E chegamos ao dia 11, cujo tema é "o livro favorito com animais". E possivelmente o meu é o mesmo da Niara, mas não vou falar dele: ela já falou tão bem.. E adorei o do Pádua - cujo personagem central conheci (onde mais?) no "meu mundo" de Lobato, nos Doze Trabalhos. O asno Lúcio entra nas aventuras da turma do Sítio, fica amigo da galera e carrega por um tempo o Visconde e a canastrinha da Emília, conversando e contando sua história.
Pensei seriamente em burlar e falar do "Beijo da Mulher Aranha" (ainda vou), mas como sou meio certinha, confessei antes, e o Pádua me ameaçou com uma punição que envolvia mais um monte de posts. Aí, "dormi sobre o assunto" e desisti.
E vou falar, então, de um de bicho "de mesmo". Se bem que aranha é bicho, e nesse do Puig ainda fala da mulher-pantera... enfim. Isso vai ficar pra depois. Vamos ao atual.
Acabei escolhendo um que conheci pela escola: em Genebra, na escola, em vez de livros, a gente tinha fichários de leitura: algo parecido com aquela série fantástica escrita pelo povo de Minas, "Para Gostar de Ler". Temas que organizavam trechos de livros, poemas ou crônicas específicas. Um ótimo jeito de se achegar ao tortuoso e deslumbrante mundo da literatura.
Por conta da ficha, comprei o livro - ou peguei na biblioteca, o que é mais provável. Era "Le Lion", de Joseph Kessel. Dou uma googleada e descubro que existe em português: mas nem sabia. "Le lion" conta uma história na primeira pessoa. O narrador é um visitante de um parque no Kenya - um daqueles parques de "vida selvagem", para viajantes em busca de uma exótica experiência de safari. Um Magic Kingdom de Africa. Com gente real, com animais de verdade.
Ali, o narrador conhece e se encanta com a filha do administrador do parque, Patricia. Patricia, criada naquela realidade não-real, que no entanto era a dela: no meio de guerreiros masai, de animais selvagens. Patricia de grandes olhos, de cabelos curtos e macacão. Patricia e King: "seu" leão. King tinha sido levado, pequeno e frágil, à casa do administrador, e lá tinha crescido até ficar grande demais e ser deixado solto no parque. Mas entre o leão e a menina já tinham se criado, irremediavelmente, vínculos de fidelidade, de afeto, de vida. Uma história de amor linda e fadada ao fracasso. Fadada à tragédia, quando Patricia lança o leão sobre o mais forte e mais elegante dos guerreiros masai, que a tinha contrariado. E o pai dela tem que escolher entre atirar no guerreiro e atirar no leão. Uma escolha que não existe, claro. O leão morre.
E, com a morte de King, a história do livro é também a da morte da infância de Patricia, o final da vida-tal-como-ela-a-conhecia: porque, se ser criada no parque, no meio de guerreiros masai e tendo como maior companheiro um leão é "permitido" até certa idade, isso deixa de ser conveniente ou possível na entrada da adolescência, quando Patricia vai ter que assumir sua posição de menina branca de classe dominante. Uma posição que ela odeia, mas à qual se submete afinal, e cede.
O livro traça em certeiras pinceladas o retrato sofrido dos personagens secundários que são os pais de Patrícia, Sybil e Bullit: um casal dilacerado por conta do amor não-compartilhado pela selva africana. O fim da infância de Patricia, a morte do ser selvagem que era ela até então, é, também, a vitória da frágil e linda mãe, que sobrevive solitária e à base de remédios no que para ela constitui um inferno cotidiano. A derrota do pai, que por um momento teve a ilusão de que Patricia poderia crescer selvagem e livre, no simulacro de liberdade que é a selva com grades em que moram.
O final do livro mostra a menina submissa e triste abandonando o parque de sua infância pela perspectiva de virar uma "moça bem-comportada". O narrador, seu cúmplice e seu admirador, observa a derrota, e o livro acaba sem certezas. Sem final feliz. Aberto. Como acabam livros "para crianças" que respeitam as crianças, sem precisar dar-lhes o falso conforto de uma história resolvida.
