domingo, 21 de outubro de 2012

Carta ao bebê Felipe LSM - há dezoito anos



Meu amor pequeno,


fazem quatro meses - quase - que você chegou, e eu nunca mais tinha escrito nada. Você chegou e ocupa todo o tempo, todo o espaço, dá vontade de viver cada dia com você.

Trocar suas fraldas, dar beijos na sua barriga e ver você rir fechando os olhinhos, pegar você no colo e acabar com seu bico de choro... tanta tanta coisa acontecendo que quando a gente vê, o dia já acabou. E já vem outro.

Que bom que você chegou, meu amor... dá medo ainda, será que a gente vai saber? Será que a gente vai se dar bem? Mas a gente te olha e te ama, o tempo todo, e quando você tá perto não tem mais dúvidas.

Seu pai é um pai muito lindo, e a gente tá muito juntos cuidando de você. Ainda tem um problema de grana, o emprego do Banco Central não é de repente a solução que a gente queria, mas já dá a maior força a gente passar nesse concurso. Você dá um sentido de prioridades muito grande à vida da gente, e isso é bom. 

Acordar cedo com você, te colocar no sol, te dar papinha de fruta - é tão importante pra mim, meu amor! Tar junto com você, com seu pai, é a melhor coisa do mundo... mesmo que às vezes a gente fique cansado, mesmo que às vezes queira dormir... mas você chora fazendo biquinho e a gente derrete.

... Tô feliz, meu amor, mesmo com essa doença chata que ainda vai demorar um pouquinho, a gente supera, a gente sobrevive, a gente tá juntos!!!

Valeu, Felipe, parabéns pelos (quase) quatro meses de vida,
Te amo, te amo, te amo...

Sua mãe.

6/10/1994.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Geograficamente Prejudicada



Cunhei esse termo na onda dos outros "prejudicados" da nomenclatura moderna. Mas me entendo com ele. E me define.

Sou alguém de inteligência bastante razoável: leio muito e rápido, entendo e traduzo conceitos variados. No quesito orientação geográfica, no entanto, perco todas. Sou provavelmente a pessoa que mais fez "footing" (a bênção, vovô) em volta do teatro de arena da Praia Vermelha, onde se situa a faculdade de economia (atual IE/UFRJ) em que fiz graduação, mestrado e os créditos do doutorado. E pensando: "numa esquina tem o bar do Seu Antônio, então ali é a biblioteca; o banheiro feminino é aqui, então do outro lado é a sala do Galeno... o Possas fica do lado de cá, então logo ali é o David e a Esther". Pensando, galera. Mas já aprendi isso também: se pensar é pior.

Astrologicamente, o planeta mais elevado do meu mapa é Netuno - deus das brumas, da confusão, do esgarçamento e das ilusões. Netuno opõe-se a Sol, Mercúrio, Marte no meu mapa. Muito forte Netuno. Em Escorpião, de águas, tirando meu taurino e terreno chão. A matéria-vida da qual sou feita inclui Netuno dos sonhos (e pesadelos), da imaginação solta e desbragada, do "abrir das brumas" dos loucos e dos iluminados. Amo Netuno. Mas temo-o também.

Se eu entrar no metrô em outra entrada do que a habitual, pego pro lado errado: nem pisco, dou um leve suspiro e salto na próxima pra voltar. Tantas, tantas vezes. Andando na rua, às vezes, "me perco" dentro de mim: num segundo, olho em volta e não sei mais. Pra onde ia, pra onde vou. Paro, respiro, fecho e abro os olhos: lentamente, tudo volta ao seu lugar. Mas o fio é tênue.

Digo isso sempre - que sou geograficamente prejudicada. E, claro, pouca gente se toca ou entende. Quem mora comigo sabe: sou fã e usuária habitual de mapas. Não mapas de cidades estranhas: mapa do Rio, onde moro há trinta e três anos. Hoje em dia fica mais fácil: guglo e vejo - pra onde vou, onde pego condução, onde salto.
Talvez seja por isso que eu não dirijo: tirei carteira - e sem comprar, numa época onde isso era um feito não desprezível - , mas esta está guardada sem nunca ter sido usada. Ganhei um carro com dezenove, que foi roubado na sequência (meu irmão, que não tinha carteira, estava dirigindo) e que estava com o seguro a descoberto, devido a um malentendido ligado a eufemismos da seguradora. Netuno me avisava, já então. 

Tenho ótima visão espacial, quando se trata de pequenos espaços e de formas: sempre fui aluna top em geometria, desenho em "3 D" desde muito antes dos meus amiguinhos de escola, sei, num olhar, se um móvel cabe ou não cabe, como é melhor rearrumar o espaço. O problema é geográfico. Não tenho nenhuma idéia sobre isso, não sei deduzir caminhos ou roteiros a partir das informações que já possuo. 

Por muito tempo tive vergonha disso: mas o tempo é senhor da razão, e uma das liberdades que me deu foi a de aceitar e acolher meus limites. Aprendo caminhos. Mas não entendo, não imagino, não sintetizo. Não faz parte de mim. Fazer o que. Tenho outras qualidades. Quanto a essa falta, aprendi a viver com ela. Me adaptei. Uso muletas. Mapas, guias. Pergunto sem pejo. Tá tudo certo. Só não posso fazer de conta que a deficiência geográfica não existe: respeito com Netuno.



domingo, 14 de outubro de 2012

Palavras forasteiras



Gosto de "forasteira". Tá na minha descrição de perfil. Forasteira não quer dizer estrangeira. E me lembra John Wayne, saloons, portas curtas e sem trinco. Forasteiro é meu olhar e sempre foi, acho. Será arte?
Tem o Recife. Depois, Genebra, que moldou muita coisa.
E "A Volta", no comecinho da adolescência. Sobre isso é o post. Sobre certas palavras.

Cartório é a primeira. Não havia jeito de eu entender: como assim? Privado? Mas ali você tira documentos? E paga? E ainda é hereditário? Não é possível. Vocês devem tar esquecendo de me explicar alguma coisa. Documento não é exigência do Estado? Como é que não é o Estado que emite? Peraí. Tá errado. Não entendi. Explica de novo.

Carne "de segunda". Outra. Como assim de segunda? Eu gosto mais. Nunca gostei de filé. Mas a que se refere o conceito? Não é tudo parte do boi? Quem definiu o que era "de primeira" e "de segunda"? Um termo que diz tanto. Como sua não-existência em francês também diz (e essa, devo dizer, me dá certo problema até hoje. Tenho que "traduzir" internamente. E não uso.)

CDF. Nessa época aí, em que eu tava forasteiramente aprendendo e tentando me entender, não se dizia ainda "nerd". Se dizia CDF. E eu não conseguia conectar com nada. Eu sempre tirei boas notas na escola. Em Genebra tinha até aquela coisa de prêmios: na cerimônia de fim de ano ("les promotions"), eu sempre ganhava prêmio - um voucher para livro, que me deu um de que gostei muito, sobre o Robin Hood histórico - é, desde sempre eu... - , mas que muitas vezes a gente perdia (Marcelo também ganhava) porque esquecia que tinha prazo. Ou ia no finalzinho e pegava a xepa. Enfim. Voltando... em Genebra, portanto, não havia o termo CDF. Nem o conceito que vem com o termo. Eu era só uma pessoa que tinha a sorte de não precisar estudar muito porque tirava boas notas. Porque lia muito. Porque era atenta e tinha boa memória.
Aí vim pro Rio e virei - fui tachada de - "CDF". E me indignei internamente: ah, não. CDF não. Eu não estudo! Como é que podem me chamar disso? Adrianne é minha testemunha, muitas vezes eu não tinha nem caderno: anotava em papéis soltos. Isso é ser CDF? Não pode ser pelo resultado, né? Ah, vocês tacham pelo resultado? Pois bem.
O resultado - o meu resultado - foi que, no então 1° ano do 2° grau (eu cheguei na 7a: o 1° era meu terceiro ano no São Viça), fiquei em recuperação: Química. Desvirginada, no ano seguinte fiquei logo em três: Química, Física e Biologia. E só não fiquei em quatro porque o Marcelo me passou - ele que sempre foi sensível e atento, e percebeu exatamente o que se passava na minha atormentada alma adolescente. Fiquei em três, feliz: CDF é  a mãe!

