E hoje é dia da blogagem coletiva proposta pela Niara, no tuíter na tag #DesarquivandoBR, pela abertura completa dos arquivos da ditadura, por uma Comissão da Verdade que seja, de fato, uma Comissão da Verdade.
E eu tentei e tentei e não consegui escrever texto nenhum.
Aí deixo aqui, para serem compartilhados nesse dia, uma lista e uma música.
Uma lista de nomes.
http://www.desaparecidospoliticos.org.br/pessoas.php?m=3
Uma música que fala da dor de uma mãe que não pode enterrar seu filho.
E o meu silêncio.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Para Simone, pelo dia de hoje
Simone muito querida,
fiquei de participar da blogagem coletiva do dia de hoje, pelo fim da violência contra a mulher. E não tô conseguindo escrever.
Porque, claro: como escrever sobre esse tema, logo agora, sem falar de Patrícia. Porque não dá pra falar de violência contra a mulher sem lembrar de Patrícia. De Patrícia que se foi tão cedo e tão violentamente.
Fico meio intimidada de tocar em algo tão grande, assim em público: mas como não? De que mais dá pra falar num dia como hoje?
"A juíza Patrícia Acioli", na televisão e em tantas matérias, é mostrada como "durona". "Durona" é adjetivo curioso, que fala de uma qualidade sem mostrar que é qualidade. Que transforma a qualidade quase em um defeito. A Patrícia que eu conheci não se parecia com essa imagem: era aberta, era alegre, amava a vida e o que a vida lhe dava. E queria mais. Era generosa, gostava de juntar gente, de fazer festa, de rir.
Era, sim, séria, franca, direta. Comprometida. Corajosa, tanto. Sabia do perigo que estava correndo e nem por isso deixou de seguir o caminho que achava certo. De fazer o que estava ali para fazer. Não se deixou intimidar. Alguém que a gente só pode admirar e aplaudir.
E, à dor tão grande do assassinato de Patrícia, se juntou outra dor: a do assassinato de caráter que a mídia tentou fazer, nos primeiros dias. Insinuando. Falando de sua vida privada. Quase que dizendo que a culpa era dela. Como que matando Patrícia de novo. Nossa terra tão machista não perdoa mulher que enfrenta. Que encara. Que não se submete, que não baixa a cabeça. Tem que ser culpa dela. Só faltaram dizer que esse trabalho não era coisa de mulher. E, no fundo, é um pouco isso que se está dizendo quando se usa ao falar dela o feio adjetivo "durona". Em vez de séria. Em vez de corajosa. Em vez de comprometida. Em vez de íntegra. Porque isso tudo ela era.
E era tão grande a história que não conseguiram abafar, que não conseguiram esconder. Que afinal ficou provado que a morte de Patrícia foi por causa do seu trabalho. Porque ela fazia o que tinha que ser feito. E basta isso pra morrer quando se trabalha nessa área, no Rio de Janeiro. Ainda mais quando se é mulher.
Um beijo, Si, pra você, pra vocês todos que têm a tarefa de sobreviver à dor e continuar.
Viva Patrícia. Viva Patrícia, hoje e sempre.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
30 livros em um mês - dia 18
E, depois de um tempão, volto ao desafio. Com "um livro de que ninguém esperaria que você gostasse". E não tinha abandonado não: é que faz parte da minha maluquez levar tudo tão tão a sério que consigo ficar dias pensando sobre a propriedade ou não de um livro pro tópico... e, neste caso particular, o problema é que eu digo aos quatro ventos que não tenho critério claro, que gosto de tanta coisa... que é difícil pensar algum que ninguém esperaria.
Então repito um sobre o qual já foi feito um post bem melhor que este (nem escrevi ainda, mas já sei): a Bíblia. O post é da minha xará Renata de Oliveira, e está aqui. Recomendo mesmo. E copio a idéia, por achar que muita gente que me conhece bem pode se surpreender com essa escolha. Acho que é a mais honesta.
