sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Em dia de Vênus, de uma súdita

Sexta-feira - vendredi, venerdi, viernes - é dia de Vênus. Dia de homenageá-la, pois. E eu sou de Vênus: touro, signo regido pela deusa Afrodite. 
A casa onde eu cresci era de Vênus: dois taurinos - meu irmão e eu - e duas librianas - minha mãe e minha irmã. O único que não era (meu pai virginiano) olhava para isso tudo com humor e algum distanciamento. Achava graça, não se misturava; mas gostava, ah, gostava.


Desde cedo, por conta dessa configuração aí, me coube observar as diferenças entre a Vênus libriana e a taurina: faces diversas da deusa.


 A Vênus de libra é estética até a raiz dos cabelos, até a ponta dos saltos. Harmonia, elegância, comedimento. Balanço de cores, de linhas: Vênus-decoradora, Vênus-estilista. Minha sobrinha Maria (mais uma libriana para o pacote) vendo televisão comigo: "Tia Tata, o batom daquela moça não combina com a roupa dela!". Eu, boquiaberta como sempre. Minha irmã libriana a chorar pelo quadro cujo azul não combinava com o vermelho do quarto dela. Eu, toda dos contrastes, pensando quem teria deixado aquele changeling na porta da minha casa. Quer dizer, pensaria isso, se não fosse minha mãe. Minha mãe e seu amor aos conjuntinhos, tão librianos. Minha mãe morena, horas diante do espelho: o tom certo de batom, o contorno, a base, as sobrancelhas. Minha primeira professora da arte da maquiagem. Só de olhar, aprendi quase tudo.


Já a Vênus taurina é sensação: a sensação da explosão de cores da primavera, que a gente tenta reproduzir na paleta, nos lápis de cor. A sensação das texturas dos pincéis, das tintas, do vermelho líquido e daquele mais opaco... sensação do paladar, claro. Muito. E eu até hoje tenho a mesma sensação quando cozinho e quando desenho: uma certa alegria interior, de ir pegando e misturando, harmonizando e contrastando, tons, matizes, sabores. Tudo junto e misturado. Não cozinho tanto, não desenho mais tanto: mas esse é meu melhor eu, o da criação alegre, o da brincadeira que gera: pratos e desenhos. Nunca ao mesmo tempo, mas quem sabe. 
Meu irmão taurino, mais contido, é tão parecido comigo e pouca gente sabe: só dois anos de diferença e a gente quase não precisava falar pra se entender. A gente no cinema, e bastava um: "você viu?" "você ouviu?" E o outro já sabia, porque a gente pensava tão parecido. A gente morou uma pá de tempo juntos, e funcionava tão bem: prioridades similares. O meu, o seu, o nosso, tão definidos. Meu irmão que sempre comprou anéis de prata, colares, com um  gosto tão certeiro que dói. Que já trouxe de viagem, vejam só, até batom de presente. Sem me perguntar. E - bien sûr - na mosca. Nossas feiras de sábado na General, e os almoços que a gente produzia. Prá gente, pros amigos, pra quem estivesse pela Moura Brasil, o apê era grande e sempre cabia mais um. E vinha.


O dia hoje é de Vênus, viva ela. O dia hoje é da gente, vamos aproveitar. Lindamente aproveitar.










segunda-feira, 10 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 10

E, no dia 10, o "clássico" favorito.


Ahã.


Clássico tá entre aspas só no meu. Porque tenho dificuldade, pois não. O que é clássico? Sei direito não, juro. Sou meio vira-lata.
Sou bem vira-lata, aliás. 
E nunca separei livros em "clássicos" e "outros": minhas organizações são outras. Na minha casa nunca se deu muita bola pra essa categoria aí: "clássicos". Acho que quem gosta mesmo de livro - gosta, quer dizer, tem intimidade; não admiração, ou respeito, ou sei lá - não liga muito pra isso: gosta de ler, lê o que gosta, cria seus próprios clássicos.


Bom.


