quarta-feira, 28 de novembro de 2012

De Peito Aberto - Texto de Afrânio Garcia



De peito aberto; entre amigos do peito.

(adendo a J. Sérgio Leite Lopes) Afrânio Garcia



Como falar de encontros em que se arrisca a pele? De onde vem a certeza de se estar diante de alguém em quem se pode confiar, quando o inimigo decidiu aniquilar sem dó nem piedade qualquer obstáculo à imposição de sua vontade? Como exprimir dúvidas diante de situações em que se paga caro toda e qualquer hesitação sobre a atitude a tomar?



José Sérgio e eu conhecemos Marcos após a decretação do AI-5; mantivemo-nos em contato quando tudo “caía, homens, mulheres, crianças, barreiras à barbárie, nada escapando da indecência institucionalizada sob o apelido pomposo de “segurança nacional”... Em fins de 1969, muitos de nós já havíamos compreendido que “avançar” era impossível; mesmo deter a perversidade no tratamento de adversários parecia tarefa hercúlea; nem quero lembrar quantos dos mais “ideologicamente corretos” passaram a fingir que não estavam nem ai. Minha lembrança das conversas com Marcos pelas ruas é sempre positiva, por vezes aflorando até sorriso largo. Não consigo mobilizar rapidamente todas as lembranças do que empreendemos juntos, mas é seguro que duas tarefas cimentaram projeto comum: a solicitude de tudo fazer para salvar os perseguidos no dia-a- dia, a construção de instrumentos comuns para compreender o que estava se passando e facilitar a busca de novos horizontes para os combates da esquerda. Quando o “monstro da lagoa” (apud Chico e Milton) ameaçou de perto, até mesmo com a prisão de Marcos, nosso “aliado” encarnou o preceito “nada de correr da raia”. A imagem de “companheiro firme” fixou as bases de uma profunda amizade.



Não estava eu no Brasil quando a morte trágica de Tancredo Neves diminuiu as parcas chances de se implantar no pais o plano de reforma agrária mais competente, bem articulado e realista que ja se fez até hoje(o PNRA). Havia sido concebido junto das experiências dos movimentos camponeses, da resistência quotidiana aos interesses imobiliários que espreitam cada investimento publico para extorquir em beneficio de uns poucos a valorização do espaço onde vivem os desprovidos de quase tudo, os “ destituídos da terra” e de “ chão de casa”, exceto da esperança de que um dia “essa coisa toda muda”. Marcos Lins, Moacir Palmeira, Alfredo Wagner e tantos outros e outras deram o melhor de si para “avançar no que era possível”, tendo sempre a lucidez de ver que o campo dos adversários se rearticulara rapidamente e que a oportunidade de ocupar cargos de decisão estava com os dias contados. No inicio da “Nova República”, novos e velhos interesses agrários assumiram a alcunha de “ruralistas” para perpetuar o Estado como alavanca do “ agronegócio”; por pouco não eliminam as conquistas jurídicas do Estatuto da Terra...

Esse novo combate às claras só fez reforçar em Marcos Lins a percepção da relevância da reforma agrária para que entrem pela porta da frente da democracia os milhões de deserdados, “herdeiros” dos estigmas das posições subalternas, condenados a viverem sem vez nem voz; “quosque tandem”? Com Marcos Lins, não tenho nenhuma vitória definitiva para contar; apenas a vitória de se manter fiel às esperanças e aos combates por uma vida decente e pela liberdade de cada qual exprimir como gostaria de construir o bem coletivo. 

No Rio de Janeiro, em Paris, onde morava seu irmão, ou em Brasilia o tempo sempre foi curto para conversarmos tudo a que tínhamos direito. Ao caminhar, acertamos os passos e conferimos as bússolas. Que falta nos faz reduzir nossos reencontros aos momentos de introspecção. Especialmente agora, pois companheiro firme, calejado, de muitas andanças, seria o primeiro a arguir com ar bonachão:”como é cambada, vamos entregar o jogo no primeiro tempo? De mão beijada para os bandidos?”