Mas voltando: meu primeiro contato com a Bíblia se deu pela inusitada via de um vendedor de enciclopédia que, não sei como, conseguiu convencer minha mãe a deixá-lo entrar. Acho que isso nunca mais aconteceu na vida. Enfim. Deixou e o cara, enquanto conversava com ela, me deu a "Bíblia para crianças" para ler: vinha junto com a enciclopédia. E me conquistou. A história foi a de Caim e Abel, e fiquei extremamente impressionada. Com a injustiça. Sempre estive do lado de Caim, né. Claro. Tudo bem, ele meio que perdeu a razão quando matou Abel, que afinal não tinha nada a ver com isso. Que culpa tinha ele de ser fofo e de ser o queridinho do Senhor? Mas poxa, que injustiça. Por que foi mesmo que o Senhor "se agradou das oferendas de Abel" e não das de Caim? Cada um deu o que tinha de melhor, não foi? Não conseguia entender.
Muito tempo depois, voltei a essa história por conta de outro livro-obsessão: "A Leste do Eden", de Steinbeck. Onde ele recria a história, nos tempos modernos, com os irmãos Caleb e Aaron. E Steinbeck, evidentemente, também está do lado de Caim. Injustiçado e marcado, com toda sua descendência. Marcado pelo Senhor, que àquele tempo decidia sem acolher. Marcado só porque, no fim das contas, Deus preferiu os produtos do agricultor do que os do pastor. E a razão pra isso ninguém sabe. Gosto não se discute, só que às vezes tem conseqüências...
Antes desse segundo encontro com Caim e Abel, porém, fiz um monte de anos de catecismo (era comum em Genebra: catecismo para os católicos, "religião" para os protestantes, durante toda a escolaridade) e fiquei amiga do Novo Testamento, que combinava bem mais com a religião que eu conhecia de casa - a da minha mãe que tinha sido de movimento católico na juventude (JEC, JUC) e pra quem a opção à esquerda estava intrinsecamente ligada à ética cristã.
O que não quer dizer que eu entendesse ou acatasse a "posição de Jesus" em todos os casos. E do Novo Testamento, destaco duas histórias que me marcaram por motivos diferentes.
A primeira é a de Marta e Maria: fiquei anos encanada com essa ... A história é a seguinte: Jesus vai visitar Marta e Maria, irmãs de Lázaro. Maria senta-se aos pés dele, e fica conversando, ouvindo histórias, enquanto Marta trabalha para servi-lo. Até que Marta reclama do que lhe parece ser uma injustiça, e Jesus a admoesta (tudo isso só pra poder usar "admoesta"): "Marta, Marta, Maria hoje escolheu a melhor parte". Isso também me parecia injusto, e eu pendi muito tempo para o lado de Marta. Até que - e é bom deixar claro que o processo inteiro durou anos: minha cabeça encanada não abandona nada tão fácil - comecei a achar que Jesus tava certo, e que tem dias, sim, em que a gente é Marta, tem dias que é Maria. O negócio é não estar sempre na mesma posição... mas na média...
A segunda história é uma conversa de Jesus com seus discípulos e vou dizer, essa já me fez muito mal ao longo da vida. Só recentemente tenho aprendido a me desprender dela. Porque com essa eu concordei: mas não mais. A história em questão é a do fariseu que entra no templo jogando dinheiro, mostrando a todos sua generosidade, enquanto entra um homem pobre que deixa ali sua moeda sem fazer alarde. Jesus mostra aos seus discípulos como o segundo, que deixa uma só moeda - que para ele vale muito mais do que todo o dinheiro deixado pelo fariseu - é mais digno de respeito e consideração. Como o que ele fez em silêncio vale muito mais do que o estardalhaço do outro.
Parece fazer todo o sentido do mundo.
E ninguém tem idéia é de como essa história - e o preceito ético que ela representa - moldou minha forma de ser e de agir por tanto tempo. Tanto, tanto tempo. Só que aí tem um pequeno problema, que eu demorei a identificar: muitas vezes, o sacrifício que você está fazendo (a moeda que é a única, que você deixa no templo em vez de comprar comida) não é visto nem sentido como tal por quem está em volta. E isso, nas relações, é fonte de inesgotáveis mágoas. Porque você acha que está dando o melhor e que o outro vai saber: o outro, na verdade, nem imagina o tamanho do esforço que você está fazendo, e se porventura em algum momento posterior você externa algum sinal de mágoa por conta disso, ele cai das nuvens. Nunca tinha imaginado. Nunca tinha se dado conta. Insensibilidade? Talvez. Mas também - e esse o meu aprendizado tardio - faltou sinalização.
