domingo, 19 de agosto de 2012

Amores e livros policiais





Sou dessas criaturas que amam histórias de amor e livros policiais. Tudo junto e misturado. Aí, outro dia em que tava num "buraco" de espera, fiquei viajando sobre isso: o que é necessário para escrever uma história de amor. Pensei umas coisas, enquanto esperava o João na fisioterapia: meio desordenadas, impressionistas. Certamente nada que de fato "valha a pena". Só uma maneira de passar o tempo. Mas é assim, né? O blog é meu e eu escrevo o que eu quiser? Então lá vai.

Como num livro policial, os personagens são fundamentais - ao contrário, por exemplo, das histórias de espionagem, onde a trama e a ação é que são relevantes. Por isso, aliás, é que não gosto de livros de espionagem: eu gosto é de gente, e ali os personagens muitas vezes não passam de esboços. Quanta diferença do Nero Wolfe, do Lord Peter Wimsey, do Dalgliesh da P.D. James, do inspetor Rebus do Ian Rankin. 

Um obstáculo é necessário para estruturar a história: e os exemplos clássicos que me ocorrem são Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Nessas duas, o obstáculo é externo; eu, de minha parte, tenho certa preferência pelas histórias de amor em que o obstáculo que impede a realização plena do sentimento amoroso vem de dentro de um ou dos dois personagens. Quando o impulso amoroso é bloqueado pela própria moral, pelos próprios limites dos envolvidos. Como acontece, por exemplo, com Paulo, em Lucíola, de José de Alencar (que eu li primeiro do que a Dama das Camélias, e por isso é minha referência). Ou no caso da paixão do português Jerônimo por Rita Baiana, no Cortiço de Aluísio Azevedo. O amor contra a vontade de Eugênio por Olívia em Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo.

Desses é que gosto, e aí é que encontra semelhança livros de amor/ livros policiais. Eros e Tanatos, sensualidade e pulsão de morte, domínios de Touro e Escorpião. Nesses casos, a paixão contra os limites internos não deixa de ser uma forma de assassinato: assassinato de moral. De bons costumes. De idéias feitas. Rompimento com aquilo em que se foi levado a acreditar e a aceitar como necessário - pela família, pela educação, pelo meio em que se vive. Luta interna, disputa de espaço entre o eu-luz e o eu-sombra. Culpa, dores, mortificações. Mortes. Mortes de velhos eus.

Sei lá. Achei que tinha a ver.






sábado, 18 de agosto de 2012

Minha mãe-borboleta





Minha mãe-borboleta é um termo que cunhei há alguns anos, quando tava tentando explicar minha mãe na aula de astrologia da Martha Pires, para o Jayme, a Míriam e alguns outros. E nunca deixei de chamá-la assim em pensamento. Isso porque "borboleta" diz bem como eu a vejo. A borboleta tem a qualidade da boniteza, colorida, exótica, leve. Minha mãe sempre foi muito bonita, e essa boniteza sempre fez parte da vida. A gente via como meu pai olhava pra ela e acho que ele sempre se admirou, no fundo, de ter conseguido ficar com aquela tão bonita...

A borboleta borboleteia, e assim vive minha mãe. Borboleteando pelo mundo. Eu digo pro Felipe: "a menor distância entre dois pontos é uma reta, mas não para a sua avó... então, ela chega, a gente só não sabe quando".... porque, é claro, a distância menor é muitas vezes a mais sem graça. Quem sabe o que a espera na volta, na curva, no desvio que é na verdade uma nova conquista, um novo sabor, um novo olhar, novas pequenas aventuras, que fazem do dia-a-dia algo sempre cheio de graça....