Mas acontece que eu fiz um curso de "língua e literatura francesas" - diploma e tudo. Fiz porque dava, porque eu falava francês, porque era perto. Fiz, em primeiro lugar, porque era um espaço de acolhida, um espaço onde as gentes me entendiam e eu entendia as gentes. Talvez, àquela época, o único espaço.
Era um curso de três anos: e eu tive que fazer em quatro. Isso porque cheguei ao final do terceiro ano com 17 anos - e como o curso dava um diploma que, na França, era universitário (e aqui poderia ter virado também, caso eu tivesse feito o ano de complementação pedagógica - aí eu teria uma licenciatura. Não fiz), eu só podia acabar com 18. O diretor da Aliança, Bernard Plaud, achava que se ele escrevesse pra lá, se explicasse que eu era boa aluna, blá-blá-blá... eles me liberavam.
Não deu pra ser, os caras não abriram exceção e eu fiz mais um ano - que não paguei, diga-se. E fiz feliz: estudei outros livros,  sob a batuta inspiradora de mestre Karydakis.


Isso tudo pra explicar que eu li, nesse contexto, alguns "clássicos": Candide, de Voltaire, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Madame Bovary. Flaubert.


E esse é o meu: não sei se porque o Karydakis transmitiu a paixão que era dele pelo livro, pelo autor à busca da palavra exata. Lembro dele contando da proibição do uso do nome "Journal de Rouen", que foi substituído por "Fanal de Rouen", pra dar uma sonoridade parecida.

Com Madame Bovary,  eu aprendi que qualquer história é história. Porque o que me encantou, levada pelo olhar do Karydakis, não foi a história: a história era a mais irrelevante possível, como queria Flaubert. Uma história de "fait-divers" de jornal, uma história banal. Uma história qualquer elevada a jóia rara pela arte do texto construído, lapidado, polido. Um dia para escrever um parágrafo, o cuidado na seleção dos nomes dos personagens, a atenção a cada frase - melodia, andamento... como se fosse uma composição musical. O esforço de parecer simples. 


Não sei qual era o signo de Flaubert, mas esse universo me evoca, em tudo, o signo da simplicidade e do amor aos detalhes: Virgem, um signo que esconde o brilho nas miudezas de que cuida, com atenção sustentada e cuidado permanente. 
Madame Bovary, uma mulher qualquer, um amor qualquer, uma morte qualquer - e uma viagem fantástica para quem ama as palavras. Um trabalho de obsessão e método. Uma obra a ser colocada no altar do deus das pequenas coisas.
Meu clássico.

















sábado, 8 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 9



O livro do dia 9 é daqueles "o mais": é "o livro mais triste que você já leu". E eu, que passei a semana não-escrevendo esse post, pensei na verdade em dois.

O primeiro é um livro de que nem gosto, mas que li porque fazia sucesso lá na casa de tia Zélia e tio Paulo naquelas férias (eu, esponja, lia o que quer que fosse assunto, o que quer que estivessem lendo. Na saudosa casa do Espinheiro, de tantas lembranças, li coisas que só lá mesmo): "Éramos Seis", de Maria José Dupré. É a história de uma família - pai, mãe e quatro filhos -, contada na primeira pessoa por uma das filhas. Acho, sem certeza, que foi tema de novela. Conta a história depois, quando tudo já passou e eles não são mais seis. 

O que me fez, de imediato, lembrar desse, foi a qualidade da tristeza ali relatada: uma tristeza dura, seca. Uma tristeza sem sonhos, sem possibilidade de esperança. Diferente da tristeza quente do desespero, da tristeza funda da angústia: uma tristeza contida e sem graça. Uma tristeza banal e triste, tão triste por isso. Tristeza feia.

O segundo talvez cause espanto, mas é isso mesmo: o segundo é Pollyanna - Eleanor H. Porter. O primeiro livro sem imagens que li. E eu devia ter menos de sete. Os de Monteiro Lobato tinham imagens, poucas mas tinham; Pollyanna, nada. Só a capa, em que o rosto da menina ruiva era apenas esboçado. Foi um passo, foi difícil. Foi uma conquista.

