Eu brinquei lá, junto com todo mundo. E contei o que eu tinha com sete anos. Uma bicicleta, uns livros do Monteiro Lobato, e outras coisinhas.
Mas, no fundo da minha cabeça, estava aquilo: eu tinha e logo depois não tinha mais. Eu tinha com sete anos, e com sete anos e meio perdi. Minha casa, o quarto dos brinquedos, minha bicicleta, as bonecas de que eu gostava, a bicama laranja em que eu dormia com meu irmão, o colégio e os amigos, as férias no Recife e os primos. Tudo.
Quando eu tinha sete anos e meio, a minha tia estava presa e eu não sabia. A polícia bateu na minha casa e eu só soube bem depois. O que eu soube foi que as férias de verão não acabavam nunca, que as aulas dos meus primos iam começar e a gente ainda não tinha voltado pra casa. E um dia, quando eu já estava achando tudo aquilo bem estranho, a minha mãe chegou. Era ela, mas diferente: em vez do cabelão preto, um cabelo curto, com mechas. E dali a gente iria embora. Do Recife mesmo, com a mala das férias.
Quando eu tinha sete anos e meio, eu tinha coisas. Uma casa. Amigos. O cabelo comprido. E depois não tive mais.
De tudo, o que eu senti mais falta foram os álbuns: um meu, um de Marcelo. Aqueles álbuns com fotos de bebê. Eu tinha, e não tive mais.
O ano em que completei oito anos: o ano da virada. Da tempestade. Da grande viagem. Do tudo a ser começado do zero. Uma vida que eu nunca tinha imaginado. Tudo. Nada. Sete anos e uns meses.
Lindo post e que foto maravilhosa. E mães com cabelo com mecha, ainda bem que você não começou a chorar achando que ela ia morrer ;-)
ResponderExcluirHahaha eu tomei um susto tão grande.
ExcluirCê nem imagina.
Lembro tanto dessa cena. Ela de braços abertos e sorrisão.
Forte!
ResponderExcluirhistória. :)
ExcluirQue blog bacana, Renata! Estou voltando a ler os blogs que de que eu gostava graças à Central do Textão e acabei "descobrindo" você. Que bom!
ResponderExcluirAndréa B.
também estou nessa. com o central do textão voltei a ser leitora de blog. lindo post.
ExcluirNanda Ltda (irmã da bocozices)
A CT tá sendo uma alegria.... tô adorando passear por lá tb. Bem-vindas! :)
ExcluirAh, flor. Que dureza. Nem imagino. O que posso dizer: que tudo isso te fez, também. Enfim, não sei se isso se diz.
ResponderExcluirBeijos
ah, não tenho dúvida: é matéria-vida.
Excluire eu quase botei um aviso assim: isso é algo que eu estou escrevendo agora, mas que eu senti lá atrás. faz parte de um pote de sensações acessáveis, mas passou já. e trouxe coisas boas, muitas. beijo, Ritinha!
Nesse post e no anterior, minha vontade foi a mesma: dizer como me senti tocada, doída. Bom ler sua resposta ao comentário da Rita, em que diz que isso é matéria-vida. Acho que é isso mesmo. A vida também é feita de dor, recomeços, lágrimas e surpresas. E que coisa incrível e deliciosa conhecer o seu olhar pra tudo isso. É tão delicado e tão bonito.
ResponderExcluirPoxa, que comentário bom de se ler.
ExcluirEu tinha mesmo me preocupado, porque fica parecendo que tá tudo ali, doendo agora, não é? E não, já foi, já passou. É história pra contar.
Beijo, obrigada pela visita!
Seus posts me dão vontade de encher a página de coraçãozinho. Me controlo porque acho que você não é dessas. :P Mas quando leio dá vontade de abraçar, de sentar junto e ficar ouvindo as histórias. A micro-história, o pequeno, o detalhe, o dia a dia, que fazem a história, aquela grandiosa dos livros, fazer sentido. Me admira por ser tão duro, tão forte e tão triste às vezes, mas ao mesmo tempo tão delicado, tão sensível, tão bonito.
ResponderExcluirHahaha Angélica, você é figura. Pode encher de coraçãozinho. Eu vou achar lindo, e vou ficar sem graça! O deus das pequenas coisas, eu chamo. Do nome de um livro da indiana Arundhati Roy.
ExcluirE acho que é disso que gosto, desse olhar pro pequeno, pro detalhe que compõe o grande panorama.
Beijo!
<3 querida...
Excluir<3 Beth. :)
ExcluirNossa, Rê, o fim do seu primeiro ciclo foi bem forte. =/
ResponderExcluirE então. 1a quadratura de saturno com força total...
ExcluirMas tava conversando sobre isso essa semana c o João (15). E ele me dizia muito sensatamente "nossa, mãe, foi muito difícil, mas trouxe também muita coisa boa, né?". Fiquei feliz dele ter entendido isso. É tudo junto. Não dá pra separar.
que lindo esse post. um beijo.
ResponderExcluirObrigada, Kellen. Outro!
Excluiracho que poucas vezes li/vi algo tão doído e ao mesmo tempo singelo sobre a ditadura. Beijo.
ResponderExcluirque comentário bonito, Lucinha. beijo grandão.
Excluirtem um "outro lado" essa conversa... vou te mostrar. escrevi dois txts, na sequência.