terça-feira, 19 de março de 2013

NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG


A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar 'Humanidade', relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.
Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.
Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.
O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.716/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.716/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.
O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando  espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara 'Democrático de Direito'; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).
Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.
A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês PODEM LER AQUI.
E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos), agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.
Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada 'Ética'), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito 'Direitos Humanos'.
Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.
E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.
Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.
Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.
Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal 'brincadeira'repulsiva, lembramos:
'Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus'  -
Onde não existe justiça não pode haver direito.
Assinam o presente,

sábado, 12 de janeiro de 2013

30 livros em um mês - Dia 22 - O livro favorito que você teve que ler pra escola



Fim das festas, começo do ano após o ano novo. Já passou até o dia de Reis, a árvore foi desmontada (ou teria sido caso aqui houvesse alguma). Na casa da minha mãe, o presépio foi guardado, que lá é com isso que se lida. Retomada do meme dos livros: agora vai! Onde se lê "em um mês" leia-se "em um ano e alguns meses" (comecei em setembro de 2011). Tempo: esse deus fugidio (Chronos, sua bênção).

E... bom. Eu não tinha escrito ainda, mas já tinha olhado pra começar a pensar. Escrevo de uma vez, normalmente: mas rumino muito. Parece espontâneo, e de certa forma é. De outra, é tão revirado, testado, pensado, criado... tudo monólogos internos. Às vezes intensos, tipo discussão de um. De uma, no caso. 

E tô enrolando. E não sei bem que livro é esse. Já falei nesse meme de A Ilha das Borboletas Azuis, do Cony, e sobre outros que li para a escola, aqui . Também de "Le Lion", de Joseph Kessel, que eu amei e conheci através da escola. Não serão esses, pois. Não sei bem. Tem "Esaú e Jacó", um Machado de que só gostei porque li pra escola. Seria interessante fazer o paralelo com "A Leste do Eden", de Steinbeck, talvez. Histórias de irmãos. Castor e Pólux. Rômulo e Remo. Sylvinet e Landry, de "La Petite Fadette" - George Sand. Histórias de irmãos. Claro-escuro. Luz e sombra. Complementos. Opostos. O signo de Gêmeos.

Li "Vidas Secas" para a escola, e muito me impressionou. A secura do texto reproduzindo a aridez da terra. Das pessoas. Silêncios. Cortantes. A cachorra Baleia. Um livro áspero. Que dói.
Li também, em dupla - e talvez já tenha mencionado isso em outro post -, "O Pagador de Promessas" e "O Auto da Compadecida". Amei todos dois. O efeito colateral foi, evidentemente, que muita gente misturou os nomes dos personagens e, em vez de escreverem João Grilo e Zé do Burro, escreveram João Burro e Zé do Grilo. Ou algo similar. Mas né. O André Valente, que era meu professor de português na época, riu e desconsiderou o erro. Concentrou-se no que importava. O André Valente não ligava para filigranas: a tarefa dele era fazer a gente gostar de ler e de escrever, e isso ele fazia tão bem. Foi um bom ano pra literatura, o primeiro ano do 2° grau, ex-científico, atual ensino médio (e pra que tantos nomes, meu Deus).


Pra escola li também "Dez Dias Que Abalaram o Mundo". John Reed. Esse tá muito bem contado no post da Niara  - de quando ela fez o meme. Eu gostei imenso do livro também. Embora meu "Dez Dias" tenha sido bem diferente do da Niara: os livros são eles mesmos e o que a gente descobre neles, o que a gente guarda deles. O que a gente ouve. (eco do Karydakis citando alguém: "Les meilleurs livres sont ceux dont le lecteur fait lui-même la moitié". Os melhores livros são aqueles de que o leitor faz a metade. E não são todos?).

