Ah, pois é, eu atrasei... e agora posto os dois de uma vez só, como não. Minha cara. Eu e Chronos/Saturno, uma relação sempre conturbada.
Mas então: o livro que é um abraço... eu vaguei pela minha biblioteca até parar nesse. Que é um abraço de fato. Um abraço taurino, por suposto. O que me conforta: gostos, aromas, comida quentinha.... a dor da vida melhora com um prato feito por alguém de quem se gosta. Diz se não.
E o livro, esse, que me abraçou desde que o vi, que me deu água na boca (não de fome: de vontade. Quando quero muito uma coisa, fico com água na boca. Vocês não?) é "As Ervas do Sítio", de Rosy Bornhausen. O subtítulo do livro é "História, Magia, Saúde, Culinária e Cosmética". E o livro é assim, um livro lindo e delicado. Que fala disso aí tudo. As ilustrações finas são de Maria Eugênia Longo Cabello, e são parte tão integrante do objeto-livro de capa rosa-salmão.
Abro ao acaso, e o acaso, que nos protege, me leva para a página da Aquiléa, nome de ressonâncias tão afetivas, nome da avó da querida Adrianne que nos abraçava, nos tempos de São Viça, com seu almoço-delícia de bife, arroz, feijão e batata frita. Nada melhor do que um "prato infantil 1" para encarar o resto do dia. E o de D.Aquiléa era sensacional.
Na página do livro, aprendo:
"Na Guerra de Tróia, há 3 mil anos, quando Aquiles foi ferido no calcanhar pela flecha envenenada de Páris, Afrodite em pessoa o aconselhou a usar essa planta para minorar seus sofrimentos. Desde então parssou a ser conhecida como aquiléa e como a campeã das ervas de combate aos ferimentos de arma branca. Aquiles morreu, mas isso não diminui seus méritos porque contra encantamentos não há muito o que fazer". Mitologia, aromas, história, utilidades.... tudo escrito tão bonito. Um abraço, né?

O segundo, o livro que devia ser filme, vai na mesma toada: esse é "Mil Dias em Veneza", desses livros que a gente (a gente-eu) abre em livraria só pra dar uma olhadinha, e acaba levando afinal. Porque parece um romance desses que grassam por aí: e não deixa de ser, mas é mais. É uma história verdadeira, um trecho autobiográfico da vida da autora, Marilena De Blasi. Uma chef de cozinha americana, apaixonada por Veneza. Pra lá ela viaja todo ano, e lá ela conhece Fernando, um veneziano que se encantara com ela em uma viagem anterior... a história do encontro deles é boa e parece inventada, mas o melhor do livro, a meu ver, é a história da americana que acaba decidindo se mudar para Veneza, e vai descobrindo aos poucos que morar na Itália com um italiano é bem mais complicado do que ser turista naquelas belezuras. Porque a Itália não é só linda: a Itália é velha e cheia de manias, de um jeito que os americanos têm dificuldade de entender. O italiano - que ela muitas vezes chama de "o estranho"- também. Marilena conta com leveza e graça. E vai salpicando a história dessa adaptação com as refeições que prepara. Mais uma vez, comida. Afeto, abraço. E eu achava tanto que esse livro devia ser filme que fui até pesquisar pra ver se o filme já tava feito e eu é que não sabia. Mas parece que não. Tá em tempo ainda. Ah! O livro acaba com as receitas todas dos pratos que ela prepara ao longo da história. Preciosidades.....

Atualização: faltou dizer que o original do livro é em inglês, mas a tradução da Fernanda Abreu é ótima e faz inclusive esquecer que o texto não foi escrito em português.
Esse post é o primeiro (ok, primeiro e segundo) da série "meme dos livros". Pra ver a lista inteira e brincar também, chega
aqui.