Eu e a testemunha Dri, no pátio do São Viça


sábado, 6 de outubro de 2012

É amanhã - e vai ser depois





É amanhã. É amanhã e foi linda a caminhada até aqui. E junto-me ao coro dos que dizem “não importa o resultado, a gente já venceu”.
A gente já venceu. Um partido nanico, sem grana, sem coligações (deve-se dizer que o valoroso PCB não lançou candidato a prefeito para apoiar Freixo), sem tempo de TV.
E foi o que se viu.
De repente, milhares de jovens nas ruas. De repente, o espaço da ABI ficou pequeno pra tanta gente, tanta vontade, tanta energia.
O comício da Lapa, milhares de pessoas embaixo da chuva forte, e sorrindo. Sorrindo porque valia a pena tar ali, porque a gente sabia que era momento histórico, que o padroeiro São Sebastião tava era chorando de emoção com a homenagem, com a demonstração de carinho.
Resistiremos.
E temos resistido. Tamos aí. Porque nada deve parecer impossível de mudar. E nada é. Se a gente acredita, a gente vai. Se a gente vai, a gente faz. E no fazer, quando vê, já mudou.




Pessoas me perguntam e me pedem razões “para acreditar no Freixo”. Gente que me diz que está meio de saco cheio do endeusamento da imagem, da criação de um novo herói.
O que responder a isso? Eu tive, por circunstâncias, a possibilidade de estar por várias vezes na mesma mesa de almoço que Marcelo Freixo, além de conhecer seu gabinete e sua atuação na ALERJ. E afirmo aqui: Marcelo Freixo é isso aí. Nem mais, nem menos. É isso aí que vocês tão vendo. Não faz cena, não inventa, não faz pose. Pessoalmente, de perto, ele é igual. E aí, acho, tá a sua grande qualidade: é “um cara igual”. Igual a ele mesmo. Um cara que dá a cara a tapa. Que mostra a que veio. É isso aí mesmo. 



Única vez na vida em que eu tirei foto com candidato.

Quanto ao “endeusamento”... olha. Não tem muito jeito. Numa cidade tão sofrida. Uma juventude tão desencantada, tão acostumada a ouvir que “política é isso aí mesmo”. Que ouviu Lula no poder dizer que não fazia mais “bravatas” como quando tava na oposição. Que assistiu ao maior partido de esquerda da América Latina virar... bom, nem vou me estender, né. Virar isso aí que a gente tá vendo. Porque de política de possível em política de possível, a gente ainda vai ficar espremido num só ladrilho. Pequeno.

Aí tem esse cara: o cara da CPI das milícias. Só deu porque as circunstâncias permitiram? É evidente, é claro: mas alguém tinha que propor pra dar, não é mesmo? E foi ele. Presidiu a CPI, esse deputado jovem e desconhecido. Aguentou e aguenta a ira dos milicianos protegidos e até defendidos por Eduardo Paes (não vou linkar, mas é só botar no youtube: Eduardo Paes e milícias, tá lá pra quem quiser ver). Sofre ameaças de morte, anda com seguranças. Saiu do Brasil por uns dias, para deixar as coisas se acalmarem. E nem vou responder a quem diz que isso era jogo de cena: a juíza Patrícia Acioli era próxima e querida. Tenham respeito. Vão andar um dia que seja com os sapatos de Marcelo Freixo.

E, com tudo isso, ele diz - e isso é que eu acho que nego tem dificuldade de engolir: “eu só fiz meu trabalho”. Diz isso de verdade, mas quantos subentendidos. Ele fez o trabalho dele e apenas isso. E por isso é jurado de morte. Dá pra entender? Ele fez. E os outros? Fizeram o que mesmo? Fácil é ficar sentado em casa, de chinelos, e chamar quem cresce por estar na luta de arrogante. De “metido”. Vem fazer, ora. Vem mostrar como é que você acha que se faz. Isso muda uma cidade. Muda um país.

E aqui a outra grande novidade dessa capanha, seguindo a trilha de Plínio de Arruda Sampaio em sua candidatura à presidência: a repolitização da política. Marcelo Freixo dá nó na cabeça dos repórteres e diz: “meu partido não se diz socialista; ele é socialista”. Diz “temos que reestatizar o Estado”. Reestatizar o Estado: proposta quase revolucionária nos neoliberais e privatizados tempos que correm. Quando o projeto é embelezar o Rio e vendê-lo pra quem pagar mais. Marcelo diz: “Copa, Olimpíadas? Sim, claro. Contanto que os primeiros beneficiados sejam os cariocas”.

Tentaram colocá-lo no lugar do Gabeira, de “candidato Zona Sul”: mas Marcelo Freixo não é da Zona Sul: nem é do Rio, é de Niterói e de família de classe média-média. Isso molda seu olhar sobre o mundo. Caetano bem reconheceu isso, quando, no lindo show “Primavera Carioca” - mais uma manifestação espontânea de alguém que ama o Rio -, contava o Rio a partir do seu olhar de menino de Santo Amaro, que morava no subúrbio e pegava o trem da Central. Esse Rio.

Quando não era ninguém, Marcelo Freixo tava dentro das prisões dando aula de história. E daqui a pouco vão dizer que ele já fazia isso pensando em enfeitar sua biografia pro futuro...


Né. As pessoas dizem coisas.

E, enquanto isso, quem viveu essa campanha se abraça com brilho no olho, um brilho quase esquecido. E vai pra rua, vai andar com Freixo, vai abraçar o Maraca, vai acompanhar a apuração na Lapa.
Porque, o que quer que aconteça amanhã - e tantas surpresas são possíveis -, a gente já ganhou. E isso não para aqui. Isso é só o começo. E que lindo começo.






Obrigada, Marcelo, pela possibilidade de viver essa campanha. Obrigada, todo mundo. Milton, Chico, Eliomar, Cinco, Paulo Pinheiro, Babá, Mozart e tantos; Pedrinho, Tiago, Julia, Dudu, Renato, Magda, Zé, Mariozinho, André, Leo, Suely, Zé da Lata e Suely, Marisa, Sérgio Granja, Cataldi e todos os outros. E, claro, as companheiras do http://fechocomfreixo.com/ , Kika e Bia.


Foi bom andar com vocês até aqui. Foi bonito, foi alegre, foi colorido. Vamos adiante!


