quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Assuntos de Casa VIII

Sou leitora da Folhinha. É, a Folhinha. Do Sagrado Coração de Jesus. Meu avô comprava para todos os (oito) filhos, e minha mãe assumiu essa função. Compra pros irmãos, pra sobrinhos, pros filhos. E eu leio. À noite, antes de dormir. Uma preciosidade. Um almanaque descartável. Me diz as fases da lua. O nome dos santos do dia. As frutas e os legumes de cada época. Dá dicas de alimentação. De vida. Tem reflexões no verso da folhinha de cada dia.  Na folhinha aprendi tanta coisa - por exemplo, que Tiago e Jacó são o mesmo nome: de Jacob ou Iacob para Iago para Santiago ou Santo Iago, para San Tiago...  onde mais?


Foi na folhinha que li o seguinte texto, atribuído ao poeta Khalil Gibran: "O sofrimento nada mais é do que a dor que envolvia teu entendimento se quebrando".
Sei esse de cor. Preguei na cortiça perto do telefone, numa época em que havia cortiças e os telefones "ficavam" em algum lugar. Vocês não conhecem, mas já houve isso. A gente é que ia até o telefone. Enfim. Botei ali porque ali eu via todo dia, e quanto mais eu visse, lesse, repetisse como um mantra, quem sabe... quem sabe eu incorporava. Quem sabe aquilo passava a fazer parte de mim e parava de doer. 

"Se o Jayminho passou, tudo passa", diz uma amiga minha. E incorporei essa também. Substitua o nome pelo de sua preferência. Uso em ocasiões variadas, para falar de assuntos diversos. Ajuda. Acalma. Afinal, se até o Jayminho passou...

Aí que o tema aqui é esse: a hora de largar mão. De desapegar. De deixar ir. Como diz o Khalil Gibran, dói porque a gente passa a entender algo que já tava ali, e que a gente fechava os olhos para não ver. De olhos fechados, os monstros são maiores. Na hora em que a gente abre, taí. Dói. É pauleira. Mas aí a gente já tá em movimento. Saiu da crispação. Da tentativa de cristalização de algo que já não era, que já não tava. Dói e pode doer pra cacete, mas dá um certo alívio também. Tem tamanho. Tem contornos. Enquanto a gente tá de olhos fechados, na modalidade "se eu não tô vendo não existe", aquilo que a gente não tá vendo - mas no fundo sabe que existe - tá em todas as partes. Envolve. Ameaça por todos os lados. Quando a gente abre os olhos, dói mais - mas já tá, de certa forma, posto que tá doendo menos. Porque, como diz o Ionesco, "o que tem que acabar já acabou". 

Como quando a gente tá numa árvore: num galho lá em cima. E de repente, os pés se soltam. A gente fica pendurada, só pelas mãos. Num galho tão alto. Que susto. Que medo. E agora? Agora, amigo, não tem jeito. A árvore já se desapegou da gente: é hora da gente se desapegar da árvore. Soltar. Deixar o galho e se deixar cair. A árvore já era. É no chão que continua.




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Viajando em post de Borboleta

E aí me deu vontade de ler um texto da Borboleta Luciana . E, por sorte, ela tinha acabado de postar esse, antigo, mas no ponto pra mim hoje. Que fala de uma certa sensação de ser antiga. E eu hoje dizia que sou "anti-moderna". Sou meio. Não gosto do moderno pelo moderno. Vejo o mundo indo e vindo. Não sou saudosista, mas não acho que pra frente é sempre melhor. Há melhor, há pior. Cíclico. Rodando. Mundo gira e a gente com ele. Pra melhor, pra pior. Porque a estrada não é reta e não vai do pior pro melhor. Nem do melhor pro pior: essas não são, simplesmente, as categorias adequadas. Não cabem aí. O mundo vai no seu ritmo. A gente tenta se ajustar. Ir com ele. Pegar no tranco. E consegue às vezes. Às vezes não.


