o marciano desavisado poderia supor, à sua capacidade de conquistar e manter a seu lado alguém divertido, interessante, vivo, curioso. Não, nananinanão. Tá ligado, não é, à capacidade de conquistar alguém de pele lisa, cabelos brilhantes, sorriso esfuziante, cintura de pilão, porte de felina. Gata. Gostosa. Princesa da ervilha. Elegante. Um márquetchin pro cara que a usa como adorno no braço direito, que a exibe como um troféu de caça. 

O cara? Baixinho, careca, barrigudo, chato. Não importa. Ninguém diz nada. Mas ah, vai uma mulher com rugas, com tamanho, com peso, com história escrita no corpo namorar um sujeito mais novo... e bonito: aí a reprovação é sideral. Não pode: tá contra a ordem das coisas. Tá errado. É feio. É deselegante. "O que é que ele viu nela?" , a pergunta-clichê que todos se fazem. Todos no seu sentido original, ou seja, englobando os gêneros reconhecidos e a reconhecer.


Tudo isso pra contextualizar. Porque eu não gosto quando dizem que eu pareço mais jovem. Não gosto, em primeiro lugar, porque não é verdade: eu não durmo em tupperware, nem parei de mudar com alguma idade pra trás. Mais jovem, eu era diferente. Só sou assim agora porque vivi o que vivi, sofri o que sofri, gargalhei quando deu, chorei um monte - que eu choro à beça, pra caralho ou mais - e... como diria o Neruda, de saudosa memória, "confesso que vivi". E não vou botar a cabeça embaixo da asa, não vou fazer de conta que não, não vou renegar os anos: são meus, me trouxeram até aqui, e como taurina possessiva que sou não cedo nenhum deles. Se gosto de mim hoje, é por conta desse caminho. Tortuoso, difícil, uma "aprendizagem pela pedra" (salve, João Cabral). Alegre também, divertido, risonho, cheio de amigos, de amores. Um caminho percorrido. E nem vou citar o Antonio Machado de novo, porque já tá lá no texto da Constelar.

E, porque falei em Constelar, lembro que tenho lua no ascendente, que sou "guardiã da memória". Talvez por isso me importe tanto. Talvez por isso sinta tanto. Talvez por isso deteste tanto esse mundo em que as mulheres têm que pedir desculpas por serem, depois dos trinta. Por serem. Por estarem ali e quererem viver "à part entière". Sem descontos. Sem ser na xepa. Querem tudo: um amor bacana, companheiros de copo e de cruz, um espaço próprio, o lugar de dizer o que acham. Sem que passem a mão na cabeça, sem que olhem piedosamente e, também, sem que se espantem: "nossa, como você parece mais jovem!" . Pareço não. Sou assim porque cheguei até aqui. Em todos esses anos. E vocês que vão dormir com isso.



30 livros em um mês - dia 5

E o de hoje, que eu demorei à beça pra definir, é "um livro que lhe faz sorrir".
Sorrio. :)
E o livro, que já foi, voltou, foi de novo e agora é, vai ser "84, Charing Cross Road". Que em português foi editado depois do filme - só isso justifica o ridículo título "Nunca te vi, sempre te amei". 
(Fabinho, essa pauta, depois da dos esmaltes, também é boa - quem redige os títulos de filmes em português, e sobretudo: quais são os critérios? Pauta de Piaui...).
Mas o livro: eu li depois do filme. No filme, Anne Bancroft e - pela primeira vez - Anthony Hopkins. Me apaixonei perdidamente pelas rugas em torno dos olhos azuis, e pelos subtons. E, apesar do cinema americano tê-lo maltratado tanto, não consigo não seguir apaixonada. Marcas na alma que se vêem nos olhos. 
Adoro livros epistolares: meu lado voyeur (mas quem não...?). Adoro cartas, escrever cartas, receber cartas. Uma prática em desuso, infelizmente. Se o computador tem a vantagem da instantaneidade, não dá pra não sentir saudade daqueles momentos de envelope fechado - de reconhecer a letra, de sentir o volume. Saber que a outra pessoa pegou naquele papel, ver as hesitações, o aproveitamento do espaço restrito, os desenhinhos às vezes. 
Cartas e livros. Por suposto. Como não me encantar com essa história real de gente que escreve cartas e compartilha a paixão pelos livros? Essa história delicada e duradoura, de amizade e solidariedade, que atravessa a guerra que um viveu e a outra não, que afeta a livraria Marks and Co. inteira, onde Helen Hanff - uma ariana, me diz São Google - se tornou pouco a pouco uma amiga de todos? E tudo a partir de um contato que tinha tudo para ser meramente funcional, meramente comercial...