E é isso: estou aprendendo a ir contra minha própria ética e a sinalizar. Não sinalizar, vejo hoje, é também uma forma de arrogância. O outro não tem obrigação de saber. E, se você não quer se magoar, é fundamental que ele saiba. Então é melhor dizer logo. Apesar de ser mais nobre deixar a moeda e sair em silêncio. Mas para isso, teria que ser alguém muito mais nobre do que eu.
Talvez tenha gente que consiga: fazer e desapegar-se. Não esperar nada de volta, nem mesmo reconhecimento. Eu sou menor que isso. Melhor deixar logo claro.
Então repito um sobre o qual já foi feito um post bem melhor que este (nem escrevi ainda, mas já sei): a Bíblia. O post é da minha xará Renata de Oliveira, e está aqui. Recomendo mesmo. E copio a idéia, por achar que muita gente que me conhece bem pode se surpreender com essa escolha. Acho que é a mais honesta.
Mas voltando: meu primeiro contato com a Bíblia se deu pela inusitada via de um vendedor de enciclopédia que, não sei como, conseguiu convencer minha mãe a deixá-lo entrar. Acho que isso nunca mais aconteceu na vida. Enfim. Deixou e o cara, enquanto conversava com ela, me deu a "Bíblia para crianças" para ler: vinha junto com a enciclopédia. E me conquistou. A história foi a de Caim e Abel, e fiquei extremamente impressionada. Com a injustiça. Sempre estive do lado de Caim, né. Claro. Tudo bem, ele meio que perdeu a razão quando matou Abel, que afinal não tinha nada a ver com isso. Que culpa tinha ele de ser fofo e de ser o queridinho do Senhor? Mas poxa, que injustiça. Por que foi mesmo que o Senhor "se agradou das oferendas de Abel" e não das de Caim? Cada um deu o que tinha de melhor, não foi? Não conseguia entender.
Muito tempo depois, voltei a essa história por conta de outro livro-obsessão: "A Leste do Eden", de Steinbeck. Onde ele recria a história, nos tempos modernos, com os irmãos Caleb e Aaron. E Steinbeck, evidentemente, também está do lado de Caim. Injustiçado e marcado, com toda sua descendência. Marcado pelo Senhor, que àquele tempo decidia sem acolher. Marcado só porque, no fim das contas, Deus preferiu os produtos do agricultor do que os do pastor. E a razão pra isso ninguém sabe. Gosto não se discute, só que às vezes tem conseqüências...
Antes desse segundo encontro com Caim e Abel, porém, fiz um monte de anos de catecismo (era comum em Genebra: catecismo para os católicos, "religião" para os protestantes, durante toda a escolaridade) e fiquei amiga do Novo Testamento, que combinava bem mais com a religião que eu conhecia de casa - a da minha mãe que tinha sido de movimento católico na juventude (JEC, JUC) e pra quem a opção à esquerda estava intrinsecamente ligada à ética cristã.
O que não quer dizer que eu entendesse ou acatasse a "posição de Jesus" em todos os casos. E do Novo Testamento, destaco duas histórias que me marcaram por motivos diferentes.
A primeira é a de Marta e Maria: fiquei anos encanada com essa ... A história é a seguinte: Jesus vai visitar Marta e Maria, irmãs de Lázaro. Maria senta-se aos pés dele, e fica conversando, ouvindo histórias, enquanto Marta trabalha para servi-lo. Até que Marta reclama do que lhe parece ser uma injustiça, e Jesus a admoesta (tudo isso só pra poder usar "admoesta"): "Marta, Marta, Maria hoje escolheu a melhor parte". Isso também me parecia injusto, e eu pendi muito tempo para o lado de Marta. Até que - e é bom deixar claro que o processo inteiro durou anos: minha cabeça encanada não abandona nada tão fácil - comecei a achar que Jesus tava certo, e que tem dias, sim, em que a gente é Marta, tem dias que é Maria. O negócio é não estar sempre na mesma posição... mas na média...