Tivemos uma outra felicidade partilhada, a de avôs que contemplam as crias de suas crias como a vida que jorra e se afirma. Até festa de creche povoa de alegria minha memoria. Como esquecer que rindo desse reencontro em Laranjeiras, glosou o nome do estabelecimento:’Curiosa idade’. Nossas ou de nossas netas? Saudades, amigo. Até sempre, companheiro.









quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pequena história e o que dela pensei



Ia ser aniversário da menininha. Aniversário de três anos. Por isso, a mãe - isso não era comum - a levou numa loja de "brinquedos", entre aspas porque brinquedo, pra menininha, era boneca. Sinônimos. Bonecas era o que ela mais gostava de ter no mundo. Não brincava de casinha: apenas "tinha" as bonecas. Olhava pra elas, botava-as no colo. Ninava. Eram suas pequenas. Suas. Ela amava bonecas. E a mãe já sabia: por isso, quando disse "pode escolher o que quiser", sabia que ia ser uma boneca. A menininha olhou e olhou, e escolheu: um bebê. Um bebê lindo e gordinho, com mamadeira. Seu bebê. Era aquela que ela queria. Não a mais cara, não a mais chique: aquele bebê, pra acarinhar, pra transbordar de abraços e beijinhos sem ter fim. A mãe tinha um bebê, afinal: um bebê que também era "seu", e que fazia aniversário (de um ano) tão perto dela que a festa seria junta. Por muito tempo seria junta, e aquela seria a primeira. 

A mãe olhou e perguntou "é essa mesma que você quer, filha?" e a menininha tinha certeza, era aquela. O bebê negro. Seu bebê pretinho. Ela, branca, seria "mãe" da boneca negra.

Sem nenhuma dúvida. Sem nenhuma questão. O bebê pretinho era a boneca mais bonita da loja: pelo menos pra ela.



A menininha era eu - e, se não tenho recordação dessa história que minha mãe gosta de contar, me lembro muito bem da boneca, do meu bebê pretinho. Tem uma foto desse aniversário numa moldura na casa da minha mãe: meu pai, meu bebê-irmão, eu de cabelo curtinho, com a boneca no colo. Dando a mamadeira.


E por que foi essa a boneca escolhida, é claro que não tenho idéia. Eu preferi essa, provavelmente por que era diferente de todas, certamente porque era um bebê... e porque tinha. Porque estava à venda ali, naquela loja, essa boneca exatinho. Eu podia querê-la: ela estava lá. Tinha. 

Parece besteira, parece pequeno, parece... e no entanto. Tantas crianças não podem. Tá melhorando, parece - mas tantas queriam poder escolher a boneca pretinha. E não tem na loja. Só loiras, só de cabelo liso, só de olhos azuis. Parecidas com outras crianças: não com elas. Quem já brincou de boneca - e quem dera mais meninos tivessem brincado -  sabe como esse brincar é grave. Intenso. Teatro é vida. Brincadeira de criança é exercício. Prática de vida, de modelos. Como fazer se não tem boneca pra você? Se as lojas estão cheias de bebês de bochechas gordas e rosas, de cabelos cor de palha, de olhos azuis "da cor do céu" como os da Menina Maribel? Desde cedo, insidiosamente, começa: se não tem boneca pra você, deve ser porque seu cabelo é "ruim", seu olho, sua pele... seu nariz não é fino... mesmo que você seja a Camila Pitanga, a Taís Araujo, o Lázaro Ramos, o Paulinho da Viola. Modelos. Imagens. Identidade. 

Pequenas coisas. Gente pequena. E uma dor que, por não ser minha, eu nem posso conhecer de verdade. Só intuir.







Agradeço a Camila Pavanelli, Fal Azevedo e Luciana Nepomuceno por terem acolhido minhas questões quando da produção desse texto. As confusões que permanecem são minhas, só minhas. 

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva Mulher Negra 2012 . Para ver os outros textos da blogagem, vá lá!