O livro é composto das cartas. Cartas reais. O que dá um gostinho a mais, claro. Saber que aquelas pessoas não saíram da imaginação de nenhum poeta: a poesia tá no mundo pra quem tem olhos de ver. Uma delícia ver os pedidos tão pessoais de Helen, suas reclamações com eventuais edições insatisfatórias, as explicações e respostas do livreiro Frank Doel - primeiro sucintas e formais, depois mais e mais pessoais, sem nunca, no entanto, ultrapassar a invisível barreira do que pode ser dito em público. Acompanhar o envio dos pacotes durante a escassez da guerra, os agradecimentos do pessoal da livraria e da esposa de Frank - que confessou ter ciúmes dessa história, mas o que fazer diante de uma história tão bonita e verdadeira, e que, além do mais, não cruzava nenhuma das fronteiras que lhe teriam permitido esbravejar e se dizer traída? 
O livro contém, além das cartas que se encerram com a brusca comunicação do falecimento de Frank, o relato de Helen Hanff da sua visita a Londres, de seu encontro com a esposa e as filhas do livreiro. Como um p.s. à história. 
Uma delícia de livro. Que, só de lembrar, me faz sorrir.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 4

E hoje é "o primeiro livro que lhe fez chorar". Hoje o Rio tá um esplendor, um dia azul e luminoso, da janela vejo o Cristo e revejo um dia provavelmente cinza da minha infância, eu jogada na cama dos meus pais no 4 da Rue Saint-Laurent, soluçando até não mais poder.

O livro? A versão que li se chamava "Mon bel oranger". Peguei na biblioteca da escola.
Mas o título original era "Meu pé de laranja lima" - José Mauro de Vasconcelos. Eu tinha acabado o livro, e acaba triste. Acho que foi o primeiro livro que li que acaba triste.


(pausa para dizer que aconteceu a mesma coisa com "Le Petit Prince" - que talvez seja o primeiro primeiro -, e boto o nome em francês porque não reconheço a tradução de D. Marcos Barbosa como válida. Sinto. Apesar dos prêmios. Não mantêm o registro semântico coloquial - tradução ruim.)

Voltando... não lembro do livro: lembro da atmosfera. Lembro do pé de laranja lima, que o menino se chamava Zezé (acho), que a irmã se chamava Gogóia (tenho certeza), que ele gostava de Tom Mix - que eu conhecia do Monteiro Lobato... que ele tinha uma vida não muito boa,  e que o pé de laranja lima era onde ele sonhava e Tom Mix lhe fazia companhia nos sonhos. Nisso eu me reconhecia: minha vida era "boa" (o que quer que isso queira dizer), mas eu sofria com dores de crescimento e de estranhamento, e me refugiava no mundo dos sonhos como se não houvesse amanhã. Ou como se houvesse.

E por que tanto choro? Não tenho idéia. Não lembro como o livro acaba - e isso é pouco característico da minha elefântica memória. Lembro, só, da crise de choro fenomenal, que se repetiu quando li a continuação ("Rosinha, minha canoa", que também li em francês mas não lembro o nome). Eu sempre gostei de chorar. Gosto até hoje: descansa, acalma, ajuda a equilibrar. Tenho pena de quem não chora (ao contrário do Gil em Chororô). Quem não chora fica seco, fica árido, tem uma dor que dói mais, parece. A gente é fraca e cai no buraco, o buraco é fundo, acabou-se o mundo. Mas depois que acaba a gente volta, surfando no mar de lágrimas (Alice disse). Volta pra cima. Levanta, sacode a poeira. Não adianta negar. Todos viram. Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. 
E acaba assim: choraí, galera. Depois melhora.