terça-feira, 16 de agosto de 2016

Uma Despedida

“Eu estive lá. Foi bonito. Muita gente”, me disse ele. E meu coração aqueceu um pouco. Que bom que tinha muita gente. Que bom que foi bonito. Parece pequeno e pouco, mas minha impressão é que a gente vê todo mundo nessas horas. Que a gente absorve a energia toda de quem esteve lá com a gente, pra chorar com a gente, pra abraçar a gente.

Rituais, despedidas. Homenagens. Falas, às vezes: às vezes não, é apenas um estar junto. Um afirmar silencioso “eu estou aqui, com você”. Sua dor é minha dor também. Vamos puxar esse barco juntos, carregar essa pedra juntos, contar essa história juntos. Eu estou aqui, com você.

Mesmo que o tamanho da dor seja seu. Todo. A dor não diminui, ela só fica, talvez, menos fria. Muda a qualidade. Porque a gente está ali. Em volta da fogueira. Dando as mãos. Cantando kumbayá. Ouvindo os causos e as histórias que são uma forma de fazer com que a pessoa que se foi esteja presente. Uma forma de dizer que ela continua presente, pela marca indelével que deixou na gente. Tatuagem.

Que é pra me dar coragem de seguir viagem quando a noite vem.

Meu irmão, meu amigo, meu amor, eu não pude estar aí com você. Meu coração estava aí com você. Meu coração está aí. Com você. Viva ele que você amava. Que você ama. Viva você que a gente ama. Sigamos. Vamos juntos.


imagem daqui


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Enamoramento e Relação: Casa V e Casa VII

O que eu gosto mais na astrologia é a forma como ela me ajuda a pensar as coisas: um "recorte do real" que a mim é bem útil. Tenho brincado com a ideia de fazer mais dois blogs (inspirada na Luciana e na Fal), um de economia - ainda não sei que nome teria - e um de astrologia. Esse de astrologia se chamaria algo como "Astrologia - pra que serve". Assim, com uma pegada prática e pé no chão bem taurina. Eu sou muito pouco "esferas" e sou muito "raízes". Não me preocupo muito em acreditar, por exemplo. Sou da galera do "por que não?". E com o "por que não?" vem o "vamos ver se funciona". Então é isso: astrologia, pra mim, funciona. Pra você não? Não vou suar a camisa por isso, não tô aqui pra convencer ninguém. Apenas conto, pro caso de alguém se interessar ou se identificar. 

Um assunto que é legal de tratar em astrologia, porque na cabeça da gente é meio misturado, é esse: a questão do que se chama vaga e imprecisamente de "amor" (aspas, aspas), e que na astrologia pode ser observado a partir da análise das casas V e VII do mapa natal. 

A casa V, tradicionalmente associada ao signo de Leão, trata de tudo o que está ligado à criatividade: responde, basicamente, à pergunta sobre o que nos faz nos sentir mais vivos. Dentre as respostas possíveis está, sem dúvida, o apaixonar-se. A taquicardia, os olhos brilhando, o rosto afogueado, o passo mais alerta, a vontade de cantar e de dançar à toa...



(botei o link acima, e ali aprendi que essa música foi criada para ser jingle de motel... faz sentido...)
É isso. Apaixonar-se, no fundo, tem mais a ver com a gente mesma do que com a outra pessoa, objeto da paixão. É algo que a gente cria, que a gente inventa. Como uma música, como um texto, como uma dança. É claro que as características reais ou percebidas da outra pessoa dão uma âncora pra esse sentimento: mas a ideia da flecha de Cupido é boa, e me lembro de tia Nastácia, que foi flechada sozinha (pela Emília que tinha surrupiado o arco e a flecha do deus) e ficou um tempo assim, apaixonada pelo vento. Na adolescência tem muito isso, paixões platônicas, ao vento, que a gente compartilha com a melhor amiga e pouco tem a ver com a pessoa por quem, supostamente, a gente está apaixonada. É de repente. É reluzente, é vivo, mas é, por sua própria natureza, fugaz.