Não se sabe o que acontecerá a Patricia. Sabe-se da dor do momento da partida. Da dor do pai, que com ela compartilha o amor pelo Kenya - um amor de brancos-chefes, mas, ainda assim, um amor. Sabe-se, enfim, da vitória final da mãe, a exilada por paixão por um marido que não a entende, e que ela não entende. A filha será criada como ela queria:
Dali, a gente só imagina.
P.S.
Quando comecei a escrever achei que ia escrever sobre dois: e o segundo era "Os três mosqueteiros". Por conta do primeiro capítulo, essencial como são os primeiros capítulos, e que conta do cavalo amarelo de D'Artagnan. Mas seria meio que burlar também, talvez. (...?)
sábado, 15 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Em dia de Vênus, de uma súdita
Sexta-feira - vendredi, venerdi, viernes - é dia de Vênus. Dia de homenageá-la, pois. E eu sou de Vênus: touro, signo regido pela deusa Afrodite.
A casa onde eu cresci era de Vênus: dois taurinos - meu irmão e eu - e duas librianas - minha mãe e minha irmã. O único que não era (meu pai virginiano) olhava para isso tudo com humor e algum distanciamento. Achava graça, não se misturava; mas gostava, ah, gostava.
Desde cedo, por conta dessa configuração aí, me coube observar as diferenças entre a Vênus libriana e a taurina: faces diversas da deusa.
A Vênus de libra é estética até a raiz dos cabelos, até a ponta dos saltos. Harmonia, elegância, comedimento. Balanço de cores, de linhas: Vênus-decoradora, Vênus-estilista. Minha sobrinha Maria (mais uma libriana para o pacote) vendo televisão comigo: "Tia Tata, o batom daquela moça não combina com a roupa dela!". Eu, boquiaberta como sempre. Minha irmã libriana a chorar pelo quadro cujo azul não combinava com o vermelho do quarto dela. Eu, toda dos contrastes, pensando quem teria deixado aquele changeling na porta da minha casa. Quer dizer, pensaria isso, se não fosse minha mãe. Minha mãe e seu amor aos conjuntinhos, tão librianos. Minha mãe morena, horas diante do espelho: o tom certo de batom, o contorno, a base, as sobrancelhas. Minha primeira professora da arte da maquiagem. Só de olhar, aprendi quase tudo.
Já a Vênus taurina é sensação: a sensação da explosão de cores da primavera, que a gente tenta reproduzir na paleta, nos lápis de cor. A sensação das texturas dos pincéis, das tintas, do vermelho líquido e daquele mais opaco... sensação do paladar, claro. Muito. E eu até hoje tenho a mesma sensação quando cozinho e quando desenho: uma certa alegria interior, de ir pegando e misturando, harmonizando e contrastando, tons, matizes, sabores. Tudo junto e misturado. Não cozinho tanto, não desenho mais tanto: mas esse é meu melhor eu, o da criação alegre, o da brincadeira que gera: pratos e desenhos. Nunca ao mesmo tempo, mas quem sabe.
Meu irmão taurino, mais contido, é tão parecido comigo e pouca gente sabe: só dois anos de diferença e a gente quase não precisava falar pra se entender. A gente no cinema, e bastava um: "você viu?" "você ouviu?" E o outro já sabia, porque a gente pensava tão parecido. A gente morou uma pá de tempo juntos, e funcionava tão bem: prioridades similares. O meu, o seu, o nosso, tão definidos. Meu irmão que sempre comprou anéis de prata, colares, com um gosto tão certeiro que dói. Que já trouxe de viagem, vejam só, até batom de presente. Sem me perguntar. E - bien sûr - na mosca. Nossas feiras de sábado na General, e os almoços que a gente produzia. Prá gente, pros amigos, pra quem estivesse pela Moura Brasil, o apê era grande e sempre cabia mais um. E vinha.
O dia hoje é de Vênus, viva ela. O dia hoje é da gente, vamos aproveitar. Lindamente aproveitar.
A casa onde eu cresci era de Vênus: dois taurinos - meu irmão e eu - e duas librianas - minha mãe e minha irmã. O único que não era (meu pai virginiano) olhava para isso tudo com humor e algum distanciamento. Achava graça, não se misturava; mas gostava, ah, gostava.