E graça também tem minha mãe-borboleta, graça de transbordar. Primeiro graça de humor, ela é uma pessoa engraçada naturalmente, e a brincadeira, o jogo de palavras, é sempre uma boa opção pra ser ouvido e entendido por ela. Mas a graça mais importante é aquela que também é mais profunda e por isso mais difícil de explicar: é aquela qualidade meio mágica, de tornar tudo interessante, divertido... a gente podia ter que fazer gato de luz no corredor, mas era pra desenhar sombras. Se meu pai ia chegar, que tal montar uma surpresa pra ele? Fazer desenhos, botar nas paredes, pensar algo que fizesse com que ele se sentisse acolhido, esperado, recebido...? E isso é com todo mundo, o toque mágico tá lá sempre, e por isso a casa dela é um lugar meio encantado, onde faz bom (essa é em homenagem ao Ondjaki) se reunir, inventar uma comida, tocar um violão, ligar pros amigos.... sempre tem lugar pra mais um. Maxime Le Forestier conta: "on se retrouve ensemble/ après des années de route/ et on vient s'asseoir/ autour du repas/ tout le monde est là/ à sept heures du soir..." (bom, essa parte das sete horas não é bem, bem assim... mas o que conta aqui, como vocês já entenderam, é o tempo afeto, não o tempo do relógio. São essas sete horas aí...)


Um dia meu filho Felipe, em um sarau desses, olhou com aqueles olhos pretos de absorver tudo e sentenciou: "quando eu ficar velho, quero ser como a minha avó". E eu concordei com ele, que alegria ser essa pessoa adolescente com mais de sessenta anos, viver a vida borboleteando e achando graça em pequenas coisas...


É claro que isso tudo traz em seu bojo algumas dificuldades, às vezes grandes. Uma delas é a dificuldade de marcar: marcar hora, marcar compromisso. Como pode uma borboleta ter hora pra chegar? E as flores que ela ainda não viu, onde ela ainda não pousou...? A capacidade da minha mãe de chegar fora de hora (atrasado não é uma boa palavra) nunca deixa de surpreender. A última vez foi no dia da eleição, em que, tendo combinado de votar comigo e com Marcelo no Fluminense, ela conseguiu chegar uns 40 minutos depois da hora marcada... e sempre cheia de explicações: claro, os meninos tinham dormido lá, tinha tanta coisa pra fazer, tinha que.... mas a verdade (e se ela olhar bem, bem pra dentro há de reconhecer o que estou dizendo) é que ela não lida bem com compromissos que envolvam hora (nenhuma borboleta lida, deve-se dizer. Nisso elas estão todas de acordo: esse negócio de hora não tá com nada...).


Tenho também que contar pra vocês a outra dificuldade bem grande: é a comunicação entre a gente. Astrologicamente, nossas formas de se comunicar são opostas - e complementares. Quer dizer que se a gente estiver abertas, as duas, a comunicação passa a ser um ponto forte, a gente constrói castelos, se diverte e bola coisas incríveis, quase brincando. Mas normalmente, essa sintonia tão delicada não acontece. E a gente se machuca, sempre. Ela me acha agressiva, briguenta. Eu a acho geladamente cortante, venenosa, maledicente. Isso porque se a gente for descrever um gruyère, eu vou falar da massa do queijo e ela vai falar dos buracos. Tá tudo ali, mas o olhar é outro. E é difícil se comunicar. Minha irmã libriana como ela, meu irmão de mercúrio (comunicação) em gêmeos (signo do ascendente dela) são muito melhores. A tal ponto que às vezes sugiro a um deles dizer a minha mãe algo que eu gostaria de dizer, mas que eu sei que se for eu, ela não vai ouvir. Tem dado bastante certo....


Mas o que eu queria dizer mesmo, com esse circunlóquio todo que fala também da minha timidez ao dizer coisas tão graves e tão delicadas, é o quanto eu admiro e sempre admirei minha mãe-borboleta. Mesmo com todo o estranhamento que existe quando a gente encontra o diferente. Mesmo com toda a dificuldade que isso implica na comunicação do dia-a-dia. É isso: sou muito orgulhosa da minha mãe-borboleta, e às vezes penso que ela não se dá conta do quanto. Do quanto eu sei da coragem dela ao encarar a ausência do marido nômade e os três filhos em terras estrangeiras. Do sacrifício que eu sei que foi ela deixar de fazer uma carreira própria pra ser a companheira do meu pai. A grande companheira. A que tornava cada casa "a casinha de nós", com os amigos, as comidas, o violão.
E nesse fim de ano, quase começo de outro, eu precisava contar isso. A vocês e a ela.