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Renatas





Me liga uma Renata: "alô, é a Renata x?" "Não, é a Renata y" "Ai, Rê, desculpa" "Que é isso, Rê, tudo bem".
Ou seja: uma Renata ligando p outra, à procura de uma terceira.
***
Trabalhei na SEFAZ RJ : equipe de umas vinte pessoas - três Renatas.
Na minha área, quatro pessoas: duas Renatas (eu e outra, claro).

***
Trabalhei na SMTb RJ: recepcionista Renata, advogada Renata, eu. No hall do elevador ao mesmo tempo. Só Renatas.

***
Sei, deve ter acontecido com vocês também; mas o caso é que eu cresci única, entendem? Sempre só fui eu em todas as minhas turmas - faculdade, colégio. No CSVP, por exemplo, no meu ano inteiro (cinco turmas, ou seja, umas 240 pessoas), só eu e mais uma.
Não era comum.
Estranhamento eterno.
Quando comecei a me dar conta da avalanche que se seguiu a mim, fiz pesquisa. E descobri: Beto Rockfeller, novela da Tupi, megasucesso (é, já houve vida além da Globo). Bete Mendes, a namorada do Beto Rockfeller, era Renata. 
Daí veio.

De lá pra cá, a moda nunca arrefeceu.
Mas eu ainda estranho.
E nem vou falar das Fernandas.













quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pequeno comentário à toa sobre certezas e demanda efetiva




Vejo tantas vezes as pessoas enfatizarem o princípio da incerteza quando falam de Keynes.
O fato de que as decisões são tomadas "para um futuro incerto".
De que o tempo não volta. Nem para, já dizia o... vocês sabem.
Enfim.

O que Keynes a mim ensinou foi que a demanda (aka "demanda efetiva") não é, ao contrário do que pretendia  afirmar Marshall, o anverso da oferta. Não é similar-só-que-ao-contrário.
Não.
Numa sociedade capitalista - na nossa sociedade capitalista -, diz Keynes (e com ele Kalecki, e como sou formada na UFRJ não dá pra não mencionar, porque o Kalecki era polonês, não pertencia ao Grupo de Bloomsbury e falava meio grosso: mas diz o mesmo que Keynes de forma muito mais direta. Talvez por isso seja tão menos pop), produz-se para vender. Para vender obtendo lucro. Se isso é verdade, a oferta não é livre e independente: depende de ser sancionada pela venda, a preço considerado razoável pelos produtores.

Senão na próxima rodada eles produzirão menos; e, ao contrário, se há sinais de que a demanda está "aquecida" - filas, sobrepreços -, e de que isso não é fenômeno passageiro, na próxima rodada produzirão mais.

Pra vender, é bom lembrar: tem que ter infraestrutura. Porque de que adianta eu produzir um monte aqui, o pessoal do Acre estar louco pelo meu produto, e eu não conseguir fazê-lo chegar lá? Ou só a custos altíssimos, que não compensam o esforço? 
Tem que ter. Estradas (de ferro ou de rodagem, ou fluviais), formas de acondicionamento, pouca burocracia interestadual.


Pois bem.

Aí abro o jornal e vejo (não, não abri: tá na primeira página mesmo): "União executa só 50% do investimento em rodovias".  No corpo da matéria: "... previa a execução de R$13, 627 bilhões ao longo do ano. Até esta semana, apenas 48,3% desse montante - R$6,581 bilhões - foi executado. (...) As obras ferroviárias (...) só receberam até agora 26,9% do planejado. Nas hidrovias (...) 37,8% do total ..." 

A gente tá em outubro. Só pra lembrar.

Cadê incerteza? Precisa de incerteza? 
Tá claro que não vai dar certo, né?
Eu não produzo nada, mas se produzisse, ia botar minhas barbinhas de molho.
Mas ninguém me perguntou nada.
E nem recebo pra dar palpite.
Foi só um comentário à toa.

Ah, e leio o "Valor". Só pro caso de vocês não acharem a manchete.


domingo, 21 de outubro de 2012

Carta ao bebê Felipe LSM - há dezoito anos



Meu amor pequeno,


fazem quatro meses - quase - que você chegou, e eu nunca mais tinha escrito nada. Você chegou e ocupa todo o tempo, todo o espaço, dá vontade de viver cada dia com você.