Desde cedo, por conta dessa configuração aí, me coube observar as diferenças entre a Vênus libriana e a taurina: faces diversas da deusa.
A Vênus de libra é estética até a raiz dos cabelos, até a ponta dos saltos. Harmonia, elegância, comedimento. Balanço de cores, de linhas: Vênus-decoradora, Vênus-estilista. Minha sobrinha Maria (mais uma libriana para o pacote) vendo televisão comigo: "Tia Tata, o batom daquela moça não combina com a roupa dela!". Eu, boquiaberta como sempre. Minha irmã libriana a chorar pelo quadro cujo azul não combinava com o vermelho do quarto dela. Eu, toda dos contrastes, pensando quem teria deixado aquele changeling na porta da minha casa. Quer dizer, pensaria isso, se não fosse minha mãe. Minha mãe e seu amor aos conjuntinhos, tão librianos. Minha mãe morena, horas diante do espelho: o tom certo de batom, o contorno, a base, as sobrancelhas. Minha primeira professora da arte da maquiagem. Só de olhar, aprendi quase tudo.
Já a Vênus taurina é sensação: a sensação da explosão de cores da primavera, que a gente tenta reproduzir na paleta, nos lápis de cor. A sensação das texturas dos pincéis, das tintas, do vermelho líquido e daquele mais opaco... sensação do paladar, claro. Muito. E eu até hoje tenho a mesma sensação quando cozinho e quando desenho: uma certa alegria interior, de ir pegando e misturando, harmonizando e contrastando, tons, matizes, sabores. Tudo junto e misturado. Não cozinho tanto, não desenho mais tanto: mas esse é meu melhor eu, o da criação alegre, o da brincadeira que gera: pratos e desenhos. Nunca ao mesmo tempo, mas quem sabe.
Meu irmão taurino, mais contido, é tão parecido comigo e pouca gente sabe: só dois anos de diferença e a gente quase não precisava falar pra se entender. A gente no cinema, e bastava um: "você viu?" "você ouviu?" E o outro já sabia, porque a gente pensava tão parecido. A gente morou uma pá de tempo juntos, e funcionava tão bem: prioridades similares. O meu, o seu, o nosso, tão definidos. Meu irmão que sempre comprou anéis de prata, colares, com um gosto tão certeiro que dói. Que já trouxe de viagem, vejam só, até batom de presente. Sem me perguntar. E - bien sûr - na mosca. Nossas feiras de sábado na General, e os almoços que a gente produzia. Prá gente, pros amigos, pra quem estivesse pela Moura Brasil, o apê era grande e sempre cabia mais um. E vinha.
O dia hoje é de Vênus, viva ela. O dia hoje é da gente, vamos aproveitar. Lindamente aproveitar.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 10
E, no dia 10, o "clássico" favorito.
Ahã.
Clássico tá entre aspas só no meu. Porque tenho dificuldade, pois não. O que é clássico? Sei direito não, juro. Sou meio vira-lata.
Sou bem vira-lata, aliás.
E nunca separei livros em "clássicos" e "outros": minhas organizações são outras. Na minha casa nunca se deu muita bola pra essa categoria aí: "clássicos". Acho que quem gosta mesmo de livro - gosta, quer dizer, tem intimidade; não admiração, ou respeito, ou sei lá - não liga muito pra isso: gosta de ler, lê o que gosta, cria seus próprios clássicos.
Bom.
Mas acontece que eu fiz um curso de "língua e literatura francesas" - diploma e tudo. Fiz porque dava, porque eu falava francês, porque era perto. Fiz, em primeiro lugar, porque era um espaço de acolhida, um espaço onde as gentes me entendiam e eu entendia as gentes. Talvez, àquela época, o único espaço.
Era um curso de três anos: e eu tive que fazer em quatro. Isso porque cheguei ao final do terceiro ano com 17 anos - e como o curso dava um diploma que, na França, era universitário (e aqui poderia ter virado também, caso eu tivesse feito o ano de complementação pedagógica - aí eu teria uma licenciatura. Não fiz), eu só podia acabar com 18. O diretor da Aliança, Bernard Plaud, achava que se ele escrevesse pra lá, se explicasse que eu era boa aluna, blá-blá-blá... eles me liberavam.