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre Vênus e Lua - impressões

E foram virando peixes
virando conchas
virando seixos 
virando areia 
 prateada areia
com lua cheia
e à beira-mar
(Chico Buarque, "Mar e Lua")



Vênus e lua. Afrodite e Selene. A relação entre Vênus e lua, no mapa de cada um. Os dois significantes femininos por excelência: como é que eles se conectam, pra você? Qual é o sentido conjunto que fazem? São harmoniosos? São conflituosos?

Vênus, a deusa do amor e da beleza. Dos prazeres, do senso estético. Vênus no mapa: sedução, paixão, modelo de feminino. Por que tipo de mulher você se apaixona, o que é que te encanta, quem é que você acha bonita. Qual é sua relação com o prazer, com a sensualidade. Com os sentidos. Que cores, que formas, que gostos, que cheiros. Vênus em Áries? Mulheres ousadas, corajosas, que desafiam, que vão à luta. Vênus em Câncer? As que acarinham, que cuidam, que dão colo. Em Libra? elegantes, precisas, diplomáticas. Harmonia nos tons e no tom. Já em Escorpião ... sombrias, misteriosas, feiticeiras. 

A lua fala da história com a mãe, com o sentido do materno. Do que entendemos por intimidade, onde é que nos sentimos confortáveis. Qual é o colo que buscamos, e o que damos. Onde é que a gente chora. Onde é que a gente relaxa e se deixa ser simplesmente. Qual é a raiz que explica isso tudo. Deixando claro que não se está falando do que a mãe "é" de verdade: a "mãe do mapa" é nosso canal para recebê-la. Como é que a gente viu, percebeu, apreendeu essa mãe. O que a gente guardou dela, ou de quem a representou na nossa vida. Assim, para uma pessoa de lua em Áries, a mãe era aquela que a jogava na água pra aprender a nadar. Que a desafiava. Nada está dado para alguém com lua em áries. E assim será essa pessoa como mãe também. Colo? Decerto. Conforto? Como não. Dirá ao filho: "Vai. Se joga. Se precisar, tem mertiolate. Tem band-aid. Mas experimenta. Encara". E assim será sua noção de intimidade e seu conforto: na intimidade, confronto. Gargalhadas, também. Áries é fogo. Já a lua em Libra poderia estar na capa da Vogue, a qualquer momento. Mesmo na intimidade, não se descabela: é fina, é contida. É na conversa de fala pausada e de argumentos rebuscados que os assuntos se resolvem. Em Escorpião, a lua dói um pouco. O mapa de alguém que tem lua em Escorpião conta de falta. De uma mãe intensa, que fazia e exalava sexo, algo tão doloroso de admitir para uma criança. Há que aprender a lidar com isso. A lua em Câncer, por sua vez, está em casa. "Avental todo sujo de ovo"... diz a canção. Faz bolo, dá colo, cafuné. Que delícia a lua em Câncer. Devagarzinho, baixinho, todos os segredos podem ser contados. E ali estarão a salvo.

A relação Lua-Vênus mostra, então, como é a síntese do feminino em suas duas facetas mais importantes, para cada pessoa. Lua e Vênus em conjunção? Tesão da intimidade. A mistura dá aquele efeito "me apaixonei pelo meu melhor amigo". Ou transforma o ser amado em amigo. Porque intimidade e paixão vão juntas e têm a mesma cara. 
Em trígono, aspecto harmonioso, não têm a mesma cara, mas combinam bem. São feitas da mesma substância. Uma lua em Virgem compartilha com Vênus em Touro, por exemplo, qualidades terrenas de segurança, estabilidade, concretude, realismo, enquanto a lua em gêmeos e Vênus em Aquário têm em comum características associadas ao elemento ar: leves, circulam agilmente pelos caminhos das idéias e dos ideais, das utopias e das estruturas mentais. 
Já nos mapas que têm aspectos ditos "difíceis" (quadratura, oposição) entre Lua e Vênus, há um conflito entre as duas imagens de feminino. O que se entende por intimidade e aconchego não combina com o que atrai ou como se seduz. No limite, trata-se aqui daquele velho contraponto entre "mulher pra trepar x mulher pra casar", ou da idéia de que a esposa não pode ser amante, nem a amante esposa.Isso, repetindo, é no limite: para ajudar a destrinchar do que é que se está falando. Em todo caso, o conflito existe, e é bom que seja conhecido. Para que se possa lidar com ele. Entender de onde vem a dificuldade em misturar sexo e intimidade. Ou como é que se perde o tesão depois que o misterioso sedutor vira conhecido e próximo. 

