domingo, 30 de agosto de 2015

Como me ensinaram

Vi ali uma foto de luão, acolá uma conversa do Fernando sobre encher a cara com a mãe e vim aqui contar isso.
A gente, nas férias.
A gente era as crianças.
Eles, os adultos.
Aí eles jogavam conversa fora, bebiam, ficavam com saudade da terra tão longe, naqueles finais de tarde à beira mar. Cantavam músicas brasileiras, e a gente cantava junto. Batendo os copos pra acompanhar. Às vezes se quebrava um copo ou dois, mas não importava: a gente participava, cantava, sentia saudade mesmo sem saber de quê, e aprendia que ser adulto era assim também.
Cantar, beber, sentir saudade. Estar junto, se abraçar, cantar mais. Uma doçura dolorida, um calor de aconchego: era assim também ser adulto pros adultos que me ensinaram a ser adulta.
Era festa, era dança, e mais música brasileira: a noite toda, e nas noites de festa a gente podia ficar até o final. Até cair de cansados. Até eles caírem, o que acontecesse primeiro.
Preparar comida juntos, preparar festa, botar música, comer, beber, dançar: isso faziam os adultos que me ensinaram a ser adulta.
A perder o medo que era um medo tão grande de virar adulta.
Um medo que eu ainda tenho, tanto tempo depois que passaram a me chamar de adulta.
Aí eu junto os amigos, os irmãos, e a gente joga conversa fora, joga conversa dentro, ri, chora - que é meio que a mesma coisa .
A gente come, bebe, dança juntos: ser adulto também pode ser bom.
Inda bem que me ensinaram.




quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Lisboa da Lu

Me perguntaram o que é que eu estava indo fazer lá. Ora, conhecer a Lisboa da Lu. Tinha subitamente me dado conta de que maio seria a última oportunidade: depois as passagens subiriam - alta estação - e, em seguida, a Lu ia voltar.
Passei uma semana em Lisboa, para espanto de um monte de gente. As pessoas achavam, sem me dizer claramente, que era um desperdício. De quê, não sei. De Europa, porque estava indo só a Lisboa? E quando a gente tem tempo de ver tudo? Eu, por mim, ancoro e faço ninhos em botecos de onde vejo o mundo. Que delícia fazer ninho em Lisboa, encontrar meus cantos nos cantos da Lu, com a risada da Lu para acompanhar. 
A "casa dos mortinhos"em que ela me levou pra passear e conhecer túmulos: como é que ela sabia que eu ia adorar esse programa? Não sabia, claro. Estava me mostrando a Lisboa que era dela. O Mercado pra tomar cerveja e comer beliscos. A beira do Tejo, o cais do Sodré e o bar que Fernando Pessoa frequentava. O Bitoque e seus donos de cabelos brancos e sorriso pronto, e suas delícias do mar. Onde eu aprendi que gostava de vinho verde, sim senhora: não gostava era de vinho verde doce
As praças por perto da casa dela, em Campo de Ourique, com quiosques, mais risos, mais chopes. 
Bethânia em Lisboa, quer algo mais Lu do que isso? Pois cheguei bem no dia, chorei com ela, me encantei com ela e com uma plateia inteira de portugueses que cantavam todas as músicas e ainda fizeram uma flash mob agradecendo a Bethânia pelos 50 anos de alegrias.
Pastel de bacalhau recheado com queijo da serra: esse a gente descobriu juntas, ela, eu e a Claudia Beatriz. Delícia total. Gosto de quero mais. 

O elétrico. A cidade alta. O castelo de São Jorge, que a gente acabou visitando só por fora,e a feira de artesanato que tem ali do lado. 

O passeio em Cacilhas com a Fernanda, a contação encantadora da Claudia.
O apê da Lu, pequenino e aconchegante, em uma vila em que se penduram roupas coloridas na janela. Só o chuveiro é que não gostou de mim e travamos altos duelos pela água quente. Well. Não se pode ter tudo.