Não deu pra ser, os caras não abriram exceção e eu fiz mais um ano - que não paguei, diga-se. E fiz feliz: estudei outros livros, sob a batuta inspiradora de mestre Karydakis.
Isso tudo pra explicar que eu li, nesse contexto, alguns "clássicos": Candide, de Voltaire, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Madame Bovary. Flaubert.
E esse é o meu: não sei se porque o Karydakis transmitiu a paixão que era dele pelo livro, pelo autor à busca da palavra exata. Lembro dele contando da proibição do uso do nome "Journal de Rouen", que foi substituído por "Fanal de Rouen", pra dar uma sonoridade parecida.
Com Madame Bovary, eu aprendi que qualquer história é história. Porque o que me encantou, levada pelo olhar do Karydakis, não foi a história: a história era a mais irrelevante possível, como queria Flaubert. Uma história de "fait-divers" de jornal, uma história banal. Uma história qualquer elevada a jóia rara pela arte do texto construído, lapidado, polido. Um dia para escrever um parágrafo, o cuidado na seleção dos nomes dos personagens, a atenção a cada frase - melodia, andamento... como se fosse uma composição musical. O esforço de parecer simples.
Não sei qual era o signo de Flaubert, mas esse universo me evoca, em tudo, o signo da simplicidade e do amor aos detalhes: Virgem, um signo que esconde o brilho nas miudezas de que cuida, com atenção sustentada e cuidado permanente.
Madame Bovary, uma mulher qualquer, um amor qualquer, uma morte qualquer - e uma viagem fantástica para quem ama as palavras. Um trabalho de obsessão e método. Uma obra a ser colocada no altar do deus das pequenas coisas.
Meu clássico.
Ahã.
Clássico tá entre aspas só no meu. Porque tenho dificuldade, pois não. O que é clássico? Sei direito não, juro. Sou meio vira-lata.
Sou bem vira-lata, aliás.
E nunca separei livros em "clássicos" e "outros": minhas organizações são outras. Na minha casa nunca se deu muita bola pra essa categoria aí: "clássicos". Acho que quem gosta mesmo de livro - gosta, quer dizer, tem intimidade; não admiração, ou respeito, ou sei lá - não liga muito pra isso: gosta de ler, lê o que gosta, cria seus próprios clássicos.
Bom.
Mas acontece que eu fiz um curso de "língua e literatura francesas" - diploma e tudo. Fiz porque dava, porque eu falava francês, porque era perto. Fiz, em primeiro lugar, porque era um espaço de acolhida, um espaço onde as gentes me entendiam e eu entendia as gentes. Talvez, àquela época, o único espaço.
Era um curso de três anos: e eu tive que fazer em quatro. Isso porque cheguei ao final do terceiro ano com 17 anos - e como o curso dava um diploma que, na França, era universitário (e aqui poderia ter virado também, caso eu tivesse feito o ano de complementação pedagógica - aí eu teria uma licenciatura. Não fiz), eu só podia acabar com 18. O diretor da Aliança, Bernard Plaud, achava que se ele escrevesse pra lá, se explicasse que eu era boa aluna, blá-blá-blá... eles me liberavam.
Não deu pra ser, os caras não abriram exceção e eu fiz mais um ano - que não paguei, diga-se. E fiz feliz: estudei outros livros, sob a batuta inspiradora de mestre Karydakis.
Isso tudo pra explicar que eu li, nesse contexto, alguns "clássicos": Candide, de Voltaire, O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Madame Bovary. Flaubert.
E esse é o meu: não sei se porque o Karydakis transmitiu a paixão que era dele pelo livro, pelo autor à busca da palavra exata. Lembro dele contando da proibição do uso do nome "Journal de Rouen", que foi substituído por "Fanal de Rouen", pra dar uma sonoridade parecida.
Com Madame Bovary, eu aprendi que qualquer história é história. Porque o que me encantou, levada pelo olhar do Karydakis, não foi a história: a história era a mais irrelevante possível, como queria Flaubert. Uma história de "fait-divers" de jornal, uma história banal. Uma história qualquer elevada a jóia rara pela arte do texto construído, lapidado, polido. Um dia para escrever um parágrafo, o cuidado na seleção dos nomes dos personagens, a atenção a cada frase - melodia, andamento... como se fosse uma composição musical. O esforço de parecer simples.