Entender, traduzir, olhar, virar pelo avesso. Descobrir se é isso mesmo. Ou não. 









quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Assuntos de Casa VIII

Sou leitora da Folhinha. É, a Folhinha. Do Sagrado Coração de Jesus. Meu avô comprava para todos os (oito) filhos, e minha mãe assumiu essa função. Compra pros irmãos, pra sobrinhos, pros filhos. E eu leio. À noite, antes de dormir. Uma preciosidade. Um almanaque descartável. Me diz as fases da lua. O nome dos santos do dia. As frutas e os legumes de cada época. Dá dicas de alimentação. De vida. Tem reflexões no verso da folhinha de cada dia.  Na folhinha aprendi tanta coisa - por exemplo, que Tiago e Jacó são o mesmo nome: de Jacob ou Iacob para Iago para Santiago ou Santo Iago, para San Tiago...  onde mais?


Foi na folhinha que li o seguinte texto, atribuído ao poeta Khalil Gibran: "O sofrimento nada mais é do que a dor que envolvia teu entendimento se quebrando".
Sei esse de cor. Preguei na cortiça perto do telefone, numa época em que havia cortiças e os telefones "ficavam" em algum lugar. Vocês não conhecem, mas já houve isso. A gente é que ia até o telefone. Enfim. Botei ali porque ali eu via todo dia, e quanto mais eu visse, lesse, repetisse como um mantra, quem sabe... quem sabe eu incorporava. Quem sabe aquilo passava a fazer parte de mim e parava de doer. 

"Se o Jayminho passou, tudo passa", diz uma amiga minha. E incorporei essa também. Substitua o nome pelo de sua preferência. Uso em ocasiões variadas, para falar de assuntos diversos. Ajuda. Acalma. Afinal, se até o Jayminho passou...

Aí que o tema aqui é esse: a hora de largar mão. De desapegar. De deixar ir. Como diz o Khalil Gibran, dói porque a gente passa a entender algo que já tava ali, e que a gente fechava os olhos para não ver. De olhos fechados, os monstros são maiores. Na hora em que a gente abre, taí. Dói. É pauleira. Mas aí a gente já tá em movimento. Saiu da crispação. Da tentativa de cristalização de algo que já não era, que já não tava. Dói e pode doer pra cacete, mas dá um certo alívio também. Tem tamanho. Tem contornos. Enquanto a gente tá de olhos fechados, na modalidade "se eu não tô vendo não existe", aquilo que a gente não tá vendo - mas no fundo sabe que existe - tá em todas as partes. Envolve. Ameaça por todos os lados. Quando a gente abre os olhos, dói mais - mas já tá, de certa forma, posto que tá doendo menos. Porque, como diz o Ionesco, "o que tem que acabar já acabou". 

Como quando a gente tá numa árvore: num galho lá em cima. E de repente, os pés se soltam. A gente fica pendurada, só pelas mãos. Num galho tão alto. Que susto. Que medo. E agora? Agora, amigo, não tem jeito. A árvore já se desapegou da gente: é hora da gente se desapegar da árvore. Soltar. Deixar o galho e se deixar cair. A árvore já era. É no chão que continua.




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Viajando em post de Borboleta

E aí me deu vontade de ler um texto da Borboleta Luciana . E, por sorte, ela tinha acabado de postar esse, antigo, mas no ponto pra mim hoje. Que fala de uma certa sensação de ser antiga. E eu hoje dizia que sou "anti-moderna". Sou meio. Não gosto do moderno pelo moderno. Vejo o mundo indo e vindo. Não sou saudosista, mas não acho que pra frente é sempre melhor. Há melhor, há pior. Cíclico. Rodando. Mundo gira e a gente com ele. Pra melhor, pra pior. Porque a estrada não é reta e não vai do pior pro melhor. Nem do melhor pro pior: essas não são, simplesmente, as categorias adequadas. Não cabem aí. O mundo vai no seu ritmo. A gente tenta se ajustar. Ir com ele. Pegar no tranco. E consegue às vezes. Às vezes não.