O texto da Lu também fala de outra coisa que me toca tão de perto, tão lá no fundo: o eu-indo. Já escrevi uma vez: "minha casa é indo". Já mudei muitas vezes de casa, entrei num avião a primeira vez pra ser batizada, viajei sozinha com algo como cinco anos. Morrendo de medo. E de vontade. Medo e vontade que nunca mais me abandonaram. Que apertam o estômago quando estou indo. De alegria e susto. Do desconhecido. Do já conhecido que vou rever. Das saudades que vou matar. Das outras que vou deixar. Que delícia. Que medo. Minha família no Recife, e as viagens de carro cantando. Meus avós, minha tia em São Paulo. O exílio em Genebra, e todas as viagens que dali se seguiram (tantas também de carro, sempre cantando). Meus pais nômades que, depois, não conseguiram parar no canto e foram pra Brasília, pra Roma, pra Brasília de novo. E novas cidades a conhecer. E novas "casinhas de nós" a serem montadas. Novos restaurantes da esquina - menos em Brasília, que, como todo mundo sabe, não tem esquinas. Novos cafés. Novas caras, novos jeitos.


E me reconheço no jeito da Lu de viajar: sem preocupação com cumprir etapas. Sem precisar ver "o que tem que ser visto". Só estando: estando lá, absorvendo os sons, as cores, as caras, os jeitos. Como gato, gosto de construir cantos meus. Um lugar pra ir todo dia: um café, um boteco. Onde o garçom já me conheça e sorria à minha entrada: em uma semana viro "local" e me esparramo nisso. Sento e olho. Posso passar uma tarde, duas, até mais, numa viagem de uma semana, só olhando. Ouvindo as conversas, entendendo ou não. Aprendendo os jeitos. Andando muito a pé, de preferência. Fotos? Nem sempre. Nem tanto. Porque estar lá é o que importa. Nas palavras da Borboleta, com quem converso nesse post, " As experiências costumam ficar onde eu gosto que estejam: em mim". E em mim ficam e me transformam, de tal forma que um cheiro, um trecho de música podem me transportar de volta. Pra quem eu era naquele momento, naquela viagem. Tomando cerveja com Celina e Adalberto em Havana. Ouvindo Lysâneas falar no Natal ecumênico dos brasileiros exilados, em Les Haudères. Comendo peixe com Andrés e Ju em Carneiros. Sentada com Adriana na porta da casa de Baccaro em Olinda. Ou ainda aqui pertinho, discutindo política com Paula e Paulo em Saquarema. Com Pinheiro e Berenice no sítio de Guapi. 
Porque viajar são também as gentes que a gente conhece. E que a gente leva. Que a gente encontra. Que a gente carrega, fora e dentro da gente. 


...Dá licença, povo. Vou ali arrumar a mochila. Tô indo. Tô indo agora. Bora?











sábado, 12 de maio de 2012

A canção de Marcelo

Marcelo,
já é seu aniversário. E essa é a lembrança mais antiga que eu tenho: papai me levantando, aquele vidrão da maternidade, e eu olhando lá pra dentro, maravilhada com aquele mar de bebês. E - maravilha das maravilhas - a enfermeira, de dentro, mostrando qual era "o meu". Era 12 de maio e eu tinha dois anos menos cinco dias: no meu segundo aniversário, você já tava. Já tava e teve sempre, desde então. Tão precioso numa vida meio sem eira nem beira, tantas casas, tantas mudanças, tantas bagagens de memória: aquele que lembra comigo. Que viveu comigo, olhando junto, estranhando, se encantando. 

(Juju é outra onda, tanta coisa a gente viveu junto também. Mas ela é seis anos e meio mais nova: e isso conta, sobretudo nessa época aí, quando a gente tava crescendo.)

A gente indo pro Recife juntos, nas férias de julho e de verão, desde tão pequenos. A gente em Genebra: o Nescau que você preparava, pra mim e pra você, antes da gente ir pra escola, porque eu tinha mais preguiça de acordar e só levantava no último minuto.
 A gente na escola: Eaux-Vives, Vollandes. Jogando bola de gude no pátio, na "saison des billes". A gente na rua, fantasiados, cantando Cé qué l'ainò na Escalade pra ganhar uns trocados. 

 As  séries na TV  que só a gente lembra: Deux ans de vacances, Sandokan, Starsky e Hutch, Amicalement Vôtre. E tantas outras. 

Os livros todos, os quadrinhos: Tintin, Lucky Luke, Astérix (sobretudo Astérix).