José de Alencar: "Senhora". Amor, desprezo, ambição, vingança. Tão aí os elementos. Sedução, sensualidade. Senhora. A mulher como dominadora. O homem rendido e suplicante. Um livro de que se fala pouco hoje em dia. Gostei tanto quando li. Gostei tanto de ter lido. E só li porque foi pra escola. Comento sobre ele e tenho vontade de ler de novo. Acho que nunca mais, depois da escola. E, quem sabe, esse povo todo em furor por conta dos tais "50 Tons de"...  ( que não li, como comentei aqui) devesse ler também: outra perspectiva, quem sabe.

Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato: o senhor rei mandou dizer que contasse mais quatro.
Confesso: não tenho livro favorito de escola. Mas foi divertido fazer essas evocações. Que são como viagens: vou lá buscar as histórias. Volto pra contar um pouquinho. E, se alguém ler e se divertir, tô no lucro.



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Vou ali porque hoje é aniversário do pequeno. Do meu pequeno. Sobre quem não vou escrever. Pelo menos não hoje. 










terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Então é Natal

(pausa no meme dos livros pra comentar sobre o Natal. Depois volto!).


Natal. Em flashes.

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O Natal do primeiro ano na Europa: Chamrousse, muita neve. Sensação de estar "acima das nuvens". Tio Sylvio e tia Bel, Clarissa e Gui. Eu com a camisola nova e rosa que ganhei de mamãe. Uma árvore de Natal feita de fios dourados, na parede. Tudo novo. Tudo frio, nariz e bochechas gelados. Primeiras aulas de esqui. Gui e Clarissa: nossos guias. Um Natal quentinho de família, malgrado o frio lá fora. (obs: o "malgrado é homenagem a tio Sylvio, que usava a palavra. Poster no banheiro da casa dele: um vaso sanitário, com rosas dentro. E, na letra dele: "Mas como fede, malgrado as rosas!").

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Natal em Les Haudères: Natal de exilados e desgarrados. E os filhos: Claudia e Flávio; Zuza, Armando e Andréa. Daniel filho do Betinho (foi em Les Haudères que o conheci, levado por Marcos Arruda). Flávia e Joca que só participaram do Ano Novo, porque fizeram Natal-família em separado. Lysâneas fazendo fala ecumênica, num silêncio solidário e respeitoso. Jogos de mímica de filmes e livros: pela primeira vez. Adultos e crianças jogando juntos. Tem uns nomes que ali aprendi, sem conhecer o original: lembro de "Pai Patrão", de "O Salário do Medo". Esse o universo. E a gente fazia a mímica, pelas palavras. Dava certo e os times misturados (crianças e adultos) competiam de verdade. Cada vitória era comemorada como se não houvesse amanhã. Que talvez não houvesse.
Mais esqui. Esqui, sempre.



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O primeiro Natal da volta: na casa de Gilberto Freyre. Foi linda a intenção de tia Sônia, mas foi um Natal sofrido. Só eu e os irmãos, já que meus pais ainda tavam arrumando as caixas lá em Genebra. Me lembro de uma senhora perguntando "quem são esses?" e do frio que isso me deu no coração. Lembro da dor da saudade e do estranhamento completo, nesse Natal diferente de tudo. Natal de estrangeiro no Recife. Ainda era cedo demais.



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O Natal mais surreal de todos: o do ano em que John Lennon morreu. E sei que era esse o ano porque o "Então é Natal" com recitativo em português ocupava todas as trilhas sonoras. Invadia os ambientes mais reservados. E, no dia 24, meus pais ficaram no hospital. Meu avô tava lá e a gente já sabia que ele não ia sair. Vovô Lins, minha paixão. Eu brincava dizendo que tinha "complexo de pai de Édipo". Vovô Lins, taurino e briguento como eu: quando ele morreu, eu pensei "ninguém mais me entende nessa família". (desculpa, gente: mas eu pensei isso e até escrevi). Lembro do abraço apertado que papai me deu no hospital. Lembro de dizer a ele "só acaba quando acabou". Mas ele não tinha nenhuma esperança mais. A gente - eu e Marcelo, acho - passou a noite de Natal com amigos dos meus primos Paulinho e Elizabeth (primos Pimentel: não era o avô deles). Conversas surreais. Será que isso foi mesmo no dia 24? ou foi no 25, quando a gente já sabia que vovô tinha morrido?
Em todo caso, não consigo ouvir o John Lennon sem que a atmosfera daquele ano volte inteirinha. Intacta.

