Chegamos então a ele, o soco no estômago.
E eu fiquei trabalhando e pensando durante o dia em que livro poderia ser.
Vaguei por vários, inclusive "Vidas Secas", que é o livro que a Beth escolheu. Depois lembrei de outro que vai ser o meu aqui. Se chama "A Longa Viagem" em português: mas esse, como tantos, li em francês. É um romance autobiográfico do jornalista comunista espanhol Jorge Semprun e conta a viagem que fez num vagão de trem, com mais de cem outros presos, até o campo de concentração de Buchenwald.
O livro de Semprun é pequeno e conta a história como uma lembrança a partir dos dias atuais. É um soco no estômago, contando algo que deveria ser tão óbvio: essas pessoas (119, me diz a wiki), ali, amontoadas naquele vagão, indo para um lugar que elas não sabiam qual era, com fome, com frio, com medo, no entanto viviam. Para além da fome, do frio, do medo. No entanto conversavam. Falavam de outros assuntos. De filmes, por exemplo. Um sujeito comenta sobre um filme chamado "A noite dos búlgaros". Que se passa num trem. E todas as vezes que se fala de búlgaros, eu, que deles não entendo patavinas, lembro de Semprun, do vagão, da grande viagem que o levaria até Buchenwald. Lembro e explico, e quem é meu amigo há muito tempo já deve ter ouvido falar várias vezes dessa noite dos búlgaros aí, que enganchou na minha cabeça.
Como pode, né. Um amontoado de gente em um vagão de trem. Fome, frio, medo. E no entanto conversavam. Falavam até de filmes. De búlgaros. Que coisa impressionante. Viviam. No vagão em que eram carregadas pro campo de concentração, viviam. Apesar de. Contra. Viviam. Teimosamente.
E o livro, concentrado, pequeno, intenso, não é um livro de desesperança: muito pelo contrário. Semprun consegue fazer entrar frestas de sol na sua narrativa. Que coisa mais impressionante.
Um livro que é um soco no estômago, mas também um grito de esperança. Apesar de.
E o livro, concentrado, pequeno, intenso, não é um livro de desesperança: muito pelo contrário. Semprun consegue fazer entrar frestas de sol na sua narrativa. Que coisa mais impressionante.
Um livro que é um soco no estômago, mas também um grito de esperança. Apesar de.
Esse post é o terceiro da série "meme dos livros". Pra ver a lista inteira e brincar também, chega aqui.