A segunda história é uma conversa de Jesus com seus discípulos e vou dizer, essa já me fez muito mal ao longo da vida. Só recentemente tenho aprendido a me desprender dela. Porque com essa eu concordei: mas não mais. A história em questão é a do fariseu que entra no templo jogando dinheiro, mostrando a todos sua generosidade, enquanto entra um homem pobre que deixa ali sua moeda sem fazer alarde. Jesus mostra aos seus discípulos como o segundo, que deixa uma só moeda - que para ele vale muito mais do que todo o dinheiro deixado pelo fariseu - é mais digno de respeito e consideração. Como o que ele fez em silêncio vale muito mais do que o estardalhaço do outro.
Parece fazer todo o sentido do mundo.
E ninguém tem idéia é de como essa história - e o preceito ético que ela representa - moldou minha forma de ser e de agir por tanto tempo. Tanto, tanto tempo. Só que aí tem um pequeno problema, que eu demorei a identificar: muitas vezes, o sacrifício que você está fazendo (a moeda que é a única, que você deixa no templo em vez de comprar comida) não é visto nem sentido como tal por quem está em volta. E isso, nas relações, é fonte de inesgotáveis mágoas. Porque você acha que está dando o melhor e que o outro vai saber: o outro, na verdade, nem imagina o tamanho do esforço que você está fazendo, e se porventura em algum momento posterior você externa algum sinal de mágoa por conta disso, ele cai das nuvens. Nunca tinha imaginado. Nunca tinha se dado conta. Insensibilidade? Talvez. Mas também - e esse o meu aprendizado tardio - faltou sinalização.
E é isso: estou aprendendo a ir contra minha própria ética e a sinalizar. Não sinalizar, vejo hoje, é também uma forma de arrogância. O outro não tem obrigação de saber. E, se você não quer se magoar, é fundamental que ele saiba. Então é melhor dizer logo. Apesar de ser mais nobre deixar a moeda e sair em silêncio. Mas para isso, teria que ser alguém muito mais nobre do que eu.
Talvez tenha gente que consiga: fazer e desapegar-se. Não esperar nada de volta, nem mesmo reconhecimento. Eu sou menor que isso. Melhor deixar logo claro.
domingo, 30 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 17
"Um livro que é um prazer culpado".
...demorei, procrastinei, enrolei, atrasei... e nem sei exatamente o motivo. Como de hábito quando atraso, passeei mentalmente por vários livros: um que era um prazer culpado porque o roubei numa feira de livros na escola - era o último dia, eu não tinha levado dinheiro, não consegui emprestado e... fiquei tão culpada que depois de acabar de ler escondi numa estante lá no fundo, pra nem ver o livro. Outro que era (é) um prazer culpado porque é um livro mal escrito. E disso tenho certa vergonha de gostar: mas gosto, fazer o que.
Acabei parando n'"O Cortiço", de Aluísio Azevedo: uns 14 anos, férias na praia com tia Sônia, tio Antoninho e o bando (dez ou em torno disso) de crianças e adolescentes que eles carregavam pra "veranear". Casa sem nenhum luxo, todo mundo em colchões no chão e um permanente divertimento. Na casa ao lado, a família de Pelópidas da Silveira e meu primo cantando prá filha dele, Taís: "Taís, eu fiz tudo pra você gostar de mim"...
Nesse verão aí, Tia Sônia tava lendo O Cortiço e afirmou, em dado momento: "não é pra vocês". Disse e, claro, largou o livro por aí. E a gente leu, como não... Leu e amou... culpadamente. Rita Baiana, a brasileira, encantando com sua dança o português Jerônimo. Jerônimo e sua mulher portuguesa, de quem ele não gostava mais nem do cheiro (e isso muito me impressionou). Jerônimo que vai deixando seus hábitos "portugueses", de homem sério e trabalhador, e vai incorporando os "brasileiros", a preguiça, o prazer pela vida, e vai se enredando progressivamente na teia de Rita Baiana, num misto de fascinação e repugnância, inexoravelmente.