As coisas que só você sabia: de como eu tinha medo, às vezes, de dormir sozinha, e ia pro seu quarto de noite: deitava na cama de baixo e botava a mão em você, quentinho e respirando. E você deixava, e você nunca contou pra mamãe. Eu era mais velha, né. Eu era a mais velha. Não ficava nem bem. Mas você nunca contou.

Você sempre foi mais engraçado, mais falante, mais enturmado: eu era quieta e meio "da sombra". E no entanto a gente era tão parecidos, em tantas coisas que as pessoas não viam mas que a gente sabia. Bastava olhar. 

A volta pro Brasil na época da anistia, nós três primeiro enquanto os pais empacotavam a mudança - e "como é difícil se mudar sem a polícia atrás", dizia Dona Fáfa com aquele jeito dela de fazer graça das horas pesadas. A gente chegando no aeroporto dos Guararapes, a gente mergulhando nos primos e tios do Recife, na casa dos avós. Tanta coisa pra entender, tanta coisa pra ver. Tanta gente pra aprender e pra lembrar. Mas era a gente. A gente que se entendia, que se olhava e se entendia - como sempre tinha sido. 

O Rio depois, com acolhida chez Jo e Claudius, até os pais chegarem. De novo  mudanças, adaptações, estranhezas. Nova casa, nova escola. Amigos antigos dos pais, que a gente tinha que reaprender. 
A acolhida da Aliança Francesa, lugar de proteção pro bando de meninos perdidos no Rio que a gente era: a anistia teve um efeito muito curioso sobre a turma de Nancy I da Aliança Francesa de Botafogo, cuja faixa etária até então devia girar em torno dos 50 anos... (me lembro do M.Pille, diretor da Aliança, dizendo pro Karydakis: "Ça va vous changer de vos vieilles dames!)

... E agora, mais recentemente (já vão fazer oito anos!), o período mais difícil da vida, quando papai ficou doente de repente. Puta que pariu. Como foi duro. E, dentro daquela pauleira que foi aquilo, eu tinha aquela sensação de que a gente era um "ser de três cabeças". Eu, você, Ju. Tudo junto. No último dia, a gente tava lá os dois e viu que não ia dar; depois, no carro, já descendo do Silvestre, eu contei pra você e você contou pra mim que tinha dito pra ele ir. E ele foi.

Tanta tanta história. Nossa história. Que continua até hoje, mesmo que às vezes, por contingências da vida ou confusões do dia-a-dia, a gente se veja menos do que gostaria. O "almoço de irmãos" -  nós três, com Ju também - e a alegria que a gente sempre tem de tar juntos. As risadas. As tristezas também. Que às vezes a gente fala, às vezes a gente cala. Mas tá ali - e a gente sabe, a gente nem precisa pensar nisso - aquela certeza preciosa: cacete, como é bom ter irmão.


E, quando eu fui dizer ao meu filho que ele ia ter um irmão, eu disse isso: é muito bom ter irmão. Você não tem idéia de como é bom. Acho que agora ele já sabe bem...


Viva você, meu irmão. Obrigada por tudo. 




E, por último, pra ficar registrado: a "canção do irmão". Que eu sempre cantei pra você de brincadeira. Mas é verdade. E (claro) você sabe. 





quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uns buracos assim

Tem uns buracos que ficam, assim. Tão ali, os buracos. E o tempo passa, e a poeira cobre. E a gente não fala mais nisso, mas eles tão ali. Silenciosos buracos. Escuros buracos. Tão ali os buracos. E a gente nem fala mais nisso. Porque não faz nem mais sentido. Tanto tempo. Os buracos já deveriam estar fechados.

E olha, outro, desavisadamente, poderia até dizer: mas é só isso? É isso que você tá chamando de buracos?
Porque não tô falando das grandes perdas. Não tô falando dos grandes dramas. Esses pertencem a outros.
Os meus são buracos assim: a minha casa que sumiu de um dia pro outro, porque a polícia foi lá e a gente teve que ir embora com a roupa da mala de férias. Eu tinha sete anos, e dentro da minha casa - meus brinquedos, minhas roupas, meus livros - a dor maior foi ter perdido os álbuns. Os álbuns de mim e de Marcelo pequenos. Nossas fotos começam aos sete e aos cinco anos, respectivamente. As de antes disso: ficaram na casa, que foi abandonada tal e qual. Bebê, na nossa casa, só Juliana. Eu e Marcelo nascemos aos sete e aos cinco anos: assim contam as fotos.

