quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mulheres em Touro e Escorpião


A mulher taurina é de terra, é fértil, e seu corpo respira essa sensualidade espontânea que vem do saber instintivo de que o sexo (como o prazer da comida) é parte integrante da vida, está na ordem das coisas.

Vejo-a roliça, com seios fartos e braços redondos, e a personagem que me vem à mente é Clara, de “As Pupilas do Senhor Reitor”, quando lavava roupa no riacho – taurinamente trabalhando -, os braços reluzentes de água e os cabelos caindo-lhe de tempos em tempos sobre o colo, jogados para trás com um gesto de cabeça. As faces rosadas, os olhos brilhantes, tudo nela lembra plantação, fartura, colheitas.

Já a escorpiana é a um só tempo fascinante e sombria. Seus olhos magnéticos, sumidouros de toda luz, são sua arma de sedução. A forma do seu corpo não é tão importante quanto o poder de sua aura, e o que diz não é nada perto do que cala.
 Assim como cala, impõe silêncio de um gesto, e nos deixa a nós, pobres mortais, enfeitiçados e perdidos.

O sexo, celebração terrena para a taurina, torna-se para a escorpiana um espaço de comunhão com o sagrado - um ritual de iniciação com óleos essenciais e velas bruxuleantes, que exige respeito e entrega profunda. Calemo-nos.






terça-feira, 10 de abril de 2012

Lavando e passando antes de ser comida com cerveja






Foi a partir de uma conversa no tuíter, a respeito da nova propaganda de Vanish; comentava-se que pela primeira vez uma propaganda brasileira tem o homem como consumidor de produto de limpeza.
Pela primeira vez, que eu me lembre: numa incrível sacada de nossos jovens e mudernos publicitários. Posso até imaginar a reunião na agência, a idéia revolucionária: "porque não botar um homem usando produtos de limpeza?". Olhares de dúvida, certo desconforto, pigarros. E enfim, a aceitação da ousada proposta: um homem como foco da propaganda de um produto de limpeza. Ainda não é, como se poderia supor, aquele cara que lava roupa em casa, seja porque divide com a mulher, seja porque é solteiro, gay, o que for: é um homem que, como proprietário de uma pousada, atesta que as toalhas e lençóis ficaram mais limpos depois do uso do produto.
 É pouco para o século XXI. Mas já é alguma coisa, em se tratando do universo da propaganda brasileira.
 A conversa é de hoje, mas a verdade é estou com vontade de escrever sobre isso desde a época do barraco com a propaganda com a Gisele Bündchen. Na época, achei barulho demais por aquela propaganda.


Não porque a achasse boa, vejam bem: a propaganda era ruim. Ruim porque boba. Porque trabalhava com a mesmice dos preconceitos e lugares-comuns. Onde, mais uma vez,  mulher tem que falar com homem fazendo biquinho e usando lingerie. E a mensagem é bem assim: mulher que tem cérebro usa o corpo. Enfim. Nada de novo no front publicitário.


É que aquela, dentro do panorama geral, nem era das piores. Tem tantas outras. Praticamente todas.

Tinha uma que me irritava particularmente - não conseguia ver sem comentar: era de uma locadora de vídeos, em que a mulher tinha que ser segura pelo marido, senão saía correndo pra dentro da loja e levava tudo. Fazia um estrago. Claro, né. Esse ser descerebrado. Que não sabe se conter. Que precisa do homem para segurá-la e não deixar que ela consuma a loja inteira.
E tem várias dessas de consumo: podem reparar, a mulher sempre é uma louca que quer estourar todos os cartões, ou que fica chorando e pedindo "benhê, me dá aquilo, e mais aquilo".... enfim, mulher não sabe gastar. Sem homem, coitadas. Ficam perdidas. À mercê dos seus instintos mais primitivos. 

(Como é que tem tanta mulher chefe de família no Brasil é que os jovens e mudernos publicitários não explicam. Mais de um terço, diz o IPEA - e este número está certamente subestimado: em muitas famílias, mesmo que haja homem na casa, a verdadeira chefe de família é a mulher. Que trabalha e paga as contas - dela e do marido. Longe das vistas dos jovens e mudernos publicitários.)

Tem os anúncios de cerveja, onde as mulheres viram objeto de consumo vendido junto com a bebida: compre uma cerveja e leve uma linda moça de brinde. Ou duas. Ou várias. Beba a cerveja, coma a mulher. Refeição completa. Mulheres, é claro, não bebem cerveja. No máximo em grupos mistos, onde se esforçam para serem aceitas até serem subitamente ofuscadas pela a aparição da "garota da cerveja": aquela que todo mundo - isto é, todo homem - quer para acompanhar a bebida.

