O livro do dia 9 é daqueles "o mais": é "o livro mais triste que você já leu". E eu, que passei a semana não-escrevendo esse post, pensei na verdade em dois.
O primeiro é um livro de que nem gosto, mas que li porque fazia sucesso lá na casa de tia Zélia e tio Paulo naquelas férias (eu, esponja, lia o que quer que fosse assunto, o que quer que estivessem lendo. Na saudosa casa do Espinheiro, de tantas lembranças, li coisas que só lá mesmo): "Éramos Seis", de Maria José Dupré. É a história de uma família - pai, mãe e quatro filhos -, contada na primeira pessoa por uma das filhas. Acho, sem certeza, que foi tema de novela. Conta a história depois, quando tudo já passou e eles não são mais seis.
O que me fez, de imediato, lembrar desse, foi a qualidade da tristeza ali relatada: uma tristeza dura, seca. Uma tristeza sem sonhos, sem possibilidade de esperança. Diferente da tristeza quente do desespero, da tristeza funda da angústia: uma tristeza contida e sem graça. Uma tristeza banal e triste, tão triste por isso. Tristeza feia.
O segundo talvez cause espanto, mas é isso mesmo: o segundo é Pollyanna - Eleanor H. Porter. O primeiro livro sem imagens que li. E eu devia ter menos de sete. Os de Monteiro Lobato tinham imagens, poucas mas tinham; Pollyanna, nada. Só a capa, em que o rosto da menina ruiva era apenas esboçado. Foi um passo, foi difícil. Foi uma conquista.
Em Pollyanna, o tão famoso "jogo do contente" é usado por ela pra combater a sempre presente tristeza: jogo ensinado pelo pai missionário (palavra que aprendi ali, como tantas), quando ela chorou por ter recebido, no malote de Natal, em vez da boneca pedida, muletas. Malote de Natal: pobreza. Renata, seis anos, tentando absorver aquilo, um mundo em que não se escolhe presente de Natal -eles vêm no malote, e pode acontecer de virem muletas em vez do esperado presente. E o pai, iniciando a trajetória do jogo: "você tem que ficar contente... por não precisar delas!". Faz sentido. Mas que é difícil, é. É um modo de combater a tristeza.
Quando o livro começa, Pollyanna já é órfã (outra palavra aprendida): mais tristeza. Vai morar com tia Polly, responsável por metade do seu nome - a outra metade era da mãe, Anna.Tia Polly encarna aquela tristeza de "Éramos seis": seca, dura, sem esperança. E o livro conta o encontro dessas duas tristezas, a da menina órfã e pobre, a da tia amarga e solitária.
Tantas tristezas eu ali aprendi, nesse livro do qual para a lenda ficou somente o "jogo do contente". Mas, no vácuo, o jogo perde o sentido. Só serve quando a tristeza ameaça invadir todos os espaços: como um exercício de sobrevivência. De dizer "você está aí,mas eu sou mais forte". Não é brincadeira. Ou melhor, é brincadeira, e também é muito sério. Como tantas brincadeiras.