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Natal de 2004. O primeiro sem papai. Como é duro passar o Natal sem papai. Ainda mais o primeiro.
Mas continua. A ausência dele preenche saudades e abre vazios. Mesmo quando a gente nem fala disso.
Pai, um beijo.
E até amanhã.





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Natal-hoje/ontem. D. Helena - muita saudade. Seu Antônio: todo o carinho. Tia Sônia: no presente.
Os meninos tão crescendo lindos. Os cinco meninos e a única menina: netos dos meus pais. Felipe, João, Maria, Antônio, Chico, Joca. Na ordem. De dezoito a quatro anos. Lindos e amorosos. E é bom de ver a alegria que eles têm de estar juntos. De festejar juntos.
Viva. Viva. Viva.
Então é Natal, e alguma coisa certa a gente tá fazendo.

Amor a todos os envolvidos.


















sábado, 22 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano




Esse, claro, é daqueles que não vou responder. Odeio ranking. Odeio "o melhor". Muito chapado; muito unidimensional. Tem tantas maneiras de ser melhor. Tantos livros que podem ser "o melhor" em alguma categoria. Faz pelo menos que nem escola de samba, pô! Bota quesito.

E porque falei de escola de samba, o livro de que vou falar - e que ainda tô lendo - é "Tantas Páginas Belas", do historiador Luiz Antônio Simas. Esse, pelo formato e pelo tema, tá na minha vida hoje como "livro de condução". Pequeno, formato de bolso. Tema e texto que descem redondos, gelados como uma boa cerveja em dia de calor (ainda não dá, tá cedo demais... mas já já...). Então é isso: o livro "mora" provisoriamente dentro da minha bolsa, e leio no ônibus, no metrô. Capítulos curtos, ajuda.

O livro trata da história da Portela - e eu tive o privilégio de fazer um minicurso com o Simas sobre a história do carnaval. Como disse André Diniz, que sabe do que tá falando: "ele entende tudo disso". E lendo o livro, cujo texto é tem uma simplicidade enganadora, dá até pra ouvir a voz do Simas falando de Oswaldo Cruz na década de 20 - "uma região extremamente pobre, sem água encanada, luz elétrica, calçamento" - , de Paulo da Portela (cujo apelido  é anterior à escola de que foi fundador), do delegado da Delegacia de Costumes que deu nome à agremiação por não aprovar o que existia ("Vai Como Pode"). 

Simas é um contador de histórias, um griot carioca da melhor qualidade - e da melhor cepa: descendente de nordestinos. ( :) ) Quando dá aula, usa o cavaquinho e a voz para pontuar com exemplos melódicos as histórias que conta: é um sarau, uma "aula-espetáculo" à moda de Ariano Suassuna. No livro, faltam o cavaquinho e a cerveja de depois: mas a gente sai mais feliz, mais sabida, mais encantada com o Rio e com seus rios de histórias.
Tantas páginas belas.





Fecho o livro a cada descida de metrô na Central, a cada ponto de ônibus em que tenho que saltar. Mas na minha cabeça, segue a trilha, na voz ensolarada de Paulinho da Viola: "se for falar da Portela, hoje eu não vou terminar".








segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - dia 20 - O último livro que você leu




Segundo dia da retomada do meme dos livros. E agora é "o último livro que você leu".
Bom, eu agora estou lendo cinco livros (cinco de lazer, né, porque tem os "de trabalho(s)", que evidentemente não contam).  Então a pergunta se torna "o último livro que acabei".