Agora a Lu está se despedindo, e eu que lá passei só uma semana me despeço também. Agradecendo a alegria de ter podido compartilhar da Lisboa da Lu. Que será pra sempre um pouquinho minha. 
Viva as novas aventuras, querida. De volta, mas tão diferente. Crescida. Iluminada por outras luzes, bafejada por outros ventos. Trazendo nos cabelos e nas modas os jeitos e os ares de Lisboa. Da sua Lisboa: a Lisboa da Lu, que é só uma.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Com venda nos olhos e meia arrastão

Um filósofo francês de nome inglês falava do exercício que é tentar "ver" como um bebê. Um bebê, dizia ele, não sabe dos signos, dos símbolos, dos significados: por isso, vê de verdade, a forma, a luz que incide sobre o objeto, as diferentes cores, os ângulos que mudam a forma, o volume. Sente a textura com a mão, bota na boca e sente o gosto. Bebês "sabem" os objetos muito mais do que os adultos, que categorizam instantaneamente - e, por isso, não veem de verdade.

Tenho vontade de propor algo similar para textos: uma venda, um rabisco em cima do nome de quem fala. Assim, quem sabe, se prestaria atenção no que se diz. Cada vez mais, me dá a impressão que as pessoas tomam posição a respeito do que é dito, não pelo conteúdo, e sim pela identificação de quem diz.

É fulano? É bom. É beltrana? É ruim. O porquê ninguém sabe e ninguém quer saber: é fulana, é beltrano, isso basta e justifica.

Parece fácil, mas é enganoso e perigoso. O contrário do que deveria ser.

Por isso, a proposta: uma venda. Um Liquid Paper. Algo que esconda quem é. Algo como a troca entre atrizes e pessoas reais no filme "Jogo de Cena", do Coutinho. Algo que obrigue a prestar atenção de verdade, porque a gente ainda não sabe como vai votar. Se a gente não sabe quem diz, como pode concordar ou discordar a princípio?

Desconfio que essa sugestão ia encontrar muita resistência. É tão mais prático concordar com nomes. Discordar de gente. "Ah, é fulano, ele fez isso e aquilo" - logo, não pode dizer nada que preste.

Não?

Tem certeza?
Escuta de venda.
Vou pedir para aquele menino que está passando ali ler pra você.

Ei! Psiu! Menino! Sim, você. Tem um tempinho pra ler um texto aqui? 


P.S.

A meia arrastão botei só porque fiquei a fim. Gosto de meia arrastão.



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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobre aquele casamento lá

Eu não ia dizer nada sobre isso. Quer dizer, nada além do que já disse: que achava um acinte um evento desse porte ser realizado em pleno horário do rush, no centro do Rio, que já está totalmente bagunçado pelas obras. Que achava falta de respeito com quem tem que voltar pra casa do trabalho. Que, sim, achava que a Preta Gil podia fazer o casamento que quisesse, do tamanho e do jeito que quisesse. Mas que acharia muito mais bacana se ela tivesse optado, por exemplo, por fazer no final de semana, que não atrapalharia o povo na volta do trabalho. 

Aí comecei a ver comentários: alguns de revistas de celebridades, falando da pompa da festa, comentando vestidos, padrinhos etc. Acho divertido ler essas coisas sempre. E nem preciso estar na depilação. Aí teve o texto do André Forastieri - com quem, em geral, eu não concordo - falando sobre o custo do casamento: achei apropriado. Uma pessoa pública. Um evento daquele tamanho. Uma família que, originalmente, era de classe média. Um pai que foi ministro da cultura. Por que não falar dos custos? Por que não discutir dinheiro de cultura? Foi alfinetada? Sem dúvida. Mas é papel de jornalista. Achei válido.
E depois vieram aqueles “em defesa” da Preta Gil - como se ela precisasse disso. E o que vi foi tudo na linha “só falaram dela porque ela é negra e gorda e tem quarenta anos e é tudo recalque”. 

Só isso que me tirou daqui do meu cantinho pra escrever algo a respeito: porque, não, não é isso. Não, não é porque ela é negra. Não, não é porque ela é gorda e tem quarenta anos. E isso me lembrou muito certas “defesas” do partido hoje no poder. Essa conversa de que qualquer crítica é recalque - ou, no caso, racismo, gordofobia e similares.