Não sei qual era o signo de Flaubert, mas esse universo me evoca, em tudo, o signo da simplicidade e do amor aos detalhes: Virgem, um signo que esconde o brilho nas miudezas de que cuida, com atenção sustentada e cuidado permanente.
Madame Bovary, uma mulher qualquer, um amor qualquer, uma morte qualquer - e uma viagem fantástica para quem ama as palavras. Um trabalho de obsessão e método. Uma obra a ser colocada no altar do deus das pequenas coisas.
Meu clássico.
sábado, 8 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 9
O livro do dia 9 é daqueles "o mais": é "o livro mais triste que você já leu". E eu, que passei a semana não-escrevendo esse post, pensei na verdade em dois.
O primeiro é um livro de que nem gosto, mas que li porque fazia sucesso lá na casa de tia Zélia e tio Paulo naquelas férias (eu, esponja, lia o que quer que fosse assunto, o que quer que estivessem lendo. Na saudosa casa do Espinheiro, de tantas lembranças, li coisas que só lá mesmo): "Éramos Seis", de Maria José Dupré. É a história de uma família - pai, mãe e quatro filhos -, contada na primeira pessoa por uma das filhas. Acho, sem certeza, que foi tema de novela. Conta a história depois, quando tudo já passou e eles não são mais seis.
O que me fez, de imediato, lembrar desse, foi a qualidade da tristeza ali relatada: uma tristeza dura, seca. Uma tristeza sem sonhos, sem possibilidade de esperança. Diferente da tristeza quente do desespero, da tristeza funda da angústia: uma tristeza contida e sem graça. Uma tristeza banal e triste, tão triste por isso. Tristeza feia.
O segundo talvez cause espanto, mas é isso mesmo: o segundo é Pollyanna - Eleanor H. Porter. O primeiro livro sem imagens que li. E eu devia ter menos de sete. Os de Monteiro Lobato tinham imagens, poucas mas tinham; Pollyanna, nada. Só a capa, em que o rosto da menina ruiva era apenas esboçado. Foi um passo, foi difícil. Foi uma conquista.
Em Pollyanna, o tão famoso "jogo do contente" é usado por ela pra combater a sempre presente tristeza: jogo ensinado pelo pai missionário (palavra que aprendi ali, como tantas), quando ela chorou por ter recebido, no malote de Natal, em vez da boneca pedida, muletas. Malote de Natal: pobreza. Renata, seis anos, tentando absorver aquilo, um mundo em que não se escolhe presente de Natal -eles vêm no malote, e pode acontecer de virem muletas em vez do esperado presente. E o pai, iniciando a trajetória do jogo: "você tem que ficar contente... por não precisar delas!". Faz sentido. Mas que é difícil, é. É um modo de combater a tristeza.
Quando o livro começa, Pollyanna já é órfã (outra palavra aprendida): mais tristeza. Vai morar com tia Polly, responsável por metade do seu nome - a outra metade era da mãe, Anna.Tia Polly encarna aquela tristeza de "Éramos seis": seca, dura, sem esperança. E o livro conta o encontro dessas duas tristezas, a da menina órfã e pobre, a da tia amarga e solitária.
Tantas tristezas eu ali aprendi, nesse livro do qual para a lenda ficou somente o "jogo do contente". Mas, no vácuo, o jogo perde o sentido. Só serve quando a tristeza ameaça invadir todos os espaços: como um exercício de sobrevivência. De dizer "você está aí,mas eu sou mais forte". Não é brincadeira. Ou melhor, é brincadeira, e também é muito sério. Como tantas brincadeiras.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A Solidão do Cavaleiro no Horizonte
Meu pai era um homem que amava livros. Amava sem respeitar: os livros que ele lia ficavam marcados, dobrados, amassados. Porque ele lia em todo canto: na rede quando dava, na cadeira de couro que minha mãe deu a ele, com o boi pra complementar e apoiar os pés, no sofá da sala, mas também no banheiro, na praia cheia de areia, em qualquer mesa de bar, muito em aviões (até hoje encontro marcadores com M.Lins e o n° do assento, em determinados livros).