Um livro que fala de contágios e de transformações. De gente que era e que não é mais.De contatos, de peles, de fluidos. Um livro escancarado que a adolescente que eu era sorvia a largas páginas, antes que. Vai que tia Sônia de fato proibisse.
E, de todas as personagens, a que mais me fascinava era Pombinha, santa, pura, virgem, cuja madrinha "de vida fácil" aproveita-se de sua inocência e, aos poucos, vai transformando-a no que ela está fadada a ser. Pombinha, moça fina e pálida, e seu encontro, a um só tempo assustador e maravilhoso, com essa mulher mais velha, excessivamente maquiada, excessivamente perfumada. E ela nunca mais será a mesma. O livro descreve a incompreensão da moça, seu susto, e os olhos lúbricos da madrinha, atraindo-a, desejando-a, seduzindo-a para finalmente devorá-la qual aranha determinada.
Submundo.
Submundo que traga e tritura, que suga e transmuta. Uma alegoria da chegada de Perséfone ao Hades. Uma alegoria de Escorpião, o signo da morte e do renascimento.
Imaginem.Eu nunca tinha lido nada parecido.
E nunca reli "O Cortiço": o que conto aqui é o que lembro dessa leitura pretensamente escondida, na casa de praia em Pau Amarelo, compartilhada com primos. Leitura de areia, sol, jangada, colchões no chão e muita risada.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 16
O do dia 16 é "um livro favorito que virou filme". Já escrevi aqui sobre um deles. Então o de hoje será "O Nome da Rosa". Umberto Eco. E começo contando que li O Nome da Rosa em italiano, que eu entendo bastante bem, mas só bastante. Li muito livro de economia em italiano, o que me deu um bom vocabulário - de economia. Aí me meti a ler (porque tinha na casa dos meus pais) o Umberto Eco: metida geral.
Mas é também uma brincadeira, também um exercício que gosto de fazer: aprender língua através de livros. Lembro de um personagem de Julio Verne que fazia isso: só que como era muito distraído, ia prá Argentina e leu (com gramática e dicionário) "Os Lusíadas"...
Enfim. Livro em língua que não se conhece direito é um pouco mais misterioso, às vezes mais assustador.
O primeiro Agatha Christie que li em inglês eu entendia mais ou menos uma palavra em cinco, e o jogo era não olhar no dicionário: eu ia testando significados e quando achava um que se encaixava bem voltava, pra ver se encaixava em todas as ocorrências. A palavra "nod" eu só consegui identificar no final do livro, e me orgulho disso até hoje (tanto que acho que já contei isso em outro post...).
Divago.
Domingo à noite.
Sol em Escorpião, chegando agora.
Sobre o livro: tudo de bom, claro. História policial. Acenos aos amantes do gênero, como o nome do personagem principal: Guilherme de Baskerville. Num monastério, lugar excelente pra crimes. Envolvendo biblioteca, livros, copistas. E cheio de paralelas, como a deliciosa discussão entre monges sobre a pobreza de Jesus. Horas discutindo se Jesus teria carteira - o que provaria que não era pobre. Pobre não tem carteira.
Montes de rodapés sobre grupos religiosos da Idade Média.
Um livro bom de ler à beça.
E o filme de Jean-Jacques Annaud é uma adaptação que considero fantástica. Porque transformar aquele livrão num filme de duas horas é um feito: de quem será o roteiro?
[pausa pra verificar]
Voltando... o roteiro é de quatro pessoas, que não vou listar aqui (gente em excesso). Mas nem me admira tanta gente envolvida. Ficou muito bom e era bem difícil. Porque tem tramas demais, questões demais. O roteiro do filme ficou limpo e manteve as questões principais, a meu ver: a história de suspense, o contexto religioso, a questão filosófica fundamental envolvendo os assassinatos - o poder subversivo do riso. Questão extremamente atual. De que riso se fala quando se fala em riso subversivo. Já que, como temos visto repetidamente, há risos também extremamente conservadores. Mas os cartunistas em épocas de ditadura não se enganavam quanto a seu próprio papel: o riso tira o poder dos opressores, o riso dá ânimo e energia aos que lutam. O riso liberta.