Já a Casa VII, a dos relacionamentos - e, não à toa, dos inimigos declarados - associada ao signo de Libra, trata de algo bem distinto. Algo que tem a ver com o tempo necessário para "comer um quilo de sal" com alguém. O tempo é fundamental nisso: quem é que consegue mostrar só as qualidades ao longo de meses, de anos? Ninguém, né. Ainda mais se as pessoas forem íntimas mesmo, dormindo juntas, morando juntas. Aí é que você vai ver como a pessoa escova os dentes e aperta a pasta, como ela deixa a toalha após o banho, a pia da cozinha, se faz junto, se espera que façam, se é calma ou impaciente, como leva as rasteiras inevitáveis da vida....  Quando a gente começa a pensar com mais cuidado na casa VII, passa a considerar que talvez os casamentos arranjados não sejam tão absurdos assim - afinal, se a gente entende que as pessoas, ao invés de serem indivíduos "livres" e independentes, à moda ocidental, são parte de uma comunidade, de uma família, de um grupo, e têm responsabilidades ali, os motivos para se escolher um marido ou uma esposa deixam de ter a ver com os efeitos do apaixonar-se. E daí se você não é apaixonada por ele? É um homem bom, tem uma situação sólida, quer filhos. É da nossa religião, a gente conhece a família dele....  enfim, todos aqueles motivos que a realeza nunca deixou de usar na hora de realizar os enlaces de seus filhos e filhas. 
Para além do fato de que isso, evidentemente, não se encaixa com nossa forma ocidental de pensar, a reflexão aberta sobre essa questão ilumina os meandros do "dar certo" ou não de um casamento. A necessidade de acolhimento e aceitação das diferenças e idiossincrasias, a importância da troca pela conversa e, às vezes, pelo confronto, a paciência que vem do reconhecimento de que depois de um dia vem outro dia, e atrás desse muitos outros. Muda, não é mesmo. Muda a perspectiva. Se hoje não tá bom, quem sabe amanhã melhora, com algum esforço? Se desse jeito não tá dando, talvez fazendo daquele outro, ajeitando as peças e os corpos, deixando passar o que não tem real importância. Deixando claro o que não dá para aceitar, se for pra continuar.
A capacidade de rir junto, de ficar em silêncio junto.
Viver a vida é também isso, nos conta a Casa VII. Ir além do apaixonamento e andar ao lado. 

Não sei vocês, mas eu acho bonito. 



imagem daqui

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Eu em português ou "traduzir uma parte na outra parte"

Esta noite, viajei na leitura do texto delicioso da jornalista Lauren Collins - em inglês - sobre as dificuldades de namorar com alguém que não tem a mesma língua nativa. A língua materna dela é o inglês, a do marido o francês, e o texto reflete sobre muitas das questões que envolvem discutir, argumentar, seduzir em língua alheia. Ou vice-versa. Mistérios. Máscaras indesejadas. Como é que você é você em outra língua?

Línguas são minha praia (alô povo dos #12anos4ever, aquele abraço!) desde sempre. Tendo a achar que Lamarck estava certo e que isso foi herdado do meu pai: a impressão que dá é que ele passou o gene das línguas para os três filhos. Mas a minha reflexão consciente sobre isso começou aos sete anos, quando me vi imersa em língua diferente da minha (francês) e tendo que remar todo dia para entender e me fazer entender. O processo não foi longo em tempo-de-adulto, e no final do ano eu já estava apta a ganhar um daqueles prêmios que as escolas em Genebra davam para os melhores alunos. Não tenho tampouco lembrança de ter sido particularmente difícil: foi, isso sim, intenso. Estado de atenção permanente: entender não só as palavras, mas o que as pessoas querem dizer com elas. As intonações, as ironias, as piadas. Tudo tão diferente da língua da qual eu vinha. 

Após os primeiros tropeços, acabei aprendendo a manejar com destreza aquele instrumento novo. E, quando já estava tudo calmo e eu pensava e sentia naquela língua que um dia tinha sido estrangeira, mudou tudo de novo e pela segunda vez vivi algo semelhante - estranhamento, adaptação. Esta segunda vez foi, sem dúvida, bem mais dolorosa: foi difícil adquirir a consciência de que a língua de onde eu vinha, na qual me reconhecia, minha língua materna, não me reconhecia mais e se esquivava, qual fogo-fátuo. Achei que era só chegar e correr pro abraço. 

Ledo e Ivo engano, agora é que eram elas: a língua, tal como eu a falava, já tinha virado uma espécie de esperanto bilíngue, um espaço em que, além dos aportes dos meus pais e tios (com quem a gente aprendia todo dia expressões e modos de dizer brasileiros), meus primos, meus irmãos e eu depositávamos também nossos jeitos de falar em francês, apenas literalmente traduzidos. Expressões idiomáticas, sarcasmos, humor. Aquele português ali era só nosso e não, como a gente imaginava, a língua real e dinâmica do Brasil. Esta já tinha se modificado e se transformado, ao longo daqueles cinco anos em que a gente ficou longe. Fora que - e agora falo só de mim - o português dos sete anos não é exatamente o mesmo dos doze: pode parecer que sim, pra quem vive isso num contínuo, mas pra mim que tive esse corte do ir-voltar parece evidente que os conceitos aprendidos até os sete são os "de dentro de casa": família, lar - estendido até a escola. Depois disso, e até o começo da adolescência (justamente nos doze-treze), é que se constrói a individualidade, a língua própria,  a forma de cada um ver e expressar o mundo através da fala e da escrita. O primeiro descolamento do núcleo familiar.