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Primeiro Passo

E hoje o Chopinho abre suas portas para post de convidado. Seu nom de plume é Euclydes P.  Comunicador e conhecedor da alma carioca, traduz o sentimento de muitos com raro talento. Abaixo ele conta mais:


Fingir pode ser necessário em alguns momentos da vida. Este não é um deles. Não dá para fingir que a cidade vai bem. E ir bem, no caso, significa atender às necessidades da maioria da população trabalhadora e pagadora de impostos. Ir bem quer dizer oferecer uma rede pública de saúde digna desta definição, de ser pública e cuidar da saúde dos cidadãos. O mesmo vale para a rede pública de educação , que seja pública; logo, aberta a todos e capaz de educar as novas gerações para o mundo de hoje e o que está por vir. Ao passar na frente de uma escola municipal deveríamos sentir orgulho de viver numa cidade que dá as condições, ao aluno e ao professor, de desenvolver suas potencialidades.

Nos transportes, é preciso de uma vez por todas repensar o modelo falido que insistimos em replicar e maquiar. Desde quando linhas expressas de ônibus são solução para qualquer coisa? Por que não retomar o debate sobre a massificação do uso do transporte sobre trilhos? Nos bondes, dentro do perímetro urbano e nos trens para o subúrbio...

O dinheiro olímpico, as verbas do futebol, o fluxo turístico, nada disso será interrompido. Mas podemos sim interromper, ou ao menos enfrentar, a violência das milícias (que contribui para o caos nos transportes com as vans), a concentração de poder e dinheiro nas mãos dos mesmos empresários de ônibus de sempre, a avassaladora especulação imobiliária, que desfigura sempre e mais uma cidade que tem tudo para crescer mais horizontal, mais ampla e mais plana. É preciso ainda e é possível incentivar o uso de bicicletas, com campanhas, abatimento de impostos, educação. Não fingir que temos ciclovias viáveis nem alardear que somos metrópole civilizada por conta de um sistema de aluguel restrito e irresponsável.

Precisamos querer mais do que apenas uma boa relação com os governos estadual e federal ao custo que for. Temos que investir na nossa vocação,turística, cultural e industrial. Mas não com siderúrgica na região metropolitana, não sem uma política séria de saneamento básico e otimização do uso da energia, e muito menos deixando a gerência da nossa festa popular maior, o carnaval, a cargo de uma máfia que conta entre seus integrantes bicheiros, milicianos e torturadores.

O primeiro passo para viabilizar qualquer dessas discussões é ter a oportunidade de ver um debate franco , com justa divisão do tempo , onde problemas sejam levantados e encarados. O primeiro passo é levar Marcelo Freixo para o segundo turno. Estamos juntos.




sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tá chegando a primavera e a gente vai tar lá




Hoje é dia de primavera. Não exatamente o dia do começo da primavera no calendário: esse é dia 22, amanhã. Hoje é dia da nossa primavera. Nossa primavera carioca.
"Eu sou carioca e fecho com Marcelo Freixo."
E vocês podem achar que é besteira, mas eu, que não tô nem cantando, choro só de escrever. Porque isso tem duas partes: "eu sou carioca" - e isso pra mim é conquista tão grande, eu a desgarrada, a filha de exilados, a menina desenraizada, um dia, depois de muito tempo, me assumi carioca e até escrevi um texto sobre isso: "Cidade Conquistada". Não foi mole, não foi fácil, mas é isso: nasci em Sampa, de pais pernambucanos, cresci na Suíça. E sou carioca. Me aguentem.

A segunda parte também me faz chorar: fecho com Marcelo Freixo. Cacete. Fecho como não fechava com ninguém há tanto tempo. Bom, pra não ser injusta, antes teve o Plínio, que admiro há tanto tempo pela via do meu pai lutador da reforma agrária, e que trouxe de volta a política (e não o marketing, e não as pesquisas, e não os Duda Mendonça) para o debate político.
Marcelo Freixo tem história e aprofunda lindamente essa senda. Traz de volta, todo dia, a política para o debate. Como não se emocionar quando ele responde na lata, em entrevista-pauleira e canalha do RJTV , a uma repórter que mencionou "você que é de um partido que se diz socialista"... e Freixo, rápido: ""se diz", não. O PSOL é socialista." Como não admirar a história de vida desse cara formado em história e  que, por tanto tempo, trabalhou como voluntário dando aulas nas prisões do Rio? Aí a gente acredita quando ele fala que preso que cumpriu pena não deve mais nada à sociedade. Aí a gente vislumbra um caminho diferente.

A gente que tá na campanha tá vendo as dificuldades: um partido tão pequeno, um partido tão jovem, uma campanha tão sem grana, brigando com o candidado do poder, da Globo, das empreiteiras. Contra o candidato da Delta e das milícias que assolam o Rio de Janeiro e impedem Marcelo Freixo de andar sem segurança. E no entanto, tem cheiro de novo no ar. Cheiro de primavera. Cheiro de esperança, nas rodas e nas redes, nas ruas e nas praças, que estão sendo retomadas pelos meninos que sentem que Marcelo Freixo é diferente. E todo dia tem uma invenção: um jingle, uma camiseta, um evento, uma festa.

E, olha que novidade: um comício. Tem um comício hoje, gente. Um comício na Lapa, um comício da primavera. Com flores, com fita amarela. Com alegria, como deve ser um comício levado no boca-a-boca, na ciranda em que se puxa um, e mais uma, outra ainda. Olha que novidade. A gente pensava que isso não aconteceria mais. Que a realpolitik do neoPT tinha dominado o mundo e acabado com a esquerda. E eis que. Tamos aí. Tamos aí de novo. Na Lapa que é lugar que já foi tão degradado, e hoje é espaço público de festa e alegria.
Vai ter concentração das mulheres na Carioca; vai ter outra concentração na Central.
Tudo espontâneo, tudo combinado pelas redes que nos ajudam a estar juntos e misturados pra celebrar a chegada desse novo em que a gente nem acreditava mais: esperança é a palavra, e ela começa com Marcelo e acaba com Freixo.
Sou carioca e voto Marcelo Freixo - 50. Com muito orgulho.




sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Página solta de história não-escrita




Ando sem escrever. Muitos textos não-escritos: todos na cabeça. Alguns rascunhados. Mas nenhum pronto ainda.
Pra não deixar o mato crescer demais, vai aqui um antigo. Que é também um rascunho. Quem sabe.

****

Queria contar esta história como uma história de medo. Medo e solidão, que sempre me acompanharam e talvez me acompanhem até hoje.
 Medo da ausência. Medo de portas fechadas. Medo de dormir com a luz apagada. Solidão: pela estranheza, pela diferença, pela falta de vínculos com a realidade dos outros.

A necessidade de contar esta história sempre existiu, mas só agora, a partir deste nome, consigo encontrar o fio condutor: os filhos da tempestade. Aparentemente iguais a todo mundo, e que no entanto guardam marcas diversas de um tempo em que a vida virou de cabeça pra baixo; foram arrastados pela chuva e tiveram que se manter à tona.

A história, na sua origem, trata de mim: gerada na Argélia, nascida em Sampa, crescendo um pouco no Rio, um pouco em Genebra, filha de pais pernambucanos - não há como estranhar a falta de raízes e a urgência de me sentir “pertencente a” alguma coisa, qualquer coisa, um grupo de igreja, uma turma de colégio ou de faculdade, a família de Recife... algo que me desse uma identidade coletiva e me fizesse menos sozinha.

