Vi ali uma foto de luão, acolá uma conversa do Fernando sobre encher a cara com a mãe e vim aqui contar isso.
A gente, nas férias.
A gente era as crianças.
Eles, os adultos.
Aí eles jogavam conversa fora, bebiam, ficavam com saudade da terra tão longe, naqueles finais de tarde à beira mar. Cantavam músicas brasileiras, e a gente cantava junto. Batendo os copos pra acompanhar. Às vezes se quebrava um copo ou dois, mas não importava: a gente participava, cantava, sentia saudade mesmo sem saber de quê, e aprendia que ser adulto era assim também.
Cantar, beber, sentir saudade. Estar junto, se abraçar, cantar mais. Uma doçura dolorida, um calor de aconchego: era assim também ser adulto pros adultos que me ensinaram a ser adulta.
Era festa, era dança, e mais música brasileira: a noite toda, e nas noites de festa a gente podia ficar até o final. Até cair de cansados. Até eles caírem, o que acontecesse primeiro.
Preparar comida juntos, preparar festa, botar música, comer, beber, dançar: isso faziam os adultos que me ensinaram a ser adulta.
A perder o medo que era um medo tão grande de virar adulta.
Um medo que eu ainda tenho, tanto tempo depois que passaram a me chamar de adulta.
Aí eu junto os amigos, os irmãos, e a gente joga conversa fora, joga conversa dentro, ri, chora - que é meio que a mesma coisa .
A gente come, bebe, dança juntos: ser adulto também pode ser bom.
Inda bem que me ensinaram.
Era assim:
Eu era criança e eu sabia de umas coisas.
Que a gente morava fora do Brasil e não era por querer.
Que a gente não podia voltar.
Que no Brasil tinha um moço que fazia umas músicas tão bonitas, que a gente cantava junto e dava esperança e alegria.
Os discos do moço, as fitas com as músicas do moço, chegavam assim meio escondidas, como se fossem muamba, cheias de mistério e encanto.
Aí eu fazia a minha parte.
Chegava uma fita, um disco do moço, e lá ia eu ouvir incontáveis vezes, até decorar todas as músicas. Ou quase todas. Ouvindo, parando, escrevendo a letra no papel quando não tinha. Aprendendo, me impregnando.
Nas férias, nas viagens de carro, eu ensinava. Ensinava à família: cantava para meu pai, para minha mãe, para meus irmãos aprenderem. Para que a gente incorporasse mais aquelas ao repertório e pudesse cantar juntos.
Mais um dia. Mais uma viagem. Mais uma esperança. Mais uma lembrança, nesse ano de datas redondas.
Em que Chico faz 70. Em que fazem 10 que meu pai não está mais aqui.
E eu agradeço. O tempo. A vida. A convivência. As canções.