Bora parar com isso, gente. A Preta Gil é ela: uma mulher bem-sucedida, que faz a vida dela, que samba na cara dos preconceitos e, sim, ostenta quando tem vontade. Tá certíssima ela. Eu, aliás, sempre simpatizei imenso com esse lado da Preta. Bota mais pérola que tá pouco, aumenta o decote, joga glitter, tá tudo lindo e eu não tenho nada a ver com isso. 
Mas tenho a ver com a discussão de dinheiro público que pode estar envolvida aí. E se não estiver, tanto melhor: mas o questionamento não deixa de ser válido e apropriado. Tenho a ver, também, com o simbólico do evento (já que eu tenho a sorte de não trabalhar mais na cidade e nem moro em Santa Teresa, e portanto de não fui atingida diretamente pelo megaevento VIP-VIP que arrasou o Rio de Janeiro na terça passada): acho bem triste mesmo que não haja nenhuma gotinha de espírito cívico na pessoa ou em seus familiares, que ninguém tenha se preocupado com o tamanho do caos que iria causar. E acho, sim, que isso tem que ser discutido. Em si. E todo dia. Não pode, Arnaldo. Sinto muito: se pode, não devia poder. Tá muito errado. E fico triste também pelo simbólico da coisa: de Gil, de seus filhos, eu esperaria outra coisa.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

É aniversário do Chico e eu queria agradecer

Era assim:
Eu era criança e eu sabia de umas coisas.
Que a gente morava fora do Brasil e não era por querer.
Que a gente não podia voltar.
Que no Brasil tinha um moço que fazia umas músicas tão bonitas, que a gente cantava junto e dava esperança e alegria.

Os discos do moço, as fitas com as músicas do moço, chegavam assim meio escondidas, como se fossem muamba, cheias de mistério e encanto.


Aí eu fazia a minha parte.
Chegava uma fita, um disco do moço, e lá ia eu ouvir incontáveis vezes, até decorar todas as músicas. Ou quase todas. Ouvindo, parando, escrevendo a letra no papel quando não tinha. Aprendendo, me impregnando.
Nas férias, nas viagens de carro, eu ensinava. Ensinava à família: cantava para meu pai, para minha mãe, para meus irmãos aprenderem. Para que a gente incorporasse mais aquelas ao repertório e pudesse cantar juntos.
Mais um dia. Mais uma viagem. Mais uma esperança. Mais uma lembrança, nesse ano de datas redondas.

Em que Chico faz 70. Em que fazem 10 que meu pai não está mais aqui.
E eu agradeço. O tempo. A vida. A convivência. As canções.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Festa Junina da Telinha

Esse post é da Stella Cavalcanti, que deu de presente pro povo, e eu que não sou besta nem nada já deixo ele pregado aqui pra não se perder.
Afinal, já é quase junho.

****



amo festas juninas. mais que meu aniversário, natal, ano bom. amo cada comida, cada cheiro, cada bandeirinha. amo as crianças colando bandeiras de papel de seda com cola de farinha de trigo no cordão. amo as mulheres na mesa da cozinha preparando comida, tirando a palha do milho, amarrando as pamonhas. amo os homens saindo para comprar a madeira da fogueira. amo o cheiro de pólvora dos fogos, a fumaça da fogueira, as simpatias feitas à meia noite. amo o medo de ir ao quintal enfiar a faca na bananeira. amo pintar as meninas com sardas e os meninos com bigode. amo soltar balão, amo dançar quadrilha, amo dançar forró. amo assar o milho na fogueira, amo pular as brasas de mãos dadas com quem será meu compadre ou comadre. amo luiz gonzaga. amo esperar os santos, amo o frio, amo ficar junto da fogueira para espantar o frio. amo andar na rua e ver os amigos e sentar ao lado dos vizinhos e falar das festas e parar de falar, alumbrada, ao ver um balão no céu.

amo santantònio, sanjão e são pedro. amo minha infância e adolescência que me deu junho para lembrar a vida inteira
.


terça-feira, 13 de maio de 2014

O Canto do Bosque: aprendendo o fazer coletivo




Há um tempo que ando querendo escrever sobre isso: minha primeira estadia numa colônia de férias. 
O contexto: a gente tinha acabado de chegar na Europa, em Genebra. Chegamos em abril, perto do final do ano escolar. Meus pais, sensatamente, deixaram pra botar a gente na escola no começo do outro ano. Ou, sei lá, não conseguiram botar logo: o fato é que a gente só entrou na escola em setembro, no começo do novo ano escolar (que lá vai de setembro a junho, sendo julho e agosto as férias de verão.). 