Depois tem outro doloroso, o dos livros de Genebra: aqueles que a gente (Marcelo e eu) tinha separado, com tanto cuidado, com tanto carinho, e que não chegaram. Entenderam errado, vieram outros .... e depois da longa espera, do navio que demorou tanto, do século que foi o desembaraço da bagagem em Santos, os nossos livros não vieram. Vieram poucos, vieram errado. A gente tinha separado tudo e não adiantou nada. 

Tem meu poncho: meu poncho que eu amava e que minha mãe achou por bem dar a Isabel, minha melhor amiga - afinal, no Rio, pra que eu ia precisar do poncho? Não entendeu ela que o poncho era um urso de pelúcia, era o familiar, o conhecido diante de tanta mudança. Ficou meu poncho em Genebra. Eu fiquei sem urso de pelúcia. E afinal, com quase treze anos, não ficava nem bem.

Tem um buraco maior - o dos silêncios. O do silêncio da ida, de quando a gente saiu do Brasil: porque a gente não sabia, a gente era criança - e pras crianças tem tanto que não se conta. A gente foi descobrindo aos poucos. Que tia Sônia tava presa. Que papai tinha fugido pelo Paraguai. Que a gente não tinha idéia de por quanto tempo ia ficar fora. Que a gente não tinha saído porque queria. Tudo isso aos poucos, nada disso muito bem contado. A cada descoberta, um susto. E, depois do susto, a recomendação: não era pra contar. Não contar a ninguém. Na escola, não contar nada: dizer que a gente tava ali por conta do trabalho do meu pai. E pronto. Aprender a mentir todo dia: uma dura aprendizagem, da qual a gente não se desfaz com facilidade. 

E o silêncio da volta. A volta, um pouco antes da anistia maior. Papai, tio Sylvio foram anistiados antes, como já acontecia nessa época. Anistiados no final da ditadura. E a gente voltou sem saber direito. A gente voltou e eu não me entendia mais com nada. Parecia que aqui o tempo passava diferente: outras modas, outras roupas. Outra história. A gente falando estranho e tentando se encaixar. A gente, os filhos dos que tinham voltado. A gente que não tinha escolhido ir e que não escolheu voltar. Tudo tão difícil. E o mais difícil: à gente, a mim e a Marcelo, foi pedido que a gente mentisse de novo: excesso de cautela, hábito antigo de viver clandestino. Ainda era ditadura. Podia ser. Nada era certo. Enfim. Não era pra dizer. Na volta, de novo, a gente dizia que tinha estado fora "por conta do trabalho do meu pai". Cinco anos fora, tanto pra recuperar, e a gente não podia dizer. Cacete, como foi foda não dizer. Não poder contar essa história. Nossa história, que era tudo que a gente tinha. E que, tanto tempo depois, ainda dói. Talvez mais ainda por conta do silêncio.

Tem os grandes dramas. A grande história.
A nossa é apenas a pequena história dentro da grande história.
Uma pequena história de buracos mal tapados. 




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mulheres em Touro e Escorpião


A mulher taurina é de terra, é fértil, e seu corpo respira essa sensualidade espontânea que vem do saber instintivo de que o sexo (como o prazer da comida) é parte integrante da vida, está na ordem das coisas.

Vejo-a roliça, com seios fartos e braços redondos, e a personagem que me vem à mente é Clara, de “As Pupilas do Senhor Reitor”, quando lavava roupa no riacho – taurinamente trabalhando -, os braços reluzentes de água e os cabelos caindo-lhe de tempos em tempos sobre o colo, jogados para trás com um gesto de cabeça. As faces rosadas, os olhos brilhantes, tudo nela lembra plantação, fartura, colheitas.

