Um efeito colateral da militância dos meus pais na ditadura era que a gente se mudava. A gente se mudava muito, quando eu era pequena, antes de sair de vez do Brasil. Minha mãe conta que uma vez nas férias eu perguntei a ela: "Mãe, pra que escola eu vou ano que vem?". Eu devia ter uns cinco anos, mas ela se deu conta que, entre jardins de infância e pré-escolar, eu tinha mudado de escola todo ano até ali. Lembro os nomes: Jardim Estrelinha, em São Paulo; depois, Casinha Feliz, na Marquesa de Santos, e por fim Escolinha Girassol, que se não me engano ficava em Ipanema. Da Escolinha Girassol lembro até o nome da minha professora, Claudia, a primeira pessoa que eu vi usar lente de contato, e o de três colegas: Adriana, que era surda e a gente inventava meios de comunicação, Portia, a "Pôxa", que chegou a ser muito minha amiga nessa época, e Drico, meu primeiro amor de bochechas vermelhas. Já mostrando as artes da minha Vênus em Áries, consegui armar pra minha mãe chamar a mãe dele pra ir à praia. Empreendedorismo afetivo, trabalhamos.
Mas quando a gente estabilizou pela primeira vez, em Genebra, eu me dei conta que não era assim pra todo mundo, e que era bom ficar, também. Os desafios de a cada ano começar de novo, se apresentar de novo, conhecer todo mundo.... tinha algo de legal, essa possibilidade de reinvenção permanente. Essa falta de memória alheia. Mas era difícil também. Gerava saudades e faltas.
E, depois que a gente voltou - e como foi dura a volta, quando não tinha mais pra onde voltar -, fiquei no São Viça. Construí história. Entrei na faculdade, e quando meus pais, os nômades, se mudaram pra Brasília, decretei que não ia. Não ia mesmo. Tava bem, tava feliz, tinha finalmente me adaptado ao Rio de Janeiro (é, demorou uns anos pra gente se entender, o Rio e eu), tinha trabalho.... eu ia ficar. Marcelo acabou ficando também, e a gente ficou mesmo no apê da Moura Brasil, nossa "república". Ju veio uns anos depois, e os amigos todos iam e vinham: ali cabia galera. Saudades, apê da Moura Brasil.
Fiquei. No Rio. Fiz graduação, mestrado e doutorado no teatro de arena da Praia Vermelha. Casei, tive filho, separei, casei de novo, tive outro filho. Saí de Laranjeiras, voltei pra Laranjeiras. Criei raiz. Continuo adorando viajar, mas foi tão bom criar raiz. Eu precisava, me faltava.
E uma das alegrias que isso me trouxe é ter podido proporcionar aos meninos essa estabilidade que me faltou: um convívio duradouro com os avós, os amigos da escola, a vida do bairro.
Ontem, por exemplo, vi foto no feicebuque: a "galera da Ueriri". Os amigos do Felipe, da creche Ueriri, que continuam amigos. Me faz sorrir, me abre o peito: o Felipe, com 21 anos, tem uma galera de amigos que vêm desde a creche. Olha que preciosidade. Mudar tem seus encantos, sem dúvida. Mas ficar permite que exista a galera da Ueriri.
Ontem, por exemplo, vi foto no feicebuque: a "galera da Ueriri". Os amigos do Felipe, da creche Ueriri, que continuam amigos. Me faz sorrir, me abre o peito: o Felipe, com 21 anos, tem uma galera de amigos que vêm desde a creche. Olha que preciosidade. Mudar tem seus encantos, sem dúvida. Mas ficar permite que exista a galera da Ueriri.
![]() |
| Lá... |