Lia e se apaixonava. Quando se apaixonava, a gente sabia: ele se entusiasmava, lia passagens, comprava um monte e saía dando de presente. "A Solidão do Cavaleiro no Horizonte" tem um lugar de destaque nesse panteão. Porque nesse caso, acho que era o livro que ele gostaria de ter escrito. Um livro de autor nordestino, de nome Marcos como ele. Um livro lançado em 79, também conhecido como "o ano 1 da volta": ano prenhe de possibilidades, mas também de receios, de decepções. Ano de balanço.
"A solidão"... é um livro de balanço. Pelo que me lembro. Porque não lembro muito: li, claro, como não havia de. E gostei. Mas, curiosamente, em vez de personagens e situações, lembro é do clima. Do tom. Um tom meio amargo. Um tom de "o que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou". Um tom que, certamente, combinava com o que meu pai sentia naquele momento: combinava muito. Com o que ele sentia e, na sua reserva natural, dizia pouco. Dizia aos poucos. Dizia com livros, como este.
E, porque os deuses tecem suas tramas e com elas se divertem, muito tempo depois, ficamos amigas, muito amigas mesmo, de uma moça cuja mãe era casada com Marcos Santarrita: o autor do livro que meu pai queria ter escrito. Minha irmã soube primeiro, e imediatamente reconheceu o nome tão popular na nossa casa. Lembro da gente conversando sobre isso na Lagoa, meu pai comovido com esse "encontro", falando do livro. Nunca conheci Marcos Santarrita: ocasionalmente encontrava seu nome em ótimas traduções, eu que sempre vou ver quem traduziu quando a tradução é boa. Tão raro e tão precioso. As dele sempre eram.
Ontem, o mundo dos livros ficou mais pobre. Foi-se Marcos Santarrita, um amante dos livros, um artesão das letras, um contador de histórias. Todo meu carinho a quem o amava.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 8
O de hoje é "o livro mais assustador que você já leu". E pra esse não preciso nem pensar - é óbvio.
A cena foi meu aniversário de onze anos, um presente atrasado da minha amiga Françoise: dois livros. Um era "Marie Lumière", lindinho, sobre uma menina (Maria Luz) que ia conhecer o pai e conviver com ele pela primeira vez na vida.
O outro é a pauta aqui: "O caso dos dez negrinhos" (Dix petits nègres), da Agatha Christie. Meu primeiro Agatha Christie. Tão assustador que escondi o livro depois de tê-lo, fascinada e apavoradamente, devorado. E demorei um tempão até pegar meu segundo Agatha Christie - que foi, felizmente, Assassinato no Expresso do Oriente, a partir do qual minha carreira de agathachristeira começou e foi se solidificando ao longo da vida; mas isso é outro assunto.
"O caso dos dez negrinhos" é um livro assustador pela atmosfera. Uma ilha. Dez convidados. Que vão morrendo um a um. Sem que se saiba porque. Uma ilha sem anfitrião. Ilha já é assustador, né. Pelo isolamento. Uma ilha em áreas britânicas ainda tem, possivelmente, falésias de pedras negras e brumas. Nem lembro se essa tinha. Acho que nunca mais li o livro. Eu que leio e releio Agatha Christies como comfort books. Pra me confortar, pra me consolar e me fazer achar que tudo tem jeito. Como outros lêem livros de auto-ajuda, eu leio "Aventura em Bagdad", "O homem do terno marrom", os Miss Marple todos, os de Tommy e Tuppence Beresford. Poirot também, claro: mas sou mais Miss Marple e seu universo de Saint Mary Mead, as fofocas do vilarejo, a "natureza humana" que se reconhece nas pequenas coisas... dos livros de Poirot gosto é do alter-ego da autora, Ariadne Oliver, e seu detetive finlandês por conta do qual vivia recebendo cartas de reclamação dos leitores (e sempre imagino as cartas dos belgas à própria Agatha).
Nos "dez negrinhos" - que, por reclamações de editoras, já teve vários nomes e não sei mais qual o que está em voga atualmente -, não há personagem principal, não há esperança, não há saída. A atmosfera de angústia só piora ao longo do livro. Não é, definitivamente, um Agatha Christie característico. Só que foi meu primeiro: eu não sabia.