Trocar suas fraldas, dar beijos na sua barriga e ver você rir fechando os olhinhos, pegar você no colo e acabar com seu bico de choro... tanta tanta coisa acontecendo que quando a gente vê, o dia já acabou. E já vem outro.

Que bom que você chegou, meu amor... dá medo ainda, será que a gente vai saber? Será que a gente vai se dar bem? Mas a gente te olha e te ama, o tempo todo, e quando você tá perto não tem mais dúvidas.

Seu pai é um pai muito lindo, e a gente tá muito juntos cuidando de você. Ainda tem um problema de grana, o emprego do Banco Central não é de repente a solução que a gente queria, mas já dá a maior força a gente passar nesse concurso. Você dá um sentido de prioridades muito grande à vida da gente, e isso é bom. 

Acordar cedo com você, te colocar no sol, te dar papinha de fruta - é tão importante pra mim, meu amor! Tar junto com você, com seu pai, é a melhor coisa do mundo... mesmo que às vezes a gente fique cansado, mesmo que às vezes queira dormir... mas você chora fazendo biquinho e a gente derrete.

... Tô feliz, meu amor, mesmo com essa doença chata que ainda vai demorar um pouquinho, a gente supera, a gente sobrevive, a gente tá juntos!!!

Valeu, Felipe, parabéns pelos (quase) quatro meses de vida,
Te amo, te amo, te amo...

Sua mãe.

6/10/1994.



quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Geograficamente Prejudicada



Cunhei esse termo na onda dos outros "prejudicados" da nomenclatura moderna. Mas me entendo com ele. E me define.

Sou alguém de inteligência bastante razoável: leio muito e rápido, entendo e traduzo conceitos variados. No quesito orientação geográfica, no entanto, perco todas. Sou provavelmente a pessoa que mais fez "footing" (a bênção, vovô) em volta do teatro de arena da Praia Vermelha, onde se situa a faculdade de economia (atual IE/UFRJ) em que fiz graduação, mestrado e os créditos do doutorado. E pensando: "numa esquina tem o bar do Seu Antônio, então ali é a biblioteca; o banheiro feminino é aqui, então do outro lado é a sala do Galeno... o Possas fica do lado de cá, então logo ali é o David e a Esther". Pensando, galera. Mas já aprendi isso também: se pensar é pior.

Astrologicamente, o planeta mais elevado do meu mapa é Netuno - deus das brumas, da confusão, do esgarçamento e das ilusões. Netuno opõe-se a Sol, Mercúrio, Marte no meu mapa. Muito forte Netuno. Em Escorpião, de águas, tirando meu taurino e terreno chão. A matéria-vida da qual sou feita inclui Netuno dos sonhos (e pesadelos), da imaginação solta e desbragada, do "abrir das brumas" dos loucos e dos iluminados. Amo Netuno. Mas temo-o também.

Se eu entrar no metrô em outra entrada do que a habitual, pego pro lado errado: nem pisco, dou um leve suspiro e salto na próxima pra voltar. Tantas, tantas vezes. Andando na rua, às vezes, "me perco" dentro de mim: num segundo, olho em volta e não sei mais. Pra onde ia, pra onde vou. Paro, respiro, fecho e abro os olhos: lentamente, tudo volta ao seu lugar. Mas o fio é tênue.

Digo isso sempre - que sou geograficamente prejudicada. E, claro, pouca gente se toca ou entende. Quem mora comigo sabe: sou fã e usuária habitual de mapas. Não mapas de cidades estranhas: mapa do Rio, onde moro há trinta e três anos. Hoje em dia fica mais fácil: guglo e vejo - pra onde vou, onde pego condução, onde salto.
Talvez seja por isso que eu não dirijo: tirei carteira - e sem comprar, numa época onde isso era um feito não desprezível - , mas esta está guardada sem nunca ter sido usada. Ganhei um carro com dezenove, que foi roubado na sequência (meu irmão, que não tinha carteira, estava dirigindo) e que estava com o seguro a descoberto, devido a um malentendido ligado a eufemismos da seguradora. Netuno me avisava, já então. 

