sábado, 19 de setembro de 2026

Não curtindo a vida adoidado

 "Curtindo a vida adoidado" é um ótimo nome praquele filme. Ótimo porque não gosto. Nem do nome, nem do filme. Nem da ideia de "curtir a vida adoidado". Me irrita. Me estressa. Não quero. Não tenho vontade. Me deixa quieta no meu canto com meu livro.

"... onde eu possa plantar meus amigos, meus livros, meus discos e nada mais".


Quietude. Silêncio. Calmaria.

Gosto de festa? Sem dúvida. Mas assim, sempre tem aquela "hora de fumar". Não tem mais porque não fumo mais. Mas era boa essa hora, sair da muvuca, levar um vento frio na cara. Ficar em silêncio um pouquinho. Ou conversando de leve com outros eventuais fumantes meditabundos.
E tem hora de ir embora. Não sou, nem nunca fui, "inimiga do fim", embora já tenha sido arrastada para as terras do sem-fim por alguns integrantes dessa facção.
Gosto de ir embora.
Gosto de voltar pra casa.

Tudo isso pra dizer, voltando, que não gosto desse filme nem da ideia dele. Como também não gosto, na mesma vibe só que em outra, de "After Hours". Não gosto desses filmes americanos frenéticos em que vai acontecendo uma coisa maluca após a outra e a pessoa vai se enredando nessa maluquez. Tem muitos desses. Os americanos, ou isso aí que se convencionou chamar de "cultura americana", associam isso a liberdade, a estar solto no mundo, em busca de aventuras.
Eu não acho graça nenhuma.

Não tenho paciência.
Acho chatão.
E tenho dito.
Me deixa.




terça-feira, 1 de setembro de 2026

Intelectual? Só com batatas

 Pessoa querida me apresenta pra outra: "esta é Renata, ela é uma intelectual".

Acho graça, mas digo "Por favor, não diz isso de mim não". Ela não entende: na cabeça dela, era um elogio.

Mas será mesmo...? Não será apenas um rótulo que afasta os outros, que me coloca em um pedestal indesejado e irreal, onde é solitário e faz frio?

E, sobretudo, realmente não corresponde à realidade. Não sei o que é "ser um intelectual" direito. Eu sempre fui basicamente uma pessoa que gosta de histórias. Gosto de escutar, gosto de contar, gosto de ler. Gosto de ver acontecer na tela e na vida.

Meu avô Lins me contava histórias. Meu pai me contava histórias. Minha tia Sônia me levava em livrarias e deixava que eu escolhesse o que quisesse.

Eu não "estudo" essas histórias. Apenas mergulho. Faço amigos imaginários e queridos. Sempre achei, aliás, que este era o maior motivo das pessoas se apegarem à literatura dita "policial": os amigos. Maigret, Arsène Lupin, Peter Wimsey, Nero Wolfe, Miss Marple, Poirot, Charlie Chan: a cada livro, um reencontro feliz. Mergulho, desapareço, me perco do mundo no livro. Saio do outro lado, renovada.

Digo “livro”, mas pode ser filme, novela, fotonovela, história contada à meia-luz: mergulho. Me lembro de, bem pequena, escutar “Jerônimo, o Herói do Sertão” no rádio, com Minha Dá, Minha Zé, Nega Ana, Coló. Tão emocionante. Me lembro que a primeira vez que eu escutei a história de "Psicose", foi meu primo Gui que contou. Que medo. O não-ver deixa mais espaço pra imaginação.

E Sabrinas, Julias, Biancas - histórias água com açúcar, romances de banca de jornal… devorava. Que nem, de certa forma, Bridgeton hoje.

E tantas cartas. Que também contam histórias. Ou contavam, na época em que se escreviam cartas. 

Os livros são parceiros, moram na cabeceira, na bolsa, onde der pra guardar. Tem um tempinho de espera? Livro. Condução longa? Livro. Fios de histórias. Contos. Fantasias. Novas memórias de personagens até então desconhecidos. Reencontro de velhos amigos das páginas. Que bom ver vocês de novo. Que saudade que eu tava.

Intelectual? Que nada. Eu gosto é de histórias.



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Cartas pra quem já se foi

 Escrevo. Desde que meu avô morreu - minha primeira morte próxima, quando eu tinha quase quinze anos - , escrevo. Eles recebem? Não sei. Mas de alguma forma eu "mando" as cartas. De alguma forma, constróem algo em mim, saem de mim e esta concretização no papel ou na tela me torna mais leve. 

Hoje li de novo a que escrevi pra Paulinho, aqui neste blog mesmo. "Para Paulo Ricardo do Recife". Há oito anos. E a saudade persiste. Não acaba nunca, acho. A gente vive com nossos mortos, eles vivem na gente. A gente é quem a gente é por causa da vida e da morte deles. 

Dizia a uma amiga que estou imersa neste tema, por estes dias. Um colega de faculdade; Lourdes, que trabalhou tanto tempo em casa; e, na última sexta, tão inesperadamente, Valéria, que foi casada com o André. O "André lá de casa". Este André. Valéria que era luminosa, que gargalhava alto, gostava de samba e de carnaval. Eu tava no Recife, eu soube primeiro: coube a mim dar a notícia a ele. Foi foda, camaradas. 

Dizia eu também, a outra pessoa, que talvez tenha mesmo sido melhor eu estar no Recife. Assim ele foi lá fazer sua despedida, a despedida de alguém que foi tão importante na vida dele. Encontrar a irmã dela que eu não conheço, os amigos que conviveram com eles quando eram casados. Se abraçar e ficar tristes juntos. Tão importante, acho. Tão importante estar juntos, celebrar a ventura de ter estado por aqui no mesmo espaço-tempo que esta pessoa tão generosa, de tantos amigos, de tanta alegria.


Seguirei escrevendo. As cartas. Uma forma de conversar com os mortos? Também. Uma forma de conversar comigo, certamente. Uma forma de seguir, rendendo homenagem a quem já foi antes pra preparar o terreno.
.

Lembro da Maud em "Harold e Maud" dizendo que gostava de enterros, que, de certa forma, eram uma celebração da vida. Eu gosto de cemitérios, talvez por um motivo parecido. Outro dia mesmo falava com afeto dos pequenos cemitérios ingleses, atrás das igrejas, tão íntimos, tão afetivos.

As Parcas, o fio que é fiado, medido, cortado. 
Existirmos - a que será que se destina?