quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cartas pra quem já se foi

 Escrevo. Desde que meu avô morreu - minha primeira morte próxima, quando eu tinha quase quinze anos - , escrevo. Eles recebem? Não sei. Mas de alguma forma eu "mando" as cartas. De alguma forma, constróem algo em mim, saem de mim e esta concretização no papel ou na tela me torna mais leve. 

Hoje li de novo a que escrevi pra Paulinho, aqui neste blog mesmo. "Para Paulo Ricardo do Recife". Há oito anos. E a saudade persiste. Não acaba nunca, acho. A gente vive com nossos mortos, eles vivem na gente. A gente é quem a gente é por causa da vida e da morte deles. 

Dizia a uma amiga que estou imersa neste tema, por estes dias. Um colega de faculdade; Lourdes, que trabalhou tanto tempo em casa; e, na última sexta, tão inesperadamente, Valéria, que foi casada com o André. O "André lá de casa". Este André. Valéria que era luminosa, que gargalhava alto, gostava de samba e de carnaval. Eu tava no Recife, eu soube primeiro: coube a mim dar a notícia a ele. Foi foda, camaradas. 

Dizia eu também, a outra pessoa, que talvez tenha mesmo sido melhor eu estar no Recife. Assim ele foi lá fazer sua despedida, a despedida de alguém que foi tão importante na vida dele. Encontrar a irmã dela que eu não conheço, os amigos que conviveram com eles quando eram casados. Se abraçar e ficar tristes juntos. Tão importante, acho. Tão importante estar juntos, celebrar a ventura de ter estado por aqui no mesmo espaço-tempo que esta pessoa tão generosa, de tantos amigos, de tanta alegria.


Seguirei escrevendo. As cartas. Uma forma de conversar com os mortos? Também. Uma forma de conversar comigo, certamente. Uma forma de seguir, rendendo homenagem a quem já foi antes pra preparar o terreno.
.

Lembro da Maud em "Harold e Maud" dizendo que gostava de enterros, que, de certa forma, eram uma celebração da vida. Eu gosto de cemitérios, talvez por um motivo parecido. Outro dia mesmo falava com afeto dos pequenos cemitérios ingleses, atrás das igrejas, tão íntimos, tão afetivos.

As Parcas, o fio que é fiado, medido, cortado. 
Existirmos - a que será que se destina?