A história se fecha num posfácio explicativo. Pelo menos isso.
domingo, 2 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 7
"Um livro que você odiou mas teve que ler pra escola?" Acho que não tem. Se eu tive que ler, mesmo forçada, acabei achando algo interessante, algo curioso, algo pelo qual valeu a pena ter lido o livro. Aí substituo por "um livro que eu teria que ler pra escola, mas não li". E esse existe: fiz prova sobre um livro que não li. Tipo um teste: será que dá? Eu era uma aluna que testava limites. O que, acho, é positivo. Não era acomodada nem conformada. E achava as provas sobre livros - nessa época aí - extremamente chatas.
Deve ter sido na 8a série. No meu primeiro ano de volta ao Brasil (7a série), tive três professores fundamentais: os de geometria e desenho, Marcelo Sá Correa e Claudio Veloso; e o de português, Armando. Armando teve que me aturar, porque eu fazia prova e paraprova: nas beiradas ia um monte de recadinhos, de comentários, de "será que é isso". Ele mandou bem e com ele li dois livros de que gostei, "Cândido Urbano Urubu" do Carlos Eduardo Novaes - esse li bem antes de ter ouvido falar em Fernão Capelo Gaivota, só depois é que fui achar graça - e "A ilha das borboletas azuis", de Carlos de Marigny. Ah, esse... me fez sonhar. Era uma história de triângulo amoroso adola, Janjão que era apaixonado por uma menina cujo nome não lembro, mas que tocava piano, era loirinha e etérea, e Mônica, apaixonada por Janjão, que nem olhava pra ela. Pelo menos no começo.
Eu era Mônica, claro. Toda errada, tudo menos etérea, apaixonada à primeira vista por um menino da minha turma, de olhos de gato e sotaque quase nordestino, que queria ser jornalista (e eu achei tão estranho isso). Esse eu li e adorei: reli um monte, e lembro do pátio da escola, de Mônica que jogava vôlei, de Janjão que se chamava Jânio João e tinha vergonha do nome... nessa época inventei um alfabeto inteiro, pra escrever coisas que minha mãe não poderia ler mesmo se pegasse. Usei durante um tempo: um alfabeto meu, do qual ninguém tinha a senha. Só meu. Eu escrevia e eu mesma lia.
Só que o assunto aqui é outro: é o que não li. E fiz prova. Foi "A hora dos ruminantes". José J. Veiga. Não gostei da idéia (já aí aparecia a aversão ao realismo fantástico que me fez ficar com indigestão de "Cem Anos de Solidão"....será?). Não gostei da proposta. E só muito tempo depois li o Ionesco dos rinocerontes. Aí fui deixando pra lá, procrastinando... e no dia da prova, logo antes de entrar, pedi pra alguém me contar a história: assim, resumida. Rapidinho. Como começa? O que acontece? Como acaba? E fui pra sala. Fui bem, acho. Provavelmente algo entre sete e oito. O que certamente deve ter me causado certa decepção: se a prova fosse boa, o professor teria visto. Teria notado. Mas cedo identifiquei que saber escrever, saber escrever direito, era meio caminho andado. Provavelmente mais que meio.
Acho isso ainda: se a gente abolisse esse montão de matérias específicas e focasse os meninos, durante os anos de ensino fundamental, nas instrumentais - português e matemática -, nosso mundo seria outro. Claro: se a pessoa sabe português, não esse mané que ensinam por aí, de decoreba de coisas que não tem nada a ver com nada, mas português de escrever, de contar história, de contar a mesma história com outro narrador, de resumir pra um terço das palavras, ampliar para o dobro, parafrasear, comentar.... ah, se sabe português assim, mata qualquer charada, resolve qualquer parada. Ou quase.