Em Pollyanna, o tão famoso "jogo do contente" é usado por ela pra combater a sempre presente tristeza: jogo ensinado pelo pai missionário (palavra que aprendi ali, como tantas), quando ela chorou por ter recebido, no malote de Natal, em vez da boneca pedida, muletas. Malote de Natal: pobreza. Renata, seis anos, tentando absorver aquilo, um mundo em que não se escolhe presente de Natal -eles vêm no malote, e pode acontecer de virem muletas em vez do esperado presente. E o pai, iniciando a trajetória do jogo: "você tem que ficar contente... por não precisar delas!". Faz sentido. Mas que é difícil, é. É um modo de combater a tristeza. 

Quando o livro começa, Pollyanna já é órfã (outra palavra aprendida): mais tristeza. Vai morar com tia Polly, responsável por metade do seu nome - a outra metade era da mãe, Anna.Tia Polly encarna aquela tristeza de "Éramos seis": seca, dura, sem esperança. E o livro conta o encontro dessas duas tristezas, a da menina órfã e pobre, a da tia amarga e solitária.
Tantas tristezas eu ali aprendi, nesse livro do qual para a lenda ficou somente o "jogo do contente". Mas, no vácuo, o jogo perde o sentido. Só serve quando a tristeza ameaça invadir todos os espaços: como um exercício de sobrevivência. De dizer "você está aí,mas eu sou mais forte". Não é brincadeira. Ou melhor, é brincadeira, e também é muito sério. Como tantas brincadeiras.

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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Solidão do Cavaleiro no Horizonte

Meu pai era um homem que amava livros. Amava sem respeitar: os livros que ele lia ficavam marcados, dobrados, amassados. Porque ele lia em todo canto: na rede quando dava, na cadeira de couro que minha mãe deu a ele, com o boi pra complementar e apoiar os pés, no sofá da sala, mas também no banheiro, na praia cheia de areia, em qualquer mesa de bar, muito em aviões (até hoje encontro marcadores com M.Lins e o n° do assento, em determinados livros). 

Lia e se apaixonava. Quando se apaixonava, a gente sabia: ele se entusiasmava, lia passagens, comprava um monte e saía dando de presente. "A Solidão do Cavaleiro no Horizonte" tem um lugar de destaque nesse panteão. Porque nesse caso, acho que era o livro que ele gostaria de ter escrito. Um livro de autor nordestino, de nome Marcos como ele. Um livro lançado em 79, também conhecido como "o ano 1 da volta": ano prenhe de possibilidades, mas também de receios, de decepções. Ano de balanço. 

"A solidão"... é um livro de balanço. Pelo que me lembro. Porque não lembro muito: li, claro, como não havia de. E gostei. Mas, curiosamente, em vez de personagens e situações, lembro é do clima. Do  tom. Um tom meio amargo. Um tom de "o que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou". Um tom que, certamente, combinava com o que meu pai sentia naquele momento: combinava muito. Com o que ele sentia e, na sua reserva natural, dizia pouco. Dizia aos poucos. Dizia com livros, como este.

E, porque os deuses tecem suas tramas e com elas se divertem, muito tempo depois, ficamos amigas, muito amigas mesmo, de uma moça cuja mãe era casada com Marcos Santarrita: o autor do livro que meu pai queria ter escrito. Minha irmã soube primeiro, e imediatamente reconheceu o nome tão popular na nossa casa. Lembro da gente conversando sobre isso na Lagoa, meu pai comovido com esse "encontro", falando do livro. Nunca conheci Marcos Santarrita: ocasionalmente encontrava seu nome em ótimas traduções, eu que sempre vou ver quem traduziu quando a tradução é boa. Tão raro e tão precioso. As dele sempre eram.

