sexta-feira, 3 de junho de 2016

Meu avô e John Lennon

Meu avô morreu no dia 25 de dezembro, no mesmo ano que o John Lennon. Meu avô. Cara. Eu, em certa época, dizia que tinha "complexo de Laio" e não complexo de Édipo, porque meu avô. Meu avô que lia comigo. Meu avô que deitava na rede e me contava histórias e compartilhava sonhos. Que desembaraçava o cabelo comprido e fino da minha irmã, e me ensinava. Que passeava, que nadava, que dançava, que contava piada como ninguém. 
Meu avô que era uma casa, uma fortaleza. Um esteio. Um aconchego. O abraço do meu avô. A gargalhada do meu avô. Meu avô olhando a placa de Euclides (seu homônimo) na Grécia, e dizendo à minha avó: "Vamos lá, Maria. Vamos fazer de conta que estamos entendendo". E tem essa foto, deles olhando pra placa "com cara de que estavam lendo". 
Meu avô comemorando as vitórias, cada uma. Violão? Olha que incrível. Esqui? Olha que fantástico. Ah, não deu dessa vez? Mas dará na próxima. É você. Não pode dar errado. Pode demorar um pouco mais, acaba dando certo. 
Meu avô na Argélia, conversando (sabe-se lá em que língua) com o garçom gentil do hotel, aquele que escreveu meu nome em árabe num guardanapo que eu guardei um tempão. Meu avô sentado na beira da piscina lendo Neruda em voz alta. Meu avô que não completou o ensino fundamental, meu avô que morou na favela, que tinha as costelas tortas de ter carregado peso no cais do porto quando era adolescente. 
Meu avô que amava passarinhos. E relógios. Que amava minha avó, que amava o mar.
Meu avô que era meu.
Ele morreu no dia 25 de dezembro, nasceu num 25 de abril.
Meu avô brigão, como eu. Meu parceiro. Me lembro de ter escrito, quando ele morreu: "ninguém mais vai me entender nessa família". Na família dos educados que é a minha. Em que ninguém destempera ou fala alto. Era meu avô e eu. Sobrei eu. 
E pra vocês verem.
Ele morreu no mesmo ano que John Lennon.
E eu tô aqui ouvindo John Lennon.
Escrevendo.
Chorando.


Eu, meu avô, Marcelo. Na Saint-Laurent.

4 comentários:

  1. ah, chorei aqui também. porque eu tinha uma avó desse mesmo jeitinho, cúmplice, insubstituível.

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    1. e eu só vi esse seu comentário agora.... eles ficam, né? na memória e no coração da gente.

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