Isso é que eu tive de aprender de novo, e até já toquei nesse tema por aqui, num texto intitulado  "Palavras forasteiras". E tinha isso, as palavras que eu não conhecia, as gírias do momento, mas também as formas de falar, as metáforas - tantas metáforas ligadas a futebol, que eu demorei a usar porque tinha vergonha.... tomar cuidado pra não "pisar na bola", conseguir que acontecesse "aos quarenta e cinco do segundo tempo", marcar um "gol de placa".... algo que está tão entranhado na realidade brasileira que a gente nem se dá conta, mas imagina um gringo tendo que entender (ou traduzir, deus me livre) esse comentário do deputado Chico Alencar?
"A presidente Dilma, como técnica, tem direito de escalar quem quiser. Mas como todo brasileiro dá pitaco na escalação de times, vejo que com a decisão de chamar Lula, às vésperas de um partida decisiva e que pode por fim a seu governo, Dilma chama um craque veterano, que estava no banco, fora de forma e que já entra com um cartão amarelo e uma arquibancada dividida. É uma escalação de altíssimo risco."
Pois é. Pra mim também foi difícil. Porque o "falar português" tinha a ver com encontrar as "minhas" palavras em português. Dentre as variadíssimas formas pelas quais se pode dizer algo, qual era a que melhor refletia meu jeito? Aprender as formas. Entender as formas. Incorporar. Observar, observar, observar. Quem usa, como usa. Testar, na língua, na vida. Ver o que funciona, o que não. Deixar de lado a ironia nossa de cada dia, que aqui é vista como grosseria no mais das vezes (sinto falta de brincar disso até hoje, confesso). Aprender a fazer desvios, contornos e a não ser tão direta (não aprendi direito, foi mal. Acho que, nesse caso, a personalidade não ajudou muito....). 

Corta.

Muitos e muitos anos depois, um cara com quem eu estava começando a sair sentenciou, divertido: "você fala que nem um moleque".
Eu ri.
E gostei.
Foi como se ele tivesse, ali, chancelado minhas escolhas. Eu tinha, afinal, aprendido a me expressar de verdade em português: era eu mesma. Moleque.






segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Quental, que vestia a camisa

O nome do rapaz não era mesmo esse: mas vamos chamá-lo assim. Quental era um jovem, de vinte e tantos anos, já casado. Trabalhava numa empresa carioca e por conta disso a gente trabalhou juntos em certa época: eu pela prefeitura, ele pela empresa. 

Quental era bem gente fina e trabalhador, desses que não recusam nenhuma tarefa. Era conversador e olhava todo mundo nos olhos: a gente se dava bem, ou essa foi minha impressão (a dele, só ele sabe). Nesse período de trabalho intenso, porém, o que me impressionou foi a forma como Quental "vestia a camisa". Nunca antes tinha sido apresentada a esse tipo tão comum (como vim a descobrir ao longo da vida) que é o trabalhador que se mistura com a própria firma a ponto de falar a língua do empregador, mesmo nas horas de folga. 

Jovem, já havia "galgado parâmetros" dentro da empresa e tinha um cargo de relativa importância. Orgulhava-se. Do cargo, do crachá, do ambiente da empresa, da sala de reuniões, das baias abertas ("a última novidade", que me horrorizava). Uma vez ou outra tivemos reunião lá na hora do almoço: cardápio cuidado, garçons servindo e... uma sala sem janelas. Nenhuminha. Nem basculantes, nem frestas. Paredes sólidas e opacas. Eu fazia o maior esforço, mas odiava ter que passar duas horas naquele ambiente em que não se via se era dia ou noite, se estava chovendo ou fazendo sol. Uma mostra das alegrias da "vivência-imersão na empresa".