Ontem, o mundo dos livros ficou mais pobre. Foi-se Marcos Santarrita, um amante dos livros, um artesão das letras, um contador de histórias. Todo meu carinho a quem o amava. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 8

O de hoje é "o livro mais assustador que você já leu". E pra esse não preciso nem pensar - é óbvio.
A cena foi meu aniversário de onze anos, um presente atrasado da minha amiga Françoise: dois livros. Um era "Marie Lumière", lindinho, sobre uma menina (Maria Luz) que ia conhecer o pai e conviver com ele pela primeira vez na vida.
O outro é a pauta aqui: "O caso dos dez negrinhos" (Dix petits nègres), da Agatha Christie. Meu primeiro Agatha Christie. Tão assustador que escondi o livro depois de tê-lo, fascinada e apavoradamente, devorado. E demorei um tempão até pegar meu segundo Agatha Christie - que foi, felizmente, Assassinato no Expresso do Oriente, a partir do qual minha carreira de agathachristeira começou e foi se solidificando ao longo da vida; mas isso é outro assunto.
"O caso dos dez negrinhos" é um livro assustador pela atmosfera. Uma ilha. Dez convidados. Que vão morrendo um a um. Sem que se saiba porque. Uma ilha sem anfitrião. Ilha já é assustador, né. Pelo isolamento. Uma ilha em áreas britânicas ainda tem, possivelmente, falésias de pedras negras e brumas. Nem lembro se essa tinha. Acho que nunca mais li o livro. Eu que leio e releio Agatha Christies como comfort books. Pra me confortar, pra me consolar e me fazer achar que tudo tem jeito. Como outros lêem livros de auto-ajuda, eu leio "Aventura em Bagdad", "O homem do terno marrom", os Miss Marple todos, os de Tommy e Tuppence Beresford. Poirot também, claro: mas sou mais Miss Marple e seu universo de Saint Mary Mead, as fofocas do vilarejo, a "natureza humana" que se reconhece nas pequenas coisas... dos livros de Poirot gosto é do alter-ego da autora, Ariadne Oliver, e seu detetive finlandês por conta do qual vivia recebendo cartas de reclamação dos leitores (e sempre imagino as cartas dos belgas à própria Agatha). 
Nos "dez negrinhos" - que, por reclamações de editoras, já teve vários nomes e não sei mais qual o que está em voga atualmente -, não há personagem principal, não há esperança, não há saída. A atmosfera de angústia só piora ao longo do livro. Não é, definitivamente, um Agatha Christie característico. Só que foi meu primeiro: eu não sabia.

A história se fecha num posfácio explicativo. Pelo menos isso.




domingo, 2 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 7

"Um livro que você odiou mas teve que ler pra escola?" Acho que não tem. Se eu tive que ler, mesmo forçada, acabei achando algo interessante, algo curioso, algo pelo qual valeu a pena ter lido o livro. Aí substituo por "um livro que eu teria que ler pra escola, mas não li". E esse existe: fiz prova sobre um livro que não li. Tipo um teste: será que dá? Eu era uma aluna que testava limites. O que, acho, é positivo. Não era acomodada nem conformada. E achava as provas sobre livros - nessa época aí - extremamente chatas. 


Deve ter sido na 8a série. No meu primeiro ano de volta ao Brasil (7a série), tive três professores fundamentais: os de geometria e desenho, Marcelo Sá Correa e Claudio Veloso; e o de português, Armando. Armando teve que me aturar, porque eu fazia prova e paraprova: nas beiradas ia um monte de recadinhos, de comentários, de "será que é isso". Ele mandou bem e com ele li dois livros de que gostei, "Cândido Urbano Urubu" do Carlos Eduardo Novaes - esse li bem antes de ter ouvido falar em Fernão Capelo Gaivota, só depois é que fui achar graça - e "A ilha das borboletas azuis", de Carlos de Marigny. Ah, esse... me fez sonhar. Era uma história de triângulo amoroso adola, Janjão que era apaixonado por uma menina cujo nome não lembro, mas que tocava piano, era loirinha e etérea, e Mônica, apaixonada por Janjão, que nem olhava pra ela. Pelo menos no começo.

Eu era Mônica, claro. Toda errada, tudo menos etérea, apaixonada à primeira vista por um menino da minha turma, de olhos de gato e sotaque quase nordestino, que queria ser jornalista (e eu achei tão estranho isso). Esse eu li e adorei: reli um monte, e lembro do pátio da escola, de Mônica que jogava vôlei, de Janjão que se chamava Jânio João e tinha vergonha do nome... nessa época inventei um alfabeto inteiro, pra escrever coisas que minha mãe não poderia ler mesmo se pegasse. Usei durante um tempo: um alfabeto meu, do qual ninguém tinha a senha. Só meu. Eu escrevia e eu mesma lia. 