Minha vida sempre se compôs de definições e redefinições, como se fosse possível a qualquer hora “desmanchar e fazer de novo”. Usar uma borracha e retraçar caminhos partindo do zero. Mudanças de escola, de amigos, de bairro, de cidade, de país. Pra recomeçar tudo a cada vez.
Esta realidade que é a minha não foi - na origem - construída por mim. Esta diferença que determinou a qualidade do meu olhar sobre o mundo me foi imposta pelas opções dos meus pais.
Rue Saint-Laurent, la "maison de verre".  O segundo pouso.

E aqui é que surge o verdadeiro tema deste texto: a não-escolha. Desde a “Abertura”, muito já se escreveu sobre os rumos tomados por aqueles que escolheram. Pra mim, falta ainda falar dos outros: os que foram levados, os filhos da tempestade - que até hoje lutam para encontrar sua identidade, num mundo em que são sempre, em certa medida, estrangeiros.
A primeira dificuldade, creio, é mostrar que há aí uma história a ser contada. História de não-sujeitos da ação. História de objetos diretos ou indiretos, de complementos cuja função era seguir... e segurar a onda. Porque naquele momento os problemas fundamentais eram outros, maiores, que não passavam pela gente. Organização, estratégias, separações, rachas, perdas e danos, esperança... e a gente acompanhando, ouvindo, olhando, crescendo dentro da tempestade. A gente se juntando na diferença: os excluídos. A gente se sentindo tão pequenos diante daqueles heróis que eram nossos pais. Os que fizeram. Os que tentaram. Os que escolheram. Os que sofreram “a dor e a delícia de ser o que e(ram)”.

E isso é outra questão que se coloca como fundamental, a meu ver, para os “filhos da tempestade”, sobretudo numa análise a posteriori: como sobreviver a esses heróis? como corresponder às expectativas -deles e, sobretudo, nossas? De que maneira estar à altura e não frustrar o que acreditávamos que eles  esperavam de nós?... tantas perguntas, que definem escolhas às vezes insensatas, que constroem uma tensão maior do que a habitual entre o que se quer e o que se deve – a si mesmo, aos pais – , tornando a busca de identidade própria da adolescência um sofrimento tão maior do que o inevitável, e a vida adulta na “democracia” às vezes um pouco pálida diante do que sonhamos e vimos acontecer.




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Meu canto de Sampa

Tô em Sampa. Vim por motivos variegados, mas o que me puxou foi saber que a Fal do Drops ia dar uma oficina de escrita em blogs, ontem à noite - e eu podia - , na Av. Ipiranga, perto da praça da República -  e eu sabia chegar,

[pausa pra dizer que sou geograficamente prejudicada e o "eu sabia chegar" é muitíssimo importante, embora possa não parecer. O "sei chegar"e "não sei chegar" determinam mais coisas na minha vida do que sonha vossa vã filosofia.]

A noite de ontem foi maravilhosa, a oficina regida pela Fal (e a palavra que me vem é bem essa, a Fal com sua batuta regendo a orquestra de boquiabertos que éramos nós, encantados com o fio da meada que ela puxa tão lindamente que até parece natural) eu não cansarei de recomendar ... e por conta da oficina devo dizer que, duas coisas: tô tomando vergonha e "cuidando" do meu blog daqui mesmo de Sampa, como vocês podem ver; e vou parar de enrolar e finalmente botar um blogroll aqui. O motivo de não ter feito isso ainda é: não sei como faz e demoro pra aprender. Tenho blog há um ano, que ganhei de presente de aniversário da Cacá (que me conhece mais do que eu pensava....), e aprendo qualquer coisa muito devagar. Isso também não parece, porque normalmente aprendo quietamente, calada. Treino em casa, com a porta fechada. Aí, quando acontece o movimento "pra fora", é porque eu já estou segura de que sei, e parece que sou muito rápida e eficiente. Mentira. Sou é dissimulada. Mas a Fal me ensinou ontem que é meio falta de educação não ter blogroll - inda mais no meu caso, eu que fui tanto tempo visitante assídua de blogs alheios.

Mas o título do post é "meu canto de Sampa": vamos a ele. Sou uma pessoa desgarrada, gerada-na-Argélia-nascida-em-Sampa-criada-meio-no-Rio-meio-em-Genebra-filha-de-pernambucanos. Pernambucanos nômades. Por conta disso, aprendi cedo a criar cantos: meus cantos nas cidades por onde passo. São Paulo, onde as tias Sônia e Pilar moraram boa parte da vida, onde os avós Lins viveram certo tempo, sempre esteve na jogada.

 Não sou paulista em nenhum sentido que faça sentido, apesar de ter nascido na Maternidade São Paulo (como a Fal, a Camila e nem vou contar quem mais). Apesar disso, tenho, há muito, um canto em Sampa: aqui. Perto de onde foi a oficina da Fal. Do lado da Praça da República. Ando pela Barão de Itapetininga e a Sete de Abril como se reencontrasse velhas conhecidas: "olha, aquele restaurante virou chique... aquele café não tem mais... a "minha" farmácia continua igual".... vou à livraria italiana, à livraria francesa. Será que a pequenininha, inglesa, ainda existe? O sebo grandão que tinha perto da praça eu sei que fechou. Caminho, tenho meus trajetos, meus pontos de parada. Tô em casa. É meu canto. Me reconheço aqui. Tô acolhida.

E, porque a oficina da Fal era no meu canto em Sampa, vim feliz. Entendi como um aviso do anjo da guarda: tá tudo aí, você decifra se quiser. Os anjos da guarda, como é de amplo conhecimento, não conversam com a gente: mas indicam. É só prestar atenção.






sábado, 25 de agosto de 2012

Feminices



Primeiro um pó solto - como se fosse uma preparação de tela. Não dá pra usar base líquida: meu rosto de ascendente áries é quente e eu era capaz de suar. Base líquida: só em terras frias.

Depois os olhos: lápis, preto e marrom. Fazendo o contorno por baixo, sem chegar até o canto interno. Às vezes, também o contorno por cima - só no finalzinho, perto do canto externo. A sombra não tem muita hora, vem antes ou depois. (não, isso não é um tutorial. Nota mental: aprender com a Camila a não usar tantas reticências). É assim de "cor da pele" pra lá: moreno, queimado, castanho. Uma clara pra dar uma iluminada: bem no meio da pálpebra. Às vezes, bem às vezes, passo um iluminador por baixo do olho, pra realçar. E rímel, habilidade e gosto adquiridos há bem pouco tempo. 

Enfim. Os olhos são fundamentais. Pelo menos por aqui.

Batom: contorno a lápis (marrom) ou com um batom mais escuro (marrom também). Não uso batom vermelho: só nesses tons aí de marrom. Não é que eu não goste: acho que fica incrível em outras pessoas. Em mim, só se misturar com café, com chocolate. Não dá pra ser vermelhão que fica esquisito.
Voltando: batom - contorno mais escuro, preenchimento mais claro (desde um tipo nude até o "cor de boca" mesmo, ou um "cor de boca de alguém mais moreno do que eu". Se é que vocês me entendem.).

Às vezes, faço uma "boca de Emília" no meio, com o batom mais escuro: dá uma esculpida na boca, dá relevo. Fica bem bom. Por cima, um dourado, muitas vezes. Acabamento.

No fim, mais um pó, pra uniformizar. E uma borrifada de soro ou água mineral em certos dias: dá maior fluidez ao conjunto.

