Já escrevi sobre minha história com astrologia em outros posts aqui mesmo e também neste da Constelar. Não foi nem simples nem fácil essa pessoa filha de uma católica com um suposto ateu materialista assumir que a astrologia chamava. E era bem assim mesmo, um chamado. Ao contrário da economia, em que entrei porque achei que precisava (e acho que precisava, de fato). Ao contrário das línguas, que sempre fizeram tão parte que nem lembro quando não eram. Astrologia era algo "de fora" que me atraía absurdamente.
Eu não comentava, mas comprava livros. Tentava entender esse jeito de pensar fascinante e diferente de tudo o que eu conhecia. Entendia que devia haver uma lógica, mas era outra. Diferente daquela a que estava acostumada. As explicações que faziam associações pseudo-cartesianas do tipo "os astros influenciam sua vida" não me satisfaziam: não me parecia fazer sentido aquilo. Mas sentido havia de ter. Fui procurando: Jung ajudou um tanto. Precisei passar por um curso teórico de medicina chinesa para entender um pouco mais da lógica da astrologia. Analógica. "Em cima como embaixo". E, num livro sobre psicologia esotérica (sim, isso existe) encontrei, na parte que falava de astrologia, elementos que me ajudaram a entender essa outra forma de pensar. Um "corte vertical", diz o autor. O que há de comum, verticalmente, entre todas as categorias: céu, mineral, vegetal, animal, corpo, local, estação, cor..... sendo essa lista tão longa quanto se queira. A cada "plano da realidade" corresponderia uma representação de um princípio arquetípico. Níveis diversos, unidos por um "algo comum".
Assim, quando se faz um mapa de nascimento, não se está dizendo que aqueles planetas do céu daquele momento "influenciam" a criança que nasceu, como as fadas no berço de Aurora, que viria a ser a Bela Adormecida. Eles apenas seriam a representação do mesmo momento: aquele instante e sua qualidade apareceria no céu como na terra, e na criança que nasce. Espelhos, reflexos. Sentidos. Por isso é que me parece que o estudo da arte da astrologia não termina nunca. É acúmulo permanente: quanto mais sentidos acumulados para cada significante (signos, casas, planetas, aspectos), mais rica será a interpretação de cada mapa.
Voltando à história começada e interrompida, acabei me rendendo. Assim, como quem não encontra outro jeito. Uma vez me disseram que eu era "muito corajosa" por dizer, nas redes sociais, que sou economista, mas também faço mapas astrológicos. Não acho que seja: é apenas inevitável. Esconder o quê? Nem a economia que eu aprendi nem a astrologia a que me rendi me definem. Não "sou" esses corpos de conhecimento, apenas os visito e tento transmitir o que lá vi e aprendi.
Contradição? Ué, não mais do que ser católico e economista, não acham? Ou budista e economista, ou muçulmano e economista.... se ser religioso não impede de ser pesquisador, por que a astrologia impediria? É simplesmente porque ninguém pensa nisso, quando se trata de religiões - pelo menos em suas versões não-fundamentalistas, que convivem com a ciência desde sempre. Por que a astrologia haveria de ser diferente? Não, claro que não estou dizendo que a astrologia é uma religião: apenas comento que o fato de acreditar em algo não-reconhecido pela ciência não impede a boa prática desta. Mas, por algum motivo, a astrologia (que em geral quem critica conhece apenas de horóscopo de jornal) é mais malvista. Embora seja bastante praticada. Mas é por debaixo dos panos.... algo que não se diz. Como se a pessoa deixasse de ser uma pessoa séria por conta disso. Não entendo bem, apenas constato. Dei sorte de vir de uma família em que se estimulava o "por que não?". E a curiosidade em geral. Por qualquer assunto. Assim foi que meu pai, o suposto ateu materialista (que no entanto não recusava um jogo de búzios ou uma catedral), passou a me dar livros de astrologia de presente. Minha tia, outros. Assim foi que todo mundo foi se acostumando com essa ideia esquisita de ter na família alguém que era economista, mas que também fazia mapas. A eles todos, agradeço.