E as de produtos domésticos. Um capítulo à parte. Porque as mulheres brasileiras, segundo nossos incríveis publicitários,  têm como sonho ganhar uma lavadora de roupas nova de aniversário. Um fogão, que maravilha. Uma geladeira, duas portas, elegante, congelador separado. As mulheres das propagandas, que são elegantes, bonitas, cheirosas. E ficam em lágrimas ao receber de presente aquele fantástico objeto que lhes permitirá lavar de forma mais profunda e completa as roupas do seu homem, dos seus filhos. O fogão reluzente no qual ela preparará os pratos deliciosos que alegrarão  toda a família. Ai, que sonho: um eletrodoméstico de presente de aniversário. Isso é que é prova de amor.

Raramente, muito raramente, aparecerá nessas propagandas a figura da empregada doméstica, que em casas de classe média e alta é quem faz realmente uso desses objetos. Isso para que não me venham falar de realismo: se for para ser realista, que sejam as empregadas domésticas as protagonistas. As que entendem de máquina de lavar e de fogão. Não é o caso: nas imaculadas e enormes casas com jardins das propagandas nacionais, quem cuida da casa, sorriso nos lábios impecavelmente pintados, é a rainha do lar. É ela que se alegra ao experimentar a nova marca de sabão em pó, ao utilizar o desinfetante multiuso, ao devolver ao assoalho aquele brilho perdido. Que felicidade. Que maravilha. Limpar e arrumar a casa, é para isso que a mulher usa toda a sua criatividade, toda sua energia. Ali, ela se realiza. É a mãe de todos: dos filhos e do marido. 
Porque, claro: mais uma vez, não há solteiros, não há gays. E tampouco há maridos ou namorados aí: longe deles participar das atividades de arrumação, limpeza, cozinha. Não: sua hora na propaganda é outra. Eles virão na hora de conter suas mulheres para que elas não detonem o cartão de crédito. Na hora de sorrir para o biquinho da moça vestindo lingerie. Na hora de comer a garota da cerveja.

domingo, 1 de abril de 2012

Umas histórias

São umas histórias de gente. Tem as histórias da gente que foi pra luta armada. E tem também as histórias de gente que queria que todo mundo pudesse ler e entender, pra brigar por seus direitos. Lendo, entendendo, discutindo, conversando. De gente que sonhava com um Brasil sem coronéis, onde a tanta terra que há fosse partilhada e compartilhada. Um Brasil em que todo mundo pudesse se sentir cidadão. Em que todo mundo pudesse fazer parte. Em que as diferenças se tornassem menores. Tão menores. 


E por causa disso essa gente foi presa. Foi perseguida. Foi torturada. Foi machucada. Teve gente que morreu. Gente que teve que ir embora. Gente que se escondeu. Dores do corpo. Dores da alma. Dores que ficam e não se apagam.
Ainda mais quando tanto não se sabe. Quando a história não é contada até o final. Quando de tantas histórias não se tem o desfecho. Histórias que não se concluem. 




Tem a história daquele que foi preso porque estava indo visitar o amigo na hora errada. 


Tem a história daqueles que conseguiram fugir porque foram avisados pela empregada corajosa de que a polícia tinha batido na casa. E ameaçado a empregada. Que mesmo assim avisou. 


Tem a história daquela que se comunicava assobiando com o companheiro da cela ao lado. 


Tem a história daquele que foi pro exílio e deixou os filhos com a avó, que depois não o reconheciam mais.



Tem a história do padre que foi preso com uma foto do afilhado, e na tortura queriam que confessasse que era seu filho.


Tem tantas histórias de crianças que perderam os pais. De pais que perderam os filhos. De gente que perdeu sua história e foi obrigada a viver essa outra. Essa de dor, de violência, de tortura, de medo. 
Tantas, tantas histórias.


E tem o silêncio. 


O que não se sabe. 
O que não se conhece, porque não se disse. 
Quem foi. Quando foi. Onde foi. Como foi. 
Onde está. Como morreu. 
Quem escondeu. Quem ocultou.
Quem participou.
Vamos abrir essa  história. Contar essas histórias.
 Abrir os arquivos, julgar responsáveis. 
Vamos ouvir essa história.
 Vamos nos apropriar da nossa história.
Para então - aí sim - começar a construir outra história.














Este post faz parte da 5a blogagem coletiva #DesarquivandoBR.


http://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/18/convocacao-da-5a-blogagem-coletiva-desarquivandobr-3/