A gente precisa se lembrar, e quem sabe reaprender.
Mas é também uma brincadeira, também um exercício que gosto de fazer: aprender língua através de livros. Lembro de um personagem de Julio Verne que fazia isso: só que como era muito distraído, ia prá Argentina e leu (com gramática e dicionário) "Os Lusíadas"...
Enfim. Livro em língua que não se conhece direito é um pouco mais misterioso, às vezes mais assustador.
O primeiro Agatha Christie que li em inglês eu entendia mais ou menos uma palavra em cinco, e o jogo era não olhar no dicionário: eu ia testando significados e quando achava um que se encaixava bem voltava, pra ver se encaixava em todas as ocorrências. A palavra "nod" eu só consegui identificar no final do livro, e me orgulho disso até hoje (tanto que acho que já contei isso em outro post...).
Divago.
Domingo à noite.
Sol em Escorpião, chegando agora.
Sobre o livro: tudo de bom, claro. História policial. Acenos aos amantes do gênero, como o nome do personagem principal: Guilherme de Baskerville. Num monastério, lugar excelente pra crimes. Envolvendo biblioteca, livros, copistas. E cheio de paralelas, como a deliciosa discussão entre monges sobre a pobreza de Jesus. Horas discutindo se Jesus teria carteira - o que provaria que não era pobre. Pobre não tem carteira.
Montes de rodapés sobre grupos religiosos da Idade Média.
Um livro bom de ler à beça.
E o filme de Jean-Jacques Annaud é uma adaptação que considero fantástica. Porque transformar aquele livrão num filme de duas horas é um feito: de quem será o roteiro?
[pausa pra verificar]
Voltando... o roteiro é de quatro pessoas, que não vou listar aqui (gente em excesso). Mas nem me admira tanta gente envolvida. Ficou muito bom e era bem difícil. Porque tem tramas demais, questões demais. O roteiro do filme ficou limpo e manteve as questões principais, a meu ver: a história de suspense, o contexto religioso, a questão filosófica fundamental envolvendo os assassinatos - o poder subversivo do riso. Questão extremamente atual. De que riso se fala quando se fala em riso subversivo. Já que, como temos visto repetidamente, há risos também extremamente conservadores. Mas os cartunistas em épocas de ditadura não se enganavam quanto a seu próprio papel: o riso tira o poder dos opressores, o riso dá ânimo e energia aos que lutam. O riso liberta.
A gente precisa se lembrar, e quem sabe reaprender.
sábado, 22 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 15
"O livro favorito dos feriados e das folgas". Feriados e folgas? Bom, aí tem que ser um policial, claro. Eu tenho tara por livros policiais. E é tara mesmo, um vício: às vezes eu tô sem grana, sem tempo, sem possibilidade nenhuma de comprar livro e aí... vejo o novo Ian Rankin, o novo P.D.James, um antigo do Rex Stout que eu não tinha lido... dá água na boca, aperta o estômago e eu entro num automático: quando vejo, lá estamos, eu e o livro, na fila do caixa. Inexoravelmente.
Meu pai sofria de algo parecido - e, não por acaso, foi ele que me falou pela primeira vez de Miss Marple ("a natureza humana não muda") e de Poirot, era ele que comprava e largava os Maigrets pela casa. Meu avô, pai dele, foi quem me apresentou a Charlie Chan, outro velho amigo: vai ver é genético. Alguns descobri sozinha, ou por meio de outros amigos, de outros livros: Nero Wolfe, Lord Peter Wimsey, Dalgliesh, o inspetor Rebus. E esses são meus "comfort-books" por excelência, onde eu me enrosco e busco aconchego em dias de tempestade. Se for inglês e cheio de subtons, se for escrito por mulher, melhor. Mais em casa estarei. Como num chá da tarde, num dia branco e frio, perto de uma lareira, com quem sabe um gato e muitas almofadas.
