sábado, 15 de outubro de 2011

30 livros em um mês - dia 11

E chegamos ao dia 11, cujo tema é "o livro favorito com animais". E possivelmente o meu é o mesmo da Niara, mas não vou falar dele: ela já falou tão bem.. E adorei o do Pádua - cujo personagem central conheci (onde mais?) no "meu mundo" de Lobato, nos Doze Trabalhos. O asno Lúcio entra nas aventuras da turma do Sítio, fica amigo da galera e carrega por um tempo o Visconde e a canastrinha da Emília, conversando e contando sua história.


Pensei seriamente em burlar e falar do "Beijo da Mulher Aranha" (ainda vou), mas como sou meio certinha, confessei antes, e o Pádua me ameaçou com uma punição que envolvia mais um monte de posts. Aí, "dormi sobre o assunto" e desisti.


E vou falar, então, de um de bicho "de mesmo". Se bem que aranha é bicho, e nesse do Puig ainda fala da mulher-pantera... enfim. Isso vai ficar pra depois.  Vamos ao atual.
Acabei escolhendo um que conheci pela escola: em Genebra, na escola, em vez de livros, a gente tinha fichários de leitura: algo parecido com aquela série fantástica escrita pelo povo de Minas, "Para Gostar de Ler". Temas que organizavam trechos de livros, poemas ou crônicas específicas. Um ótimo jeito de se achegar ao tortuoso e deslumbrante mundo da literatura. 


Por conta da ficha, comprei o livro - ou peguei na biblioteca, o que é mais provável. Era "Le Lion", de Joseph Kessel. Dou uma googleada e descubro que existe em português: mas nem sabia. "Le lion" conta uma história na primeira pessoa. O narrador é um visitante de um parque no Kenya - um daqueles parques de "vida selvagem", para viajantes em busca de uma exótica experiência de safari. Um Magic Kingdom de Africa. Com gente real, com animais de verdade. 


Ali, o narrador conhece e se encanta com a filha do administrador do parque, Patricia. Patricia, criada naquela realidade não-real, que no entanto era a dela: no meio de guerreiros masai, de animais selvagens. Patricia de grandes olhos, de cabelos curtos e macacão. Patricia e King: "seu" leão. King tinha sido levado, pequeno e frágil, à casa do administrador, e lá tinha crescido até ficar grande demais e ser deixado solto no parque. Mas entre o leão e a menina já tinham se criado, irremediavelmente,  vínculos de fidelidade, de afeto, de vida. Uma história de amor linda e fadada ao fracasso. Fadada à tragédia, quando Patricia lança o leão sobre o mais forte e mais elegante dos guerreiros masai, que a tinha contrariado. E o pai dela tem que escolher entre atirar no guerreiro e atirar no leão. Uma escolha que não existe, claro. O leão morre.


E, com a morte de King, a história do livro é também a da morte da infância de Patricia, o final da vida-tal-como-ela-a-conhecia: porque, se ser criada no parque, no meio de guerreiros masai e tendo como maior companheiro um leão é "permitido" até certa idade, isso deixa de ser conveniente ou possível na entrada da adolescência, quando Patricia vai ter que assumir sua posição de menina branca de classe dominante. Uma posição que ela odeia, mas à qual se submete afinal, e cede.


O livro traça em certeiras pinceladas o retrato sofrido dos personagens secundários que são os pais de Patrícia, Sybil e Bullit: um casal dilacerado por conta do amor não-compartilhado pela selva africana. O fim da infância de Patricia, a morte do ser selvagem que era ela até então, é, também, a vitória da frágil e linda mãe, que sobrevive solitária e à base de remédios no que para ela constitui um inferno cotidiano. A derrota do pai, que por um momento teve a ilusão de que Patricia poderia crescer selvagem e livre, no simulacro de liberdade que é a selva com grades em que moram.


 O final do livro mostra a menina submissa e triste abandonando o parque de sua infância pela perspectiva de virar uma "moça bem-comportada". O narrador, seu cúmplice e seu admirador, observa a derrota, e o livro acaba sem certezas. Sem final feliz. Aberto. Como acabam livros "para crianças" que respeitam as crianças, sem precisar dar-lhes o falso conforto de uma história resolvida. 
Não se sabe o que acontecerá a Patricia. Sabe-se da dor do momento da partida. Da dor do pai, que com ela compartilha o amor pelo Kenya - um amor de brancos-chefes, mas, ainda assim, um amor. Sabe-se, enfim, da vitória final da mãe, a exilada por paixão por um marido que não a entende, e que ela não entende. A filha será criada como ela queria: 
Dali, a gente só imagina.


P.S.
Quando comecei a escrever achei que ia escrever sobre dois: e o segundo era "Os três mosqueteiros". Por conta do primeiro capítulo, essencial como são os primeiros capítulos, e que conta do cavalo amarelo de D'Artagnan. Mas seria meio que burlar também, talvez. (...?)

5 comentários:

  1. É um livro sobre bicho que, na verdade, é um livro sobre gente... que de fato é o que me interessa...! =)

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  2. Ah, queria muito ver seus comentários sobre Os 3 Mosqueteiros, um dos meus livros mais queridos. Eu também gosto de filmes sobre gente e fiquei com muita, muita vontade de ler sua indicação...E eu gostei demais da frase: "Como acabam livros "para crianças" que respeitam as crianças, sem precisar dar-lhes o falso conforto de uma história resolvida."

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  3. Também dos meus. E o meu mosqueteiro preferido - e acho que do Dumas também, né - é o Atos: líder, sombrio, "com um passado" e uma dor na alma. Maravilhoso.
    E, sobre os livros pra criança, nessa terra aqui em que poucos escritores respeitam crianças - que são apenas gente que viveu menos, e não idiotas que têm que ser levados pela mão ao admirável mundo dos finais felizes - eu já flagrei uma mudança ridícula de final naquelas horrorosas recontagens da Ediouro: no livro "Little Women" (Mulherzinhas, acho), Beth, que morre no original, não morre na versão da Ediouro!!!! Pode um absurdo desses? Como se na vida real das crianças as pessoas não morressem. Como se elas tivessem que ser criadas dentro da bolha. Como se o mundo das crianças não fosse repleto de "vastas emoções e pensamentos imperfeitos".

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  4. Não vou te dizer quem é o meu mosqueteiro preferido, você via dizer que sou puxa-saco. Estou chocada com essa mudança promovida pela Ediouro, absurdo total. Como se os livros infantis consagrados não fossem sobre perda,né? Porque é isso - também - que a literatura nos permite: construir uma forma de lidar com o desamparo.

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