Só que o assunto aqui é outro: é o  que não li. E fiz prova. Foi "A hora dos ruminantes". José J. Veiga. Não gostei da idéia (já aí aparecia a aversão ao realismo fantástico que me fez ficar com indigestão de "Cem Anos de Solidão"....será?). Não gostei da proposta. E só muito tempo depois li o Ionesco dos rinocerontes. Aí fui deixando pra lá, procrastinando... e no dia da prova, logo antes de entrar, pedi pra alguém me contar a história: assim, resumida. Rapidinho. Como começa? O que acontece? Como acaba? E fui pra sala. Fui bem, acho. Provavelmente algo entre sete e oito. O que certamente deve ter me causado certa decepção: se a prova fosse boa, o professor teria visto. Teria notado. Mas cedo identifiquei que saber escrever, saber escrever direito, era meio caminho andado. Provavelmente mais que meio.

Acho isso ainda: se a gente abolisse esse montão de matérias específicas e focasse os meninos, durante os anos de ensino fundamental, nas instrumentais - português e matemática -, nosso mundo seria outro. Claro: se  a pessoa sabe português, não esse mané que ensinam por aí, de decoreba de coisas que não tem nada a ver com nada, mas português de escrever, de contar história, de contar a mesma história com outro narrador, de resumir pra um terço das palavras, ampliar para o dobro, parafrasear, comentar.... ah, se sabe português assim, mata qualquer charada, resolve qualquer parada. Ou quase. 


E matemática? Linguagem também, né? Com reforço, mais uma vez, não na matemática de decoreba de fórmulas: mas na lindeza da matemática, nos sentidos do infinito (lembro até hoje da minha professora da 2a série explicando que num segmento de reta tinha infinitos pontos, e da viagem que a turma fez sobre isso),  do zero e de como ele mudou a cara das coisas, dos conjuntos e do pertencimento ou não, das interseções, do que está fora... tanta coisa que ajuda a entender, a decodificar, a explicar todo o resto. Tanta coisa que ajuda a investigar por conta própria, que dá autonomia, que possibilita as viagens de exploração de cada um.


Enfim. Voltando. Esse foi o livro que eu não li. E achei chato.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

30 livros em um mês - dia 6

Até agora tava fazendo direitinho, cumprindo o pedido. Mas hoje é "um livro de seu autor favorito": aí, né, fica difícil. Fica difícil mesmo. Não dá pra escolher um autor favorito, e não vou. Porque ia ser uma mentira grande demais pra alguém que mergulhou no caldeirão dos livros tão pequenininha, e de lá saiu transformada pra sempre. E que nunca perdeu o encantamento - como vejo acontecer com alguns "adultos" - pelas histórias inventadas, contadas, desfiadas, apresentadas. Foi história, é comigo mesmo. Pode ir sentando, pode ir dizendo: encontrará um ouvido pronto, um olhar atento, e se, a história cair no agrado, pode me perguntar daqui a cinco, dez, quinze anos: vou lá no arquivo onde ficou guardada, dou uma espanada nela e... entrego de volta. Talvez meio parafraseada, vai; mas você vai reconhecer.

E, enquanto escrevo, vou tomando a decisão. De um favorito, que não é "o", mas é "um". Três, dois, um... partiu.
"Olhai os Lírios do Campo". Érico Veríssimo. Eu com onze anos. E o local era Skyros, uma ilha grega no arquipélago das Sporades
(escrevo isso e fico pensando que quem me lê vai ficar com imagens de luxo e riqueza. E não, galera, não. A gente morava na Europa, e a Grécia, nesse esquema de ir de carro, ferry, ilha menos famosa e ficar em casa de gente, era sinônimo de férias de verão baratas. Daqui não dá pra ver, mas era.).
Então. Skyros, eu com onze e já no início da adolescência. Com todas as dores. Com toda a angústia. Aí vem minha mãe, que às vezes não tem senso de proporções, e acha que já é apropriado me dar esse. 