O texto da Lu também fala de outra coisa que me toca tão de perto, tão lá no fundo: o eu-indo. Já escrevi uma vez: "minha casa é indo". Já mudei muitas vezes de casa, entrei num avião a primeira vez pra ser batizada, viajei sozinha com algo como cinco anos. Morrendo de medo. E de vontade. Medo e vontade que nunca mais me abandonaram. Que apertam o estômago quando estou indo. De alegria e susto. Do desconhecido. Do já conhecido que vou rever. Das saudades que vou matar. Das outras que vou deixar. Que delícia. Que medo. Minha família no Recife, e as viagens de carro cantando. Meus avós, minha tia em São Paulo. O exílio em Genebra, e todas as viagens que dali se seguiram (tantas também de carro, sempre cantando). Meus pais nômades que, depois, não conseguiram parar no canto e foram pra Brasília, pra Roma, pra Brasília de novo. E novas cidades a conhecer. E novas "casinhas de nós" a serem montadas. Novos restaurantes da esquina - menos em Brasília, que, como todo mundo sabe, não tem esquinas. Novos cafés. Novas caras, novos jeitos.


E me reconheço no jeito da Lu de viajar: sem preocupação com cumprir etapas. Sem precisar ver "o que tem que ser visto". Só estando: estando lá, absorvendo os sons, as cores, as caras, os jeitos. Como gato, gosto de construir cantos meus. Um lugar pra ir todo dia: um café, um boteco. Onde o garçom já me conheça e sorria à minha entrada: em uma semana viro "local" e me esparramo nisso. Sento e olho. Posso passar uma tarde, duas, até mais, numa viagem de uma semana, só olhando. Ouvindo as conversas, entendendo ou não. Aprendendo os jeitos. Andando muito a pé, de preferência. Fotos? Nem sempre. Nem tanto. Porque estar lá é o que importa. Nas palavras da Borboleta, com quem converso nesse post, " As experiências costumam ficar onde eu gosto que estejam: em mim". E em mim ficam e me transformam, de tal forma que um cheiro, um trecho de música podem me transportar de volta. Pra quem eu era naquele momento, naquela viagem. Tomando cerveja com Celina e Adalberto em Havana. Ouvindo Lysâneas falar no Natal ecumênico dos brasileiros exilados, em Les Haudères. Comendo peixe com Andrés e Ju em Carneiros. Sentada com Adriana na porta da casa de Baccaro em Olinda. Ou ainda aqui pertinho, discutindo política com Paula e Paulo em Saquarema. Com Pinheiro e Berenice no sítio de Guapi. 
Porque viajar são também as gentes que a gente conhece. E que a gente leva. Que a gente encontra. Que a gente carrega, fora e dentro da gente. 


...Dá licença, povo. Vou ali arrumar a mochila. Tô indo. Tô indo agora. Bora?











sábado, 12 de maio de 2012

A canção de Marcelo

Marcelo,
já é seu aniversário. E essa é a lembrança mais antiga que eu tenho: papai me levantando, aquele vidrão da maternidade, e eu olhando lá pra dentro, maravilhada com aquele mar de bebês. E - maravilha das maravilhas - a enfermeira, de dentro, mostrando qual era "o meu". Era 12 de maio e eu tinha dois anos menos cinco dias: no meu segundo aniversário, você já tava. Já tava e teve sempre, desde então. Tão precioso numa vida meio sem eira nem beira, tantas casas, tantas mudanças, tantas bagagens de memória: aquele que lembra comigo. Que viveu comigo, olhando junto, estranhando, se encantando. 

(Juju é outra onda, tanta coisa a gente viveu junto também. Mas ela é seis anos e meio mais nova: e isso conta, sobretudo nessa época aí, quando a gente tava crescendo.)