Já a escorpiana é a um só tempo fascinante e sombria. Seus olhos magnéticos, sumidouros de toda luz, são sua arma de sedução. A forma do seu corpo não é tão importante quanto o poder de sua aura, e o que diz não é nada perto do que cala.
 Assim como cala, impõe silêncio de um gesto, e nos deixa a nós, pobres mortais, enfeitiçados e perdidos.

O sexo, celebração terrena para a taurina, torna-se para a escorpiana um espaço de comunhão com o sagrado - um ritual de iniciação com óleos essenciais e velas bruxuleantes, que exige respeito e entrega profunda. Calemo-nos.

Resultado de imagem para the crying game

terça-feira, 10 de abril de 2012

Lavando e passando antes de ser comida com cerveja



Resultado de imagem para mulher dentro carrinho de compras


Foi a partir de uma conversa no tuíter, a respeito da nova propaganda de Vanish; comentava-se que pela primeira vez uma propaganda brasileira tem o homem como consumidor de produto de limpeza.
Pela primeira vez, que eu me lembre: numa incrível sacada de nossos jovens e mudernos publicitários. Posso até imaginar a reunião na agência, a idéia revolucionária: "porque não botar um homem usando produtos de limpeza?". Olhares de dúvida, certo desconforto, pigarros. E enfim, a aceitação da ousada proposta: um homem como foco da propaganda de um produto de limpeza. Ainda não é, como se poderia supor, aquele cara que lava roupa em casa, seja porque divide com a mulher, seja porque é solteiro, gay, o que for: é um homem que, como proprietário de uma pousada, atesta que as toalhas e lençóis ficaram mais limpos depois do uso do produto.
 É pouco para o século XXI. Mas já é alguma coisa, em se tratando do universo da propaganda brasileira.
 A conversa é de hoje, mas a verdade é estou com vontade de escrever sobre isso desde a época do barraco com a propaganda com a Gisele Bündchen. Na época, achei barulho demais por aquela propaganda.



Não porque a achasse boa, vejam bem: a propaganda era ruim. Ruim porque boba. Porque trabalhava com a mesmice dos preconceitos e lugares-comuns. Onde, mais uma vez,  mulher tem que falar com homem fazendo biquinho e usando lingerie. E a mensagem é bem assim: mulher que tem cérebro usa o corpo. Enfim. Nada de novo no front publicitário.


É que aquela, dentro do panorama geral, nem era das piores. Tem tantas outras. Praticamente todas.

Tinha uma que me irritava particularmente - não conseguia ver sem comentar: era de uma locadora de vídeos, em que a mulher tinha que ser segura pelo marido, senão saía correndo pra dentro da loja e levava tudo. Fazia um estrago. Claro, né. Esse ser descerebrado. Que não sabe se conter. Que precisa do homem para segurá-la e não deixar que ela consuma a loja inteira.
E tem várias dessas de consumo: podem reparar, a mulher sempre é uma louca que quer estourar todos os cartões, ou que fica chorando e pedindo "benhê, me dá aquilo, e mais aquilo".... enfim, mulher não sabe gastar. Sem homem, coitadas. Ficam perdidas. À mercê dos seus instintos mais primitivos. 

(Como é que tem tanta mulher chefe de família no Brasil é que os jovens e mudernos publicitários não explicam. Mais de um terço, diz o IPEA - e este número está certamente subestimado: em muitas famílias, mesmo que haja homem na casa, a verdadeira chefe de família é a mulher. Que trabalha e paga as contas - dela e do marido. Longe das vistas dos jovens e mudernos publicitários.)

Tem os anúncios de cerveja, onde as mulheres viram objeto de consumo vendido junto com a bebida: compre uma cerveja e leve uma linda moça de brinde. Ou duas. Ou várias. Beba a cerveja, coma a mulher. Refeição completa. Mulheres, é claro, não bebem cerveja. No máximo em grupos mistos, onde se esforçam para serem aceitas até serem subitamente ofuscadas pela a aparição da "garota da cerveja": aquela que todo mundo - isto é, todo homem - quer para acompanhar a bebida.