Caraca. Viajo e sinto de novo. Susto, translumbramento, espanto, encanto. Tudo. Tudo isso na história de Eugênio e Olívia contada em dois tempos: o tempo-presente em que Eugênio no carro vai ao encontro da amante que está a morrer de parto; e o tempo-passado da memória de Eugênio, da criança Genoca no colégio interno, do pai do qual ele tinha vergonha, do furo nas calças... do irmão com quem brigava. A faculdade de medicina, a vontade de vencer na vida. E Olívia, o amor da vida. Deixado de lado pela grana do pai de Eunice. 

Me lembro bem de perguntar a minha mãe - lendo - "quem é Freud?", e da gargalhada que ela deu: "É Fróide", e da vergonha confusa que eu senti, como tantas vezes, por não saber.

Amante, Freud, ganância, escolhas, fidelidade,  morte no parto. Bíblia. Com onze anos. Era meio muito. E tudo isso deitada numa toalha nos seixos das praias de Skyros, entre jogos de truco com Zuza, Clarissa e Marcelo, comendo batatas com queijo ralado no "boteco da nossa praia", além do farnel diário que a gente levava: cream-crackers, queijo, melão, melancia... 

Durante muito tempo eu pensei (e não contei a ninguém) que, se tivesse uma filha, seu nome seria Anamaria. Assim junto, como era o nome da filha de Eugênio e Olívia. A filha que ele criou sozinho, na parte do livro em que se redime de todas as escolhas anteriores. Outro dia mesmo comentava, com a Suzana que é gaúcha, da importância do Veríssimo e desse livro na minha vida.

Porque começou aí. Mas não parou: e o próximo, quando voltei das férias, foi o único outro Veríssimo que tinha na estante da minha casa da Rue Saint-Laurent - as memórias de Érico Veríssimo, "Solo de Clarineta". 

E de novo. Nova viagem pela infância. Conheci a farmácia do pai do autor, sua família, os tios que inspiraram tantos personagens. Conheci os personagens através da voz de Veríssimo contando como é que os construiu. Descobri que "Olhai os Lírios do Campo" tinha começado com uma visita ao hospital, com um homem desesperado saindo de um quarto e a informação de que ele acabara de perder a mulher no parto. Depois conheci Mafalda, o percurso do diplomata, os filhos Clarissa (solar, alegre, animada) e Luis Fernando (introvertido,magro, músico). Quando, na volta ao Rio, fui apresentada ao LFV, tive dificuldade de reconciliar o cartunista das Cobras com o  menino magrinho que tocava sax. (E, dando uma gugleada pra ter certeza que era sax mesmo, vejo - ontem foi aniversário dele. Deve ser por isso.).

Só bem depois é que fui conhecer "ao vivo" - sem ser pelo relato de Solo de Clarineta - os personagens d' O Tempo e O Vento. O capitão Rodrigo Cambará, Bibiana e tantos outros. Desses sou menos amiga. Conheci mais tarde. Certa cerimônia. Não é que não gostei, vejam bem: mas não estão entranhados, não fazem parte de mim como fazem Olhai os Lírios do Campo e Solo de Clarineta. Inclusive pela parte filosófica que é o fio puxado pela citação bíblica. Nessa época eu fazia catecismo, conhecia as falas. E essa me toca até hoje, pela fé e pela entrega que pede. A fé que Eugênio não teve quando abandonou Olívia e a trocou pela ilusória segurança do casamento com Eunice.

Gosto do salto no escuro. A rede tá lá, a gente apenas não a vê. Há que acreditar. E se jogar.



P.S. Suzana me alerta que Olívia não morreu de parto. Vou checar, e ela tem razão: ela morreu depois, e talvez de parto tenha sido a moça que o Érico Veríssimo viu no hospital. Ou nenhuma das duas, e eu tenha inventado essa parte. Mas o relato fica como botei, porque, como diz o Ondjaki citando Chicó: "não sei, só sei que foi assim".