Acabar um livro: uma dor. Que eu postergo ao máximo, quando gosto do livro. Foi assim com este. Confesso com certa vergonha: deixei três pagininhas por ler. Por meses. Olhava pra ele e pensava: "quase... mas ainda não". É uma maluquez, claro. Me deixa. Eu me apego.

O livro? Ah,  é. Nem disse ainda. O livro é "O nome da cousa", da Fal Azevedo. A Fal do Drops. Esse é especial: um livro customizado, um livro produzido único. Algo que começou a ser feito pela Marina W, com seu Caderno de Cinema (que eu tenho também, que amei e... precisa dizer? Inda faltam umas pagininhas...).
A Fal se inspirou e mandou ver, com preciosa ajuda da sua mãe, Maliu, nas ilustrações. Inda veio com marcador fofo, decorado e com frase do Mario Quintana - "Uma vida não basta ser apenas vivida: também precisa ser sonhada."

Tempo demais descrevendo as circunstâncias do livro? Não acho. Necessário dizer quão único ele é. Esse é meu. Foi feito pra mim e só pra mim, dialoga comigo, comenta... gente. Vocês nem sabem. Só de escrever isso meu coração esquenta. Tenho DOIS livros feitos só pra mim: o da Marina, o da Fal. Gente.



O livro da Fal é um caderno de anotações: lembranças, associações de idéias, pensamentos. Um diário ao qual a gente tem acesso. Um pouco como o blog, o Drops lincado lá em cima (quando falei no nome dela pela primeira vez, dá uma olhada). Tipo de livro que eu venero. Inda mais sendo da Fal, né. Porque aí é como se eu realizasse o sonho da minha irmã e "ouvisse" os pensamentos dela por um tempo. Em dois tempos: o do livro, o dos comentários. O livro é de 2006. Os comentários são de agora. Seis anos de diferença. Uma delícia de leitura. Como diz Rui Rezende - "publicitário, produtor e gato"-, que faz a orelha: "O Nome da Cousa causará espanto, caso seja esta sua primeira parada no Planeta Fal".
Causa espanto, causa encanto. Dá vontade de comprar um monte e distribuir pros amigos, à maneira de Marcos Lins - ele fez isso, por exemplo, com A Solidão do Cavaleiro no Horizonte . Dá vontade de que todo mundo que eu amo leia a Fal. Leia e se delicie. Leia e se enrede nos encantos dessa prosa tão enganadoramente fácil. Delícia de livro que é pra ler em voz alta. Que é pra contar pros filhos, quando eles já têm a idade certa pra entender. Ou talvez até na idade errada, sei lá.

Deixo um trechinho do Nome da Cousa, que é pra dar uma idéia:

"Vou pegar esse nada que sobrou de mim, esse corpinho de passeio alquebrado, e levá-lo pra comprar uma roupa nova, prum cinema e pro Masp. Que é pra Vida ver quem é que manda".

;)

Fal. The one and only.



domingo, 16 de dezembro de 2012

30 livros em um mês - dia 19 - O livro de não-ficção favorito




Eita. O Pádua não vai nem acreditar que eu retomei isso. Mas decidi: dos fios não-amarrados, escolhi amarrar um que dá. Esse aqui. Começo de limpeza na mente... final de ano, gente.

Confesso: parei meio por dúvida, meio por preguiça. Dúvida: tenho muita dificuldade de escolher "favoritos". Não gosto. Tantas possibilidades. Tantos quereres diversos e saborosos.
Mas mesmo assim: um de que goste muito. Tinha escolhido "Esta Noite, A Liberdade". De Dominique Lapierre e Larry Collins. Um relato romanceado do processo de independência da Índia - e, por tabela, do Paquistão. Que depois se desmembrou em dois: Paquistão e Bangladesh. Desde esse livro, sou "amiga" de Lord Mountbatten, o último vice-rei. De Gandhi, por suposto. De Jawaharlal Nehru, que viria a ser o pai da ministra Indira Gandhi. (e escrevi o primeiro nome dele sem olhar: fui checar depois, mas é isso mesmo. Memória visual continua em cima.).  Um livro que puxou muitos outros: livro cabeça-de-fila, como os do Monteiro Lobato sobre mitologia foram também. Credito meu caminho na astrologia ao combo "O Minotauro" + "Doze Trabalhos" versão Lobato. Ali começou. E dura.