Naquele verão, pois, a gente tinha começado a aprender a falar francês com uma professora particular. Já meus primos, Gui e Clarissa, que moravam em Paris, falavam perfeitamente (Clarissa nasceu lá e Gui foi pequenininho). No verão, nossos pais acharam que seria bom a gente ir pra uma colônia de férias. Enquanto os adultos faziam coisas de adultos. Inclusive pra estar mais perto dos primos e pra melhorar a língua antes do ano escolar.

Fomos pro "Coin du Bois", uma colônia de férias na montanha. Le Chambon-sur-Lignon, o lugar. 

(pausa para maravilhar-me com são gugol. Mesmo com algoritmo novo e pior... tá tudo na ponta dos dedos!)

Le Coin du Bois
Era uma colônia de férias absolutamente familiar (descobri que era, antes, uma "pensão externa" para alunos de uma escola próxima, o Collège Cévenol, o que talvez explique um pouco sua forma de funcionar). Os donos, o sr. e a sra. Monnier, junto com suas filhas, mantinham o lugar, que era um chalé grande, e as atividades eram caminhadas na montanha, banho de rio, pique-nique... lembro que tinha uma tirolesa onde a gente se pendurava, descendo de uma árvore. E que à noite a gente via programas do Cousteau e jogava cartas. E "mille bornes", um jogo de cartas em que se tinha que fazer um percurso... foi uma delícia a estadia. O contato com a natureza, as brincadeiras, o "aprender a viver ali" sem precisar da pressão da escola. A instituição do "goûter", o lanche da tarde, composto de uma fatia grossa de pão de campanha com manteiga e geléia. O jeito de ser também, as regras, os castigos. Limites diferentes daqueles que a brasileirinha de oito anos que eu era conhecia. Mais severidade. Mais rigidez. Aprendizados. Antes de dormir, às vezes, tinha leitura de histórias: me lembro de um livro de contos africanos, cujas histórias me assustavam um pouco. E falavam de baobás.



Mas o que eu queria contar mesmo tem a ver com o funcionamento do lugar. Como eu disse antes, a colônia de férias era mantida por um grupo de pessoas bem pequeno: a família Monnier, mais um ou dois ajudantes, talvez. Umas seis pessoas ao todo. E como funcionava? Bem, havia (surpresa para os pequenos brasileiros) divisão de tarefas. Todo mundo arrumava cama. Todo mundo lavava louça. Todo mundo. Pequenos e grandes. Eu tinha oito anos, e tinha gente menor que eu. Era dividido em grupos, em turnos: a cada vez um grupo para a tarefa. 

Eu era pequena demais pra saber que aquilo não era um padrão necessário. Mas lembro da sensação de encantamento. De me sentir capaz. Participando, fazendo acontecer. Fazendo a minha parte. Me lembro da pilha de louça na pia, dos métodos que criei ali pra passar detergente, pra lavar. De como aquelas atividades eram alegres e animadas, com conversas e risadas. De como aquilo me transformou. 

Lembrei disso tudo hoje por conta de um texto bem interessante que a Adriana Facina postou no facebook, que fala sobre a educação de crianças e a forma de lidar com elas. Também por conta de uma conversa sobre filhos, e sobre deixá-los experimentar, que tive com Carol nesse domingo de Dia das Mães. Por conta do meu lado sempre meio forasteiro, que vem dessas vivências aí, e me fazem olhar certas superproteções com menos tolerância, talvez, do que se eu tivesse sido criada aqui. 

Ao fazer no lugar da criança, ao não deixá-la experimentar e errar, a gente muitas vezes esquece que está também deixando de permitir que ela aprenda. Que aprender é sempre risco, inerentemente. Que quem nunca testou não vai saber fazer. Não vai saber mexer. Não vai saber. É claro que não é tudo, não é de qualquer jeito: mas existe um necessário desapego aí que, me parece, às vezes falta. Na ânsia de proteger, de cuidar, de deixar confortável, há um excesso de foco sobre as crianças, um excesso de controle sobre suas atividades, que as impede de "fazer do seu jeito". E aqui, é claro, estou falando exclusivamente das crianças de classe média: porque as crianças das classes populares vivem uma realidade muito diversa. Onde, é certo, há muitas adversidades. Mas não deixo de ver ali também oportunidades.

Poderia falar mais disso, e tanto; mas talvez seja melhor acabar o texto assim, meio aberto. Como a cabeça. Espaços necessários. Frestas.