Nunca mais ouvi falar de Quental, e às vezes penso nele: será que continua lá? Será que ascendeu como prometia? Será que ainda está casado? Será que se deu conta que era mais do que aquilo? E caso positivo, o que terá feito? Pode ter dado um chute pra cima em tudo e ido cultivar bromélias em Macaé de Cima (inspirado pelo Eduardo Cão, que não está nessa história). Ou pode apenas ter começado a fazer terapia pra conseguir lidar com as pressões e decepções inerentes ao ambiente corporativo.

Quem saberá. Daqui, do meu cantinho de onde se vê a pedra e o céu azul, vai um abraço pra Quental, generoso, gentil e trabalhador. Desejo-lhe o melhor. Tomara que esteja bem. Qualquer que tenha sido sua escolha. Tomara que não tenha se deixado engolir ou triturar pelas maravilhas dinâmicas da corporação.

(Vai outro abraço, entre parêntesis, pro Eduardo Cão, que não está nessa história, mas insiste em se fazer lembrar).


Quental, que vestia a camisa

O nome do rapaz não era mesmo esse: mas vamos chamá-lo assim. Quental era um jovem, de vinte e tantos anos, já casado. Trabalhava numa empresa carioca e por conta disso a gente trabalhou juntos em certa época: eu pela prefeitura, ele pela empresa. 

Quental era bem gente fina e trabalhador, desses que não recusam nenhuma tarefa. Era conversador e olhava todo mundo nos olhos: a gente se dava bem, ou essa foi minha impressão (a dele, só ele sabe). Nesse período de trabalho intenso, porém, o que me impressionou foi a forma como Quental "vestia a camisa". Nunca antes tinha sido apresentada a esse tipo tão comum (como vim a descobrir ao longo da vida) que é o trabalhador que se mistura com a própria firma a ponto de falar a língua do empregador, mesmo nas horas de folga. 

Jovem, já havia "galgado parâmetros" dentro da empresa e tinha um cargo de relativa importância. Orgulhava-se. Do cargo, do crachá, do ambiente da empresa, da sala de reuniões, das baias abertas ("a última novidade", que me horrorizava). Uma vez ou outra tivemos reunião lá na hora do almoço: cardápio cuidado, garçons servindo e... uma sala sem janelas. Nenhuminha. Nem basculantes, nem frestas. Paredes sólidas e opacas. Eu fazia o maior esforço, mas odiava ter que passar duas horas naquele ambiente em que não se via se era dia ou noite, se estava chovendo ou fazendo sol. Uma amostra das alegrias da "vivência-imersão na empresa".

Nunca mais ouvi falar de Quental, e às vezes penso nele: será que continua lá? Será que ascendeu como prometia? Será que ainda está casado? Será que se deu conta que era mais do que aquilo? E caso positivo, o que terá feito? Pode ter dado um chute pra cima em tudo e ido cultivar bromélias em Macaé de Cima (inspirado pelo Eduardo Cão, que não está nessa história). Ou pode apenas ter começado a fazer terapia pra conseguir lidar com as pressões e decepções inerentes ao ambiente corporativo.

Quem saberá. Daqui, do meu cantinho de onde se vê a pedra e o céu azul, vai um abraço pra Quental, generoso, gentil e trabalhador. Desejo-lhe o melhor. Tomara que esteja bem. Qualquer que tenha sido sua escolha. Tomara que não tenha se deixado engolir ou triturar pelas maravilhas dinâmicas da corporação.

(Vai outro abraço, entre parêntesis, pro Eduardo Cão, que não está nessa história, mas insiste em se fazer lembrar).


domingo, 31 de julho de 2016

Meus dois tostões sobre Me Before You

Foi assim: as amigas todas em polvo rosa por conta de "A Amiga Genial", da misteriosa autora italiana (?) Elena Ferrante. E eu já tinha visto em livraria, já tinha aberto e começado a ler, mas não tinha me conquistado. Aí a Mary W escreveu esse post aqui, já sobre o segundo volume - amei, claro, e resolvi tentar de novo.

Aí, amigos, deu-se uma daquelas coisas que só ocorrem quando se é, como eu, uma dinossaura de livrarias em sua forma física. Entrei decidida na Travessa de Botafogo, e logo perto da porta me deparei com uma pilha de "A Amiga Genial". Peguei o de cima, abri. Li uma página, duas, três e... larguei (vou acabar tendo que ler o resto só pra entender o tamanho da minha dificuldade com um livro desse tipo, que tinha tudo pra eu gostar e recomendado por gente de que gosto tanto). Na pilha ao lado, tinha "Me Before You" ("Como Eu Era Antes de Você", em português. Mas o nome em inglês é tão mais fofo. Por que será que não botaram "Eu Antes de Você"?), de Jojo Moyers. Imaginei - corretamente - que fazia parte do mesmo pacote: best-seller, chick lit. Minha praia, em suma. 

