Ontem foi dia de falar de amor. Amor como falta, amor como completude ou incompletude, amor e intensidade. Tanto e tantas vezes que fui checar: Vênus tá em cima do meu sol, Mercúrio em cima da minha Vênus. Dia de falar de amor, sem dúvida nenhuma.
[cabô interlúdio atrológico.]
Aí que a Lis escreveu um texto tão lindo no Biscate hoje, sobre deixar ir, desapegar, recuperar espaços. Comentei lá, fiquei pensando nisso. Já escrevi um lá mesmo sobre esse tema, também, chamado "Hora de Ir". Sobre quando não dá mais. E o "não dá mais" não tem necessariamente a ver com o não amar mais. Eu nem sei mesmo se isso existe, esse não amar mais. Mas tem o deixar ir. Deixar-se ir. Soltar. Chorar até murchar, até não ter mais uma gota dentro de si, se encolher no chão frio, beber até apagar, ouvir blues que é bom pra isso, com aquelas notas gemidas..... e uísque. Uísque combina com blues.
Antigamente se dizia "curtir fossa". E era bem visto. Era bonito. Hoje não se diz mais nada, e não é bem visto. No mundo dos sorrisos permanentes de fêice, da alegria divulgada, das selfies, não é bem visto isso aí de curtir fossa. De ficar deprê. De chorar as dores de algo que não é mais. Só que, se não sentir, se não se deixar, se não chorar até, o nó fica, não é mesmo? O entalamento. O aperto no peito. Chora tudo e deixa ir. Mergulha e sai do outro lado. Vai até o fundo e dá impulso (sei, essa é batida e a gente não sabe mais se tem fundo. Mas enfim. Cês entenderam).
Um arco. Um arco com começo, meio e fim. Um pote de ouro no fim. Arco-íris. O pote de ouro é a gente. A gente que se reencontra lá, depois de ter se perdido no outro. Na outra. De ter se fundido e se... tá, tá. Vou dizer não.
Quando eu era adola, bem lá no começo, eu tinha medo de vir a ser Carolina na janela. Tinha medo de deixar a vida passar e ficar ali olhando. Lendo livros, que é o que eu fazia de melhor. Desenhando. Sentindo por dentro e ninguém sabendo. Tinha medo, não: tinha pânico. Tanto que saí vivendo, atabalhoadamente. Pra não correr esse risco. Nunca fez sentido pra mim o medo de se jogar: tinha medo, sim, mas era da placidez. Da falta de história. Sofrer faz parte, se rasgar, olha que beleza. Dá filme, dá música. Muito melhor. E nunca perdi essa noção, mesmo quando entrei nos buracos de dor: melhor assim. Melhor viver. Mesmo se ferrando no caminho.
"Com sabor de fruta mordida", lembra a Lis no comentário do post. E sempre preferi esses também. Os com história. Com dores próprias. Gosto de vislumbrar memórias não-contadas. Gosto de olhares pro longe. Gosto de não entender. E, curiosamente, isso me dói também: queria tudo pra mim, mas não quero tudo pra mim. Essa dor de não poder ter tudo é fundamental no encanto. No meu encanto, digo.
E depois, tem o outro sentimento: a alegria de olhar e não querer mais. Tão bom isso. Fica a história, a lembrança do afeto vivido. Não renegar nada, acolher tudo. Mas agora o tempo é outro. Quero mais não.






