Pessoa querida me apresenta pra outra: "esta é Renata, ela é uma intelectual".
Acho graça, mas digo "Por favor, não diz isso de mim não". Ela não entende: na cabeça dela, era um elogio.
Mas será mesmo...? Não será apenas um rótulo que afasta os outros, que me coloca em um pedestal indesejado e irreal, onde é solitário e faz frio?
E, sobretudo, realmente não corresponde à realidade. Não sei o que é "ser um intelectual" direito. Eu sempre fui basicamente uma pessoa que gosta de histórias. Gosto de escutar, gosto de contar, gosto de ler. Gosto de ver acontecer na tela e na vida.
Meu avô Lins me contava histórias. Meu pai me contava histórias. Minha tia Sônia me levava em livrarias e deixava que eu escolhesse o que quisesse.
Eu não "estudo" essas histórias. Apenas mergulho. Faço amigos imaginários e queridos. Sempre achei, aliás, que este era o maior motivo das pessoas se apegarem à literatura dita "policial": os amigos. Maigret, Arsène Lupin, Peter Wimsey, Nero Wolfe, Miss Marple, Poirot, Charlie Chan: a cada livro, um reencontro feliz. Mergulho, desapareço, me perco do mundo no livro. Saio do outro lado, renovada.
Digo “livro”, mas pode ser filme, novela, fotonovela, história contada à meia-luz: mergulho. Me lembro de, bem pequena, escutar “Jerônimo, o Herói do Sertão” no rádio, com Minha Dá, Minha Zé, Nega Ana, Coló. Tão emocionante. Me lembro que a primeira vez que eu escutei a história de "Psicose", foi meu primo Gui que contou. Que medo. O não-ver deixa mais espaço pra imaginação.
E Sabrinas, Julias, Biancas - histórias água com açúcar, romances de banca de jornal… devorava. Que nem, de certa forma, Bridgeton hoje.
E tantas cartas. Que também contam histórias. Ou contavam, na época em que se escreviam cartas.
Os livros são parceiros, moram na cabeceira, na bolsa, onde der pra guardar. Tem um tempinho de espera? Livro. Condução longa? Livro. Fios de histórias. Contos. Fantasias. Novas memórias de personagens até então desconhecidos. Reencontro de velhos amigos das páginas. Que bom ver vocês de novo. Que saudade que eu tava.
