quinta-feira, 14 de julho de 2011

A desgarrada das gentes

Tem um conto de Machado de Assis que se chama "A Desejada das Gentes". E eu sempre lembro como se fosse "A Desgarrada das Gentes". Porque, né - precisa dizer? - essa aí sou eu. Eu na origem. Eu que hoje tenho galeras, tantos amigos, tantos queridos. Mas lá dentro, vive ainda a menina que tinha frio de gente. Que sonhava fogueiras de propaganda de Marlboro. Que olhava para o mundo com os olhos sombrios, os mesmos que reencontra hoje no rosto da cria . Olhava de viés. Com tanto desejo e medo. Com tanta vontade e incompreensão. Com tanto. Vastas emoções e pensamentos (muito) imperfeitos.

Eu não deixo nada ir: mapa sem ar, sabem como é. Sou que nem árvore, acumulo camadas. O que quer dizer que a menina dos olhos sombrios vive em mim. Dói em mim. Mesmo no meio das galeras, no meio das festas. A menina é que me ajuda, por exemplo, quando faço mapas. Ela é que sabe encontrar o ponto de dor de quem tá na minha frente. Ela, em carne viva sempre. E pra sempre. As camadas protegem, disfarçam. Mas qual. Tá tudo igual. Só tem mais estrada. Que dá tarimba e jogo de cintura, mas não muda a estrutura.

A metáfora, na época, para o descompasso entre o jeito-brucutu e o interno-carne viva era a de um jardim que tinha sido pisado por coturnos, e por isso tinha se protegido com arame farpado. Não machucava muita gente: só afastava, e gerava o frio. Frio permanente.

(lembro do vento de Genebra, que tem até estátua na beira do lago e cortava narizes e orelhas nas manhãs de inverno escuro em que Marcelo preparava meu Nesquick e me apressava para a escola: la Bise).

...mas aos poucos foi dando. Fui entendendo como. Fui aprendendo a me comunicar e a não assustar tanto. Hoje quem chega sabe que é bem chegado. Que pode sentar, que pode até tirar os sapatos, quem sabe.
É estratégia de risco: porque às vezes a carne viva, tão tenra, tão frágil, ainda é ferida.
Mas faz parte.
Melhor isso do que o frio.

Nunca mais o frio.

Nunca mais.

Podem chegar, são bem-chegados. Ali tem café, ali tem uma sopa quentinha. A rede tá à disposição. Sejam bem-vindos. A menina se alegra.




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3 comentários:

  1. A armadura protege, proteção de prisão. Proteção escura. No vazio, protege de ninguém. Mas n'alma rebelde a resignação não dura. Logo e por dentro, a mesma alma presa-protegida-presa, arranha a armadura, a proteção, a prisão, o escuro e o vazio. Basta uma fenda. Numa fresta cabe uma estrela. Se cabe a estrela, passa o universo. Universo em carne-viva, vivo, entre rimas, acordes, danças, amigos e amores, entre abraços, em calor. Para ser livre, basta permitir uma estrela, e o universo se fará ouvir.

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  2. Lindo, Rê. E a música também. Beijos

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  3. Que legal dizer essas coisas e galera gostar... ;)

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