Então, pra hoje, escolho um desses: um que em inglês se chama "4:50 from Paddington" - um horário de trem - ou, mais impactante e menos interessantemente, "What Miss McGillicuddy saw". Em português o coitado do livro tem que carregar pela sua sofrida vida de livro o horroroso título de "Testemunha ocular do crime", que tão pouco combina com sua natureza de tintas pastel e ruídos abafados. Enfim. Agruras de livros. Compadeço-me.
Esse é um que reúne os ingredientes: inglês (um Agatha Christie, pois não), passado no campo, em uma daquelas casas enormes tão apropriadas para serem cenário de múltiplas intrigas e mistérios.
É um Miss Marple. Mas a personagem principal, que me encanta e é o motivo da escolha aqui, é Lucy Eyelesbarrow: uma moça que, tendo obtido um diploma de matemática por Oxford, decide, por não apreciar a vida acadêmica e por ver o que ela fez com seus pares potenciais - e esse trecho do livro, a apresentação da personagem, é delicioso, com um bemol irônico e leve tão característico dos melhores momentos de A.Christie -, investir num ramo que julga bem mais divertido e lucrativo, dada a escassez de oferta: o dos serviços domésticos "de emergência".
Agatha Christie viveu um tempo de transição na Inglaterra: tempo em que a aristocracia estava ainda se acostumando, mal e mal, a não ser mais servida por uma multidão de empregados, como anteriormente. Assim, muitos de seus personagens são esses aristocratas decadentes, saudosos de tempos de fausto que não voltarão mais.
E, voltando a Lucy Eyelesbarrow, é isso: para surpresa e desgosto dos seus professores e colegas, ela abandona a universidade e vai ser um misto de cozinheira/faxineira/governanta, por preço alto e tempo sempre limitado.
Uma personagem muito interessante.
Vejo na wikipedia que a publicação do livro é de 1957: dez anos depois da guerra, o mundo em reconstrução, e Agatha Christie escrevia sobre aristocratas decadentes, burgueses ascendentes e deselegantes, refugiados belgas que viram detetives, universitárias-faxineiras. E eu com ela me encanto, sabendo de todos os preconceitos, de todos os não-li-e-não-gostei. Mas fazer o quê. Aprendi que o melhor é a gente se acolher. Acolher primeiro: depois, talvez, tentar entender. Do meu fascínio por policiais eu já tentei várias vezes identificar a causa, e mapeei alguns pontos: a trama fechada que reconforta - no fim, tudo se explica e se resolve; fundamental em tempos em que o mundo parece não fazer nenhum sentido -, a recorrência de personagens de um livro para o outro (no caso de Agatha Christie, além dos detetives e de seus parceiros, alguns secundários reaparecem, ocasionalmente, e piscam pros leitores assíduos). Não sei se explica: só sei que é. É assim...fazer o quê. Acolho e, em dias em que o coração aperta, neles me aconchego. E espero passar a tempestade.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
30 livros em um mês - dia 14
"Um livro que te faz lembrar de alguém". E, claro, pra variar, passeei por vários: o Neruda de "Confesso que Vivi" - meu avô lendo em voz alta, a gente naquele hotel branco em Argel, à beira da falésia. Neruda tem gosto de meu avô pra sempre. E esse era o primeiro que eu tinha escolhido.
Mas não vai ser.
Vai ser - e só pensei nisso hoje - "Cleo e Daniel". Roberto Freire: não o político, o outro. O psicanalista. Que no livro é o narrador contando a história de Cleo e Daniel.
Esse me lembra Lourdes. Lourdes, 35; Renata, 15. Lourdes que tinha acabado de se separar, que morava num apê térreo e com quintalzinho no Leblon, que tinha amigos artistas, cartunistas, poetas. Renata, ainda meio forasteira, num ano-chave: ano de primeiras vezes. Cabelo enorme e emaranhado, em carne viva, frio de gente, literaturas. Silêncios. Basta pensar que sinto um arrepio no peito. Ano dureza. Antes e depois dos quinze anos.