Tenho ótima visão espacial, quando se trata de pequenos espaços e de formas: sempre fui aluna top em geometria, desenho em "3 D" desde muito antes dos meus amiguinhos de escola, sei, num olhar, se um móvel cabe ou não cabe, como é melhor rearrumar o espaço. O problema é geográfico. Não tenho nenhuma idéia sobre isso, não sei deduzir caminhos ou roteiros a partir das informações que já possuo. 

Por muito tempo tive vergonha disso: mas o tempo é senhor da razão, e uma das liberdades que me deu foi a de aceitar e acolher meus limites. Aprendo caminhos. Mas não entendo, não imagino, não sintetizo. Não faz parte de mim. Fazer o que. Tenho outras qualidades. Quanto a essa falta, aprendi a viver com ela. Me adaptei. Uso muletas. Mapas, guias. Pergunto sem pejo. Tá tudo certo. Só não posso fazer de conta que a deficiência geográfica não existe: respeito com Netuno.



domingo, 14 de outubro de 2012

Palavras forasteiras



Gosto de "forasteira". Tá na minha descrição de perfil. Forasteira não quer dizer estrangeira. E me lembra John Wayne, saloons, portas curtas e sem trinco. Forasteiro é meu olhar e sempre foi, acho. Será arte?
Tem o Recife. Depois, Genebra, que moldou muita coisa.
E "A Volta", no comecinho da adolescência. Sobre isso é o post. Sobre certas palavras.

Cartório é a primeira. Não havia jeito de eu entender: como assim? Privado? Mas ali você tira documentos? E paga? E ainda é hereditário? Não é possível. Vocês devem tar esquecendo de me explicar alguma coisa. Documento não é exigência do Estado? Como é que não é o Estado que emite? Peraí. Tá errado. Não entendi. Explica de novo.

Carne "de segunda". Outra. Como assim de segunda? Eu gosto mais. Nunca gostei de filé. Mas a que se refere o conceito? Não é tudo parte do boi? Quem definiu o que era "de primeira" e "de segunda"? Um termo que diz tanto. Como sua não-existência em francês também diz (e essa, devo dizer, me dá certo problema até hoje. Tenho que "traduzir" internamente. E não uso.)

CDF. Nessa época aí, em que eu tava forasteiramente aprendendo e tentando me entender, não se dizia ainda "nerd". Se dizia CDF. E eu não conseguia conectar com nada. Eu sempre tirei boas notas na escola. Em Genebra tinha até aquela coisa de prêmios: na cerimônia de fim de ano ("les promotions"), eu sempre ganhava prêmio - um voucher para livro, que me deu um de que gostei muito, sobre o Robin Hood histórico - é, desde sempre eu... - , mas que muitas vezes a gente perdia (Marcelo também ganhava) porque esquecia que tinha prazo. Ou ia no finalzinho e pegava a xepa. Enfim. Voltando... em Genebra, portanto, não havia o termo CDF. Nem o conceito que vem com o termo. Eu era só uma pessoa que tinha a sorte de não precisar estudar muito porque tirava boas notas. Porque lia muito. Porque era atenta e tinha boa memória.
Aí vim pro Rio e virei - fui tachada de - "CDF". E me indignei internamente: ah, não. CDF não. Eu não estudo! Como é que podem me chamar disso? Adrianne é minha testemunha, muitas vezes eu não tinha nem caderno: anotava em papéis soltos. Isso é ser CDF? Não pode ser pelo resultado, né? Ah, vocês tacham pelo resultado? Pois bem.
O resultado - o meu resultado - foi que, no então 1° ano do 2° grau (eu cheguei na 7a: o 1° era meu terceiro ano no São Viça), fiquei em recuperação: Química. Desvirginada, no ano seguinte fiquei logo em três: Química, Física e Biologia. E só não fiquei em quatro porque o Marcelo me passou - ele que sempre foi sensível e atento, e percebeu exatamente o que se passava na minha atormentada alma adolescente. Fiquei em três, feliz: CDF é  a mãe!

Eu e a testemunha Dri, no pátio do São Viça