A gente indo pro Recife juntos, nas férias de julho e de verão, desde tão pequenos. A gente em Genebra: o Nescau que você preparava, pra mim e pra você, antes da gente ir pra escola, porque eu tinha mais preguiça de acordar e só levantava no último minuto.
 A gente na escola: Eaux-Vives, Vollandes. Jogando bola de gude no pátio, na "saison des billes". A gente na rua, fantasiados, cantando Cé qué l'ainò na Escalade pra ganhar uns trocados. 

 As  séries na TV  que só a gente lembra: Deux ans de vacances, Sandokan, Starsky e Hutch, Amicalement Vôtre. E tantas outras. 

Os livros todos, os quadrinhos: Tintin, Lucky Luke, Astérix (sobretudo Astérix).

As coisas que só você sabia: de como eu tinha medo, às vezes, de dormir sozinha, e ia pro seu quarto de noite: deitava na cama de baixo e botava a mão em você, quentinho e respirando. E você deixava, e você nunca contou pra mamãe. Eu era mais velha, né. Eu era a mais velha. Não ficava nem bem. Mas você nunca contou.

Você sempre foi mais engraçado, mais falante, mais enturmado: eu era quieta e meio "da sombra". E no entanto a gente era tão parecidos, em tantas coisas que as pessoas não viam mas que a gente sabia. Bastava olhar. 

A volta pro Brasil na época da anistia, nós três primeiro enquanto os pais empacotavam a mudança - e "como é difícil se mudar sem a polícia atrás", dizia Dona Fáfa com aquele jeito dela de fazer graça das horas pesadas. A gente chegando no aeroporto dos Guararapes, a gente mergulhando nos primos e tios do Recife, na casa dos avós. Tanta coisa pra entender, tanta coisa pra ver. Tanta gente pra aprender e pra lembrar. Mas era a gente. A gente que se entendia, que se olhava e se entendia - como sempre tinha sido. 

O Rio depois, com acolhida chez Jo e Claudius, até os pais chegarem. De novo  mudanças, adaptações, estranhezas. Nova casa, nova escola. Amigos antigos dos pais, que a gente tinha que reaprender. 
A acolhida da Aliança Francesa, lugar de proteção pro bando de meninos perdidos no Rio que a gente era: a anistia teve um efeito muito curioso sobre a turma de Nancy I da Aliança Francesa de Botafogo, cuja faixa etária até então devia girar em torno dos 50 anos... (me lembro do M.Pille, diretor da Aliança, dizendo pro Karydakis: "Ça va vous changer de vos vieilles dames!)

... E agora, mais recentemente (já vão fazer oito anos!), o período mais difícil da vida, quando papai ficou doente de repente. Puta que pariu. Como foi duro. E, dentro daquela pauleira que foi aquilo, eu tinha aquela sensação de que a gente era um "ser de três cabeças". Eu, você, Ju. Tudo junto. No último dia, a gente tava lá os dois e viu que não ia dar; depois, no carro, já descendo do Silvestre, eu contei pra você e você contou pra mim que tinha dito pra ele ir. E ele foi.

Tanta tanta história. Nossa história. Que continua até hoje, mesmo que às vezes, por contingências da vida ou confusões do dia-a-dia, a gente se veja menos do que gostaria. O "almoço de irmãos" -  nós três, com Ju também - e a alegria que a gente sempre tem de tar juntos. As risadas. As tristezas também. Que às vezes a gente fala, às vezes a gente cala. Mas tá ali - e a gente sabe, a gente nem precisa pensar nisso - aquela certeza preciosa: cacete, como é bom ter irmão.


E, quando eu fui dizer ao meu filho que ele ia ter um irmão, eu disse isso: é muito bom ter irmão. Você não tem idéia de como é bom. Acho que agora ele já sabe bem...


Viva você, meu irmão. Obrigada por tudo. 