Resultado - como diz minha irmã: quase não se vê. Mas era esse mesmo o propósito. ;)





domingo, 19 de agosto de 2012

Amores e livros policiais





Sou dessas criaturas que amam histórias de amor e livros policiais. Tudo junto e misturado. Aí, outro dia em que tava num "buraco" de espera, fiquei viajando sobre isso: o que é necessário para escrever uma história de amor. Pensei umas coisas, enquanto esperava o João na fisioterapia: meio desordenadas, impressionistas. Certamente nada que de fato "valha a pena". Só uma maneira de passar o tempo. Mas é assim, né? O blog é meu e eu escrevo o que eu quiser? Então lá vai.

Como num livro policial, os personagens são fundamentais - ao contrário, por exemplo, das histórias de espionagem, onde a trama e a ação é que são relevantes. Por isso, aliás, é que não gosto de livros de espionagem: eu gosto é de gente, e ali os personagens muitas vezes não passam de esboços. Quanta diferença do Nero Wolfe, do Lord Peter Wimsey, do Dalgliesh da P.D. James, do inspetor Rebus do Ian Rankin. 

Um obstáculo é necessário para estruturar a história: e os exemplos clássicos que me ocorrem são Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Nessas duas, o obstáculo é externo; eu, de minha parte, tenho certa preferência pelas histórias de amor em que o obstáculo que impede a realização plena do sentimento amoroso vem de dentro de um ou dos dois personagens. Quando o impulso amoroso é bloqueado pela própria moral, pelos próprios limites dos envolvidos. Como acontece, por exemplo, com Paulo, em Lucíola, de José de Alencar (que eu li primeiro do que a Dama das Camélias, e por isso é minha referência). Ou no caso da paixão do português Jerônimo por Rita Baiana, no Cortiço de Aluísio Azevedo. O amor contra a vontade de Eugênio por Olívia em Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo.

Desses é que gosto, e aí é que encontra semelhança livros de amor/ livros policiais. Eros e Tanatos, sensualidade e pulsão de morte, domínios de Touro e Escorpião. Nesses casos, a paixão contra os limites internos não deixa de ser uma forma de assassinato: assassinato de moral. De bons costumes. De idéias feitas. Rompimento com aquilo em que se foi levado a acreditar e a aceitar como necessário - pela família, pela educação, pelo meio em que se vive. Luta interna, disputa de espaço entre o eu-luz e o eu-sombra. Culpa, dores, mortificações. Mortes. Mortes de velhos eus.

Sei lá. Achei que tinha a ver.






sábado, 18 de agosto de 2012

Minha mãe-borboleta





Minha mãe-borboleta é um termo que cunhei há alguns anos, quando tava tentando explicar minha mãe na aula de astrologia da Martha Pires, para o Jayme, a Míriam e alguns outros. E nunca deixei de chamá-la assim em pensamento. Isso porque "borboleta" diz bem como eu a vejo. A borboleta tem a qualidade da boniteza, colorida, exótica, leve. Minha mãe sempre foi muito bonita, e essa boniteza sempre fez parte da vida. A gente via como meu pai olhava pra ela e acho que ele sempre se admirou, no fundo, de ter conseguido ficar com aquela tão bonita...

A borboleta borboleteia, e assim vive minha mãe. Borboleteando pelo mundo. Eu digo pro Felipe: "a menor distância entre dois pontos é uma reta, mas não para a sua avó... então, ela chega, a gente só não sabe quando".... porque, é claro, a distância menor é muitas vezes a mais sem graça. Quem sabe o que a espera na volta, na curva, no desvio que é na verdade uma nova conquista, um novo sabor, um novo olhar, novas pequenas aventuras, que fazem do dia-a-dia algo sempre cheio de graça....


E graça também tem minha mãe-borboleta, graça de transbordar. Primeiro graça de humor, ela é uma pessoa engraçada naturalmente, e a brincadeira, o jogo de palavras, é sempre uma boa opção pra ser ouvido e entendido por ela. Mas a graça mais importante é aquela que também é mais profunda e por isso mais difícil de explicar: é aquela qualidade meio mágica, de tornar tudo interessante, divertido... a gente podia ter que fazer gato de luz no corredor, mas era pra desenhar sombras. Se meu pai ia chegar, que tal montar uma surpresa pra ele? Fazer desenhos, botar nas paredes, pensar algo que fizesse com que ele se sentisse acolhido, esperado, recebido...? E isso é com todo mundo, o toque mágico tá lá sempre, e por isso a casa dela é um lugar meio encantado, onde faz bom (essa é em homenagem ao Ondjaki) se reunir, inventar uma comida, tocar um violão, ligar pros amigos.... sempre tem lugar pra mais um. Maxime Le Forestier conta: "on se retrouve ensemble/ après des années de route/ et on vient s'asseoir/ autour du repas/ tout le monde est là/ à sept heures du soir..." (bom, essa parte das sete horas não é bem, bem assim... mas o que conta aqui, como vocês já entenderam, é o tempo afeto, não o tempo do relógio. São essas sete horas aí...)


Um dia meu filho Felipe, em um sarau desses, olhou com aqueles olhos pretos de absorver tudo e sentenciou: "quando eu ficar velho, quero ser como a minha avó". E eu concordei com ele, que alegria ser essa pessoa adolescente com mais de sessenta anos, viver a vida borboleteando e achando graça em pequenas coisas...


É claro que isso tudo traz em seu bojo algumas dificuldades, às vezes grandes. Uma delas é a dificuldade de marcar: marcar hora, marcar compromisso. Como pode uma borboleta ter hora pra chegar? E as flores que ela ainda não viu, onde ela ainda não pousou...? A capacidade da minha mãe de chegar fora de hora (atrasado não é uma boa palavra) nunca deixa de surpreender. A última vez foi no dia da eleição, em que, tendo combinado de votar comigo e com Marcelo no Fluminense, ela conseguiu chegar uns 40 minutos depois da hora marcada... e sempre cheia de explicações: claro, os meninos tinham dormido lá, tinha tanta coisa pra fazer, tinha que.... mas a verdade (e se ela olhar bem, bem pra dentro há de reconhecer o que estou dizendo) é que ela não lida bem com compromissos que envolvam hora (nenhuma borboleta lida, deve-se dizer. Nisso elas estão todas de acordo: esse negócio de hora não tá com nada...).


Tenho também que contar pra vocês a outra dificuldade bem grande: é a comunicação entre a gente. Astrologicamente, nossas formas de se comunicar são opostas - e complementares. Quer dizer que se a gente estiver abertas, as duas, a comunicação passa a ser um ponto forte, a gente constrói castelos, se diverte e bola coisas incríveis, quase brincando. Mas normalmente, essa sintonia tão delicada não acontece. E a gente se machuca, sempre. Ela me acha agressiva, briguenta. Eu a acho geladamente cortante, venenosa, maledicente. Isso porque se a gente for descrever um gruyère, eu vou falar da massa do queijo e ela vai falar dos buracos. Tá tudo ali, mas o olhar é outro. E é difícil se comunicar. Minha irmã libriana como ela, meu irmão de mercúrio (comunicação) em gêmeos (signo do ascendente dela) são muito melhores. A tal ponto que às vezes sugiro a um deles dizer a minha mãe algo que eu gostaria de dizer, mas que eu sei que se for eu, ela não vai ouvir. Tem dado bastante certo....