Nesse ano aí, fiquei pouco em casa: além de fazer tanta coisa na rua e chegar sempre tarde, dormia muito fora. Na casa de Claudia, na casa da Flávia. E na casa de Lourdes. A gente ia comer pizza provençale na Bella Blu do Leblon e tomar sangria. A gente ia naquele pequenininho e lindo, que fechou e do qual não lembro o nome: um que tinha um mural de avisos que eu adorava ler, e era do lado do ... Antonio's?
E "Cleo e Daniel" era da casa de Lourdes: como tantos, puxei de uma estante qualquer. Casa de gente, pra mim, é casa e livros: mesmo que eu não mexa, mesmo que eu não tenha intimidade, sempre tento olhar, fazer o panorama dos livros. Dali dá pra saber tanta coisa. Dá pra vislumbrar tantas outras.
Mas "Cleo e Daniel" - Leblon, Lourdes, 15 anos, pizza, sangria, cabelos - era eu também. Era o meu desejo. Um livro sobre adolescentes. Um livro sobre amor livre. Um livro sobre dores de crescimento. Era eu o tempo todo e por isso ficou. Era tudo o que eu queria, tudo o que eu não tinha: um grupo, um sentimento de violão com fogueira, uma gente se aquecendo, um amor imenso. E o que eu tinha: uma solidão, uma dor de viver, um não-entender.
Lourdes tinha 35 e parecia viver isso que eu sonhava e não tinha. Músicas, fumo, festas no quintalzinho. Um congresso de ioga em Itaipava. Amigos de monte que entravam, ficavam. Dormiam. Saíam, voltavam.
Eu olhava com olhos grandes de susto e vontade.
Foi no ano dos meus quinze anos.
Era "Cleo e Daniel". Que me lembra Lourdes.
Mas não vai ser.
Vai ser - e só pensei nisso hoje - "Cleo e Daniel". Roberto Freire: não o político, o outro. O psicanalista. Que no livro é o narrador contando a história de Cleo e Daniel.
Esse me lembra Lourdes. Lourdes, 35; Renata, 15. Lourdes que tinha acabado de se separar, que morava num apê térreo e com quintalzinho no Leblon, que tinha amigos artistas, cartunistas, poetas. Renata, ainda meio forasteira, num ano-chave: ano de primeiras vezes. Cabelo enorme e emaranhado, em carne viva, frio de gente, literaturas. Silêncios. Basta pensar que sinto um arrepio no peito. Ano dureza. Antes e depois dos quinze anos.
Nesse ano aí, fiquei pouco em casa: além de fazer tanta coisa na rua e chegar sempre tarde, dormia muito fora. Na casa de Claudia, na casa da Flávia. E na casa de Lourdes. A gente ia comer pizza provençale na Bella Blu do Leblon e tomar sangria. A gente ia naquele pequenininho e lindo, que fechou e do qual não lembro o nome: um que tinha um mural de avisos que eu adorava ler, e era do lado do ... Antonio's?
E "Cleo e Daniel" era da casa de Lourdes: como tantos, puxei de uma estante qualquer. Casa de gente, pra mim, é casa e livros: mesmo que eu não mexa, mesmo que eu não tenha intimidade, sempre tento olhar, fazer o panorama dos livros. Dali dá pra saber tanta coisa. Dá pra vislumbrar tantas outras.
Mas "Cleo e Daniel" - Leblon, Lourdes, 15 anos, pizza, sangria, cabelos - era eu também. Era o meu desejo. Um livro sobre adolescentes. Um livro sobre amor livre. Um livro sobre dores de crescimento. Era eu o tempo todo e por isso ficou. Era tudo o que eu queria, tudo o que eu não tinha: um grupo, um sentimento de violão com fogueira, uma gente se aquecendo, um amor imenso. E o que eu tinha: uma solidão, uma dor de viver, um não-entender.
Lourdes tinha 35 e parecia viver isso que eu sonhava e não tinha. Músicas, fumo, festas no quintalzinho. Um congresso de ioga em Itaipava. Amigos de monte que entravam, ficavam. Dormiam. Saíam, voltavam.
Eu olhava com olhos grandes de susto e vontade.
Foi no ano dos meus quinze anos.
Era "Cleo e Daniel". Que me lembra Lourdes.
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