E, por último, pra ficar registrado: a "canção do irmão". Que eu sempre cantei pra você de brincadeira. Mas é verdade. E (claro) você sabe. 





quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uns buracos assim

Tem uns buracos que ficam, assim. Tão ali, os buracos. E o tempo passa, e a poeira cobre. E a gente não fala mais nisso, mas eles tão ali. Silenciosos buracos. Escuros buracos. Tão ali os buracos. E a gente nem fala mais nisso. Porque não faz nem mais sentido. Tanto tempo. Os buracos já deveriam estar fechados.

E olha, outro, desavisadamente, poderia até dizer: mas é só isso? É isso que você tá chamando de buracos?
Porque não tô falando das grandes perdas. Não tô falando dos grandes dramas. Esses pertencem a outros.
Os meus são buracos assim: a minha casa que sumiu de um dia pro outro, porque a polícia foi lá e a gente teve que ir embora com a roupa da mala de férias. Eu tinha sete anos, e dentro da minha casa - meus brinquedos, minhas roupas, meus livros - a dor maior foi ter perdido os álbuns. Os álbuns de mim e de Marcelo pequenos. Nossas fotos começam aos sete e aos cinco anos, respectivamente. As de antes disso: ficaram na casa, que foi abandonada tal e qual. Bebê, na nossa casa, só Juliana. Eu e Marcelo nascemos aos sete e aos cinco anos: assim contam as fotos.

Depois tem outro doloroso, o dos livros de Genebra: aqueles que a gente (Marcelo e eu) tinha separado, com tanto cuidado, com tanto carinho, e que não chegaram. Entenderam errado, vieram outros .... e depois da longa espera, do navio que demorou tanto, do século que foi o desembaraço da bagagem em Santos, os nossos livros não vieram. Vieram poucos, vieram errado. A gente tinha separado tudo e não adiantou nada. 

Tem meu poncho: meu poncho que eu amava e que minha mãe achou por bem dar a Isabel, minha melhor amiga - afinal, no Rio, pra que eu ia precisar do poncho? Não entendeu ela que o poncho era um urso de pelúcia, era o familiar, o conhecido diante de tanta mudança. Ficou meu poncho em Genebra. Eu fiquei sem urso de pelúcia. E afinal, com quase treze anos, não ficava nem bem.

Tem um buraco maior - o dos silêncios. O do silêncio da ida, de quando a gente saiu do Brasil: porque a gente não sabia, a gente era criança - e pras crianças tem tanto que não se conta. A gente foi descobrindo aos poucos. Que tia Sônia tava presa. Que papai tinha fugido pelo Paraguai. Que a gente não tinha idéia de por quanto tempo ia ficar fora. Que a gente não tinha saído porque queria. Tudo isso aos poucos, nada disso muito bem contado. A cada descoberta, um susto. E, depois do susto, a recomendação: não era pra contar. Não contar a ninguém. Na escola, não contar nada: dizer que a gente tava ali por conta do trabalho do meu pai. E pronto. Aprender a mentir todo dia: uma dura aprendizagem, da qual a gente não se desfaz com facilidade. 

E o silêncio da volta. A volta, um pouco antes da anistia maior. Papai, tio Sylvio foram anistiados antes, como já acontecia nessa época. Anistiados no final da ditadura. E a gente voltou sem saber direito. A gente voltou e eu não me entendia mais com nada. Parecia que aqui o tempo passava diferente: outras modas, outras roupas. Outra história. A gente falando estranho e tentando se encaixar. A gente, os filhos dos que tinham voltado. A gente que não tinha escolhido ir e que não escolheu voltar. Tudo tão difícil. E o mais difícil: à gente, a mim e a Marcelo, foi pedido que a gente mentisse de novo: excesso de cautela, hábito antigo de viver clandestino. Ainda era ditadura. Podia ser. Nada era certo. Enfim. Não era pra dizer. Na volta, de novo, a gente dizia que tinha estado fora "por conta do trabalho do meu pai". Cinco anos fora, tanto pra recuperar, e a gente não podia dizer. Cacete, como foi foda não dizer. Não poder contar essa história. Nossa história, que era tudo que a gente tinha. E que, tanto tempo depois, ainda dói. Talvez mais ainda por conta do silêncio.

Tem os grandes dramas. A grande história.
A nossa é apenas a pequena história dentro da grande história.
Uma pequena história de buracos mal tapados.