Mas o que eu queria dizer mesmo, com esse circunlóquio todo que fala também da minha timidez ao dizer coisas tão graves e tão delicadas, é o quanto eu admiro e sempre admirei minha mãe-borboleta. Mesmo com todo o estranhamento que existe quando a gente encontra o diferente. Mesmo com toda a dificuldade que isso implica na comunicação do dia-a-dia. É isso: sou muito orgulhosa da minha mãe-borboleta, e às vezes penso que ela não se dá conta do quanto. Do quanto eu sei da coragem dela ao encarar a ausência do marido nômade e os três filhos em terras estrangeiras. Do sacrifício que eu sei que foi ela deixar de fazer uma carreira própria pra ser a companheira do meu pai. A grande companheira. A que tornava cada casa "a casinha de nós", com os amigos, as comidas, o violão.
E nesse fim de ano, quase começo de outro, eu precisava contar isso. A vocês e a ela.




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre Vênus e Lua - impressões

E foram virando peixes
virando conchas
virando seixos 
virando areia 
 prateada areia
com lua cheia
e à beira-mar
(Chico Buarque, "Mar e Lua")



Vênus e lua. Afrodite e Selene. A relação entre Vênus e lua, no mapa de cada um. Os dois significantes femininos por excelência: como é que eles se conectam, pra você? Qual é o sentido conjunto que fazem? São harmoniosos? São conflituosos?

Vênus, a deusa do amor e da beleza. Dos prazeres, do senso estético. Vênus no mapa: sedução, paixão, modelo de feminino. Por que tipo de mulher você se apaixona, o que é que te encanta, quem é que você acha bonita. Qual é sua relação com o prazer, com a sensualidade. Com os sentidos. Que cores, que formas, que gostos, que cheiros. Vênus em Áries? Mulheres ousadas, corajosas, que desafiam, que vão à luta. Vênus em Câncer? As que acarinham, que cuidam, que dão colo. Em Libra? elegantes, precisas, diplomáticas. Harmonia nos tons e no tom. Já em Escorpião ... sombrias, misteriosas, feiticeiras. 

A lua fala da história com a mãe, com o sentido do materno. Do que entendemos por intimidade, onde é que nos sentimos confortáveis. Qual é o colo que buscamos, e o que damos. Onde é que a gente chora. Onde é que a gente relaxa e se deixa ser simplesmente. Qual é a raiz que explica isso tudo. Deixando claro que não se está falando do que a mãe "é" de verdade: a "mãe do mapa" é nosso canal para recebê-la. Como é que a gente viu, percebeu, apreendeu essa mãe. O que a gente guardou dela, ou de quem a representou na nossa vida. Assim, para uma pessoa de lua em Áries, a mãe era aquela que a jogava na água pra aprender a nadar. Que a desafiava. Nada está dado para alguém com lua em áries. E assim será essa pessoa como mãe também. Colo? Decerto. Conforto? Como não. Dirá ao filho: "Vai. Se joga. Se precisar, tem mertiolate. Tem band-aid. Mas experimenta. Encara". E assim será sua noção de intimidade e seu conforto: na intimidade, confronto. Gargalhadas, também. Áries é fogo. Já a lua em Libra poderia estar na capa da Vogue, a qualquer momento. Mesmo na intimidade, não se descabela: é fina, é contida. É na conversa de fala pausada e de argumentos rebuscados que os assuntos se resolvem. Em Escorpião, a lua dói um pouco. O mapa de alguém que tem lua em Escorpião conta de falta. De uma mãe intensa, que fazia e exalava sexo, algo tão doloroso de admitir para uma criança. Há que aprender a lidar com isso. A lua em Câncer, por sua vez, está em casa. "Avental todo sujo de ovo"... diz a canção. Faz bolo, dá colo, cafuné. Que delícia a lua em Câncer. Devagarzinho, baixinho, todos os segredos podem ser contados. E ali estarão a salvo.

A relação Lua-Vênus mostra, então, como é a síntese do feminino em suas duas facetas mais importantes, para cada pessoa. Lua e Vênus em conjunção? Tesão da intimidade. A mistura dá aquele efeito "me apaixonei pelo meu melhor amigo". Ou transforma o ser amado em amigo. Porque intimidade e paixão vão juntas e têm a mesma cara. 
Em trígono, aspecto harmonioso, não têm a mesma cara, mas combinam bem. São feitas da mesma substância. Uma lua em Virgem compartilha com Vênus em Touro, por exemplo, qualidades terrenas de segurança, estabilidade, concretude, realismo, enquanto a lua em gêmeos e Vênus em Aquário têm em comum características associadas ao elemento ar: leves, circulam agilmente pelos caminhos das idéias e dos ideais, das utopias e das estruturas mentais. 
Já nos mapas que têm aspectos ditos "difíceis" (quadratura, oposição) entre Lua e Vênus, há um conflito entre as duas imagens de feminino. O que se entende por intimidade e aconchego não combina com o que atrai ou como se seduz. No limite, trata-se aqui daquele velho contraponto entre "mulher pra trepar x mulher pra casar", ou da idéia de que a esposa não pode ser amante, nem a amante esposa.Isso, repetindo, é no limite: para ajudar a destrinchar do que é que se está falando. Em todo caso, o conflito existe, e é bom que seja conhecido. Para que se possa lidar com ele. Entender de onde vem a dificuldade em misturar sexo e intimidade. Ou como é que se perde o tesão depois que o misterioso sedutor vira conhecido e próximo. 

Entender, traduzir, olhar, virar pelo avesso. Descobrir se é isso mesmo. Ou não. 









quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Assuntos de Casa VIII

Sou leitora da Folhinha. É, a Folhinha. Do Sagrado Coração de Jesus. Meu avô comprava para todos os (oito) filhos, e minha mãe assumiu essa função. Compra pros irmãos, pra sobrinhos, pros filhos. E eu leio. À noite, antes de dormir. Uma preciosidade. Um almanaque descartável. Me diz as fases da lua. O nome dos santos do dia. As frutas e os legumes de cada época. Dá dicas de alimentação. De vida. Tem reflexões no verso da folhinha de cada dia.  Na folhinha aprendi tanta coisa - por exemplo, que Tiago e Jacó são o mesmo nome: de Jacob ou Iacob para Iago para Santiago ou Santo Iago, para San Tiago...  onde mais?


Foi na folhinha que li o seguinte texto, atribuído ao poeta Khalil Gibran: "O sofrimento nada mais é do que a dor que envolvia teu entendimento se quebrando".
Sei esse de cor. Preguei na cortiça perto do telefone, numa época em que havia cortiças e os telefones "ficavam" em algum lugar. Vocês não conhecem, mas já houve isso. A gente é que ia até o telefone. Enfim. Botei ali porque ali eu via todo dia, e quanto mais eu visse, lesse, repetisse como um mantra, quem sabe... quem sabe eu incorporava. Quem sabe aquilo passava a fazer parte de mim e parava de doer. 

"Se o Jayminho passou, tudo passa", diz uma amiga minha. E incorporei essa também. Substitua o nome pelo de sua preferência. Uso em ocasiões variadas, para falar de assuntos diversos. Ajuda. Acalma. Afinal, se até o Jayminho passou...

Aí que o tema aqui é esse: a hora de largar mão. De desapegar. De deixar ir. Como diz o Khalil Gibran, dói porque a gente passa a entender algo que já tava ali, e que a gente fechava os olhos para não ver. De olhos fechados, os monstros são maiores. Na hora em que a gente abre, taí. Dói. É pauleira. Mas aí a gente já tá em movimento. Saiu da crispação. Da tentativa de cristalização de algo que já não era, que já não tava. Dói e pode doer pra cacete, mas dá um certo alívio também. Tem tamanho. Tem contornos. Enquanto a gente tá de olhos fechados, na modalidade "se eu não tô vendo não existe", aquilo que a gente não tá vendo - mas no fundo sabe que existe - tá em todas as partes. Envolve. Ameaça por todos os lados. Quando a gente abre os olhos, dói mais - mas já tá, de certa forma, posto que tá doendo menos. Porque, como diz o Ionesco, "o que tem que acabar já acabou". 