Peguei um livro e.... não soltei mais. Li várias páginas ainda na livraria, continuei lendo no metrô de volta pra casa, acabei de ler em dois dias, nos intervalos das obrigações. Por puro acaso, esbarrei com o segundo volume ("After You", dessa vez traduzido direitinho para "Depois de Você") e li tão rápido quanto o primeiro. 

Vá você entender o que pega num, o que não pega no outro. Sobre "A Amiga...", ainda não sei, mas realmente pretendo investigar, de tal forma acho estranha essa aversão e esse bloqueio tão pouco característicos. Sobre "Minha Vida Antes de...", tenho uma ideia. A voz me pegou. A voz da narradora, que na maior parte do tempo é a personagem principal, Louisa Clark. Uma moça com gosto por roupas engraçadas, que mora numa cidadezinha perdida no interior da Inglaterra, trabalha num café sem muitas pretensões e de um dia pro outro se vê desempregada. Lou mora com a família e tem um namorado viciado em exercícios e boa forma. Uma pessoa sem grandes questões. Mas que olha a vida de forma divertida, como divertido é o texto do livro. Um livro que poderia ser triste e meloso, já que o próximo emprego de Lou é cuidar de Will Traynor, um paraplégico jovem e amargo que era extremamente bem-sucedido e dinâmico antes do acidente que o prendeu a uma cadeira de rodas. Eu jamais compraria um livro com a sinopse deste ("jovem sem ambições vai trabalhar cuidando de paraplégico e isso muda seu olhar sobre a vida"), caso não o tivesse aberto na livraria. A história é qualquer uma. A voz, não. A voz é o que me pega: como a história é contada é o que conta. Se me permitem. Um humor tão inglês, bordado em subtons e sobrancelhas levemente erguidas.

Não esperem grandes profundidades: é chick lit mesmo, no sentido não só de ser literatura para mulheres, mas de ser literatura leve, de férias, com um pé no romantismo e sem grandes reflexões.  Um livro bom de ler à beira mar, balançando na rede... Mas (me) faz sorrir, me emociona, me dá vontade de conhecer e conversar com a Lou. De ter notícias dela agora, depois de tudo. Diverte, distrai. E não simplifica demais. O final é o que tinha que ser e isso também é uma das qualidades do livro. 
Vão lá. Espero que se divirtam tanto quanto eu me diverti.

P.S.
Vi o filme também, cujo roteiro é da autora. O filme não "rende" tanto quanto o livro, mas cumpre a função de manter o tom. É leve, é divertido. Do casting, gostei bem da atriz principal que faz a Lou (Emilia Clarke, a Daenerys de GoT), do rapaz que faz o Will (Sam Clafin, de Jogos Vorazes) e tanto, tanto, do pai dela, feito pelo Mr. Bates de Downton Abbey (Brendan Coyle). Sotaques ingleses, como se deve.





quarta-feira, 20 de julho de 2016

Para um amor no Recife

Meu amor,

eu sei. E fico com pena de não estar aí, bem porque sei. Não adianta ninguém dizer nada, mas sou boa de não dizer nada. De ficar do lado, só. Respirando junto. Estando ali. Deixando a tristeza se espalhar e invadir e se enroscar, como uma onda. Que vem. Mas vai também. Ela vem e se enrosca, a gente fica ali, quietinha, e ela vai. O negócio é saber esperar. Prender a respiração quando ela submerge, aquietar o coração. Aí ela vai indo, vai indo e... quando você vê, já está conseguindo respirar de novo. Já dá pra abrir o olho. 


Sorrir? Talvez ainda não. Demora um pouquinho. Precisa ter paciência pra isso também. Acolher a tristeza do jeito que ela vem. Não fazer de conta que não existe, não querer jogar pra baixo do tapete ou enfiar no fundo do armário. A tristeza faz parte. Deixa ela vir e se instalar. Não é inimiga, apenas é. Tem os dias-sim, os de sol e de canto no peito: desses a gente já sabe gostar. Há que cuidar de aprender os dias-não, os de cantinhos escuros, de sombra, de rosto molhado. A dor funda. Respira, deixa acontecer. É movimento, é vibração, é onda, é balanceio. Pra lá, pra cá... balança ela na rede, embala ela. Canta pra ela dormir, baixinho. Devagarinho. Alisa, amansa, afaga. 
... Pronto. Viu o que eu te dizia? Adormeceu...