E as de produtos domésticos. Um capítulo à parte. Porque as mulheres brasileiras, segundo nossos incríveis publicitários,  têm como sonho ganhar uma lavadora de roupas nova de aniversário. Um fogão, que maravilha. Uma geladeira, duas portas, elegante, congelador separado. As mulheres das propagandas, que são elegantes, bonitas, cheirosas. E ficam em lágrimas ao receber de presente aquele fantástico objeto que lhes permitirá lavar de forma mais profunda e completa as roupas do seu homem, dos seus filhos. O fogão reluzente no qual ela preparará os pratos deliciosos que alegrarão  toda a família. Ai, que sonho: um eletrodoméstico de presente de aniversário. Isso é que é prova de amor.

Raramente, muito raramente, aparecerá nessas propagandas a figura da empregada doméstica, que em casas de classe média e alta é quem faz realmente uso desses objetos. Isso para que não me venham falar de realismo: se for para ser realista, que sejam as empregadas domésticas as protagonistas. As que entendem de máquina de lavar e de fogão. Não é o caso: nas imaculadas e enormes casas com jardins das propagandas nacionais, quem cuida da casa, sorriso nos lábios impecavelmente pintados, é a rainha do lar. É ela que se alegra ao experimentar a nova marca de sabão em pó, ao utilizar o desinfetante multiuso, ao devolver ao assoalho aquele brilho perdido. Que felicidade. Que maravilha. Limpar e arrumar a casa, é para isso que a mulher usa toda a sua criatividade, toda sua energia. Ali, ela se realiza. É a mãe de todos: dos filhos e do marido. 
Porque, claro: mais uma vez, não há solteiros, não há gays. E tampouco há maridos ou namorados aí: longe deles participar das atividades de arrumação, limpeza, cozinha. Não: sua hora na propaganda é outra. Eles virão na hora de conter suas mulheres para que elas não detonem o cartão de crédito. Na hora de sorrir para o biquinho da moça vestindo lingerie. Na hora de comer a garota da cerveja.

domingo, 1 de abril de 2012

Umas histórias

São umas histórias de gente. Tem as histórias da gente que foi pra luta armada. E tem também as histórias de gente que queria que todo mundo pudesse ler e entender, pra brigar por seus direitos. Lendo, entendendo, discutindo, conversando. De gente que sonhava com um Brasil sem coronéis, onde a tanta terra que há fosse partilhada e compartilhada. Um Brasil em que todo mundo pudesse se sentir cidadão. Em que todo mundo pudesse fazer parte. Em que as diferenças se tornassem menores. Tão menores. 


E por causa disso essa gente foi presa. Foi perseguida. Foi torturada. Foi machucada. Teve gente que morreu. Gente que teve que ir embora. Gente que se escondeu. Dores do corpo. Dores da alma. Dores que ficam e não se apagam.
Ainda mais quando tanto não se sabe. Quando a história não é contada até o final. Quando de tantas histórias não se tem o desfecho. Histórias que não se concluem. 




Tem a história daquele que foi preso porque estava indo visitar o amigo na hora errada. 


Tem a história daqueles que conseguiram fugir porque foram avisados pela empregada corajosa de que a polícia tinha batido na casa. E ameaçado a empregada. Que mesmo assim avisou. 


Tem a história daquela que se comunicava assobiando com o companheiro da cela ao lado. 


Tem a história daquele que foi pro exílio e deixou os filhos com a avó, que depois não o reconheciam mais.



Tem a história do padre que foi preso com uma foto do afilhado, e na tortura queriam que confessasse que era seu filho.


Tem tantas histórias de crianças que perderam os pais. De pais que perderam os filhos. De gente que perdeu sua história e foi obrigada a viver essa outra. Essa de dor, de violência, de tortura, de medo. 
Tantas, tantas histórias.


E tem o silêncio. 


O que não se sabe. 
O que não se conhece, porque não se disse. 
Quem foi. Quando foi. Onde foi. Como foi. 
Onde está. Como morreu. 
Quem escondeu. Quem ocultou.
Quem participou.
Vamos abrir essa  história. Contar essas histórias.
 Abrir os arquivos, julgar responsáveis. 
Vamos ouvir essa história.
 Vamos nos apropriar da nossa história.
Para então - aí sim - começar a construir outra história.














Este post faz parte da 5a blogagem coletiva #DesarquivandoBR.


http://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/18/convocacao-da-5a-blogagem-coletiva-desarquivandobr-3/