Como quando a gente tá numa árvore: num galho lá em cima. E de repente, os pés se soltam. A gente fica pendurada, só pelas mãos. Num galho tão alto. Que susto. Que medo. E agora? Agora, amigo, não tem jeito. A árvore já se desapegou da gente: é hora da gente se desapegar da árvore. Soltar. Deixar o galho e se deixar cair. A árvore já era. É no chão que continua.




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Viajando em post de Borboleta

E aí me deu vontade de ler um texto da Borboleta Luciana . E, por sorte, ela tinha acabado de postar esse, antigo, mas no ponto pra mim hoje. Que fala de uma certa sensação de ser antiga. E eu hoje dizia que sou "anti-moderna". Sou meio. Não gosto do moderno pelo moderno. Vejo o mundo indo e vindo. Não sou saudosista, mas não acho que pra frente é sempre melhor. Há melhor, há pior. Cíclico. Rodando. Mundo gira e a gente com ele. Pra melhor, pra pior. Porque a estrada não é reta e não vai do pior pro melhor. Nem do melhor pro pior: essas não são, simplesmente, as categorias adequadas. Não cabem aí. O mundo vai no seu ritmo. A gente tenta se ajustar. Ir com ele. Pegar no tranco. E consegue às vezes. Às vezes não.


O texto da Lu também fala de outra coisa que me toca tão de perto, tão lá no fundo: o eu-indo. Já escrevi uma vez: "minha casa é indo". Já mudei muitas vezes de casa, entrei num avião a primeira vez pra ser batizada, viajei sozinha com algo como cinco anos. Morrendo de medo. E de vontade. Medo e vontade que nunca mais me abandonaram. Que apertam o estômago quando estou indo. De alegria e susto. Do desconhecido. Do já conhecido que vou rever. Das saudades que vou matar. Das outras que vou deixar. Que delícia. Que medo. Minha família no Recife, e as viagens de carro cantando. Meus avós, minha tia em São Paulo. O exílio em Genebra, e todas as viagens que dali se seguiram (tantas também de carro, sempre cantando). Meus pais nômades que, depois, não conseguiram parar no canto e foram pra Brasília, pra Roma, pra Brasília de novo. E novas cidades a conhecer. E novas "casinhas de nós" a serem montadas. Novos restaurantes da esquina - menos em Brasília, que, como todo mundo sabe, não tem esquinas. Novos cafés. Novas caras, novos jeitos.


E me reconheço no jeito da Lu de viajar: sem preocupação com cumprir etapas. Sem precisar ver "o que tem que ser visto". Só estando: estando lá, absorvendo os sons, as cores, as caras, os jeitos. Como gato, gosto de construir cantos meus. Um lugar pra ir todo dia: um café, um boteco. Onde o garçom já me conheça e sorria à minha entrada: em uma semana viro "local" e me esparramo nisso. Sento e olho. Posso passar uma tarde, duas, até mais, numa viagem de uma semana, só olhando. Ouvindo as conversas, entendendo ou não. Aprendendo os jeitos. Andando muito a pé, de preferência. Fotos? Nem sempre. Nem tanto. Porque estar lá é o que importa. Nas palavras da Borboleta, com quem converso nesse post, " As experiências costumam ficar onde eu gosto que estejam: em mim". E em mim ficam e me transformam, de tal forma que um cheiro, um trecho de música podem me transportar de volta. Pra quem eu era naquele momento, naquela viagem. Tomando cerveja com Celina e Adalberto em Havana. Ouvindo Lysâneas falar no Natal ecumênico dos brasileiros exilados, em Les Haudères. Comendo peixe com Andrés e Ju em Carneiros. Sentada com Adriana na porta da casa de Baccaro em Olinda. Ou ainda aqui pertinho, discutindo política com Paula e Paulo em Saquarema. Com Pinheiro e Berenice no sítio de Guapi. 
Porque viajar são também as gentes que a gente conhece. E que a gente leva. Que a gente encontra. Que a gente carrega, fora e dentro da gente. 


...Dá licença, povo. Vou ali arrumar a mochila. Tô indo. Tô indo agora. Bora?











sábado, 12 de maio de 2012

A canção de Marcelo

Marcelo,
já é seu aniversário. E essa é a lembrança mais antiga que eu tenho: papai me levantando, aquele vidrão da maternidade, e eu olhando lá pra dentro, maravilhada com aquele mar de bebês. E - maravilha das maravilhas - a enfermeira, de dentro, mostrando qual era "o meu". Era 12 de maio e eu tinha dois anos menos cinco dias: no meu segundo aniversário, você já tava. Já tava e teve sempre, desde então. Tão precioso numa vida meio sem eira nem beira, tantas casas, tantas mudanças, tantas bagagens de memória: aquele que lembra comigo. Que viveu comigo, olhando junto, estranhando, se encantando. 

(Juju é outra onda, tanta coisa a gente viveu junto também. Mas ela é seis anos e meio mais nova: e isso conta, sobretudo nessa época aí, quando a gente tava crescendo.)

A gente indo pro Recife juntos, nas férias de julho e de verão, desde tão pequenos. A gente em Genebra: o Nescau que você preparava, pra mim e pra você, antes da gente ir pra escola, porque eu tinha mais preguiça de acordar e só levantava no último minuto.
 A gente na escola: Eaux-Vives, Vollandes. Jogando bola de gude no pátio, na "saison des billes". A gente na rua, fantasiados, cantando Cé qué l'ainò na Escalade pra ganhar uns trocados. 

 As  séries na TV  que só a gente lembra: Deux ans de vacances, Sandokan, Starsky e Hutch, Amicalement Vôtre. E tantas outras. 

Os livros todos, os quadrinhos: Tintin, Lucky Luke, Astérix (sobretudo Astérix).

As coisas que só você sabia: de como eu tinha medo, às vezes, de dormir sozinha, e ia pro seu quarto de noite: deitava na cama de baixo e botava a mão em você, quentinho e respirando. E você deixava, e você nunca contou pra mamãe. Eu era mais velha, né. Eu era a mais velha. Não ficava nem bem. Mas você nunca contou.

Você sempre foi mais engraçado, mais falante, mais enturmado: eu era quieta e meio "da sombra". E no entanto a gente era tão parecidos, em tantas coisas que as pessoas não viam mas que a gente sabia. Bastava olhar. 

A volta pro Brasil na época da anistia, nós três primeiro enquanto os pais empacotavam a mudança - e "como é difícil se mudar sem a polícia atrás", dizia Dona Fáfa com aquele jeito dela de fazer graça das horas pesadas. A gente chegando no aeroporto dos Guararapes, a gente mergulhando nos primos e tios do Recife, na casa dos avós. Tanta coisa pra entender, tanta coisa pra ver. Tanta gente pra aprender e pra lembrar. Mas era a gente. A gente que se entendia, que se olhava e se entendia - como sempre tinha sido. 