Acabei escolhendo outro (não escrevi sobre isso esse tempo todo, mas quem disse que parei de pensar no assunto? muitas e intensas reflexões sobre qual seria o próximo. Se houvesse): "O corpo tem suas razões", de Thérèse Bertherat.

Imagem relacionada

Esse, como tantos, li porque minha mãe ganhou de aniversário. Li e me encantou de tantas maneiras.
Sou taurina, né. Touro = corpo. Touro está associado ao período na infância em que a criança toma consciência do seu corpo. Meu. Possessivo taurino. Minha mão, meu pé. Minha coluna.
Eu sou meu corpo. Que ocupa espaço. Que sua, que treme, que se arrepia. Que dança, que anda, que canta. Eu. Meu corpo.
É disso que o livro fala. História na primeira pessoa: T.Bertherat tinha acabado de perder o marido, "le docteur Bertherat". Estava perdida, deprimida, sem conseguir se cuidar nem cuidar dos filhos. E nisso encontrou, meio por acaso, uma sala onde se fazia algo que não era ginástica. É um relato de superação e de reencontro consigo mesma. Ela e seu corpo. Que tem suas razões, como o meu.
E dali, como Bertherat, encontrei novos caminhos. Meu corpo de adolescente era sofrido: tenso de golpes não-esperados, travado de medos nunca confessados. Meu corpo-trambolho. Meu corpo-armadura. Ninguém via isso: mas eu sabia, só eu sabia.
De repente,uma fresta. Uma passagem possível. Com muito esforço, muita ralação, é certo; mas disso nunca tive medo. Não vim a passeio, por mais que possa parecer diferente. É muito, é pesado, é intenso: eu. Meu corpo. Que, a partir do livro e da busca "na vida real", foi encontrando caminhos. Flexibilizando. Adquirindo precisão. Aulas e aulas. Nomes importantes no meu caminho de entender as razões do corpo: Angel Vianna, claro; Esther Weitzman, da Casa de Pedra; Neide Neves; e, por fim mas nunca por último, minha irmãzinha Adrianne Ogeda, parceira nesse início de busca, professora em outros momentos.

Hoje, faço pilates no Pulsar, com a querida Érika Reis. Novas procuras, explorações. Mas é outra coisa: já sei que meu corpo sou eu, já conheço caminhos, já destravei tantos nós. Dobro pra frente e encosto a palma da mão no chão: parece natural, mas lembro que aos doze anos mal chegava aos joelhos. Lembro da médica que disse que eu tinha uma escoliose irreversível e que teria que usar colete ortopédico por muito tempo. Inda bem que minha mãe foi ouvir outras opiniões.

O corpo tem suas razões. Meu corpo tem suas razões. Meu corpo sou eu, e pela seta que levava ao caminho menos percorrido agradeço a Thérèse Bertherat.











domingo, 2 de dezembro de 2012

A história começa há tempos




A história começa há tempos:
A menina  se doeu
E foi criando camadas
Botou tirou armaduras
Cercas, farpas
( um miolo
tão tenro tão frágil)

Mas, qual boa elefanta
- total recall
Tem tudo tudo guardado
Num Agora cada vez mais comprimido
 (pelo tempo acumulado)

Que aumenta o peso
De cada hora
De cada conversa
De cada olho no olho

- e isso não é por nada – só é.
Não é bom, nem ruim: é assim.

A leveza é uma máscara
(a armadura mais eficiente para o verão carioca)
Mas a menina
Por  trás da máscara
Espia
Com densos olhos
De criança.

Rio, 9 de maio de 2010.