E matemática? Linguagem também, né? Com reforço, mais uma vez, não na matemática de decoreba de fórmulas: mas na lindeza da matemática, nos sentidos do infinito (lembro até hoje da minha professora da 2a série explicando que num segmento de reta tinha infinitos pontos, e da viagem que a turma fez sobre isso), do zero e de como ele mudou a cara das coisas, dos conjuntos e do pertencimento ou não, das interseções, do que está fora... tanta coisa que ajuda a entender, a decodificar, a explicar todo o resto. Tanta coisa que ajuda a investigar por conta própria, que dá autonomia, que possibilita as viagens de exploração de cada um.
Enfim. Voltando. Esse foi o livro que eu não li. E achei chato.
Deve ter sido na 8a série. No meu primeiro ano de volta ao Brasil (7a série), tive três professores fundamentais: os de geometria e desenho, Marcelo Sá Correa e Claudio Veloso; e o de português, Armando. Armando teve que me aturar, porque eu fazia prova e paraprova: nas beiradas ia um monte de recadinhos, de comentários, de "será que é isso". Ele mandou bem e com ele li dois livros de que gostei, "Cândido Urbano Urubu" do Carlos Eduardo Novaes - esse li bem antes de ter ouvido falar em Fernão Capelo Gaivota, só depois é que fui achar graça - e "A ilha das borboletas azuis", de Carlos de Marigny. Ah, esse... me fez sonhar. Era uma história de triângulo amoroso adola, Janjão que era apaixonado por uma menina cujo nome não lembro, mas que tocava piano, era loirinha e etérea, e Mônica, apaixonada por Janjão, que nem olhava pra ela. Pelo menos no começo.
Eu era Mônica, claro. Toda errada, tudo menos etérea, apaixonada à primeira vista por um menino da minha turma, de olhos de gato e sotaque quase nordestino, que queria ser jornalista (e eu achei tão estranho isso). Esse eu li e adorei: reli um monte, e lembro do pátio da escola, de Mônica que jogava vôlei, de Janjão que se chamava Jânio João e tinha vergonha do nome... nessa época inventei um alfabeto inteiro, pra escrever coisas que minha mãe não poderia ler mesmo se pegasse. Usei durante um tempo: um alfabeto meu, do qual ninguém tinha a senha. Só meu. Eu escrevia e eu mesma lia.
Só que o assunto aqui é outro: é o que não li. E fiz prova. Foi "A hora dos ruminantes". José J. Veiga. Não gostei da idéia (já aí aparecia a aversão ao realismo fantástico que me fez ficar com indigestão de "Cem Anos de Solidão"....será?). Não gostei da proposta. E só muito tempo depois li o Ionesco dos rinocerontes. Aí fui deixando pra lá, procrastinando... e no dia da prova, logo antes de entrar, pedi pra alguém me contar a história: assim, resumida. Rapidinho. Como começa? O que acontece? Como acaba? E fui pra sala. Fui bem, acho. Provavelmente algo entre sete e oito. O que certamente deve ter me causado certa decepção: se a prova fosse boa, o professor teria visto. Teria notado. Mas cedo identifiquei que saber escrever, saber escrever direito, era meio caminho andado. Provavelmente mais que meio.
Acho isso ainda: se a gente abolisse esse montão de matérias específicas e focasse os meninos, durante os anos de ensino fundamental, nas instrumentais - português e matemática -, nosso mundo seria outro. Claro: se a pessoa sabe português, não esse mané que ensinam por aí, de decoreba de coisas que não tem nada a ver com nada, mas português de escrever, de contar história, de contar a mesma história com outro narrador, de resumir pra um terço das palavras, ampliar para o dobro, parafrasear, comentar.... ah, se sabe português assim, mata qualquer charada, resolve qualquer parada. Ou quase.
E matemática? Linguagem também, né? Com reforço, mais uma vez, não na matemática de decoreba de fórmulas: mas na lindeza da matemática, nos sentidos do infinito (lembro até hoje da minha professora da 2a série explicando que num segmento de reta tinha infinitos pontos, e da viagem que a turma fez sobre isso), do zero e de como ele mudou a cara das coisas, dos conjuntos e do pertencimento ou não, das interseções, do que está fora... tanta coisa que ajuda a entender, a decodificar, a explicar todo o resto. Tanta coisa que ajuda a investigar por conta própria, que dá autonomia, que possibilita as viagens de exploração de cada um.
Enfim. Voltando. Esse foi o livro que eu não li. E achei chato.
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