O Rio depois, com acolhida chez Jo e Claudius, até os pais chegarem. De novo  mudanças, adaptações, estranhezas. Nova casa, nova escola. Amigos antigos dos pais, que a gente tinha que reaprender. 
A acolhida da Aliança Francesa, lugar de proteção pro bando de meninos perdidos no Rio que a gente era: a anistia teve um efeito muito curioso sobre a turma de Nancy I da Aliança Francesa de Botafogo, cuja faixa etária até então devia girar em torno dos 50 anos... (me lembro do M.Pille, diretor da Aliança, dizendo pro Karydakis: "Ça va vous changer de vos vieilles dames!)

... E agora, mais recentemente (já vão fazer oito anos!), o período mais difícil da vida, quando papai ficou doente de repente. Puta que pariu. Como foi duro. E, dentro daquela pauleira que foi aquilo, eu tinha aquela sensação de que a gente era um "ser de três cabeças". Eu, você, Ju. Tudo junto. No último dia, a gente tava lá os dois e viu que não ia dar; depois, no carro, já descendo do Silvestre, eu contei pra você e você contou pra mim que tinha dito pra ele ir. E ele foi.

Tanta tanta história. Nossa história. Que continua até hoje, mesmo que às vezes, por contingências da vida ou confusões do dia-a-dia, a gente se veja menos do que gostaria. O "almoço de irmãos" -  nós três, com Ju também - e a alegria que a gente sempre tem de tar juntos. As risadas. As tristezas também. Que às vezes a gente fala, às vezes a gente cala. Mas tá ali - e a gente sabe, a gente nem precisa pensar nisso - aquela certeza preciosa: cacete, como é bom ter irmão.


E, quando eu fui dizer ao meu filho que ele ia ter um irmão, eu disse isso: é muito bom ter irmão. Você não tem idéia de como é bom. Acho que agora ele já sabe bem...


Viva você, meu irmão. Obrigada por tudo. 




E, por último, pra ficar registrado: a "canção do irmão". Que eu sempre cantei pra você de brincadeira. Mas é verdade. E (claro) você sabe. 





quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uns buracos assim

Tem uns buracos que ficam, assim. Tão ali, os buracos. E o tempo passa, e a poeira cobre. E a gente não fala mais nisso, mas eles tão ali. Silenciosos buracos. Escuros buracos. Tão ali os buracos. E a gente nem fala mais nisso. Porque não faz nem mais sentido. Tanto tempo. Os buracos já deveriam estar fechados.

E olha, outro, desavisadamente, poderia até dizer: mas é só isso? É isso que você tá chamando de buracos?
Porque não tô falando das grandes perdas. Não tô falando dos grandes dramas. Esses pertencem a outros.
Os meus são buracos assim: a minha casa que sumiu de um dia pro outro, porque a polícia foi lá e a gente teve que ir embora com a roupa da mala de férias. Eu tinha sete anos, e dentro da minha casa - meus brinquedos, minhas roupas, meus livros - a dor maior foi ter perdido os álbuns. Os álbuns de mim e de Marcelo pequenos. Nossas fotos começam aos sete e aos cinco anos, respectivamente. As de antes disso: ficaram na casa, que foi abandonada tal e qual. Bebê, na nossa casa, só Juliana. Eu e Marcelo nascemos aos sete e aos cinco anos: assim contam as fotos.

Depois tem outro doloroso, o dos livros de Genebra: aqueles que a gente (Marcelo e eu) tinha separado, com tanto cuidado, com tanto carinho, e que não chegaram. Entenderam errado, vieram outros .... e depois da longa espera, do navio que demorou tanto, do século que foi o desembaraço da bagagem em Santos, os nossos livros não vieram. Vieram poucos, vieram errado. A gente tinha separado tudo e não adiantou nada. 

Tem meu poncho: meu poncho que eu amava e que minha mãe achou por bem dar a Isabel, minha melhor amiga - afinal, no Rio, pra que eu ia precisar do poncho? Não entendeu ela que o poncho era um urso de pelúcia, era o familiar, o conhecido diante de tanta mudança. Ficou meu poncho em Genebra. Eu fiquei sem urso de pelúcia. E afinal, com quase treze anos, não ficava nem bem.

Tem um buraco maior - o dos silêncios. O do silêncio da ida, de quando a gente saiu do Brasil: porque a gente não sabia, a gente era criança - e pras crianças tem tanto que não se conta. A gente foi descobrindo aos poucos. Que tia Sônia tava presa. Que papai tinha fugido pelo Paraguai. Que a gente não tinha idéia de por quanto tempo ia ficar fora. Que a gente não tinha saído porque queria. Tudo isso aos poucos, nada disso muito bem contado. A cada descoberta, um susto. E, depois do susto, a recomendação: não era pra contar. Não contar a ninguém. Na escola, não contar nada: dizer que a gente tava ali por conta do trabalho do meu pai. E pronto. Aprender a mentir todo dia: uma dura aprendizagem, da qual a gente não se desfaz com facilidade. 

E o silêncio da volta. A volta, um pouco antes da anistia maior. Papai, tio Sylvio foram anistiados antes, como já acontecia nessa época. Anistiados no final da ditadura. E a gente voltou sem saber direito. A gente voltou e eu não me entendia mais com nada. Parecia que aqui o tempo passava diferente: outras modas, outras roupas. Outra história. A gente falando estranho e tentando se encaixar. A gente, os filhos dos que tinham voltado. A gente que não tinha escolhido ir e que não escolheu voltar. Tudo tão difícil. E o mais difícil: à gente, a mim e a Marcelo, foi pedido que a gente mentisse de novo: excesso de cautela, hábito antigo de viver clandestino. Ainda era ditadura. Podia ser. Nada era certo. Enfim. Não era pra dizer. Na volta, de novo, a gente dizia que tinha estado fora "por conta do trabalho do meu pai". Cinco anos fora, tanto pra recuperar, e a gente não podia dizer. Cacete, como foi foda não dizer. Não poder contar essa história. Nossa história, que era tudo que a gente tinha. E que, tanto tempo depois, ainda dói. Talvez mais ainda por conta do silêncio.

Tem os grandes dramas. A grande história.
A nossa é apenas a pequena história dentro da grande história.
Uma pequena história de buracos mal tapados. 




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mulheres em Touro e Escorpião


A mulher taurina é de terra, é fértil, e seu corpo respira essa sensualidade espontânea que vem do saber instintivo de que o sexo (como o prazer da comida) é parte integrante da vida, está na ordem das coisas.

Vejo-a roliça, com seios fartos e braços redondos, e a personagem que me vem à mente é Clara, de “As Pupilas do Senhor Reitor”, quando lavava roupa no riacho – taurinamente trabalhando -, os braços reluzentes de água e os cabelos caindo-lhe de tempos em tempos sobre o colo, jogados para trás com um gesto de cabeça. As faces rosadas, os olhos brilhantes, tudo nela lembra plantação, fartura, colheitas.

Já a escorpiana é a um só tempo fascinante e sombria. Seus olhos magnéticos, sumidouros de toda luz, são sua arma de sedução. A forma do seu corpo não é tão importante quanto o poder de sua aura, e o que diz não é nada perto do que cala.
 Assim como cala, impõe silêncio de um gesto, e nos deixa a nós, pobres mortais, enfeitiçados e perdidos.

O sexo, celebração terrena para a taurina, torna-se para a escorpiana um espaço de comunhão com o sagrado - um ritual de iniciação com óleos essenciais e velas bruxuleantes, que exige respeito e entrega profunda. Calemo-nos.

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